Já Lakoff (1987) ao explanar a metaforização ou conceptualização metafórica que se realiza entre espaços mentais e modelos cognitivos que estruturam esses espaços rejeita a possibilidade icónica de qualquer correspondência dos símbolos com os objectos do mundo real.
No entanto, esses espaços mentais têm uma base experiencial e dependem de estruturas cognitivas. A estrutura desses modelos cognitivos assenta em esquemas imagéticos decorrentes da experiência física com o corpo, como por exemplo: o esquema do CONTENTOR, o esquema da TRAJECTÓRIA, o esquema da LIGAÇÃO, o esquema PARTE-TODO, o esquema CENTRO-PERIFERIA, o esquema CIMA- BAIXO, o esquema FRENTE-TRÁS; que estruturam todo o pensamento metafórico e que são o resultado da corporização da experiência.
Também Lakoff (1987) partilha do postulado que define esta abordagem em semântica cognitiva como uma filosofia de realismo experiencial, onde a interacção humana com o meio exterior é caracterizada pela gestalt / percepção, a imagem mental e o movimento motor.
Os esquemas imagéticos enquanto conceptualização e corporização do pensamento são eles próprios esquemas cinéticos que possuem uma energia potencial (Johnson, 1987): o esquema do contentor com as respectivas orientações interior+limite+exterior e o esquema da trajectória caracterizado pelo ponto de partida ou origem e o ponto de chegada ou alvo, o trajecto percorrido visto na relação perto+longe, desde domínios mais concretos espaciais até domínios mais abstractos, elaborando estados em locais físicos (estes dois esquemas surgem frequentemente associados).
O modo como a língua estrutura domínios físicos da experiência concreta em domínios abstractos de categorias emocionais, define a experiência perceptiva e
sensorio-motora e as imagens mentais, fixando o significado no corpo humano como o centro organizador da realidade:
“We consider ourselves to be at the centre of the universe, and everything around us is seen from our point of view. This egocentric view of the world also shows in our use of language.” (Dirven e Verspoor, 1998: 5).
Mais, Brandt (1995: 143 e ss.) marca os diferentes níveis da metáfora do seguinte modo:27
1) As metáforas reflectem duplas representações ao nível icónico. No exemplo,
Ele parece um macaco aos saltos, um dos ícones tem como referência o alvo da
conceptualização metafórica, i.e., ele, o outro ícone é o domínio fonte (o comportamento genérico dos macacos) e não apresenta semanticamente qualquer referência.
2) As metáforas são motivadas, i.e., contém uma informação ímplicita. O conteúdo implícito e a figura explicita representam semanticamente o estado emocional, neste caso a agitação ou irrequietude.
3) As metáforas são ocasionais, no sentido em que realçam uma circunstância referencial específica, i.e., os macacos nem sempre estão aos saltos; portanto, o domínio alvo nem sempre reporta o conteúdo da expressão metafórica.
4) As metáforas têm significados genéricos, i.e., os macacos saltam, donde o mapeamento metafórico do domínio fonte para o domínio alvo é semanticamente estável. Por outro lado, as comparações explícitas, por que são semanticamente instáveis apresentam uma relação predicativa, a qual estabelece a relação entre a fonte e o alvo: Ele salta como um macaco.
5) A figura ou imagem metafórica não pertence directamente ao domínio alvo, antes estabelece a relação ou ligação entre os dois domínios da experiência. Este elo conceptual tem por base uma relação de semelhança ou analogia.
Conferimos que alguns pressupostos do paradigma cognitivo já tinham sido registados por outros autores, designadamente na área da linguística. Por exemplo, a capacidade de analogia enquanto base do processo metafórico já tinha sido referida por Bréal (1924), ao lançar tópicos que constituem as bases do
pensamento cognitivista. De facto, o espírito28 humano possui essa capacidade de associar ideias por grupos, a que chamamos conceptualização/ categorização; a analogia é o próprio motor da linguagem, ela não ocorre ao acaso, mas tem um fundamento inserido na própria razão:
“Le langage nous révèle ici un fait de psychologie: l’esprit, qui associe volontiers les idées par couples, aime à souder entre eux les contraires, en leur donnant même extérieur. En même temps que cela aide la mémoire, cela donne plus de relief à la parole.’Rien n’est plus naturel, dit le philosophe anglais Bain, quand nous considérons une qualité, que la disposition à retourner à l’autre qualité, qui en fait le contraste’.” (Bréal, 1924: 68).
E ainda:
“l’Analogie […] elle est, au contraire, au service de la raison, raison un peu courte, un peu dénuée de mémoire, mais qui n’en est pas moins le vrai et nécessaire moteur du langage.” (Bréal, 1924: 76).
