Quando queremos falar sobre o trabalho de Ângelo na sua vertente da feitura, lembramo-nos imediatamente das suas expressões, quais aforismos:
O máximo de efeito com o mínimo de recursos. Ou: o máximo de eficácia com o mínimo de esforço. Ou, ainda o máximo de presença com o mínimo de gritos. Acho que, desde sempre, tem sido uma característica muito evidente em tudo o que tenho feito, a partir das primeiras exposições em que entrei, nos últimos anos da década de cinquenta” (e.B).
Conforme Ângelo, foi por uma questão de simplificação ou disciplina e/ou também comodidade que usava, tanto no acrílico, no lápis de cor, na serigrafia, e outros, o mínimo de cores: um vermelho, um azul e um amarelo; e eventualmente o preto: “Trata-se de fazê- las trabalhar, em proporções variáveis, para obter cores e valores diferentes, por mistura subtractiva. Quanto às cores que eu mais gosto - são o vermelho e o verde (como as da nossa querida Pátria)” (e.A).
Comodidade transformada em regra plástica cromática: usava três cores, mas não as misturava; podia apenas juntá-las e acrescentá-las.
Comum a todo o trabalho está uma economia de meios, uma optimização dos materiais, uma síntese subtrativa e uma qualquer matriz que parte de alguns elementos passíveis de grandes variações formais - esta liberdade interessava-lhe.
Sem sentenças pré-determinísticas, acolhera opiniões de que o seu trabalho se foi desenvolvendo numa perspetiva de progressiva depuração e elementaridade (e.A), mas sustentava que tal poderia ou não ser verdade para o futuro, até porque essa constatação podia ser feita apenas a posteriori, dado que não fora projetada nem premeditada. Como geralmente não realizava estas ações no seu modo de produção, também nunca negou uma eventual possibilidade de um retorno a uma via dita figurativa, ou de evocação figurativa.
Se lhe perguntassem quanto tempo dispendia com o seu trabalho artístico, a resposta compunha-se mais ou menos assim ou assim: “Abstraindo do tempo ocupado com solicitações exteriores - funcionário público, dia-a-dia, etc. - posso dizer que estou sempre a funcionar para o meu trabalho. Não posso dizer que haja, necessariamente, qualquer efeito (ou produto) visível” (e.F).
Ironia à parte, apesar do compromisso intenso com o seu trabalho, reiterava que não se sentia obrigado a pintar todos os dias. A concretização não era o mais importante; a parte mental, essa sim, era uma constante. Compulsão para trabalhar, confessou que apenas sentira nas longas reuniões da Escola de Belas Artes, onde desenhava incontidamente para colmatar a frustração da demora das mesmas. Assim, libertava o subconsciente e prestava atenção à reunião enquanto os desenhos aconteciam.
Negara um sentido de evolução no seu trabalho, o que se alinha com uma das características que podemos considerar no seu trabalho que é a retoma de coisas já feitas; o voltar atrás, o pegar em algo feito por si e partir daí, também com um intuito familiar25 é
definitivamente uma maneira de fazer de Ângelo:
Não é uma maneira de, por exemplo, pintar sempre a azul, ou pintar sempre com uma trincha, ou esfregar sempre com a unha – um tique, mas sim uma ginástica de concepção, um programa, um protocolo de concepção, que é mais importante do que essas coisas peliculares, que vem à superfície da pele, a que as pessoas chamam um estilo. E que não interessa” (e.L).
Ângelo preferia a linhagem familiar ao estilo, era essa que considerava estruturante e que, de facto, se pode considerar que se constituiu como uma matriz de toda uma obra. Era “mais um procedimento, um modo de trabalhar, que um ‘estilo’” (e.P).
Ângelo considerava-se mais do que um artista porque, entretanto, se profissionalizara. Era um artista profissionalizado porque sabia do ofício. De que forma? “Não se trata de usar os pincéis, trata-se de me usar a mim, de saber como é que eu funciono, como é que um pincel ou a tinta funcionam. Enfim, isso descobre-se ao fazer” (e.C).
A sua atividade artística era também uma questão de proficiência, o que, mais uma vez, se releva como uma questão que tem a ver com a profissão e com o estar à vontade no meio em que se move.
