um considerável aumento da demanda do setor de abate de animais e conservas de carne. No caso da soja, as altas cotações externas provocaram a majoração dos preços internos dos produtos derivados dessa oleaginosa. Essa tendência de crescimento foi estimulada ainda pela política econômica adotada em 1985, a qual visava o reaquecimento do mercado interno, via descompressão da política salarial. Assim, os consumidores brasileiros voltaram a comprar alimentos mais sofisticados, revertendo o processo de drawn trading dos últimos anos. Por conseguinte.
o consumo de produtos mais sofisticados estimulou os grupos agroindustriais do oeste catarinense a acelerar as economias de escalas dadas pelo processo de centralização do capital e o desenvolvimento de processos de diversificação (vários tipos de salames, cortes especiais nas aves, embutidos derivados de carne de aves, espetos de carne bovina etc.). Contudo, houve no ano de 1985 uma relativa e inesperada diminuição nas margens líquidas dos grupos Sadia e Ceval-Hering, que na verdade estava associada à concorrência internacional dos produtos derivados de soja e carne.
A tabela 6 indica também, a partir de 87, uma tendência declinante da margem líquida do ramo alimentar brasileiro, do Grupo Sadia e da Ceval- Hering. O fim do Plano Cruzado, associado ao descontrole de preços e à queda do poder aquisitivo da população brasileira, reduziu as vendas do ramo alimentar e das suas diferentes firmas atuantes em vários segmentos. “Se o Plano Cruzado diminuiu a margem mas compensou com o volume, o Plano Bresser nos deixou sem nada, nem margem nem v o l u m e s . E s t e aspecto é notório, pois a economia brasileira, em 1987, não apresentou o mesmo desempenho favorável dos três anos anteriores. A produção industrial ficou estagnada, a inflação elevou-se e os salários (antes protegidos pelas escalas móveis) não conseguiram manter seu poder de compra em meio ao processo inflacionário. Não obstante, a elevação nos preços mundiais da soja permitiu evitar uma queda ainda maior para as agroindústrias do oeste catarinense. Já os anos subseqüentes são marcados novamente por controle de preços e retração do mercado consumidor. O resultado foi o direcionamento dos consumidores na substituição dos produtos mais caros pelos básicos e/ou mais baratos.
Foi dito, anteriormente, que em termos de média o Grupo Ceval- Hering apresentou melhor performance que os grupos Sadia e Perdigão. Contudo, ele está muito mais inserido no setor soja que o Grupo Sadia. A comparação é mais interessante quando feita entre o Grupo Sadia e Grupo
Perdigão, o que mostra o gráfico 5, ao ilustrar a relação entre esses dois grupos.
Gráfico 5 - Margem líquida do Grupo Sadia em relação ao
Grupo Perdigão (em %)
anos
Fonte: Veja-se tabela 5.
Segundo o gráfico 5, somente em 1980 a Perdigão teve margem líquida superior à Sadia. Até mesmo em 1985, quando as margens líquidas foram boas para ambos os grupos, verifica-se que o lucro da Sadia em relação ao da Perdigão foi de 115%, enquanto a margem líquida da Perdigão em relação à da Sadia foi da ordem de -13,5%. Em plena crise econômica de 1982, a margem líquida da Sadia em relação à da Perdigão foi de 180% contra 44%, respectivamente. Cabe ressaltar que, nos anos de 1986 e 1988, repetimos os mesmos valores dos anos anteriores para facilitar a projeção do gráfico.
A melhor performance do Grupo Sadia em relação à Perdigão pode ser explicada pelos seguintes fatores:
• Um amplo sistema de integração de pequenos produtores, que garante preço baixo na compra da matéria-prima. Os sistemas de integração com produtores rurais e a produção própria proporcionam importantes vantagens
absolutas de custos, que decorrem do acesso às fontes de matéria-prima. O sistema de integração do Grupo Sadia é superior ao do Grupo Perdigão; • Aumento do volume produzido de produtos com maior valor agregado; • Excelente sistema de distribuição e comercialização própria, garantindo rapidez, agilidade etc. e reduzindo, assim, os custos operacionais. Os sistemas de empresas de comercialização do Grupo Perdigão estão, na sua maioria, entregues a empresas distribuidoras de produtos concorrentes; • Criação de mercados específicos, como forma de ampliar ou criar parcelas de mercado. Por exemplo, o lançamento de produtos derivados da carne de peru com baixo teor de gordura e a linha de produtos semi prontos.
Esses aspectos combinados explicam por que, mesmo tendo um produto com preço superior ao do concorrente, a Sadia mantém margem líquida superior. Vale lembrar que ambos os grupos econômicos caracterizam-se, na estrutura industrial brasileira, como oligopólios diferenciados, onde a disputa pelo mercado se faz agressivamente mediante a diferenciação de produto e muito mesmo pela concorrência pelo preço.^^ Acrescente-se, ainda, que o Grupo Sadia dispõe, a seu favor, do conhecimento nacional de sua marca, o que, por outro lado, inibe aparentemente o fator preço mais elevado que o da concorrência.
Ao se afirmar que o desempenho da Sadia foi superior ao da Perdigão pelos fatores expostos anteriormente, cabe investigar então qual a relação entre lucro e investimento total. Daí a tabela 7 mostrar a rentabilidade do ativo da indústria de transformação no Brasil, do ramo alimentar brasileiro e dos grupos agroindustriais selecionados.
