2. La mise en mots de la guerre
2.3 Entre mouvement et fixité ou comment rendre la guerre
2.3.3 Fixer l’image
Para Gadamer, a verdade não é um método, mas simplesmente algo que acontece no diálogo. (Chris Lawn)
Diante da proposta de Gadamer (2002, p. 371) de devolver à retórica o seu valor e o seu lugar nas relações humanas, devido ao seu caráter de fala e de dar sentido e coesão à sociedade, consideramos imprescindível trazer aqui um pouco da história da mesma,
juntamente com algumas reflexões acerca de como foi vista por alguns pensadores ao longo da história.
A primeira história da retórica foi escrita por Aristóteles, levando em conta esquemas projetados por Platão. Este dizia que a retórica seria uma tarefa autêntica e que só os filósofos e os dialéticos seriam capazes de resolvê-la ou dominar de tal modo o discurso que este deveria produzir evidências efetivas que os argumentos adequados a cada caso devem se aproximar daqueles que a alma é, especificamente, capaz de receber. No entanto, Gadamer afirma que aceitar isso leva a dois pressupostos teóricos esclarecedores, o primeiro seria aquele que só pode encontrar o verossímil aquele que conhece a “verdade” das ideias, e o segundo que este deve conhecer também, na mesma profundidade, as almas que quer atingir com seu discurso. Nela se daria a adequação do discurso à alma, de acordo com a proposta de Platão, no Fedro.
A teoria da retórica foi desencadeada por delírios de uma arte do discurso e por uma ideia de educação que conhecemos pelo nome de Sofística (GADAMER, 2002.p. 273). Nela o discurso teria que ser complicado, requintado, afetado e dado a exageros. Desde Protágoras até Isócrates, no entanto, os mestres se preocuparam não só em ensinar a discursar, mas também a formar consciências justas, que tivessem, acima de tudo, êxito político (Ibid. p, 274).
Rohden (2010, p. 32), destaca que foi Isócrates quem introduziu a retórica no ensino de Atenas (436-338 A.C.), e reconheceu as relações estreitas entre a palavra e o pensamento e afirmou que “aprender a falar bem é aprender a viver bem” e que “a capacidade discursiva é, pois, o sinal mais importante da razão humana”. Este filósofo dizia ainda que
[...] na nossa deliberação conosco próprios necessitamos das mesmas razões de convicção com que persuadimos aos outros; mas chamamos retóricos aos homens em condições de falar diante de muitos e denominamos homens de bom juízo os que são capazes de refletir com acerto em seu foro íntimo. (Ibid, p. 33).
Para Isócrates, a verdadeira essência da retórica não estava na capacidade de condução de massas, mas naquele ato espiritual, fundamental e simples que todos os homens realizam perante si próprios, quando meditam sobre questões relativas ao bem e ao mal, e ao bem geral da sociedade, em decorrência disso. Em suma, sua preocupação era, antes de tudo, com o bem da polis e não com interesses particulares e obtenção de influencias políticas.
Isócrates, como educador, pregava o ensino da retórica como algo prático. O estilo deveria ser claro e de fácil compreensão e que suscitasse ao leitor reflexões históricas ou filosóficas acerca dos mais diversos temas e tinha a preocupação com a formação moral do povo, para que estes tivessem o poder de persuasão direcionado à virtude. O retórico, acima de tudo, deveria “ser virtuoso”, viver o que dizia. Ele ainda afirmava que
[...] a autêntica retórica, que é a verdadeira filosofia e a verdadeira formação do espírito, conduz também a uma forma de enriquecimento pessoal superior à que se consegue por meio do prazer, do roubo e da violência: conduz à cultura da personalidade como meta inerente à ela. ( ROHDEN, 2010, p, 35).
O mesmo concebia a retórica, portanto, como exercício formal e ao mesmo tempo como uma técnica para o desenvolvimento da humanidade do homem. Suas preocupações no âmbito da educação se davam, principalmente, pelo desregramento da juventude da época. Górgias, por sua vez, concebeu a retórica como a arte suprema do persuadir para obter poder político. Já Protágoras direcionou-a para uma dimensão humano/educativa formal e enquanto linguagem voltada para si mesma (ROHDEN, 2002. p, 48).
Platão, no Fedro, primeiramente ridiculariza os pensamentos correntes sobre a retórica, numa segunda fase critica-a e diz que só se faz retórica no sentido da dialética e da teoria. Posteriormente, diz que “a retórica, filosoficamente justificada pressupõe em quem fala ou escreve o conhecimento da alma e o amor à verdade e à justiça, para bem conduzir os adolescentes pelos caminhos pouco seguros da vida” (in ROHDEN, 2002, p. 44). No entanto, a maior parte dos sofistas, conforme Platão, “entendia-a como uma ciência para impor aos ouvintes sua maneira de pensar, ou ensiná-los a compor belos discursos para deixar vitoriosa a causa ruim e enfraquecer as boas” (Ibid, p, 45).
