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Uma bela construção matemática, a fibração de Hopf , aparece natu- ralmente na descrição dos estados de um qbit. Esta seção é dedicada a explicá-la.

Definição 4.2. Uma fibração é definida por um mapa h que leva

um espaço E em um espaço B, chamado espaço base. Um conjunto F ⊂ E é chamado fibra se corresponde a h−1(p) para algum p ∈ B. Exemplo 4.11. Um exemplo trivial é a projeção

h : R3 −→ R2 C

a b c D $−→ C a b D. As fibras são retas paralelas ao eixo z.

No caso da fibração de Hopf, E = S3, B = S2 e F = S1.

Para definir o mapa h vamos identificar S3ao conjunto V de vetores

(z, w) ∈ C2tais que |z|2

+ |w|2= 1 como fizemos anteriormente

[SEC. 4.7: A FIBRAÇÃO DE HOPF 59

e R2 ao conjunto dos números complexos da maneira usual

(a b) ↔ a + ib.

O mapa h é a composição de dois mapas h1 e h2 definidos da

seguinte forma h1: S3!V −→ C + {∞} C α β D$−→ C =αβ¯−1, h2: C ∪ {∞} ! R2∪ {∞} −→ S2 C $−→ Π−1E (C),

em que ΠE: S2→ R2∪ {∞} denota a projeção estereográfica

ΠEC a b c D = C 1−ca 1−cb D.

Geometricamente, a projeção estereográfica tem um significado bem interessante. Tomamos um ponto q =C a b c D na esfera S2e

construímos a reta que liga esse ponto ao polo norte p =C 0 0 1 D C

ta tb t(c − 1) + 1 D, t ∈ R.

A projeção estereográfica leva q na interseção dessa reta com o plano z = 0. O polo norte é levado ao ponto no infinito.

Exercício 4.4. Mostre que a construção geométrica mencionada acima

leva justamente ao mapa

ΠEC a b c D = C 1−ca 1−cb D.

Calcule a inversa de ΠE e mostre que

h2 C x y D =# 2x x2+y2+1 2y x2+y2+1 x2 +y2 −1 x2+y2+1 $ .

Observação 6. Um exercício mais sofisticado é mostrar que os ma-

pas h1e h2são contínuos com respeito às topologias adequadas. Tam-

bém é possível mostrar que o mapa h2 é uma realização do famoso

homeomorfismo entre o plano e a esfera menos um ponto. Assim, ao passar do plano complexo para o plano mais um ponto, onde cada ponto é da forma C = α ¯β−1, dizemos que foi feita a compactifica-

ção do plano complexo, acrescentando o chamado ponto de infinito,

correspondente a β = 0. Esta compactificação é normalmente cha- mada esfera de Riemann.

Podemos escrever o mapa h em uma forma simpática se usarmos as representações polares α = r1eiφ1 e β = r2eiφ2.

Exercício 4.5. Verifique que

C = h1 C α β D = r1 r2 C cos(φ2− φ1) sen(φ2− φ1) D .

Exercício 4.6. Usando a expressão para C encontrada no exercício

anterior verifique que h2(C) = # 2r 1r2cos(φ2−φ1) r2 1+r 2 2 2r1r2 sen(φ2−φ1) r2 1+r 2 2 r2 1+r 2 2 r2 1+r 2 2 $ .

Para a aplicação da Fibração de Hopf em mecânica quântica, é útil relacionar a construção que acabamos de fazer aos operadores auto-adjuntos σ1=@ 0 11 0 A , σ2=@ 0 −i i 0 A , σ3=@ 1 0 0 −1 A ,

chamados operadores de Pauli. Definindo +σi) = +v |σi| v)

em que |v) =C α β D, temos

h2(C) =C 2ReCα ¯βD 2ImCα ¯βD |α|2− |β|2 D = C +σ1) +σ2) +σ3) D.

As fibras do mapa h são as fibras do mapa h1pois h2é um mapa

bijetivo. Essas fibras são as classes de equivalência {eiφ|v)} da ação

de U em C2 mostrada no exemplo4.1.

4.8

Exercícios

Exercício 4.7. Verifique que o conjunto G = {a, b} munido do pro-

duto aa = a, ab = ba = b, bb = a é um grupo.

Exercício 4.8. Considere o conjunto {0, 1} munido da multiplicação

usual, ou seja, 00 = 0, 01 = 10 = 0 e 11 = 1. Verifique as propri- edades de grupo neste caso; o grupo em questão é conhecido como o grupo multiplicativo Z2; compare-o com o grupo da primeira questão.

[SEC. 4.8: EXERCÍCIOS 61 Exercício 4.9. Verifique que o grupo GL(n, C) não é comutativo

(sugestão: procure exemplos adequados).

Exercício 4.10. Considere G o espaço de matrizes na forma

@ 1 t 0 1

A

com t ∈ C; verifique que este conjunto, munido do produto usual de matrizes, é um grupo abeliano (comutativo).

