Segundo estudiosos da religião no Japão (e.g. Swyngedouw, 1986), os Japoneses estão mais interessados em assuntos de vida corrente do que em assuntos transcendentais e metafísicos. A religiosidade dos Japoneses parece limitar-se ao momento em que os acontecimentos ou comportamentos religio- sos têm lugar. Uma vez terminados, a vida continua sem relação com algum assunto religioso. Exceptuando os Cristãos e pessoas pertencentes a alguns grupos das chamadas Novas Religiões, a maioria dos Japoneses reza para pedir favores ou protecção. Em algumas ocasiões rezam em templos xintoís- tas, em outras ocasiões em templos budistas e também, embora com menos frequência, rezam em Igrejas cristãs aparentemente com o mesmo fervor e sem contradições.
A religiosidade dos Japoneses tem sido considerada pragmática ou utili- tária. Tal como a ética japonesa, depende da situação e das circunstâncias. A interpretação da salvação é compreendida em termos de salvação ‘deste mun- do’ e não tem relação com ‘o outro mundo’ ou com a alma. A religião não é precisa quando tudo corre bem. A preocupação dos Japoneses centra-se no dia a dia ‘neste mundo’.
Alguns autores (e.g. Ben-Dasan e Shichihei, em Swyngedouw, 1986) fa- lam da ‘religião da Japonidade’ (Nipponkyo). De acordo com esta perspecti- va, o valor supremo e mais sacro no Japão é a própria sociedade japonesa. Embora seja controverso afirmar que a identidade nacional possa ser conside- rada religiosa, o certo é que desde os anos sessenta os Japoneses desenvolve- Daniela de Carvalho
ram uma obsessão pelo carácter único do Japão. Para isto muito ajudou o restabelecimento da auto-confiança nacional que acompanhou o espectacular desenvolvimento económico do pós-guerra. A reconstrução da identidade na- cional levou a uma valorização da cultura nipónica, que passou a ser uma fonte de orgulho nacional.
Teorias (nihonjinron) foram formuladas defendendo a ideia de que os Ja- poneses são completamente diferentes de outros povos e não podem ser devi- damente compreendidos por estes. O nacionalismo sublimado é evidente nes- tas teorias, mas note-se que o carácter sagrado de pertencer à sociedade japonesa como valor máximo fez sempre parte da ideologia oficial desde que o Japão se formou como Estado-Nação.
A identidade nacional foi construída sobre a ideia de que a popula- ção japonesa é homogénea e harmoniosa, e de que a personalidade mo- dal no Japão é baseada na repressão do ego e na dependência do colec- tivo. Estas ideias têm sido postas em causa; no entanto os Japoneses têm a percepção de si mesmos (e apresentam-se) como sendo orientados para o grupismo, o que levará a que a afiliação num grupo motive a afiliação re- ligiosa.
Estudo feitos (em Davis, 1992 e Tsushima, 1996) demonstram uma rela- ção forte entre ter crenças religiosas e participar em situações sociais. A acti- vidade religiosa, seja em forma de culto de antepassado, participação em fu- nerais ou em outras formas, é realizada como princípio social. Expectativas sociais, obrigações ligadas à família como seja a de visitar os templos familia- res budistas e xintoístas da localidade onde a família reside, aliadas a consi- derações de natureza prática, como seja promoção social, são factores impor- tantes na motivação religiosa.
Em todos os debates sobre o comportamento religioso dos Japoneses le- vanta-se a questão do significado dos costumes populares que se prendem com comportamentos religiosos. A este propósito, um especialista em religiosi- dade japonesa, Yanagawa Keiichi (citado em Swyngedouw, 1986, p. 13), afirma que no Japão a unidade da religião assenta nas relações humanas e que a religião não se pode distinguir dos costumes sociais de tal modo está misturada com eles.
Wa, musubi e bun
Importa aqui analisar conceitos criados para estudar a cultura e a socie- dade japonesa e que lançam luz na religiosidade japonesa, a saber wa, mu- subi e bun.
O conceito de wa (harmonia) é primordial como expressão do ideal na- cional da unidade social do Japão2 e o conceito de musubi (desenvolvido por
Honda, 1985), que literalmente significa amarrar, refere-se antes de mais na- da à ideia de fertilidade, do poder que sustém a vida nas comunidades tradi- cionais com uma economia baseada no cultivo do arroz. Os dois conceitos es- tão ligados – musubi reforça a solidariedade do wa da comunidade.
Ao longo da sua história o Japão teve que enfrentar a questão de fortale- cer o musubi, o poder vital das comunidades harmoniosas a todos os níveis da sociedade ao mesmo tempo que recebia influências externas. A fé no mu- subi caracterizou as comunidades agrícolas tradicionais e levou ao estabeleci- mento gradual do Xintoísmo, que ficou de tal modo ligado à vida das comuni- dades que quando o Budismo foi introduzido no Japão teve que se lhe acomodar.
Uma das explicações avançadas para a possibilidade de os Japoneses abraçarem todas as religiões é a de que utilizam a ‘compartimentalização’. Todos os valores são uma parte, um segmento (bun) com um seu próprio raio de acção (Lebra, 1976, pp. 67-69). Cada valor não é integral mas é parte de um todo interdependente que é englobado pelo musubi.