A analogia decorre das capacidades cognitivas humanas de produzir a linguagem29:
“Mais c’est grâce à l’analogie que l’enfant, sans apprendre l’un après l’autre tous les mots de la langue, sans être obligé de les essayer un à un, s’en rend maître dans un temps relativement court. C’est grâce à elle que nous sommes sûrs d’être compris, même s’il nous arrive de créer un mot nouveau. Il faut donc regarder l’analogie comme une condition primordiale de tout langage si elle a été une source de clarté et de fécondité.”. (Bréal, 1924: 78).
Continuando a análise do significado, o autor defende a tese cognitivista, segundo a qual a estrutura conceptual é independente dos sistemas das línguas. Na realidade, ao compararmos diversas línguas, verificamos que existe uma capacidade conceptual única manifesta na estrutura linguística, nomeadamente na sua lexicografia (classes abertas e fechadas de palavras) e na sua morfologia (classes fechadas de palavras), manifestando uma estrutura conceptual que expressa o conteúdo semântico.
Este facto vem atestar a existência de um vínculo entre a estrutura e o conteúdo, presente em esquemas que determinam o próprio significado:30
28 Entenda-se “espírito” ou “Geist” como “mental” ou “conceptual”.
29 Não apresentamos aqui qualquer terminologia estruturalista. Aliás, o próprio Bréal
também se manteve um pouco à parte do pensamento estruturalista.
30
É por isso que, por exemplo, a tradução entre diversas línguas é possível, apesar das diferenças na morfologia e na gramática. Portanto, a natureza do significado é de ordem conceptual, está na mente dos indivíduos.
“Cognitive research leads to the assumption that conceptual structure does not ontologically dependo n linguistic manifestation (as the Sapir-Whorf culturalism would assume. Conceptual structure rather depends on general neural evolution and prepares the formal ground for iconic representations whether expressed grammatically by language(s) or by other semiotic means, such as drawing or gestures, or apparently not systematically expressed at all, but still at work in the spontaneous understanding of situations (only externalized, for instance, by sporadic grunting).” (Brandt, 1995: 147- 148).
Conforme esta perspectiva, a estrutura do significado tem um motivo icónico fundado em esquemas conceptuais, os quais determinam que as representações icónicas organizem os diversos contextos verbais e não-verbais a partir de representações e princípios estruturais organizados a priori pelo aparelho cognitivo em modelos narrativos, argumentativos e descritivos.
Esta natureza intencional do significado, presente nas suas estruturas e na própria conceptualização, é apresentada como se segue:
“They are considered as structures of meaning, generally pre-intentional, but present in interpretive consciousness as it decodes intentional expressions, which do not only denote free thinking, but also connote these structurally bound, pre-intentional patterns, or image schemas.” (Brandt, 1995: 145).
Novamente, encontramos noutros cognitivistas, por exemplo Johnson (1987), este princípio esquemático fundamental na morfologia do significado.
Efectivamente, um esquema é um modelo e uma forma recorrentes na organização da experiência que se situa ao nível das operações cognitivas permitindo “ a generality that raises them [schemata] a level above the specificity of particular rich images.” (Johnson, 1987: 24), e contendo características estruturais resultantes da manipulação dos objectos, das acções, da percepção e do movimento, consistindo num pequeno número de partes e relações necessárias à interacção e reconhecimento no mundo.
O esquema imagético é caracterizado como gestalt na nossa experiência e cognição, pois é um todo coeso, coerente e com significado que delimita a nossa interacção com o meio.
O contentor é uma conceptualização numa lógica espacial, conceptualizando as categorias através duma metáfora espacial que denota uma estrutura hierárquica das categorias desde os protótipos conceptuais até às suas extensões.
Estar dentro de alguma coisa é uma estrutura recorrente na organização da nossa experiência, assente numa base de orientação e localização decorrente do contacto com o espaço prototipicamente tridimensional.
A orientação física dentro+fora, i.e. a experiência do contentor contém implicaturas ou consequências – separação, limite, resistência e protecção de forças externas – actuando como conceptualizações impostas ao espaço. As construções subjacentes ao esquema orientacional do ‘contentor’, dentro+for a, podem ser espaciais (físicas), temporais ou metafóricas, estruturando-se estas por analogia ao protótipo e como extensões ao mesmo, partindo-se de dimensões físicas/ espaciais para dimensões abstractas, devendo-se distinguir um esquema puramente físico de um puramente conceptual.
Um outro esquema recorrente na nossa interacção experiencial é o esquema imagético da trajectória, o qual surge muitas vezes associado ao do contentor e da ligação.
Fig. 2- Esquema imagético da trajectória.
Este esquema tem uma estrutura interna que consiste num ponto de partida ou origem, num ponto de chegada ou alvo e o trajecto (sequência de acções contíguas) entre eles, situando-se quer ao nível físico, quer ao nível da percepção corporal e do movimento. Ao situar-se em domínios mais abstractos que marcam a nossa relação com
o mundo físico, por exemplo, o domínio psicológico, a conceptualização é marcada em termos de movimento no espaço, ou transformações como movimento de um ponto para outro em relação ao contentor/ corpo.
