pulses propagating in the atmosphere
3. Filamentation d'impulsions ultraviolettes
“Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor”! Salmos 122: 1
Mesmo tendo participado em meu primeiro dia de campo do culto evangélico promovido pela FPE na Casa legislativa, nos demais cultos por mim observados continuava a sentir-me intrusa, incomodada, sem saber como agir. Preocupava-me com os possíveis decotes em minha roupa, em não demonstrar feições e gestos que pudessem ser “lidos” de forma errônea. Preocupava-me demais comigo. Olhar só para si cansa e não permite que o pesquisador se deixe afetar pelas muitas ervas do diabo que estão espalhadas pelo mundo (subterrâneo ou não) no qual ele se aventura114. Assim, durante os cultos, me sentia enfrentada pelos assessores e secretários da FPE por que eles “me encaravam”, me observavam como se dissessem “então, vai lá, aceita Jesus”. Do mesmo modo, sentia desconforto em cumprimentá-los com beijos na face (como se fossem meus amigos), a despeito de eles sempre me cumprimentarem com um aperto de mão e em seguida o danado do beijo na face. Com o tempo, contudo, estas neuroses foram me afetando menos. Mas outras tantas apareceram.
De todo modo, os evangélicos do Congresso Nacional me ensinaram sobre os modos pelos quais classificamos as coisas e as pessoas que habitam o mundo. Sendo assim, a antropóloga que vos escreve, por certo, não ficou isenta de tal sistema classificatório, nem isentou a Frente Parlamentar Evangélica. Contudo, o modo como eles me atribuíram valores me permitiu transitar por “lugares sociais” diferenciados: “nossa amiga da UnB” e a “feminista financiada por agências internacionais”, “uma pesquisadora profunda” e “aquela que nos persegue e sabe tudo da gente” ou “a possível futura nora de pastor” e uma
114 Mesmo “iniciada” no trabalho de campo no mundo pentecostal, participar de cultos devocionais sempre nos possibilita “sentir coisas que não sabemos explicar”. Esta sensação já fora por mim sentida durante os cultos observados na Igreja da Pastora Inês, um das mulheres evangélicas analisadas em minha monografia final de curso. Em um destes cultos, durante a exaltada pregação do Pastor João, dirigente de uma congregação, muitos fieis começaram a falar em línguas estranhas (um dom do Espírito Santo). “É a presença do Senhor! Ele está aqui!”, dizia o pastor. Assim, toda a pregação foi marcada pela manifestação do Espírito Santo que “se deu a conhecer no mundo sensível através de profecias, clamores, gritos exaltados, lágrimas e do falar em línguas estranhas” (Duarte, 2010, p. 165). Como descrevi: “naquele momento, eu mesma senti uma ‘forte sensação de que estava acontecendo algo que eu não sabia descrever’! Além disso, me percebi tomada de ‘susto’ e como pesquisadora experimentei um sentimento contraditório de estranhamento e de identificação, ainda que por pouco tempo, com os sujeitos da pesquisa: ‘o Espírito Santo está aqui!’, pensei” (Duarte, 2010, p. 165).
“mulher madura”. Do mesmo modo, pude experenciar o constrangimento de ser observada atentamente por eles: “os antropólogos são rígidos dentro do que eles pensam”, “pensei que você fosse evangélica, sempre está nos cultos”, “bom dia irmã”, “ela é pesquisadora da UnB”, “quem sabe na sua procura, você encontra Deus”.
Estas formas de classificação de um agente que está habitando um mundo desconhecido, por certo, causam neuroses debilitantes. No caso, não era eu um ser limiar, em estado de transição, creio que nem poluidora era, nem anti-estrutural. Era à época uma mulher de 27 anos, antropóloga, solteira, que morava sozinha em Brasília e que não afirmava suas crenças num cenário repleto delas. Na contramão desta perspectiva reside à própria teologia pentecostal que permite que qualquer ser errante seja redimido, ao aceitar Jesus. Deste modo, enquanto “mulher madura” e “pesquisadora da rede feminista” que eu poderia me tornar um dia uma “irmã”. Se eu tinha algum poder, este residia no fato de ser aquela que escreveria uma “história” sobre a FPE.
Talvez a classificação que faziam a meu respeito era por que “outras pessoas já vieram aqui” e depois “falaram mal da gente”, como me falou Pr. Isaias. Por isso mesmo, Pr. Isaías sempre me perguntava: “como está a pesquisa?”, “depois quero muito ler o que você escreveu da gente”. Todavia, aqueles agentes os quais estava conhecendo mais de perto também mostraram certa afeição e preocupação comigo, pois, sempre me alertavam para ter cuidado com os assédios sofridos pelas mulheres na Casa – “cuidado nestes corredores!” – e até mesmo explicitando que eu poderia procurá-los caso sofresse qualquer “embaraço”: “pode dizer que você está com a Frente Parlamentar Evangélica!”.