As religiões no Japão nunca foram completamente demarcadas; pelo con- trário, foram misturadas num sincretismo3Às vezes a sua coexistência harmo-
niosa foi abalada e deu lugar a conflitos (por exemplo, com o Cristianismo). No entanto, apesar de todas as vicissitudes, a sociedade japonesa desenvol- veu-se com uma estrutura em que as diferentes religiões têm conservado a sua identidade, cada uma delas ocupando o seu específico bun ou compartimento de acção no conjunto que é a religiosidade japonesa.
Quanto à questão das fronteiras entre os diferentes bun em que as dife- rentes religiões do Japão têm desempenhado o seu papel, deve ser observado que há grande tolerância e flexibilidade em termos de doutrina. Para os Japo- neses, a adesão a uma religião não significa adesão a um conjunto particular de crenças, mas antes agir de acordo com sentimentos religiosos seguindo um largo espectro de ritos que acompanham a vida do nascimento à morte, res- pondendo a necessidades da população e contribuindo para a união entre os membros da comunidade.
Esta amálgama pode ser chamada de sincretismo religioso, mas é um sin- cretismo estruturado. O nascimento é celebrado com ritos xintoístas, os fune- Daniela de Carvalho
2A importância do conceito de harmonia (wa) pode ser visto no facto do prefixo wa ser usado para significar japonês. Por
exemplo, wafu (wa=japonês e fu=estilo).
3Note-se que o caso do Japão não é único. Por exemplo, no Nepal o Budismo e Hinduísmo misturam-se na crença de que
rais com rituais budistas e os casamentos cada vez mais são celebrados em Igrejas e com ritos cristãos.
É necessário fazer a distinção entre sincretismo e pluralismo. Ambos são sistemas culturais que assentam numa multiplicidade de alternativas. É o estru- turar dessas alternativas que faz a diferença. O pluralismo é um sistema reli- gioso em que a aderência a uma alternativa torna o envolvimento com a outra (ou outras) impossível; no sincretismo as alternativas encaixam-se e com o de- correr do tempo tendem a tornar-se em camadas de comportamentos e cren- ças (Davis, 1992, pp. 30-31). A articulação teológica do sincretismo japonês deu-se pela primeira vez do século X ao século XII quando as divindades xin- toístas foram declaradas como sendo manifestações de vários Budas (ibid., p.33). Interessante notar que os Japoneses parecem ser o único povo que acredita que depois da morte os seres humanos se tornam kami e a expressão ‘tornar-se Buda’ é um eufemismo para morrer (ibid., p. 246).
Os resultados dos estudos feitos indicam que o sincretismo também existe entre os Cristãos japoneses e que o critério ‘crente’ e ‘não crente’ não basta para distinguir aqueles que são religiosos dos que o não são. Não é o ‘crer’ que é a essência da religião no Japão mas sim a prática religiosa e o senti- mento religioso. A própria palavra religião (shukyu) é escrita com dois ideo- gramas, um dos quais significa seita ou denominação e o outro ensino ou doutrina o que, segundo Reader (1991, p. 13), expressa uma separação entre o que é religião e outros aspectos da sociedade e cultura.
Aos olhos de um Ocidental a atitude religiosa dos Japoneses pode pare- cer bizarra, mas o que se passa com as religiões passa-se em outras àreas da vida social. Como Benedict (1954, pp.195-227) comenta, os Japoneses mu- dam de comportamento de acordo com a situação, sem grandes custos psico- lógicos. Ser como uma cana de bambu que oscila conforme sopra o vento, é no Japão uma virtude.
Há também que ter em conta mudanças na vida pessoal e que têm como consequência mudanças nas atitudes religiosas. O casamento pode levar a mudanças nas afiliações religiosas sem que estas sejam acompanhadas de mudança de crença. Um Japonês ou Japonesa que se case com alguém católi- co passará a frequentar a Igreja Católica, baptizará os filhos como Católicos sem isso implicar mudança de credo pois pode continuar a fazer orações bu- distas.
Segundo Mullins (1998), o sucesso do transplante de uma religião depen- de de vários factores ligados à sociedade receptora como seja ideologia do- minante (conjunto integrado de crenças, modo de ver a vida, modo de definir o grupo social, etc.). Tanto o Budismo como o Cristianismo são religiões es- Religião, sociedade e cultura: O caso do Japão
trangeiras, mas o Budismo foi aceite como religião oficial enquanto o Cristia- nismo levantou resistências. O Xintoísmo e o Budismo combinaram-se para dar sentido à identidade social nos contextos da família, da comunidade, da empresa e da própria nação (Reader, 1991). Enquanto no Ocidente o plura- lismo foi sempre uma ameaça ao Cristianismo, no Japão a monopraxis (ênfa- se numa só prática) constituíu a ameaça.
Deve-se acrescentar contudo que o maior contacto entre as culturas pro- porcionado pela progressiva globalização do mundo tem tido implicações no campo religioso. Como vimos, movimentos religiosos cristãos são recria- dos no Japão. Por outro lado, em muitos países ocidentais existe um vivo in- teresse por temas religiosos orientais particularmente hinduístas e budistas. Noções como karma, ying e yang, consciência cósmica, entre outras, foram adoptadas (e adaptadas) pela cultura ocidental (Bruce, 2002). O que quer dizer que, tanto no Ocidente como no Oriente, há uma interacção dinâmica entre religião e cultura e as formas religiosas são recriadas de acordo com as culturas locais.
Para terminar gostaria de fazer referência às mudanças que estão a ter lugar na sociedade japonesa contemporânea e às suas relações com as afilia- ções religiosas dos Japoneses.