Os constrangimentos interativos surgem a partir de limitações cognitivas, de audição ou visão, tendo um significado especial na comunicação dos indivíduos (Casas, 2005). Estes constrangimentos ocorrem durante a interação do indivíduo com a sua rede social, promotores de serviços ou até com estranhos (Daniels et al., 2005). Desta forma, os turistas com incapacidade enfrentam obstáculos ao nível do planeamento e durante as suas viagens que vão muito além da simples compra de um bilhete, reserva do alojamento ou o pagamento de um pacote turístico. Efetivamente, a participação numa atividade turística torna-se mesmo num desafio pessoal (Yau et al, 2004).
O processo de tornar a população com incapacidade turisticamente ativa, envolve ações de remoção de barreiras, sendo umas das mais complexas a minimização de constrangimentos interativos, resultantes de experiências em sociedade. Deste modo, as barreiras de má comunicação e as de inconsistência de incapacidades poderão ser ultrapassadas gradualmente através de ações como adaptar e promover informações fidedignas utilizando os meios de comunicação mais adequados e, ainda, desenvolver as competências turísticas do indivíduo com incapacidade através da adequação de atividades turísticas, que sejam demonstrativas das suas capacidades reais.
3.3.2.1 Dificuldades de comunicação
As pessoas com incapacidade esperam receber exatamente o mesmo tratamento das pessoas sem incapacidade. Muitas vezes, o atendimento altera-se na presença de uma pessoa com deficiência, exagerando-se no tratamento especial e nos reforços positivos, o que poderá causar embaraço por parte da pessoa com incapacidade, ou levantar sentimentos de injustiça (“ciúme”) por parte dos restantes turistas. Com o objetivo de minimizar potenciais problemas, o planeamento cuidado da viagem por parte das pessoas com incapacidade é fundamental. É necessário identificar informação fidedigna sobre acessibilidade do destino, WC’s, alojamento, transporte, disponibilidade de assistência e existência de acompanhantes. A grande maioria das pessoas com incapacidade relata a necessidade constante da verificação da informação existente acerca dos destinos turísticos, que identificam muitas vezes como enganadora ou mesmo errada (Yau et al., 2004). Packer et al. (2007) sublinha mesmo que as atitudes e a fidelidade da informação disponível, têm vindo a emergir como as potencialmente mais importantes barreiras à participação no turismo da atualidade.
Esta falta de informação fidedigna sobre as infraestruturas e atividades turísticas dos destinos, pode provocar consequências graves, não só ao nível do planeamento da viagem, mas também
incapacidade não têm muitas alternativas acessíveis nos destinos que escolhem. No caso de não estarem satisfeitos com o quarto, dificilmente poderão transferi-las para outro quarto mais agradável, devido ao número limitado de quartos acessíveis disponíveis. Desta maneira, caso as informações originais estejam erradas, as pessoas com incapacidade, provavelmente não terão outra opção, senão abandonar os seus planos (Darcy & Daruwalla, 1999).
Os agentes turísticos são, muitas vezes, hesitantes relativamente à inclusão de pessoas com incapacidade em pacotes turísticos, na medida em que sentem que estão a sobrecarregar o guia turístico com mais uma situação de atenção redobrada. Contudo, a independência percebida e a independência real dos indivíduos varia de cultura para cultura, sendo que com a vigilância e provisão adequadas a cada sociedade, cada vez mais pessoas com incapacidade são capazes de participar ativamente na sua família e comunidade, criando uma envolvente de aceitação, que torna a sua inclusão em atividades turísticas mais fácil (Yau et al., 2004).
Aqueles que viajam sozinhos ou em grupo apreciam que a industria turística proporcione a informação necessária às suas necessidades, sobre o alojamento, o transporte, as atividades disponíveis, as facilidades ou a assistência. A literatura indica que as pessoas com incapacidade apresentam maior probabilidade de fidelização a empresas (a agências e hotéis específicos) que melhor sirvam as suas necessidades, proporcionando-lhes experiências positivas (Turco & Stumbo, 1998).
Assim, as recomendações para ultrapassar estas barreiras de má comunicação prendem-se com a necessidade do sector turístico recolher, adaptar e promover informações fidedignas utilizando os meios de comunicação mais adequados para alcançar eficazmente este mercado com incapacidade (Turco & Stumbo, 1998).
3.3.2.2 Inconsistência de capacidades reais e percecionadas
Muitos terapeutas de reabilitação colocam bastante ênfase nas atividades de vida diárias, sem dar grande importância às oportunidades meritórias de relaxamento, recreação ou de participação em atividades de lazer (Yau et al, 2004). Os sujeitos com incapacidade poderão assim, ser excluídos de determinadas atrações ou atividades turísticas, já que muitas vezes, dependem do conselho ou opinião de outros relativamente à sua participação ou acessibilidade. A grande maioria da população com incapacidade acede aos conselhos ou opiniões que lhes são dados, mesmo quando sentem que as suas capacidade estão a ser subestimadas (Yau et al., 2004).
A inexistência de pessoal médico ou de acompanhantes ou ainda a inexistência de um “ambiente seguro”, são grandes fatores influenciadores da participação no turismo. No que concerne ao significado das férias, as pessoas com incapacidade sublinham a importância do alcance do sentimento de liberdade e a intenção de tentar novas experiências (Shaw & Coles, 2004).
O complexo processo de ser um turista com incapacidade envolve iniciativas pessoais, avaliações exatas das suas capacidades, competência para recolher informações de confiança, gestão da viagem, gestão particular e individual e o seu reflexo nas suas experiências. Ser capaz de viajar e participar em atividades turísticas, para uma pessoa com incapacidade, poderá demonstrar aos seus pares que a pessoa se encontra em recuperação ou a retomar controlo sobre a sua vida e a afirmar a sua futura qualidade de vida (Yau et al., 2004). Desta maneira, uma das formas de minimizar esta barreira de participação é realmente desenvolver competências turísticas com o objetivo de demonstrar aos pares das pessoas com incapacidade e prestadores de serviços a perceção real relativamente às incapacidades e compreensão efetiva das capacidades dos indivíduos em questão.
As barreiras de interação dizem respeito ao inter-relacionamento dos indivíduos com o meio que os envolve, nomeadamente no que diz respeito aos problemas que podem surgir de uma comunicação inadequada e também da inconsistência de incapacidades. Em síntese, apresenta- se a Tabela 10 com a descrição resumida dos constrangimentos interativos, não esquecendo as formas de os minimizar ou ultrapassar.
Tabela 10 - Constrangimentos interativos e propostas de minimização dos seus efeitos
Fonte: Elaborado com base em Kastenholz et al. (2010), Packer et al. (2007); Yau et al. (2004); Darcy & Daruwalla (1999) e Turco & Stumbo (1998)
As limitações à participação da pessoa com incapacidade no turismo prendem-se, assim, com a interação social, com o seu relacionamento com o seu meio envolvente e com a forma como a
pessoa com incapacidade é percecionada. Uma experiência turística positiva permite ao indivíduo com incapacidade desenvolver confiança e motiva o sujeito a viajar com maior frequência, demonstrando, igualmente, aos seus pares estas competências e estimulando, assim, a melhoria da integridade social do indivíduo com incapacidade. O planeamento e organização da viagem são novas competências a adquirir pelas pessoas com incapacidade. Ao contrário, uma experiência negativa poderá hipotecar toda a atividade turística futura (Yau et al., 2004) e reforçarão também as atitudes negativas da restante sociedade, fortalecendo obstáculos interativos.