Ao longo do tempo, a Espiritualidade manifestou-se em primeiro lugar no imaginário popular, porém, nos últimos tempos a ciência a desacreditou em muitos sentidos. Se nesse momento a Espiritualidade deseja tornar-se evidente nas mentes humanas será preciso superar a força da razão científica que implantou no ser humano que a Criação não é um dom de Deus e nem habitada por outros deuses como se compreende desde os primórdios da civilização humana.
O fenômeno humano que constitui um momento sagrado na história do pensamento do século XX, quando ele revela que o homem nasceu da Terra, e sua vida avança a partir da consciência humana que traça a verdadeira trajetória do universo através do tempo, onde o cristianismo aos olhos de Teilhard de Chardin significa um phylum de amor na natureza, a ciência reforça que a descendência do Homem a partir dos primatas prevalece sobre o Gênesis como argumenta Charles Darwin.
345 Tradução nossa de “La espiritualidad ignaciana, como otras muchas espiritualidades de la Edad Moderna, tiene
dos vertientes fundamentales: la oración y el apostolado; y un centro, corazón o cúspide absoluta: la persona de Jesús, el Cristo, Rostro humano de un Dios, que es Amor y Misericordia insondables. Estos tres temas fueron decisivos en la vida y en la obra de Teilhard de Chardin”. GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luiz. Pierre Teilhard de Chardin (1981-1955): Um jesuíta científico, filósofo y místico”, pp. 381-396, Manresa vol. 85, n. 337, 2013.
Como a Religião e a Espiritualidade são vistas como duas manifestações distintas, é importante perceber que o que está acontecendo é a perda da religiosidade e não o despertar da consciência que foi inspirado por vários mestres como Buda, Jesus e tantos outros que propuseram profundas percepções de que há uma supremacia do transcendente sobre a misteriosa e invisível sensação da realidade da vida. É preciso olhar para dentro de si mesmo para contemplar o esplendor da riqueza espiritual, a verdadeira fonte do progresso humano, uma promessa que a religião deixou no passado e foi gradualmente ocupada pela ciência moderna, que mostrou um admirável mundo cheio de novidades sem a necessidade de envolvimento com crendices em um universo invisível. O essencial no momento é o verdadeiro conhecimento de si mesmo, o trunfo para enfrentar as agruras da nova sociedade em harmonia com as pesquisas científicas que revelam a cada dia uma nova catástrofe como também uma inovação na conquista da longevidade, tornando a convivência planetária livre dos tormentos impostos pelas crenças no Deus desconhecido. Porém, é de suma importância lembrar que a moralidade não é de responsabilidade da ciência, mas sim do bom discernimento do ser humano, que “perdeu o sentido de reverência e sua humildade perante Deus, da mesma forma que a ciência. Juntos encaram cada vez mais a natureza como uma força que devemos conquistar e a que devemos nos opor, desvelando seus segredos em benefício da humanidade”347.
Apesar desta concepção, pesquisadores cientistas têm se ocupado com experiências espirituais como formas da realidade psíquica. Para isso eles têm se apropriado de métodos consagrados nas suas investigações, porque têm observado que “os seres humanos são uma forma de consciência encarnada, capaz de se orientar para fora e para dentro de si mesmo”348,
o que para C. G. Jung tem um significado cósmico, porque nele o universo reconhece a si mesmo; o ser humano existe para que o “Criador se torne consciente de sua criação e o ser humano de si mesmo”349.
No pensamento de Deepak Chopra, a Espiritualidade tem a força para eliminar os desastres da natureza, porque ela atua através da consciência, que em sua maneira de raciocinar, a ciência está buscando se resgatar de si mesma, porque o ser humano possui a sabedoria interior. Ele então lembra que muitos sábios de outrora como Jesus, Buda e outros eram também cientistas. Eles “tinham uma maneira de chegar ao conhecimento que corre em paralelo à
347 CHOPRA, Deepak.; MLODINOW, Leonard. Ciência x Espiritualidade: dois pensadores, duas visões de mundo,
2012, p. 19.
348 JUNG, C. G. Espiritualidade e transcendência, 2015, p. 15. 349 Ibidem, pp. 15-23.
ciência moderna, através de uma hipótese espiritual que para ele desde milhares de anos, pode ser fracionada, e dentre elas a inteligência, a criatividade e o poder de organização estão entrelaçados no cosmo”350.
Conforme Leonardo Boff, Max Planck, o formulador da teoria quântica, interpreta que “a ciência não pode resolver o mistério derradeiro da natureza, porque, em última análise, nós próprios somos parte da natureza e, consequentemente, do mistério que procuramos desvendar”351.
No conceito de Leonardo Boff,
Hoje, mais e mais cientistas, sábios e místicos encontram-se no assombro e na veneração em face do universo. Ambos sabem que nascem de uma mesma experiência de base. Ambos apontam para a mesma direção: para o mistério da realidade, conhecida racionalmente pela ciência e experimentada emocionalmente pela espiritualidade e pela mística. Tudo converge no nome d’Aquele que é sem nome: Deus352.
Leonardo Boff também ressalta que em 1933, Teilhard de Chardin explicitou de maneira profética que “a idade das nações já passou. Se não quisermos morrer, é a hora de sacudir os velhos preconceitos e de construir a Terra... A Terra não se tornará consciente de si mesma através de qualquer outro meio, senão da crise de conversão e de transformação”353.
É fato que o amor, a verdade, a ordem e a razão fazem parte da estrutura humana a partir de uma realidade Absoluta. Desde as filosofias antigas, conhecidas há mais de cinco mil anos, denota-se que esta realidade superior continua impregnada no ser humano atual. Esse Deus que permeia todas as tradições de sabedoria também permeia todo o planeta Terra, onde, segundo Einstein, matéria e energia são dois aspectos de uma mesma realidade354.
Entretanto, Leonard compreende que a Terra e os seres que nela habitam são fenômenos naturais, surgidos a partir de leis da física e que a espécie humana surgiu de outras espécies em um universo com variedades e possibilidades quase infinitas, mas que o homem pode se envolver em espetaculares processos da razão e do pensamento chamado ciência. Este é o
350 CHOPRA, Deepak.; MLODINOW, Leonard. Ciência x Espiritualidade: dois pensadores, duas visões de mundo,
2012, p. 20.
351 BOFF, Leonardo. Ética da vida. Brasília: Letraviva, 1999, p. 149. 352 Ibidem, pp. 150-151.
353 Ibidem, p. 199. 354 Ibidem, p. 139.
triunfo da humanidade. Ele ainda observa que a espiritualidade é apenas uma ilusão para oferecer perspectivas sobre a natureza do universo355.
No momento de descrença que a humanidade sofreu, a espiritualidade sobreviveu perante o declínio da fé, porque realidade é algo permanente. Por isso ela tem a capacidade de lidar com as difíceis questões cotidianas implantadas pelas pesquisas científicas no decorrer dos últimos séculos, porque o importante não é a religião, mas sim a jornada interior do ser humano face à ciência que ainda não atingiu uma objetividade pura. Portanto, continua impossível negar o valor da experiência subjetiva, o grande Mistério universal.
“Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, mais certo me parece que o caminho genuíno da religiosidade não reside no medo da vida, no medo da morte ou na fé cega, mas passa pela luta em prol do conhecimento racional”, diz Albert Einstein356.