Portanto, aqui discorda-se do proposto por Tavares (1978), que classifica o setor de laticínios como o único pertencente aos oligopólios diferenciados e o setor de frigorificação de came como oligopólio competitivo. Contudo, essa classificação foi elaborada em 1978 e, provavelmente, não foram levados em consideração os investimentos gigantescos das agroindústrias do oeste catarinense no que se refere ao processo de diferenciação de produtos. Note-se que, em 1960, a Sadia não produzia apenas carne congelada e resfriada de suínos, mas uma imensa gama de derivados de suíno.
Tabela 7 - Rentabilidade do Ativo 1980 2,2 1981 8,1 1982 2,8 1983 6,6 1984
6,1
19855,5 1986 10,2 1987 5,4 1988 1989 11,9 1990 5,2 1991 M 5,9 6,6 2,9 2,3 2,7 3,2 3,2 14,8 13,3 2,9 2,4 12,3 6,5 7,8 10,^ 7,9 R.A. 4,9 5,5 5,8 8,8 6,4 7,2 3,510,8
8,9 4.7 -1.7 5,88 I.T. 2,3 2,7 3,5 4,5 11 -3,3 3,41Fonte: Veja-se tabela 5.
A tabela 7 evidencia que, durante o período em análise, o Grupo Cevai-Hering apresentou quociente superior aos dos grupos Sadia, Perdigão, ao ramo alimentar brasileiro e aos da indústria de transformação no Brasil. Contudo, cabe salientar que a falta de informações do Grupo Cevai-Hering e do Grupo Perdigão, em alguns anos, altera consideravelmente a média geral.
Observa-se, ainda, na tabela 7 que houve no ano de 1982 uma redução dos índices de rentabilidade do ativo da indústria de transformação no Brasil, do ramo alimentar e dos grupos agroindustriais do oeste catarinense, acompanhando a tendência geral da crise econômica. A recuperação do Grupo Sadia inicia-se em 1983 e alcança o seu auge em 1986, em virtude do plano de estabilização. Os anos de 1983 a 1985, para o caso do Grupo Sadia, apresentam índices elevados em virtude da criação dos estoques para os silos e armazéns construídos e/ou adquiridos nesse período. Na verdade, após a construção ou incorporação de unidades industriais o ativo apresenta-se alto graças ao aumento da riqueza dos grupos econômicos. Assim, se a rentabilidade do ativo mostra quanto os grupos obtêm de lucro para cada Cr$ 1,00 de investimento total, percebe-se que 0 da Sadia foi bem superior, em termos de investimento, ao da Perdigão. Entre 1980 a 85 - período de forte processo de modernização tecnológica e centralização do capital no setor de frigorificação de carne - verifica-se que, em termos de média geral, a Sadia apresentou índices de 5,21 contra 3,11 da Perdigão. Comparando a rentabilidade do ativo do Grupo Sadia em relação à do Grupo Perdigão em termos percentuais,
conclui-se que nesse mesmo período o lucro do primeiro em cada R$ 1,00 investido foi da ordem de 100%, contra 40,30% do segundo. Visto dessa forma, pode-se afirmar que os investimentos da Sadia foram mais eficazes, do ponto de vista econômico, que os da Perdigão.
É interessante observar que, ao se cruzar os dados da tabela 4 com os da tabela 6, no período em exame, somente em dois anos (80 e 81) o Grupo Sadia trabalhou com grau de endividamento e margem líquida elevados. Portanto, poderíamos afirmar que a Sadia utilizou-se muito pouco do mecanismo de alavancagem financeira (margem líquida elevada e grau de endividamento). Em contrapartida, a Perdigão adotou esses mecanismos em vários anos (80, 81, 84 e 85). Portanto, estratégias diferenciadas de administrar os recursos.
Em termos gerais, pode-se inferir que a performance das empresas agroindustriais do oeste catarinense, durante a década de 80, foi em muitos momentos superior ao ramo alimentar brasileiro e à indústria de transformação. De acordo com os dados das tabelas, tem-se que estes últimos obtiveram resultados negativos em 1990. Resultado idêntico houve quanto à rentabilidade do ativo. Em sua pesquisa, Cário (1991: 355) afirma que os conglomerados de Santa Catarina, nos quais incluem-se Perdigão, Sadia e Ceval-Hering, “obtêm taxas de retorno do capital em níveis superiores aos alcançados pelos maiores grupos nacionais, tais como Votorantim, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez”. É preciso salientar que estes últimos grupos, referidos por esse autor, não poderiam ter taxas superiores à dos grupos catarinenses em virtude de serem do setor de construção pesada e, além disso, durante a década de 80 não houve grandes investimentos no setor de infra-estrutura no Brasil. Na verdade, este caracteriza-se, no último decênio, como áreas subcapitalizadas ou grandes nós de estrangulamento, conforme salientou Ignácio Rangel.
Segundo Rangel, os grandes serviços de utilidade pública devem ser concedidos às empresas privadas (Rangel, 1987).
Essa situação econômico-financeira é alcançada através da potencialização das transações financeiras que garantem rentabilidade, proporcionam segurança e minimizam os riscos dos negócios. Para tanto, procuram distribuir a massa de capital produtivo em várias atividades, no circuito financeiro e em várias aplicações em títulos de crédito. Esse processo de distributivo da massa de capital em diferentes pontos de valorização poderia ser visto com maior clareza à medida que fossem analisados os indicadores de forma não-agregada.
0 padrão de acumulação alcançado garante a liderança de alguns grupos, em vários indicadores econômicos, ao longo dos anos 80. Nesse ciclo de valorização do capital descrito, com base nos indicadores econômico-financeiros, ocorrem particularidades e especificidades próprias de cada grupo, que vão se distinguindo e se diferenciando entre si. Portanto, o ciclo de acumulação de capital apresenta diferenças de comportamento em termos de resultados.