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Como já discutido, o discurso construcionista social tem como ponto central o caráter relacional, dialógico e lingüístico de toda produção de sentido humana, numa crítica à forma dualista de pensar o indivíduo e seu ambiente (BURR, 2003; GERGEN, 1985).

Além das premissas construcionistas sociais apresentadas anteriormente, foi também apontada a diversidade com que os autores se apropriam deste discurso. Na presente pesquisa, adotamos a versão de McNamee (MCNAMEE, 2004) de teoria prática (“practical theory”), uma versão que entende a teoria como mais uma possibilidade de construir realidades e consequentemente gerar práticas. Ao mesmo tempo em que são as práticas que tornam possíveis a formulação de teorias. Ou seja, trata-se de uma teoria prática, em que ação e reflexão são tomadas como parte de um mesmo substrato. As ações que nos rodeiam, das

quais fazemos parte, permitem a construção de novos conhecimentos e a formulação de teorias, tanto quanto as pesquisas, ao oferecerem um raciocínio teórico, promovem inteligibilidades para novas ações.

McNamee e Gergen (1999) também propõem o conceito de Responsabilidade Relacional (RR) como um recurso que dá forma e sustentação ao sócio construcionismo como uma teoria prática. Compartilhando da mesma lógica, a RR enfatiza a premissa central deste discurso: a linguagem significativa gerada dentro dos processos relacionais. Foca-se nos processos interativos das construções de sentidos e de moralidade, tendo em seu argumento central a construção relacional do significado. Assim, centra-se nos processos micro-sociais das relações, investindo-as de poder criador e transformativo. Enfatiza esses processos relacionais como geradores e legitimadores das construções de todas as atividades humanas.

A RR dá força ao conceito de dialogismo que o sócio construcionismo abraça, num esforço de trazê-lo para a prática cotidiana das relações, atentando- se para o processo de se relacionar.

Para melhor configurar a RR, inserindo-a no campo dialógico interativo do sócio construcionismo, os autores oferecem o que chamam de quatro formas de inteligibilidade relacional (MCNAMEE; GERGEN, 1999).

A primeira se refere ao conceito de “outros internos” (internal others), como uma forma de se contrapor ao entendimento individualista de pensamento, em que cada pessoa possui uma personalidade sólida, única e fixa em que as idéias são produzidas dentro de sua mente. O conceito de “outros internos” é uma maneira figurativa e relacional de se pensar a construção da pessoa, como um fenômeno interativo. Um fenômeno em que, nos processos conversacionais, as pessoas vão sendo povoadas por outras idéias, conceitos, práticas e ações que

passam a fazer parte de sua existência. Desta forma a pessoa está investida de múltiplas vozes, ou seja, de múltiplos sentidos que vão sendo adquiridos e transformados a cada interação, a cada relacionamento. Assim, as relações vão ampliando as vozes que uma pessoa carrega, multiplicando suas possibilidades de entendimento e de ação.

Este conceito de “outros internos” é uma forma alternativa de entender o que tradicionalmente chamamos de self, agora mais múltiplo, em que todas estas vozes, mesmo quando contraditórias, habitam a mesma pessoa. Esta forma de entendimento viabiliza um aumento dos recursos conversacionais que cada um carrega consigo, ampliando as possibilidades de se engajar em um diálogo.

A segunda forma de inteligibilidade relacional enfatizada pelos autores é o conceito de relação conjunta (conjoin relation). Este recurso enfatiza o pronome “nós” ao invés do “eu” nas relações. Neste entendimento, toda ação para ter sentido necessita do outro para responder a ela, ou seja, precisa de uma outra ação suplementar. Afastando de uma tradição individualista, em que a comunicação era entendida como possessão do indivíduo, já saindo pronta de sua mente e indo direto à mente do interlocutor, esta inteligibilidade se embasa numa perspectiva mais relacional. A idéia aqui desenvolvida não é de ação- reação, mas de padrões de relacionamentos em que cada ação necessita de um suplemento para que sua inteligibilidade se forme. Nessa perspectiva, a intencionalidade perde sua centralidade na relação já que, mesmo que haja sempre intenção específica numa conversação, seu fluxo e seu entendimento se darão de acordo com o processo de ação e suplementação e não a a partir de intencionalidades tomadas a priori.

Portanto, o produto de uma conversa sempre dependerá de como os participantes se engajarão no processo de ação-suplementação. Cada ação convida determinado tipo de resposta e, assim, os sentidos vão sendo construídos, sendo sempre necessário “nós” para que uma conversação tenha sentido. A questão, então, deixa de ser “como eu vou agir em uma determinada situação?” ou “por que outros agem de determinada forma?” e passa a ser “como nós juntos criamos determinado cenário?” Na perspectiva da RR, o agenciamento individual se transforma em uma realização relacional e o foco, então, é nessa construção ativa e coletiva das ações.