Aristóteles, a partir das ideias de Platão, propôs uma retórica filosófica, que buscava os princípios gerais da argumentação, e não somente os efeitos exteriores desta. Para Platão, a influência emocional deveria decorrer do próprio discurso e não de estratégias criadas para este fim. Conforme este filósofo, somente os discursos “científicos” poderiam reproduzir o que ele chamou de “ordem real e essencial das ideias”. Isso significa que Platão pensava a retórica como retórico dialética e que esta não se deteria nas particularidades, mas na universalidade, inclusive afirmando que a retórica deveria buscar a felicidade pela virtude perfeita. Diante disso, Aristóteles livra a retórica da questão da moral, dizendo que num discurso, o homem, usando a prerrogativa da linguagem que o diferencia dos outros animais,
pode fazer uso da palavra e tentar persuadir o auditório por meios que independem da opinião e da moral.
Uma vez livre do jugo da moral, a retórica de Aristóteles pode preencher sua função na cidade, na política e nos tribunais como técnica que pode tanto demonstrar como refutar os argumentos apresentados. Este pensador ainda afirma que, nas nossas ações cotidianas não nos apoiamos em verdades absolutas, mas em verdades relativas, verossimilhanças e probabilidades, e que são as opiniões, e não a ciência, as premissas dos raciocínios retóricos. Rohden (2010, p. 144) conclui que ao valorizar a retórica, Aristóteles tentou pôr fim às relações divergentes entre a verdade e o que é provável. Enquanto aquela é universal, este é relacionado à vida real, ao cotidiano. Conforme Aristóteles, a filosofia da linguagem não pensa a retórica como neutra e lógica, mas como algo próprio dos seres humanos e aplicável em suas vidas, pois nem sempre a argumentação que se faz em assuntos de moral, direito, filosofia e política se baseia somente em provas “cientificamente comprovadas”.
Da mesma época (dos sofistas) vem a preocupação com a compreensão. Conforme Gadamer, o movimento de educação da sofística impulsionou de fato a interpretação de frases famosas, adornando-as artificialmente como exemplos pedagógicos. No entanto, não se pode dizer que isso inaugura a hermenêutica, e sim que elimina o distanciamento do passado e do presente, pois já na interpretação da bíblia se pode observar esta aproximação e o surgimento da tradição como algo inerente à própria interpretação.
Surge daí uma posição intermediária entre o discurso proclamado e a escrita, instaurando a tendência de basear a arte do discurso em recursos artísticos fixados por escrito, desligando-os da situação originária (oralidade). Mas, a oratória, enquanto tal, está diretamente ligada ao imediatismo dos seus efeitos. Para o autor,
[...] este ato de produzir efeitos, enquanto tarefa essencial do orador, tem pouca importância quando se trata da expressão escrita, a qual se torna objeto do esforço hermenêutico; e é justamente essa diferença que queremos destacar: o orador arrasta o ouvinte. O brilho de seus argumentos deslumbra o ouvinte. A força persuasiva do discurso não deve nem pode admitir a reflexão crítica (GADAMER, 2002. p, 275).
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O autor questiona, a partir disso, onde deveria se apoiar a reflexão teórica sobre a compreensão, senão na própria retórica? Esta que desde as mais antigas tradições tem sido a
única a defender as pretensões de verdade e do verossímil em relação às também pretensões de certeza da ciência? Ele mesmo responde a isso dizendo que
[...] persuadir e evidenciar sem lançar mão da demonstração é o objetivo e o parâmetro tanto da compreensão e da interpretação quanto da arte da persuasão e do discurso... e este amplo domínio das convicções evidentes e das opiniões comuns reinantes não se restringe gradualmente pelo progresso da ciência, por maior que seja, mas estende-se antes a todo conhecimento da investigação, reivindicando-o como seu e adaptando-o para si (Ibid, p. 276).
A onipresença da retórica é, segundo o autor, ilimitada, e é justamente por isso que a ciência se sociabiliza, pois se fosse o contrário, o que saberíamos sobre as grandes descobertas da ciência se dependêssemos apenas dela mesma? Toda ciência que queira ser prática depende da retórica. O que não se pode negar é a função fundamental que a retórica representa na vida social. Por outro lado, a função da hermenêutica não tem menos importância, pois também na parte da compreensão, a universalidade da estrutura da linguagem humana mostra-se como um elemento ilimitado que sustenta tudo. Tudo é transmitido pela linguagem, por que tudo é assumido pelas relações de compreensão na qual nos relacionamos uns com os outros.
Desta forma, os aspectos retóricos e hermenêuticos da estrutura da linguagem humana encontram-se perfeitamente interligados. Não seria possível haver oradores e nem retórica se o entendimento e o consenso não sustentassem as relações humanas. Se não houvesse impasses e a falta de consenso no diálogo, portanto, não se buscaria o entendimento. Como vimos, a filosofia, desde os primórdios da humanidade vem se dedicando às questões da linguagem. Estes estudos passaram pela tentativa de construir uma linguagem artificial e neutra, onde não haveria dúvidas sobre o sentido que a mesma expressa e pela observação de que a mesma trata do mundo das opiniões, dos paradigmas a serem quebrados e nunca de certezas absolutas. Enfim, ela é algo que se faz e que produz sentido na prática racional, onde se procura esgotar as respostas aos porquês de determinados problemas, “de modo a estruturar o discurso para que o mesmo coloque em ordem as razões e os meios do e