O esquema da ligação faz activar também o do contacto (podendo ser associado ao da trajectória pelo movimento realizado por duas entidades até se tocarem, ligarem), resulta das nossas capacidades perceptivas em interacção com o meio envolvente, desde as nossas relações físicas umbilicais, relações familiares, institucionais, etc., que determinam a nossa identidade na comunidade.
A estrutura interna prototípica do esquema da ligação/ contacto consiste em duas entidades ligadas por uma estrutura numa relação de contiguidade espacial no nosso campo perceptivo. Há casos em que estas relações podem envolver mais entidades relacionadas no espaço ou no tempo, por exemplo descontinuamente.
Fig. 3- Esquema imagético da ligação.
Johnson31 distingue cinco tipos de ligações:
(1) Ligações entre objectos físicos
Resultam da nossa experiência quotidiana de ligação com as coisas e das coisas entre si numa contiguidade espacial – uma criança dá (segura) a mão ao pai, uma ficha e uma tomada.
(2) Ligações temporais
Não se trata aqui duma ligação física. Por exemplo, acontecimentos estão ligados porque os experienciamos numa contiguidade e sequência temporal.
(3) Ligações causais
Compreendemos o nosso mundo como um espaço coerente, ligado em redes causais (networks) que lhe dão consistência.
(4) Ligações funcionais
Estabelecem-se indirectamente entre as entidades dentro de uma unidade funcional, criando ligações de interdependência fundamentais para o funcionamento da unidade.
As projecções metafóricas que têm como base o esquema da ligação/ contacto partilham características que nos são perceptivas pela semelhança, e entre as quais poderá existir contacto físico, activando o esquema do contacto.
Johnson dá uma definição da interpretação metafórica do esquema da ligação:
“Two or more objects might be related, for instance, by sharing the abstract metaphorical link of ‘solubility’ or ‘compressibility’”. (Johnson, 1987: 119).
Brandt acrescenta ainda que, a noção da metáfora enquanto instrumento conceptual firma-se na condição intencional da dupla imagem e no seu mapeamento realizado por meio de uma operação cognitiva que é a analogia:
“What makes metaphors so philosophically attractive is their intentional double icon and mapping, but even intentional mapping relies on pre-intentional, schematic structures guiding its analogical evidence. Analogies must have formal causes.” (MM, 145).
A capacidade de analogia da cognição humana, i.e., a associação entre domínios diferentes da experiência humana na compreensão de certos conceitos, deve-se ao potencial criativo e imaginativo da metáfora. A metáfora contribui para a organização coerente da nossa experiência, estruturando o próprio pensamento. Este facto deve-se à capacidade criativa do pensamento abstracto:
“[…] perhaps the most impressive of the powers of metaphorical thought: the power to create, with naturalness and ease.” (Lakoff/Turner, 1998: 80).
Já em Weinrich podemos antever este aspecto da metáfora como instrumento criativo. Tal como na teoria cognitiva, a metáfora não consiste numa representação
objectiva da realidade mas antes num instrumento criativo de interpretação da realidade, criando analogias e correspondências com o mundo fenomenológico:
“[...] unsere Metaphern gar nicht, wie die alte Metaphorik wahrhaben wollte, reale oder vorgedachte Gemeinsamkeiten abbilden, sondern daβ sie ihre Analogien erst stiften, ihre Korrespondenzen erst schaffen und somit demiurgische Werkzeuge sind.” (1976: 309).
É este aspecto criativo da metáfora que a torna num sistema sincrónico aberto de associações linguísticas do quotidiano ou da literatura, que permite a introdução ao nível diacrónico de novas expressões linguísticas metafóricas num campo conceptual (Bildfeld):
“Man kann diese Metaphern geradezu parallel verschieben und erhält auf diese Weise neue Metaphern, die uns entweder aus der Umgangssprache bekannt sind oder aber bei der Lektüre auf Schritt und Tritt begegnen, so daβ wir oft gar nicht recht sagen, können ob wir sie nun schon gehört haben oder nicht [...]” (1976: 280).
Portanto, Weinrich define alguns princípios linguísticos da metáfora que encontram eco na teoria cognitiva, uma vez que um dos postulados principais consiste na ubiquidade da mesma, ou seja, a metáfora abarca todas as formas de construção linguística:
“Es soll daher im folgenden der Versuch gemacht werden, zugleich mit der Einzeluntersuchung in Grundzügen eine Methodologie der Metaphernlehre zu entwickeln. Ich verwende dabei den Begriff Metapher, dem Sprachgebrauch der modernen Metaphernforschung folgend, in seiner weitesten Bedeutung für alle Formen des sprachlichen Bildes.” (1976: 277).