A terceira forma trata do relacionamento entre grupos (relations among groups), chamando atenção para a coerência de uma ação dentro de um grupo específico, de uma determinada comunidade. Ou seja, qualquer ação, por menos nexo que possa ter para alguém, só existe porque faz sentido em determinado grupo ou ambiente e assim foi possível a sua inteligibilidade. Este entendimento rompe com o discurso individualista em que determinada atitude ou comportamento pertence a uma mente ou a uma personalidade individual indo em direção a um discurso relacional em que uma atitude nasce e se desenvolve devido a inteligibilidades possíveis dentro de um grupo.

Com isso, abre-se espaço para a compreensão de certas idéias e comportamentos que, muitas vezes, quando reportados isoladamente parecem não ter sentido. Ao haver o esforço de localizá-los dentro de um grupo, que compartilha valores específicos, o discurso ganha maior chance de coerência e compreensão. Isto não significa que deva haver aceitação de toda ou qualquer ação ou comportamento. No entanto, uma compreensão mais ampla e relacional permite uma análise menos voltada à patologização ou culpabilização individual,

contribuindo para o entendimento de que toda ação carrega algum sentido dentro de um segmento social.

Esta inteligibilidade relacional também chama atenção para um movimento reflexivo, trazendo o questionamento sobre o grupo a que pertencemos ou representamos quando nos engajamos em determinadas idéias em um diálogo. Por exemplo, uma guerra pode ser compreendida e significada por alguns grupos como uma saída possível para o alcance da democracia e da liberdade de um país enquanto que para outros grupos pode significar a destruição de uma cultura religiosa.

A quarta forma aborda a inter-relacionalidade de todas as nossas ações e sentidos em uma roda sistêmica (systemic process), chamando a atenção para a inter-relação de todo evento em nosso sistema lingüístico e para a interconexão das ações locais a um amplo sistema social e cultural. Transforma a idéia das coisas como tendo um sentido em si, único e isolado e passa a considerá-las como pertencente a uma roda sistêmica, conectando todas as suas unidades. Portanto, as decisões e conclusões sobre determinada situação está conectada a este imenso caldo cultural, afetando e transformando-o, sempre em movimento. Tal racionalidade traz o convite para o engajamento num contínuo processo conversacional e não somente em produtos finais, facilitando a criação permanente de recursos para promoção de novas relações. Aponta assim para a criação relacional e interligada de todo o sistema lingüístico.

Estas quatro formas de inteligibilidade relacional apresentadas objetivam trazer mais concretude ao entendimento da RR como conceito. A compreensão de que somos constituídos por diferentes vozes, construídas em nossas mais diversas relações, a partir das formas como pertencemos a um determinado grupo e imersos num amplo sistema de sentidos, traz uma mudança de foco da tradicional

responsabilidade do indivíduo sobre todas as coisas para a responsabilidade na relação entre indivíduos. Quando descritas em termos relacionais as pessoas não carregam sozinhas seus valores, seus problemas, suas ações.

Da mesma maneira, as questões políticas da sociedade como um todo não estão desconectadas das decisões que são tomadas na vida cotidiana. Esta inter- relação entre indivíduos, relacionamentos, grupos e sistemas sociais, conecta todos estes elementos numa complexa rede de sentidos e significados.

O convite, então, é para a construção de novas formas de inteligibilidade e não o desenvolvimento de outra racionalidade lingüística. Não se trata também de uma técnica específica de intervenção, mas sim da adoção de algumas posturas que objetivam maior atenção e abertura ao processo conversacional, construindo a Responsabilidade Relacional em ação, facilitando e favorecendo a construção do diálogo transformativo (MCNAMEE; GERGEN, 1999).

Podemos, assim, entender a RR como um conceito que trata do processo de se relacionar. Enfatiza o papel da dialogia na construção de tudo o que participamos, fortalecendo a sensibilidade relacional no processo de construção social das relações, chamando atenção para a realidade circunscrita e situada. Dessa forma, como um processo dialógico, a RR objetiva ampliar o entendimento do interlocutor em uma ação em questão como também as relações entre os próprios interlocutores, explicitando a construção dessa ação em termos de uma ampla e complexa rede, assim como o relacionamento entre os parceiros conversacionais.

Como visto anteriormente, diversos movimentos contemporâneos têm revisto e problematizado a tradição individualista e suas implicações, propondo outras formas de compreensão da produção de conhecimento, mais relacionais. O construcionismo social é um deles (BURR, 2003; SAMPSON, 1993; GUANAES,

2006; RASERA, 2004) e a RR é um recurso que visa explorar e dar corpo a esta problematização (MCNAMEE; GERGEN, 1999).

