III) WENO Schemes with Adaptive Order (WENO-AO)
III.1) Fifth Order WENO Scheme with Adaptive Order – WENO-AO(5,3)
Já há algum tempo, o argumento do combate à fome vem sendo apresentado para justificar uma necessidade de aumento na produção de alimentos. O cená- rio de uma crescente população e o número de pessoas atingidas pela fome são apresentados como justificativa para a introdução do “progresso tecnológico” na agricultura. Segundo essa visão, a agricultura tradicional não conseguiria produzir alimentos suficientes para uma população mundial estimada em 9,37 bilhões de pessoas até 2050 (DEÁK, 2003). A transgenia está sendo apresentada como uma solução, para que os países mais pobres possam não somente aumentar a produção de alimentos, mas também melhorá-la.
Sem dúvida, seus mais fervorosos defensores enxergam na manipulação genética da vida a melhoria das perspectivas futuras, com o mais alto ní- vel de conduta ética. Qualquer resistência às novas tecnologias será, pro- vavelmente, interpretada pelo exército crescente de seus seguidores como -desumana, irresponsável e moralmente não aceitável, talvez até mesmo
será criticada como sendo criminosa (RIFKIN, 1998, p. 257).
Será que esse entendimento está correto e será que o desenvolvimento tecno- lógico na agricultura poderá realmente contribuir para o combate à fome?
Se em outras épocas a humanidade conviveu com uma produção muito bai- xa de alimentos e, especialmente durante os períodos de escassez, após desastres naturais, com altos índices de mortalidade, hoje somos confrontados com uma si- tuação totalmente diferente: a superprodução. De fato, produz-se muito; alimen- tos são desperdiçados durante o transporte e apodrecem em armazéns. Nos países industrializados foram instituídos prêmios para impedir ou reduzir a produção e grandes quantidades de alimentos são deliberadamente destruídas, para que os pre- ços se mantenham altos. Mas, ainda assim, a fome no mundo só aumenta: de acordo com os últimos relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a fome afeta cerca de 42 milhões de pessoas há mais de 20 anos,
embora a produção de alimentos tenha crescido 15% no mesmo período: há 842 milhões de pessoas famintas no mundo, das quais 798 milhões vivem em países “em desenvolvimento” e 70% são agricultores e sem terra (FAO, 2003). Além disso, se deve considerar que a população mundial aumentou no mesmo período para 1,6 bilhão de pessoas (UNDP, 2001).
De acordo com números oficiais da FAO, poder-se-ia consumir 2,8 mil calo- rias per capita todos os dias, se houvesse uma distribuição equitativa da produção de alimentos (1.900 calorias por pessoa, por dia, são necessárias, segundo a FAO). “Poderiam estar disponíveis dois quilos de comida por dia, por pessoa, incluindo
1,1 kg de trigo, 450 g de carne, leite e ovos, e, além disso, 450 g de frutas e legumes” (LONDRES, 2003, p. 6). A falta de produção de alimentos, portanto, não pode ser considerada como a causa da fome. O prognóstico de Thomas Malthus no séc. XIX sobre o risco de uma população mundial crescente com menos alimentos à dispo- sição perdeu seu sentido, uma vez que, pelo menos desde 1961, a quantidade de gêneros alimentícios disponíveis per capita é maior do que a quantidade necessária para o ser humano. Isso significa que, desde 1961, nenhum ser humano sofreria de fome ou desnutrição, se a quantidade produzida fosse distribuída conforme a necessidade (BOGNER, 1981).
Portanto, o problema da fome não é de ordem técnica e não decorre de uma produção deficiente. Também não há relação direta entre a fome e a população: a fome existe tanto em países com uma elevada densidade populacional, como Ban- gladesh e o Haiti, como em países com uma densidade populacional baixa, como Brasil e Indonésia. Da mesma forma, não é verdade que os recursos físicos ou as catástrofes naturais sejam os únicos responsáveis. Trata-se, fundamentalmente, de uma questão de acesso e distribuição. Muitos desastres naturais são causados pela forma de intervenção humana no ecossistema, ou reforçados, como no caso da agri- cultura de alta produtividade, que derruba florestas, mantêm um longo cultivo de culturas, produz a lixiviação e a erosão do solo, utiliza produtos químicos, etc.
Com relação aos recursos naturais, a sua concentração é um problema pre- sente em muitos países, como o Brasil, onde apenas uma parte das terras agrícolas disponíveis é aproveitada e aproximadamente 100 milhões de hectares não são utili- zados (MARQUES, 1999). Se esses recursos fossem utilizados de forma sustentável, a população poderia duplicar, sem que isso gerasse problemas de produção. Mas, mesmo assim, dos 175 milhões de brasileiros, ainda 44 milhões sofrem de desnutri- ção qualitativa. Por causa da concentração de terras agrícolas e a produção voltada para a exportação, tornou-se um paradoxo que, no Brasil, no meio rural, 15 mi- lhões de pessoas (36,8% das famílias rurais) são atingidas pela fome (FOME ZERO, 2002). É mais um problema político, que não pode ser resolvido simplesmente por meio da promoção ou do fortalecimento da agricultura. Pelo contrário, a promoção da agricultura para exportação tem contribuído para que a produção de alimentos
como arroz, feijão e mandioca fosse reduzida em favor de monoculturas como a soja, cacau e algodão (KAGEYAMA; SILVA, 1983).
Se o problema da fome não pode ser simplesmente resolvido por avanços tecnológicos, a transgenia não é alternativa para combater a fome. “A transgenia é apenas uma técnica. A fome e a pobreza rural são fenômenos sociais, para os quais a única solução são estratégias políticas e sociais” (BUNTZEL; SAHAI, 2005, p. 190). Como no caso da “modernização” da agricultura a partir dos anos 1950, com a promessa de combate à fome, a população desfavorecida certamente não tirará pro- veito da transgenia, mas as grandes empresas, como a Monsanto, que têm vantagens financeiras com o controle sobre as sementes e os produtos químicos. Por meio do controle de sementes, as empresas conseguem controlar a produção de alimentos: o que está sendo cultivado, que recursos utilizam e onde os produtos são vendidos (Cf. MOONEY, 1987, p. 51). Por isso, é provável que, por conta do monopólio da se- mente e do pagamento de royalties, a produção agrícola se torne mais cara e o aces- so aos alimentos ainda mais difícil para os pobres. Além disso, as principais plantas transgênicas cultivadas (soja, milho, colza e algodão) são destinadas à exportação para países desenvolvidos, o que pouco beneficia os pobres do Sul.
Para concluir, é necessário registrar que os cultivos transgênicos não são mais rentáveis que os convencionais e foram desenvolvidos com base na tolerância a in- setos e herbicidas. Sendo assim, eles sequer podem contribuir para o aumento de rendimento. As causas da fome, como a pobreza, a desigualdade social e a falta de acesso aos meios de produção, não serão resolvidas com o uso de plantas genetica- mente modificadas, mas, provavelmente, se tornarão ainda mais graves, pois con- tribuem para uma concentração ainda maior de terras, migração urbana, exclusão social e dependência de muitos pequenos agricultores.