Este tema é um dos mais explorados no universo do boi bumbá de Parintins e demonstra como a figura do caboclo e do índio sobrepuseram o negro do tradicional auto do boi. A ascensão destes dois elementos indica, claramente, que o boi-bumbá de Parintins é totalmente autônomo em relação ao seu “ancestral”, o bumba meu boi do Maranhão.
As toadas que tratam sobre o caboclo giram em torno de seus afazeres cotidianos, de sua relação com a natureza e como esta lhe garante o sustento da família, das dificuldades inerentes a viver na Amazônia, mas também das alegrias que a vida simples lhe traz. Em se tratando do índio, as composições abordam os “rituais [...], religiosidade (principalmente sobre xamanismo, ação de feiticeiro e divindades), abordagem de grupos específicos” (SILVA, 2007, p. 80).
A bela toada “Juteiro da Amazônia” é bom exemplo sobre o modo de vida do caboclo ribeirinho e a sua relação com a natureza:
Eu sou caboclo ribeirinho Eu sou juteiro,
Agricultor das barrancas desse rio.
Cada gota de suor nessa várzea derramada Vem da fibra, planto fibra pra família sustentar. Tenho fé, nossa senhora, que a safra vai ser boa. Regatão trouxe a notícia que a enchente vai chegar. Sou juteiro da Amazônia,
Amazônia é meu lar
Meu compadre, planto juta pra família sustentar. [...]
Sou agricultor diferente, só planto quando o rio seca E vivo da pesca quando o rio enche
Rema Maria, ta forte o banzeiro Que ta garantido o nosso lugar De Catirina, de índio ou vaqueiro Que o saldo da juta no boi vou gastar.
(Juteiro da Amazônia, de Tony Medeiros e Paulo Medeiros, Garantido, 2013).
Nos chamados “beiradões” da Amazônia, a medicina tradicional, nem sempre, é a opção disponível; neste contexto, o saber local se faz presente e necessário. Na toada “Cabocla”, as tradicionais parteiras e benzedeiras são retratadas de forma poética:
O céu estrelado ilumina a vida no remanso Azul da imensidão
Erveira cabocla, teu dom é sagrado Santa aclamada pelos beiradões
Nas tuas mãos o quebranto perde o encanto Milagrosa mulher, milagrosa parteira
Milagrosa erveira da Amazônia.
(Cabocla, de Alder Oliveira e Marcos Lima, Caprichoso, 2012).
Na toada “O Regatão”, um dos personagens mais importantes da Amazônia é lembrado. O regatão é um pequeno comerciante que adentra os rios, levando mercadorias para vender, comprar ou trocar nas comunidades amazônicas. Na toada a seguir, pode-se perceber a importância que estes atores têm para os caboclos:
É dia de troca no beiradão.
Vem lá da cidade mais um regatão Trazendo produtos pras comunidades Mas amigos, amigos o negócio é a parte. Quero farinha, quero tucupi
Pé-de-moleque e o piracuí Quero levar tucumã e cará A tapioca pro tacacá
Olha seu moço venho lhe oferecer De tudo um pouco basta só escolher Tem pro roçado terçado
Sal grosso pro gado Pra pesca tem o arpão Tem querosene pro candeeiro Tem corda pro laço vaqueiro Tenho jabá pro gostoso feijão
Sabão e remédio, também tem café Venho pra negociar com quem quiser
Vai o regatão nobre aventureiro dessa região
Leva no rosto um sorriso por ter Garantido a negociação Vai o regatão nobre aventureiro dessa região
A cada viagem cumprida em louvor agradece A São Pedro santo protetor
Padroeiro da navegação Vai regatão.
(O Regatão, Marlon Brandão e Rozinaldo Carneiro, Garantido, 2006).