Segundo Gergen (1999), a Responsabilidade Relacional problematiza a responsabilidade individual que, segundo o autor gera antagonismos, alienação e polaridades em nossa sociedade. Isto porque o discurso individualista promove divisórias bem delimitadas de moralidade, justificadas por uma racionalidade objetiva, em que as pessoas são localizadas e reconhecidas estando de um lado ou outro, dificultando assim a polissemia, a negociação e a inclusão social. Estes antagonismos e polaridades, segundo o autor (GERGEN, 1999), acabam por gerar uma dicotomia que inviabiliza qualquer possibilidade de diálogo aberto, múltiplo e transformativo, já que cria grupos de oposição: ricos versus pobres, religiosos versus céticos, heterossexuais versus homossexuais.

Na perspectiva da RR, a lógica de produção de conhecimento é relacional, não estando a verdade em uma polaridade ou outra, mas nos processos interativos que se estabelecem nas relações, gerando possibilidades de abertura de sentidos, sua negociação e responsabilização relacional.

Nessa linha de argumentação, a verdade passa a ser tomada como produto de um imbricado processo histórico, interativo e contextual. Com isso, torna-se sustentável um processo comunicativo que não seja baseado em antagonismos, mas em multiplicidades e aproximações, acreditando-se que os sentidos e as mudanças se darão nas relações e nas interações e não na mente de indivíduos.

Uma proposta interventiva nesta perspectiva transpõe os sentidos do mundo e de nossas ações como correspondentes a um indivíduo ou a uma realidade abstrata e objetiva, focando-se em uma inteligibilidade relacional, ou seja, para o que ocorre entre os indivíduos nas suas relações (MCNAMEE, 2001).

Este entendimento de que o conhecimento é gerado e sustentado na interação entre as pessoas, redireciona toda a forma de compreensão do mundo, expandindo o domínio da prática discursiva e relacional e, assim, inserindo novas formas de análise da vida social como também da vida acadêmica.

Segundo McNamee (2001), esta mudança de foco altera posturas e discursos gerando outros tipos de realidade e de conseqüências. As questões descritas em termos relacionais deixam de ser tomadas como produções únicas de uma pessoa, mas construídas no intercâmbio destas em relação. Desta forma, fracasso, sucesso, problemas e dificuldades, não estão localizados em um indivíduo, mas num imbricado processo de coordenação entre as pessoas. Isto possibilita transformar a compreensão do indivíduo como fonte do que é bom ou mal na sociedade, passando a enxergar as situações como conjuntamente criadas, instituindo assim um diferente espaço conversacional. Esta forma diferenciada de compreensão da realidade, segundo a autora, é bastante potente por possibilitar uma transformação social, evitando a tradicional culpabilização individual que traz como conseqüência o isolamento e assim, revitalizando o sentido de comunidade, de relevância social e cultural.

O conceito de Responsabilidade Relacional pode ser abordado tanto sob o aspecto teórico/epistemológico quanto como um recurso interventivo de ação (MCNAMEE; GERGEN, 1999).

O aspecto teórico trata da questão epistemológica da RR, do processo de produção de conhecimento, sendo tomado como dialógico e relacional. Compartilhando desta concepção teórica, qualquer conhecimento e ação passam necessariamente por um processo de construção interativa. Deste modo, se toda possibilidade de sentido se dá a partir de uma construção conjunta nas

interações, se estamos todos interconectados e responsabilizados neste sentido, então há uma responsabilidade coletiva por esta construção e não individual. É por isso que, segundo a RR, somos relacionalmente responsáveis pelos atos de nossa comunidade.

O aspecto interventivo consiste da utilização da RR como recurso potencial na promoção do diálogo transformativo, ao qual Mcnamee e Gergen (1999) chamam de Responsabilidade Relacional em ação. Entendendo que somos seres relacionalmente construídos, a proposta é que se invista nesta condição humana construindo intervenções mais sensíveis às relações, apostando nas aproximações, entendimentos e mudanças, num processo de sensibilização para uma comunicação mais colaborativa, contextual e responsável, gerando interações menos polarizadas e hierarquizadas.

Assim, a aposta nesta pesquisa é da RR como uma ferramenta teórico/prática, que pode ser potente tanto numa sustentação epistemológica alternativa dos discursos na APS, entendendo a produção de conhecimento inserida nos processos relacionais e coletivos, quanto como um recurso interventivo, contribuindo para o desenvolvimento de práticas relacionalmente responsáveis.

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