De fato, minhas primeiras incursões ao campo foi como andar numa corda bamba, controlando pulsões corporais, procurando me equilibrar em uma linha reta a fim de não cair num “campo minado”. Por certo, o próprio tempo do trabalho de campo – e o exercício da dwelling perspective – me ensinou como agir naquele ambiente. Assim, estar em contato com aquelas pessoas que me desafiavam aguçava uma espécie de treino para situações adversas, tensas e ambíguas a despeito dos medos e das indecisões constantes. Entretanto, continuava em mim uma espécie de constrangimento moral (de ordem laica) quando estava lá, participando de um culto em pleno espaço do legislativo. Esta aflição demorou a cessar, por isso, sempre questionava: como poderia haver um tempo e um espaço para um culto no lugar mais democrático da República? Esta aflição demorou a cessar, inclusive, durante o momento de escrita desta dissertação. De fato, foi quando
“voltei ao meu estado normal” fui orientada que os cultos eram o meu achado etnográfico, logo, um fenômeno de caráter inédito etnografado por mim. Logo, merecia ser analisado.
Considerando este feito, entendo que estes cultos podem ser analisador a partir da literatura antropológica que lida com os fenômenos, os rituais e as relações que são agenciadas no mundo pentecostal. Waldo César e Richard Shaull (1999) falam da “exuberância da palavra” no “reinado pentecostal” onde “as palavras têm poder”. Logo, “a palavra cantada, gritada, murmurada. Não apenas o pastor. Todos podem se expressar de alguma forma nos hinos, nas aleluias, na saudação aos irmãos, no testemunho – ou em línguas estranhas” (p. 67). Nesse sentido, como lembra Júlia Miranda (1999b), a cosmologia religiosa da comunidade pentecostal baseia-se na interpretação da Bíblia que orienta a conduta dos fiéis (individual e coletivamente). Deste modo, o acesso a Deus é reforçado através de louvores e cânticos quando “a coesão dos fiéis não se expressa por uma apresentação sistemática da fé ou da confissão religiosa, mas sim, pela comunidade vivida, pelas orações, pela participação ativa na liturgia e na diaconia” (Miranda, 1999b, p. 44).
Do mesmo modo, há o emprego de uma linguagem mediada por gestos e por várias formas de expressão das emoções. Nesse sentido, o mundo pentecostal abarca uma oralidade115 que significa a relação entre coisas ditas e formas sociais de escrita, formas de pensar o mundo e de agenciá-lo (idem, p. 66). Por isso mesmo podemos afirmar que a “palavra domina o culto pentecostal” (César & Shaull, 1999, p. 68) aquela que “faz as coisas” (Bourdieu, 2004b, p. 71) quando proferida um lugar reconhecido e em situações específicas.
Ora, durante os cultos “a palavra se conjuga às rotinas do dia-a-dia, ganha novas dimensões e produz, como no drama da conversão, efeitos imediatos” (César & Shaull, 1999, p. 74). Do mesmo modo, os fiéis dispersos no mundo se unem naquele rito cuja repetição de palavras, gestos e “gritos de guerra” versam sobre a “libertação do vício, do pecado”, ressaltando uma “vida exemplar, o domínio sobre o demônio, a certeza da salvação total” (idem, p. 75). Trata-se, pois, de um discurso não rebuscado, contudo, que se liga aos fatos e ao cotidiano “incorporando a realidade da vida ‘como ela é’, [assim] o
115 A autora ressalta que é necessário ampliar o escopo analítico acerca do uso da oralidade pelos pentecostais, pois, este não se reduz apenas à glossolalia e aos meios de comunicação de massa (Miranda, 1999b, p. 67).
culto pentecostal se torna uma nova chave litúrgica e hermenêutica” (César & Shaull, 1999, p. 76). A saber: “na fusão interno/externo, pela palavra, unifica-se e adquire significado o que antes estava dividido na consciência e na vida real dos crentes” (idem, ibidem).
Não me oponho a tal forma de análise dos cultos evangélicos, pois, entendo que esta literatura procurou entender os efeitos simbólicos dos cultos no interior mesmo dos templos sagrados. No caso dos cultos evangélicos que estou analisando a palavra tem poder não apenas quando pronunciada por um emissor que recebe a “delegação” da instituição para falar em seu nome (como os dirigentes e oradores). Afinal, durante o tempo litúrgico pentecostal “todos podem falar” por que a convencionalidade do ritual abarca não apenas rigidez, mas também “oralidades improvisadas”. O que importa nos cultos evangélicos é a “eficácia performativa do discurso” (Bourdieu, 1996, p. 82) cujo “poder do verbo” (César & Shaull, 1999, p. 69) possui efeitos no plano da política.