Quanto ao índio, as toadas não deixam por menos, são inúmeras as canções que citam o índio direta e indiretamente, de forma que o tema é central no Festival Folclórico. Há até itens para avaliação e sobre os quais os jurados devem atribuir nota, que são relacionados ao elemento indígena, como o “ritual indígena”. A toada “Ritual dos Parintintin”, em 2013, foi muito importante durante a apresentação do boi Garantido, eis a letra da canção:
Parintintin tem a pele vermelha Parintintin tem a alma guerreira Quando o sol abraçou a lua cheia
Flechas inimigas envenenaram os parintintins O tempo adormeceu
A cerração pairou na aldeia
Surgiu levitando de um casulo o curandeiro Ipají Êxtase onírico, viagem à maloca tridimensional
Eu vi mulheres peixes, vi homens-serpentes, pássaros híbridos no além Senti o meu espírito sair do corpo em chamas, vi arvores caídas levantarem Onças com ferrão de escorpião
E bichos em transmutação
O fogo! O fogo primitivo de Baíra vem iluminar O sopro do espírito sagrado vem curar
O retorno ao corpo que balança maracás A dança dos tempos de guerra dos ancestrais Erguei a cabeça dos espíritos!
Ritual dos Parintin! Ritual dos Parintin!
(Ritual dos Parintintin, de Geandro Pantoja e Demetrius Haidos, Garantido, 2013).
Enquanto alguns rituais convocam os índios à guerra, outros são pacíficos, como é o caso do ritual de nominação das crianças do povo Maraguá, que habita a região do Rio Abacaxis, entre os municípios de Nova Olinda do Norte e Borba, no Amazonas. O ritual Maraguá é descrito na toada “Ritual Urutopiãg Maraguá”:
Maraguánáwas do rio Guarinamã Clãs da onça, do gavião, do poraquê, Da vespa, da cobra e do boto
É chegada a hora da consagração
Angawaçús se revelam na fumaça do tawary Confinados no encontro Maraguapajy Curumins e cunhatãs no rito de nominação Quando os olhos se fecham, Guakap silencia. [...]
Clavas sagradas ornamentam o terreiro É noite de festa, abrasam fogueiras Alaridos e danças reverenciam Mõdagará Malyçakaka abençoa os filhos de Monãg.
(Ritual Urotopiãg Maraguá, de Gerlean Brasil, Caprichoso, 2014).
O universo indígena é vastíssimo, mas dois elementos se destacam, a saber os ritos de passagem e a relação que os índios têm com a natureza e os seres que a habitam. A seguir serão expostos trechos de duas toadas, a primeira refere-se ao rito de passagem pelo qual passam os guerreiros Munduruku; na segunda, a invocação da lenda Amazônica, Mapinguari:
À iniciação do guerreiro Marupiara Se unem ao rito os Munduruku,
Os Mura, os Parintintin, Os Sateré-Mawé. Na viagem aos caminhos da morte A força e a coragem pra se libertar Para o jovem guerreiro,
Só a sorte não basta pra se consagrar.
Ó pajé me dê força pra coragem não me faltar,
Me liberta do medo, me revela os segredos pra consagração [...]
No remanso das piranhas, na maloca dos espíritos A coragem não faltará.
Na toca das tucandeiras, no nicho do jaguar A coragem não faltará
No temido serpentário, na cachoeira do inferno Na praia do jacaré, a coragem não faltará! Marupiara! Honras e glórias ao novo guerreiro!
(Marupiara-Iniciação Munduruku, de Enéas Dias e Aldson Leão, Garantido, 2013).
Tambores ecoam
Avança a gigante criatura Suas pegadas estrondam
A voz de trovão ressoa no vale da escuridão A fera vem marchando
Castigando aqueles que ousam caçar Vem conduzindo os bichos, sua legião Para os filhos da selva és o guardião A mãe da mata guiará sob a névoa do luar Mapinguari, Mapinguari
Enviado por Jurupari
(O Gigante Mapinguari, de Demétrios Haidos e Naferson Cruz, Garantido, 2013).