Com uma relação distanciada, mental, fazia os desenhos com a premeditação de deixar as coisas acontecerem e o sucesso (avaliação que era realizada por si) dos mesmos dependia da prática. Se já não fizesse desenhos há algum tempo, demorava algum tempo a encarreirar:
(…) Ou eu quero, ou então não quero. Se não quero, não faço. Quando quero parar, paro. Quando vou fazer desenhos não sei o que é que vou fazer. Não sei o que é que vou fazer, nem o que é que vai aparecer. Simplesmente quero fazer desenhos. Às vezes, para relançar o motor, pego em desenhos antigos, ou feitos há meses atrás, ou anos, só para retomar qualquer coisa e depois, daí por diante deriva para outra coisa qualquer, quando corre bem. E depois dá para estar assim uns meses a fazer isso - e em quantidade, eventualmente. Até com um coeficiente de aproveitamento relativamente elevado quando está a correr bem. Quando a coisa está a correr bem, até aproveito aí 80% ou mais. A princípio, não aproveito nem 5%. A princípio é praticamente tudo para deitar fora, durante, sei lá, uma semana, quinze dias. Mas depois, quando chega a altura, digo “Acabou”. Pronto. Digo: “Já chega, pronto. Já ando nisto há 6 meses, já chega. Vou fazer outra coisa”. E acabo” (e.G).
E acabava o desenho quando não cabia lá mais nada, assim dizia. Quando não se via mais nada para completar, acabava. Completar é a palavra mais rigorosa, porque Ângelo, tal como explicitado acima, quando tinha uma folha branca à sua frente não fazia ideia nenhuma do que ia fazer, ou seja, não tinha nenhuma ideia pré-concebida, e o seu avanço funcionava como se tivesse um écran com um projetor; ia vendo umas manchas que tentava preencher, ia-se pondo em cima delas, comentava. Era um processo que exigia concentração e disciplina, razão pela qual nos últimos anos já não concretizava; ao contrário do que acontecia na sua juventude, em que estava treinado e o fazia com agilidade.
No caso dos quadros, a ideia nasce, era verificada em papel quadriculado e depois na tela.
Nas pinturas de grande formato, as posteriores a 1972, por exemplo, para serem consideradas terminadas, tinham que ter “umas sete camadas de azul, vermelho e amarelo… Sem isso nada feito. Porque não fica com suficiente variação nas cores. Sete ou oito ou nove… Há uma altura em que não posso pôr mais camadas, já chega, pronto!… Já não precisa mais” (e.G).
Relacionam-se com questões operacionais as que muitas vezes foram apontadas por Ângelo de Sousa para fazer de uma forma e não de outra, para fazer uma coisa e não outra. Um exemplo observado a este nível é a justificação oferecida pelo artista para o início da série de pinturas ditas monocromáticas:
Depois aborreci-me de fazer preto e branco. Pensava: e agora vou continuar a fazer uma elipse a preto e branco, um pentágono torto a preto e branco? De maneira que, muito naturalmente, comecei a pôr menos camadas e deixei de chegar ao preto e ficaram aqueles chamados monocromáticos” (e.L).
As fotografias, na sua maioria, resultaram de circunstâncias casuais. Ângelo dera o exemplo das dos rastos dos aviões, cuja ideia surgira quando estava no terraço de casa a fotografar o seu filho:
As fotografias do cotão também nasceram por acaso: estava a apanhar uma porcaria qualquer do chão, reparei numa grande bola de cotão, com pêlos de cão, de gato, de gente, e apeteceu-me
fotografá-la com a lente macro. (…) Do mesmo modo, encontrei um fio de cabelo comprido, da minha mulher ou do meu filho, no chão de casa e apeteceu-me fotografá-lo. Coloquei-o em cima do estirador, pus uma folha de papel branco por baixo e fotografei-o com a lente macro. Foi um desses ataques frequentes de “trigger happiness”“ (e.J).
Também a série das begónias surgiu, noutro acesso de loucura do gatilho num belo dia de sol. O fim destas séries foi tão fugaz quanto o seu início, até porque nunca chegaram a ser um projeto nem foram desenvolvidas sistematicamente e não tinham qualquer intenção de serem mostradas; “Uma vez verificado o resultado, não senti necessidade de fazer mais, interessei-me por outras coisas” (e.J).
Ângelo transmitira, relativamente a todas as formas de expressão artísticas, e quanto ao modo de fazer que
as fases por que o trabalho for passando vão determinando as fases posteriores, ainda possíveis. Por fim, já não existirão, pelo menos em meu juízo, mais possibilidades de continuar a atuar - quer por o trabalho estar concluído, com um mínimo de satisfação, quer porque tenha abortado (e.A).
E se lhe perguntássemos qual o seu método de trabalho, poderíamos receber esta resposta:
“Sacudir, sacudir…” (e.H)