O que estou procurando apontar aqui é uma imbricação entre mundos outrora separados. Os cultos da FPE na Casa do Povo promovem a máxima que a Igreja está no mundo, logo, sagrado e profano116 se conjugam legitimando, pois, a participação evangélica na política. Nesse sentido, o compromisso evangélico de salvar outrem que vive nas ruas (onde muitos crentes também já estiveram) continua a ser realizado com as tentativas de conversão de cunho pessoal. Todavia, o que proponho é que os cultos da FPE no legislativo não intencionam apenas “ganhar almas” de funcionários e deputados da Câmara para Jesus. O objetivo da FPE é grandioso, pois, a partir da invocação do religioso travestem as bandeiras do Evangelho em projetos de lei tornando-as retóricas políticas utilizadas pelos parlamentares evangélicos como instrumento de conversão da Nação brasileira. A meu ver, a FPE agencia sua participação na política brasileira utilizando-se de uma missão política que conecta templo e rua, Igreja e sociedade, sagrado e profano.
116 Durkheim (2003) afirma que todas as religiões são "sistemas de representações", logo, as categorias mais apropriadas para abordar o fenômeno religioso seriam as noções de sagrado e de profano. Apesar de a vida religiosa caracterizar-se pela separação entre um mundo sagrado e outro profano, o autor distingue a natureza dessa separação. Assim, ao analisar as causas dos sistemas de interdições, próprios dos ritos que ordenam os cultos negativos, Durkheim traz à tona a noção de contágio como um mecanismo social próprio do tornar-se sagrado (p. 345). Nesse sentido, o sagrado tende sempre a contagiar o mundo profano, isto é, ele mesmo demonstra a existência dos dois domínios e sua separação intrínseca. Ora, tal distinção seria anterior à constituição do pensamento religioso, uma vez que surge da classificação necessária ao ordenamento da vida social. Do mesmo modo, uma mesma coisa pode ser sagrada ou profana dependendo da posição que ocupa em um determinado mundo.
Logo, se o ritual convencional do culto me causava certa aversão, era naquele espaço de “louvor” e naquele tempo legislativo que a FPE exercia a fusão (união entre os irmãos e filiações e adesões políticas), a repetição (do discurso da missão política dos evangélicos de prover “boas safras” para a Nação) e a rigidez (da crença e do posicionamento a favor da moral e dos bons costumes). Ora, naqueles cultos no legislativo vínculos e relações religiosos e políticos eram criados e recriados. Tornando-se, pois, o tempo e o espaço nos quais os crentes produziam e reproduziam crenças e laços políticos bem como formas de agenciamento entre o mundo espiritual e o mundano. Por isso mesmo, o culto evangélico pode ser analisado enquanto um ritual que transmite valores e conhecimentos, que consolida laços, resolve conflitos e reproduz relações sociais (Peirano, 2003, p. 10). Nesse sentido, o ritual do culto evangélico na Casa do Povo é uma ação eficaz (Peirano, 2003, p. 47), pois, aciona crenças religiosas que constituem a visão de mundo evangélica em contraposição a valores preconizados pela sociedade contemporânea (como a diversidade e o relativismo cultural).
Logo, a metáfora “ser um missionário” no Congresso Nacional, proferida por Pedro Ribeiro, pode ser entendida em dois sentidos. O primeiro versa sobre o comprometimento do crente com a obra de Deus, por exemplo, por meio da continuidade da realização dos cultos. O segundo considera que o exercício da política pelos evangélicos deve se pautar pela luta em prol das “bandeiras do Evangelho”: a vida desde a concepção, a família heterossexual e a extinção de vícios como a pornografia, a pedofilia e as drogas da sociedade brasileira. É nesse sentido que Pr. Pedro Ribeiro trouxe naquele tempo do ritual o discurso acerca do comprometimento dos “missionários da Casa”, no plano da política, com as bandeiras do Evangelho. Deste modo, os deputados deveriam ser “servidores de Cristo” na Casa legislativa atuando não apenas num mundo espiritual, mas também no/para o mundo mundano.
