(1997a, p. 177) afirma que ele se ocupou de investigar os impasses vividos por uma sociedade em fase de transição do tradicional para o moderno mediante o estudo das relações raciais entre brancos e negros no Rio de Janeiro. O autor argumenta que a investigação de Costa Pinto representa um esforço de afirmação da sociologia como ciência capaz de interpretar o quadro de tensões sociais vividas no Brasil, naquela época e para isso, o cientista social se contrapõe aos estudos etnográficos, antropológicos e históricos, que a seu ver, estariam comprometidos como o modelo tradicional de relações sociais. MAIO.(1997, p.177).
Segundo o autor, o artigo “Sobre as Classes Sociais” de 1946 e a resenha do livro de Mário Filho “O negro no Futebol Brasileiro” marcam as primeiras preocupações do autor com a questão das relações raciais. Nestes dois trabalhos já estaria expressa a tendência do autor de identificar linha de cor com linha de classes. Especificamente na resenha, MAIO (1997a) destaca que já verifica alguns elementos que seriam recorrentes na pesquisa posterior do sociólogo, ou seja, relações raciais subsumidas à luta de classes; a crítica à ideologia da democracia racial e o estudo ecológico da cidade do Rio de Janeiro a partir das relações sociais.
Na pesquisa feita sob o patrocínio da UNESCO, Costa Pinto, segundo MAIO (1997a, p.185), analisa as relações raciais no antigo Distrito Federal a partir do desenvolvimento tenso e contraditório do capitalismo no Brasil, visto pelo enfoque da transição tradicional para o moderno. O estudo está voltado especialmente para a dinâmica urbano-industrial, acelerada após a Primeira Guerra Mundial e, particularmente, com a Revolução de 30. Neste sentido, a questão racial seria um indicador preciso do processo de mudança social em curso.
Segundo o autor, na primeira parte do livro ele delimita seu objeto de estudo dialogando com a literatura existente sobre o tema e inspirado em Sérgio Buarque de Holanda questionando o enfoque do negro como “espetáculo” para poder afirmar que a investigação das relações raciais se constituíriam em um instrumento privilegiado para a inteligibidade dos impasses, dos obstáculos e dos processos de mudança social que estariam ocorrendo na sociedade.
Realmente percebe-se esta preocupação do autor quando ele pontua que até aquele momento os estudos se concentravam em coletar material etnográfico,
especialmente o que há de bizarro, exótico e diferente neste processo, encarando o negro como ‘espetáculo’. Segundo o autor, o centro do interesse estava localizado na assimilação dos africanos ao Novo Mundo, ou mais particularmente, nos produtos desses processos em diversos setores da vida brasileira: religião, língua, culinária, vestuário e música.
Costa Pinto apresenta os indicadores demográficos, ecológicos e educacionais para confirmar as disparidades existentes na cidade e, em seguida, se atém aos estereótipos em relação ao negro colocando em questão a ideologia de democracia racial para, finalmente, dedicar-se aos movimentos sociais negros.
Ele utiliza dados censitários compreendidos entre 1872 e 1940 para traçar um perfil étnico do Brasil, mostra que existe uma tendência ao branqueamento da população nos últimos setenta anos, o que seria explicado pela miscigenação estrangeira ocorrida na passagem do século XIX para o XX, pela alta taxa de mortalidade entre pardos e negros e, por último, a miscigenação que vem ocorrendo historicamente na sociedade brasileira.
Segundo MAIO (1997a), Costa Pinto no que tange ao perfil demográfico da população por cor e sexo, registra a prevalência das mulheres no universo populacional de negros e pardos, conseqüência da menor expectativa de vida dos homens de cor e da elevada participação das mulheres não-brancas no contingente de migrantes atraídos para o Rio de Janeiro.
Em síntese, “procura mostrar, de modo recorrente, que a dinâmica demográfica na antiga capital federal estabeleceria uma distinção entre fatores étnicos e sociológicos”. MAIO (1997a p.188).
No capítulo sobre estratificação social, ela formula de maneira mais substancial sua tese da ascendência da classe sobre a raça, uma vez que neste capítulo a análise da estratificação social elaborada pelo sociólogo tem por objetivo revelar de modo abrangente as distintas posições sociais, por conseguinte, raciais da estrutura capitalista vigente na época.