Exercício 4.11. Considerando o grupo do exercício anterior verifi-

que que a aplicação

φ : G × R → R φ(@ 1 t0 1

A

, x) = x + t é uma ação de G sobre R.

Exercício 4.12. Mostre que o conjunto

  1 x y 0 1 z 0 0 1  

é um grupo para a operação do produto de matrizes (conhecido como grupo de Heisenberg). É comutativo?

Álgebras C

Neste capítulo formalizaremos um conceito que já estava latente nas páginas anteriores, o de álgebra C, e mostraremos mais alguns e-

xemplos. O leitor que se interessar pelo assunto deve consultar o texto introdutório de Ruy Exel [Exe].

5.1

Álgebras C

Um espaço vetorial A munido de uma operação de produto é o que se chama de uma álgebra. Quando temos uma norma no espaço e ele é completo com relação a mesma (ou seja, é um espaço de Banach) então o chamamos de álgebra de Banach. Se, além disso, temos uma involução ∗: A → A satisfazendo 1. (a + b)= a+ b; 2. (λa)= ¯λa; 3. (ab)= ba; 4. (a)= a; 5. -a- = -a-; 62

[SEC. 5.1: ÁLGEBRAS C63

6. -aa- = -a-2;

então temos uma álgebra C.

Exemplo 5.1. C com a norma usual -z- = |z| e com a involução

z= ¯z sendo a operação de tomar o complexo conjugado é uma álge-

bra C.

Exemplo 5.2. Seja C0(R) o conjunto das funções f : R → C contí-

nuas e que se anulam no infinito, isto é, tais que para todo " > 0 o conjunto {x : |f(x)| ≥ "} é compacto. A norma

-f- = sup

x∈R|f(x)|

torna esse espaço vetorial completo. Para termos uma álgebra pre- cisamos introduzir um produto e o faremos da forma mais simples:

(fg)(x) = f(x)g(x), o que nos dá uma álgebra comutativa. Podemos

definir uma involução como sendo f(x) = f(x).

Com todos esses ingredientes temos então uma álgebra Ccomuta-

tiva.

Uma questão interessante é a de se saber se essa álgebra tem ou não unidade, isto é, uma função que denotaremos por 1(x) tal que

1f = f1 = f para toda f ∈ C0(R). O leitor não terá dificuldade

em verificar que nossa função só pode ser 1(x) = 1 para todo x ∈ R, mas esse não é um elemento de C0(R) pois não se anula no infinito.

Desta forma essa é uma álgebra sem unidade.

O leitor é convidado a repensar o exemplo acima, mas trocando R por [0, 1] para concluir que C[0, 1] (norma, produto e involução como acima) é uma álgebra Ccom unidade.

O exemplo acima pode ser repetido trocando R por um espaço

X mais geral. É interessante notar que esse modelo básico de uma

álgebra Ccomutativa na verdade é, num certo sentido, o único mo-

delo pois uma álgebra desse tipo sempre acaba sendo isomorfa a uma álgebra C(X) para um certo X (este é um resultado muito importante na área, conhecido como Teorema de Gelfand. O leitor curioso é remetido a [Exe] para uma discussão mais completa).

Exemplo 5.3. Seja Mn(C) o conjunto de matrizes n × n com coe-

ficientes complexos. Este espaço vetorial tem um produto natural, o produto de matrizes, que o torna uma álgebra. Podemos definir uma norma como sendo a norma usual de operadores

-A- = sup

v:|v|=1|A(v)|.

Mn(C) é completo nessa norma. A involução pode ser definida como

sendo

A= At, ou seja, (a

ij)∗= aji,

onde (aij) são as entradas da matriz A. Então temos uma álgebra

C.

A verificação dos detalhes é deixada ao leitor; vamos aqui nos limitar a mostrar a propriedade -AA- = -A-2: Seja v ∈ Cn um

vetor unitário, isto é, |v| = 1. Então

|Av|2= +Av|Av ) = +AAv|v ) ≤

|AAv||v| = |AAv| ≤ -AA-|v| = -AA-.

Tomando o supremo sobre v em ambos os lados podemos concluir que

-A-2 ≤ -AA-; como já haviamos visto antes, nas propriedades da

norma de operador, -AA- ≤ -A--A- = -A--A- = -A-2. Portanto

-AA- ≤ -A-2≤ -AA- e assim -AA- = -A-2 como desejado.

É interessante notar que se a norma é modificada então a álgebra pode deixar de ser uma álgebra C. No exemplo acima, podemos nos

perguntar o que ocorre se trocamos a norma por outra equivalente, definida como sendo

-M-2:=

E"

ij

|Mij|2.

Então -Id-2= √n &= 1; porém, uma unidade deve satisfazer -1∗1- =

-1-2, o que implica em -1- sendo 1 ou 0. Desta forma vemos que

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