Deste modo, a defesa das bandeiras do Evangelho a partir da participação de evangélicos na política promove o deslizamento da Igreja “fora-do-mundo” (das coisas e bens religiosos) para a Igreja “dentro-do-mundo” (das coisas e bens da política) que, por fim, deságua na Igreja-para-o-mundo: estar no mundo, na política permite que os escolhidos de Deus verbalizem o religioso e promovam a conversão religiosa da Nação. Nesse sentido, a imbricação entre ideologia religiosa e participação política permite que os evangélicos saiam dos muros da Igreja (e dos cultos realizados “dentro” dos templos) e
ocupem o mundo (o “fora”) “invadindo”, por exemplo, o espaço e o “tempo da política”. Assim, os crentes doutrinados numa vida espiritual “dentro-do-mundo-da-igreja” (especialmente durante os cultos) também podem
“entrar no mundo, vencer o mundo, quebrar os laços que o prendem às forças do mal. Para que isso aconteça, deve-se viver intensamente no mundo, embora como se nele não estivesse; e usar todos os momentos do cotidiano para anunciar a vontade de Deus na purificação e transformação dos seres humanos. A partir desta convicção, pastores, obreiros, crentes tornam-se missionários nos desafios do dia-a-dia, onde tudo parece negar as ‘boas novas’ anunciadas nas prédicas, cânticos, orações, na entrega pessoal, no êxtase manifesto pelos dons do Espírito – enfim, em todos os momentos passados dentro do templo” (César & Shaull, 1999. p. 94, Grifos Meus).
Sendo assim, considero que o deslizamento Igreja-fora-do-mundo para Igreja- dentro-do-mundo se revela justamente no ritual litúrgico promovido pela FPE na Casa legislativa, conclamando, deste modo, uma Igreja-para-o-mundo que pressiona regras universais que consideram o Estado republicano como naturalmente “laico”. Logo, a proposta da FPE de “ser missionário de Deus” no Congresso Nacional, na Igreja e no mundo é especialmente permeável ao deslizamento do “tempo da igreja” para o “tempo da política” (e vice-versa) a partir da premissa de que a Igreja deve estar também para o mundo, como lembrou o deputado Henrique Afonso no seminário sobre o PNDH-3
E nós é que temos que ser a boca de Deus, a atitude de Deus onde nós estiverrmos, [...], que nós temos que exercer o nosso poder de influenciar as diversas áreas da sociedade, os diversos segmentos. Que possamos sonhar com o Brasil onde possamos colaborar influenciando na eliminação das injustiças sociais, na diminuição das desigualdades sociais, na... se Deus quiser, um dia nós teremos uma sociedade sem violência, uma sociedade onde possamos ter uma melhor distribuição de renda, onde possamos respeitar as crianças, os idosos nos seus direitos mais sublimes. E o direito à vida, à família e às liberdades que elas sejam asseguradas num país que tem dentro da sua constituição a laicidade sim, mas no seu aspecto republicano e democrático, onde garante as liberdades” (Grifos Meus).
De todo modo, a etnografia ora descrita versa sobre como a FPE agencia formas de politização pentecostal e de sacralização da política. Por isso mesmo considero ainda a relação entre o mundo da política e outras esferas nas quais os políticos profissionais adquirem disposições e competências necessárias às funções de representação política (Canêdo, 2002). Em tais domínios (como o da igreja) há “experiências múltiplas de politização das relações sociais que permitem mediar às relações entre os chamados ‘políticos profissionais’ e a ‘sociedade’” (Damasceno & Duarte, 2009, p. 2).
No caso dos políticos da FPE, as disposições necessárias para participar da política profissionalizada (Canêdo, 2002) vinculam-se às demandas que tratam da promoção de projetos de leis que defendam os bons costumes da família religiosa brasileira. Do mesmo modo, tais projetos propõem a defesa da “vida em si” como uma retórica peculiar a partir da qual estes “políticos profissionais” empreendem e mobilizam sua participação nos meandros do legislativo.
Por outro lado, tais disposições e competências também vinculam o mandato de parlamentares evangélicos a outras filiações como as partidárias, ideológicas, regionais, de classe e os vínculos laborais e trabalhistas. Por isso mesmo, considero que outras “bandeiras” são preconizadas pelos “missionários da Casa legislativa”, especialmente aquelas que pleiteiam a obtenção de recursos (materiais ou imateriais) para a base eleitoral (política e religiosa). Exemplificado no culto etnografado neste capítulo com o pedido do deputado Major Fábio que os irmãos da FPE aderissem a PEC 300.