De fato, podemos perceber nesta parte do texto que é recorrente a tentativa de Pinto evidenciar que existe uma desvantagem dos negros em relação aos
de cor no Distrito Federal nos últimos setenta anos de mobilidade social”. PINTO (1998, p.114).
Segundo MAIO (1997a), em síntese, pode-se perceber na leitura de Costa Pinto uma situação de desvantagem dos negros em relação aos brancos no sistema ocupacional, educacional e espacial. Há também a percepção de que o preconceito racial adquire mais visibilidade quando ocorre um processo de mudança social e evidencia a existência de uma série de estereótipos especialmente quanto ao mulato que, além de possuir um status marginal, é considerado ambíguo.
Na última parte da pesquisa analisa os movimentos negros brasileiros, denotando a eles um caráter elitista que a despeito do seu afã de representar o negro em geral, limita-se a contemplar os intentos e as mazelas vividas pelos negros de classe média “duplamente asfixiado por sua condição de raça e de classe”. Segundo MAIO (1998, p.146), “a constituição de movimentos sociais de corte racial revelaria a“falsa consciência” do negro que conseguiu escapar à proletarização”.
Em relação à resolução da problemática assinalada por Costa Pinto, MAIO assinala que para ele a conscientização de classe poderia apontar para mudanças rumo á superação do problema racial.
“O negro proletarizado, assumindo aos poucos a consciência do seu lugar na história seria um ator fundamental no processo de mudança social, de caráter universal. Costa Pinto analisa os limites da ação política da ‘elite negra’ que não consegue discernir a diferença entre a aparência étnica e a essência de classe de sua condição social, permanecendo, assim, isolada”.MAIO(1997a, p.196).
Para MAIO (1997a, p.196), o sociólogo entende que a tomada de consciência de classe do “negro-massa”, como força inserida no proletariado, a partir do desenvolvimento da organização social capitalista, levaria ou a um agravamento da luta de classes sem solução de imediato e assumindo possivelmente uma feição étnica, ou à superação do próprio capitalismo, que cancelaria de vez as bases de sustentação das desigualdades sociais e, por conseguinte, da discriminação no país.
sintonia com os contextos políticos nacional e internacional que indicariam diversas mudanças rumo à superação do problema racial em escala mundial; que o negro proletarizado, assumindo aos poucos a consciência do seu lugar na história, seria autor fundamental no processo de mudança social, de caráter universal.
“Nesse caso, guardando as especificidades da realidade brasileira, Costa Pinto entende que a tomada de consciência de classe da ‘massa negra’, como força inserida no proletariado, a partir da continuação da modernização capitalista, levaria ou a um agravamento não da questão étnica, mas da luta de classes sem solução de imediato e assumindo possivelmente uma feição étnica, ou à superação do próprio capitalismo, que cancelaria de vez as bases de sustentação das desigualdades sociais e, por conseguinte, a discriminação racial no país”. MAIO (1997b, p.147).
Para MAIO (1997b), em se tratando de soluções para a situação do negro brasileiro, Costa Pinto vislumbrava a eliminação da discriminação racial a partir de mudanças estruturais na sociedade, transformações que seriam guiadas pelo proletariado que teria uma inserção fundamental no sistema capitalista. Ele acreditava no potencial revolucionário de classe operária que, por ser constituída em grande número por negros, cancelaria não só os problemas classistas, mas também os raciais e que o processo de integração do negro à sociedade seria uma tarefa do “negro-proletário”, universal, que para ascender necessitaria superar todas as barreiras étnicas e, principalmente, sociais, para sua integração de fato à sociedade brasileira.
Para FIGUEREDO (1999, p.111), Costa Pinto propõe uma abordagem que atribuía ao “traço étnico” o valor que realmente tem, sem hipertrofiá-lo, nem diminuí-lo. Propõe, portanto, uma nova interpretação acerca da realidade dos negros, que não seja marcada pelo que lhes separa do branco, ao contrário, o autor demonstra a importância de estudar os negros que estão inseridos na sociedade de classe, ressaltando as barreiras encontradas no processo de ascensão.
nada mais era que a aparência formal em que começara a se manifestar o conflito próprio das sociedades industriais: a luta de classes.
4- FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: O NEGRO NA SOCIEDADE DE