Anna Freud nasceu em Viena, em 1895. Foi a sexta e última filha de Sigmund e Martha Freud. Tornou-se professora primária e seu primeiro contato com o movimento psicanalítico ocorreu em 1913 por meio de Ernest Jones, em uma viagem a Londres. Interessou-se pelo campo da psicanálise com crianças a partir dos incentivos por parte de Freud aos colegas para desenvolverem pesquisas nessa área.
Em 1922, apresentou seu primeiro trabalho à Wiener Psychoanalytiche Vereinigung (WPV): ‘Fantasias e devaneios diurnos de uma criança espancada’, e em 1927 publica sua principal obra: ‘O tratamento psicanalítico das crianças.’
Suas concepções seguiam o caminho do pai que, após a análise do pequeno Hans, considerava que a criança era frágil demais para ser submetida ao verdadeiro processo de análise. Defendia o princípio de tratamento sob a responsabilidade da família e dos parentes, e a tutela das instituições educativas.
Segundo ela, na criança, havia uma “falta de maturidade do supereu. Nesse campo, a abordagem analítica deveria ser integrada à ação educativa” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 259).
Em 1926, afirma que “as crianças não se mostram inclinadas a exercitar a associação livre e, assim sendo, nos obrigam a procurar um substitutivo deste instrumento” (ANNA FREUD, apud. SILVA, 2006 p. 82). Segundo a autora, por serem seres imaturos e dependentes, não são capazes de contar a própria história, por isso o analista deve buscar as informações com os pais. Assim, lidava com os pais da realidade, como fez Freud na análise do pequeno Hans.
Sua vocação para educadora fez com que abrisse uma escola especial, que depois passou a ser freqüentada por crianças, filhos de pais simpatizantes à psicanálise e, em 1937, fundou um pensionato para crianças pobres ‘Jacson Nursey’, inspirado no abrigo de Maria
Montessori. Criou o ‘Kindersoeminar’, seminário de crianças que formava terapeutas capazes de aplicar os princípios da psicanálise à educação, fomentando a invenção de uma pedagogia psicanalítica. Dessa forma, o analista deveria exercer o duplo papel de analisar e educar.
Segundo Roudinesco, a ausência de teorização sobre os laços do filho com a mãe era o ponto fraco da doutrina annafreudiana. “Aos olhos de Anna, só contava a relação com o pai. Daí a prioridade dada à pedagogia do eu, em detrimento da exploração inconsciente” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 259). Entretanto, seu pensamento foi bem aceito nos Estados Unidos, principalmente pela importância que dava aos mecanismos de defesa, o que marcou o surgimento do ‘annafreudismo.’ Ana Freud faleceu em Londres em 1982.
Melanie Klein, nascida em Viena em 1882, filha de pai judeu polonês, foi primeiramente analisada por Ferenczi e posteriormente por Karl Abrahan. Relata a presença de uma mãe bastante tirana que, na juventude, foi marcada por uma série de lutos: morte de dois irmãos e desaparecimento do pai doente, quando tinha 18 anos. A psicanalista contribuiu ao alavancar as pesquisas psicanalíticas com crianças, contrapondo-se às teorias de Anna Freud.
Em 1919, Klein entrou para a Sociedade de Psicanálise de Budapeste, após se encantar com a apresentação de Freud no V Congresso Internacional Psychoanalytical Association (IPA), que aconteceu nesta cidade, considerada por ele como “o centro do movimento psicanalítico da época” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 431).
Na apresentação do seu trabalho, intitulado “Linhas de progresso da terapêutica analítica”, Freud resume o que consiste o método psicanalítico. Aponta para a importância de sua disseminação entre as classes mais pobres e constata que há poucos psicanalistas para atender a tantos espalhados pelo mundo que precisam de ajuda. Diz:
Os senhores sabem que as nossas atividades terapêuticas não têm um alcance muito vasto. Somos apenas um pequeno grupo e, mesmo trabalhando muito, cada um pode dedicar-se, num ano, somente a um pequeno número de pacientes. Comparada à enorme quantidade de miséria neurótica que existe no mundo [...] (FREUD, 1986 [1919] p. 180).
Assim, Klein passou a dedicar-se ao progresso dessa ciência e em abril de 1924 apresenta suas idéias no VIII congresso da IPA em Saltzburgo, com o apoio de Ernest Jones e seu analista Karl Abrahan. Em dezembro do mesmo ano, a psicanalista vai a Viena para falar sobre seu trabalho na Winer Psychoanalytische Vereinigung (WPV) e confronta-se com Anna
Freud. “O debate estava então aberto, e trataria do que devia ser a psicanálise de crianças: uma forma nova e aperfeiçoada de pedagogia (posição definida por Anna Freud) ou a oportunidade de uma exploração psicanalítica do funcionamento psíquico desde o nascimento (como queria Melanie Klein)?” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 432).
Em 1926, Klein estabeleceu-se em Londres e, apoiada por Jones, tenta, sem êxito o apoio de Freud. Assim, desenvolve a escola inglesa de psicanálise em contraposição com a escola vienense.
Defendia que a análise poderia ser aplicada a qualquer criança, enquanto Anna acreditava que essa só era possível quando a neurose da criança se manifestasse com o mal- estar parental.