Nesse sentido, José, secretário da FPE, apontou para a relação entre base ideológica partidária e preceitos da Igreja. Segundo ele, a Igreja evangélica condena quaisquer formas de violência bem como entende que não se pode invadir a propriedade privada. Mas, alguns deputados da FPE – como Walter Pinheiro e Gilmar Machado, petistas – defendem a Reforma Agrária como meio de obtenção de “justiça social”. Ora, explicou José: o deputado crê que “não está roubando nada’, pois “ele é o Estado também, a sociedade é o Estado”. Já a Igreja tem “a visão de que não é do Estado que [a terra] pode ser de um fazendeiro”. Igreja e parlamentar possuem posicionamentos contrários sobre o tema da Reforma Agrária, mas a Igreja não “vai chamar a atenção” do deputado por que ele é a favor do MST “por que ai entra um ponto de vista ideológico que acaba justificando o ato”. Segundo José “o deputado tem “liberdade para pensar assim”, contudo, “ele só não pode nem pegar em armas nem matar, por que ai entra uma questão bíblica”.
Jose Duque ressaltou também que o comprometimento de parlamentares evangélicos com causas ideológicas e pleitos partidários não anula o comprometimento com a doutrina da igreja. Segundo ele, Walter Pinheiro (BA) e Gilmar Machado (MG), petistas e evangélicos, figuram a lista dos “mais assíduos nos cultos da FPE” e são os “deputados mais esquerdistas aqui na Câmara [entretanto] são os deputados que mais conheço o comportamento exemplar”. Deste modo, Walter Pinheiro e Gilmar Machado, reforça José, “já foram de sindicatos, de movimento estudantil”, logo, são “o pessoal da
esquerda mesmo”, mas são “os deputados que mais tem compromisso com a Igreja e com a Bíblia”.
De fato, estes múltiplos vínculos e laços da política operacionalizados pela FPE apontam para os modos pelos quais deputados evangélicos agenciam sua participação na política profissionalizada procurando atender demandas diferenciadas. Por certo, há também conflitos, dissensos, disputas entre doutrina da Igreja e projetos ideológicos do partido político117. Segundo a radiografia do Congresso Nacional realizada pelo DIAP (2011) as frentes parlamentares “perderão espaço na próxima legislatura, especialmente em razão da decisão do Supremo Tribunal Federal que atribui aos partidos à titularidade dos mandatos” (p. 35). Assim, com esta decisão, o parlamentar (então dono do mandato) “agora terá que votar segundo o comando do partido” (idem). O DIAP (2011) entende que tal medida diminui o “poder de barganha das bancadas informais, que ameaçavam votar contra temas estratégicos para o Governo se seus pleitos não fossem atendidos” (idem), pois, “havendo conflito entre o interesse da bancada e a orientação do partido, o parlamentar terá que ficar com esta.” (idem).
Contudo, durante as “atividades da Frente” das quais participei, foram os projetos de lei a “favor da vida” que destacaram a participação da FPE no legislativo no ano de 2010 da 53ª legislatura. Por isso mesmo, projetos de lei a favor da vida tornaram-se temas das notas dos diários de campo e, consequentemente, enredos de minhas etnografias. Por isso, neste capítulo sublinhei como a invocação do religioso por um grupo religioso que se considera ungido por Deus marca uma passagem de um apolitismo para uma ação política cuja missão é reescrever a história do Brasil e que, embora atuante em múltiplas temáticas políticas, inscreve preferências temáticas.
117 Os deputados evangélicos participam ainda de outras Frentes Parlamentares como as chamadas “Bancadas Ruralistas” e “Empresarial”. São membros da “Bancada Ruralista” os seguintes parlamentares pertencentes a FPE na 53ª legislatura: Antonio Bulhões (PRB/SP), Bruno Rodrigues (PSDB/PE), Carlos Willian (PTC/MG), Cleber Verde (PRB/MA), Dr. Adilson Soares (PR/RJ), Eduardo Cunha (PMDB/RJ), Fátima Pelaes (PMDB/AP), Filipe Pereira (PSC/RJ), Geraldo Pudim (PR/RJ), Iris de Araujo (PMDB/GO), Leonardo Quintão (PMDB/MG), LincMnato (PDT/ES), Lincoln Portela (PR/MG), Lindomar Garçon (PV/RO), Manato (PDT/ES), Marcio Marinho (PRB/BA), Mário de Oliveira (PSC/MG), Neilton Mulin (PR/RJ), Onyx Lorenzoni (DEM/RS), Paulo Roberto (PTB/RS), Sabino Castelo Branco (PTB/AM), Silas Brasileiro (PMDB/MG), Takayama (PSC/PR), Zequinha Marinho (PSC/PA), Senador Magno Malta (PR/ES). Disponível em http://www.fpagropecuaria.com.br/institucional/composicao acesso em 24 de março de 2011.