A Idade Média foi uma época injustiçada pela historiografia usual, mas ao contrário do que foi impresso por meio do entendimento de diferentes historiadores, esse período alicerçou algumas das pedras angulares da construção da nossa sociedade. Foi um período de diversas descobertas e inovações, no qual vigorava uma sensibilidade profunda, e isso não significava apenas a soberania da melancolia, mas a felicidade, o riso, o amor, e a forma doce de encarar o mundo era demasiadamente sentida e apreciada. Esse fato difere da imagem frequente de pintar um medievo assombrado pela ignorância e pela obscuridade. Esses aspectos são palpáveis ao nos vermos diante das formas artísticas do período, sejam as pinturas, a arquitetura ou as esculturas.
Nossa abordagem se embasou em procurar desvendar algumas das questões que permearam o imaginário medieval a respeito da efemeridade da vida, com especial atenção ao corpo e em como ele passou a ser evidenciado e repensado ao ganhar uma importância cada vez maior no anoitecer da Idade Média. Com isso, percebemos que os pensamentos filosóficos estavam estritamente vinculados às representações artísticas. Nossa análise buscou a importância das representações mentais e imagéticas do martírio de santos – tema consubstancial para o entendimento do nosso enfoque central: o Retábulo de Santa Eulália, de autoria de Bernat Martorell.
A questão da progressiva noção de individualidade – presente principalmente nos temores relacionados à morte e repassada às expressões imagéticas – foi uma de nossas bases para a compreensão da mentalidade do período. O perecimento é inerente à vida, e por isso, ao pensarmos nos indivíduos postos em reflexão diante dos próprios corpos – frágeis, despidos e passíveis de dor e sofrimento –, foi fundamental para a percepção do seu mundo. O sobrenatural, obscuro e incerto, fomentou receios, mas da mesma forma que incitou o medo, também foi fonte de esperanças.
O martírio de santos foi um dos elementos que mais retratou esse sentimento em forma de representações pictóricas e esculturas. Apesar da hediondez dos corpos ensanguentados, torturados e dilacerados, o sentimento que vigorava para aqueles que estavam diante de tais imagens era o de estar em frente a representações da mais sublime beleza, pois o belo era vinculado ao desligamento do mundo físico para dar
vazão à ascensão da essência. O ato de fé em oferecer-se ao martírio por amor a Deus era a ação mais verdadeira e pura que alguém poderia ter. Por isso, o martírio era encarado como um exemplo àqueles que desejavam alcançar a Glória Celeste.
Por meio da observação de diversas obras, utilizamos a Arte como fonte de estudos, principalmente ao confrontá-la com documentos textuais. A Arte medieval gravou no tempo, de forma definitiva, as visões daqueles que vivenciaram verdadeiramente o período, e a melhor maneira de compreender a História de uma época é tentar enxergar através dos olhos daqueles que realmente experimentaram as alegrias e angústias do mundo em que viveram. Por isso, é imprescindível a importância da pesquisa das formas artísticas para apreensão de uma época tão distante. Afinal, é por meio do fazer artístico que a sociedade expressa seus medos e suas alegrias.
Ao conhecermos as bases e as influências das fontes inspiradoras de Bernat Martorell, artista ainda pouco estudado, pudemos entender a importância das inovações estilísticas que esse pintor exerceu na Catalunha – local em que nasceu e foi reverenciado como um dos pintores mais influentes da região no século XV.
Ao analisar o Retábulo de Santa Eulália, fomos postos diante da representação do corpo feminino. A imagem mulher na Idade Média, assim como em diversos outros períodos predecessores e sucessores, é um tema particularmente complexo. De fato, a figura da mulher era vista com receio, e a misoginia fazia parte da sociedade medieval, o que influenciou diretamente as representações de tais corpos no período. Especialmente no âmbito religioso, o corpo feminino era visto com cautela, pois como símbolo do pecado – protagonizado por Eva – foi imbuído de lascívia.
Por outro lado, a figura feminina também foi reverenciada como modelo de perfeição, com a Virgem Maria como principal exemplo a ser seguido. No mundo secular, a imagem da mulher suscitou representações que elevaram sua posição social, como foi o caso das figurações que diziam respeito ao amor cortês e às cerimônias matrimoniais. As santidades foram personagens essenciais para a história medieval. Santa Eulália de Barcelona, com seu corpo desnudo, humilhado e supliciado, foi encarada como um símbolo de reverência e idolatria. A imagem do corpo feminino em sofrimento em razão do martírio, por sua vez, era enaltecida, pois, assim como a Virgem, eram exemplos de fé a serem seguidos.
Por mais que existam diferenciações nos motivos iconográficos que dizem respeito ao corpo feminino em relação masculino – a exemplo da nudez do primeiro –, as figuras santificadas eram igualmente enaltecidas e veneradas. Esse fato atesta que a Idade Média não encarava o corpo da mulher como algo apenas relacionado à perversão e à maldade. Com efeito, existiram diferenças entre os tratamentos de ambos os gêneros, mas é necessário que as noções historiográficas sobre tal assunto passem por uma matização de suas nuances.
Em suma, o trabalho concerniu em uma interpretação iconológica dos motivos artísticos que envolveram a temática do Retábulo de Santa Eulália. A partir da poética, da religião, dos preceitos filosóficos, políticos e sociais, conseguimos traçar um meio de análise que circundou a cultura e os pensamentos de uma sociedade que deu origem à criação de identidades visuais e mentais que significaram em seu tempo e geraram heranças históricas de ressignificação do pensar, viver e ver o mundo que reverberam na nossa vivência atual.