Klein valoriza a relação da criança com a mãe e modifica a teoria freudiana freudiana sobre “o lugar do pai, sobre o complexo de Édipo e sobre a gênese da neurose e da sexualidade numa elucidação da relação arcaica com a mãe, numa evidenciação do ódio primitivo (inveja) próprio da relação de objeto” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 434).
A psicanalista acreditava ainda que a transferência na análise de crianças só era possível quando separada da sua vida familiar, com o mínimo de contato do analista com seus pais. Diz: “constitui sempre parte da minha técnica não exercer influência educativa ou moral, mas unicamente o procedimento psicanalítico, o qual, sucintamente, consiste em compreender a mente do paciente e em comunicar-lhe o que se passa nela” (KLEIN, apud PRATES SILVA, 2006 p. 88).
Inovou o campo criando a técnica com brinquedos, atribuindo-lhe importância fundamental no tratamento de crianças. Para a autora, o deslocamento das brincadeiras infantis no processo de análise corresponderia à associação livre que o adulto expressa verbalmente.
Klein incluiu também no campo da psicanálise o tratamento das psicoses. No atendimento de Dick, uma criança autista de quatro anos, percebeu que ele apresentava sintomas jamais encontrados: “não expressava nenhuma emoção, nenhum apego, e não se interessava pelos brinquedos. [...] A história desse caso se tornaria célebre” (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 433). Essa análise atravessou toda a adolescência do menino que consegui redimir muitos de seus sintomas.
Devido a sua constituição como um sistema próprio de pensamento, a criação de novos conceitos, efetivação de uma prática original em análise e uma formação didática diferente do freudismo clássico, a teoria de Klein provocou uma ruptura da Brytish Psychoanalytical Society (BPS) em três tendências, somente oficializada em 1946:
Annafreudismo, Kleinismo e os independentes. Essa última contou com a colaboração de Donald Woods Winnicott. A psicanalista faleceu em Londres em 1970.
Winnicott nasceu em Plymouth, em abril de 1896, terceiro filho,e único menino do Sr. Frederick Winnicott, rico comerciante e político da cidade. Formou-se em pediatria e fundou a psicanálise de crianças na Grã-Bretanha antes da chegada de Melanie Klein em Londres. Não se posicionou nem a favor do annafreudismo, nem do kleinismo. Auxiliou Jones no acolhimento de Klein logo que ela chegou à Inglaterra e sempre expressou grande admiração pela psicanalista, que foi sua supervisora e analista de sua segunda esposa, porém não cedeu a nenhuma das suas exigências. Assim, mantendo-se independente das brigas e cisões ocasionadas pela diferença de posição das colegas, elaborou uma teoria original sobre a relação de objeto, do self (si) e do brincar.
Segundo o autor, era o bom funcionamento do laço entre a mãe que permitiria à criança organizar seu eu de maneira sadia e estável, estando atribuída à psicose o fracasso dessa relação. O ambiente que circunda a criança é fundamental para sua estruturação psíquica. Construiu conceitos e desenvolveu técnicas como o da mãe devotada comum, a mãe suficientemente boa, o jogo da espátula ou do rabisco, o falso (self) e o verdadeiro e o objeto transicional.
O conceito de objeto transicional despertou interesse na comunidade analítica em geral, inclusive em Lacan. Continha a idéia de que, no psiquismo humano, havia uma área intermediária entre a realidade interna e a externa, ocupada por imagens que tendem a se expandir por todo o campo cultural, e está associado à idéia de mãe suficientemente boa que, segundo o autor, inicia se adaptando a quase todas as necessidade do bebê, e com o passar do tempo e o desenvolvimento do bebê, “adapta-se cada vez menos, de modo gradativo, segundo a crescente capacidade de o bebê lidar com o fracasso dela” (WINNICOTT, apud PRATES SILVA, 2006 p. 93).
Segundo Silva (2006), “Winnicott fez questão de diferenciar o ‘objeto transicional’ do ‘objeto interno’ kleiniano, já que o primeiro supõe o contrário do segundo, a idéia de uma indistinção entre interno e externo” (p. 92).
Acreditava que a criança poderia ser atendida pelos próprios pais quando esses tivessem condições emocionais de sustentar o tratamento, porém quando tratada pelo psicanalista, deveria ser deixada livre entre os brinquedos, e o ato de brincar poderia ser considerado como associação livre, concordando assim com a tese kleiniana. Contudo, o brincar, para o pediatra deveria ser incentivado sempre, pois demonstrava a capacidade criativa de todo ser humano em qualquer idade.
O psicanalista carregava, ainda, uma ausência de ortodoxia aos preceitos da BPS, não respeitando, por exemplo, o tempo de sessão de uma hora. Em determinado momento, chegou a denunciar a hipocrisia das duas chefes da escola inglesa em carta escrita em 1954:
[...] é de importância vital para a sociedade [a BPS], que ambas destruam seus grupos em seu aspecto oficial [...] Não tenho razões para pensar que viverei mais tempo que as srs., mas ter de lidar com agrupamentos rígidos, que com a sua, morte se tornariam automaticamente instituições de Estado, é uma perspectiva que me apavora (WINNICOTT, apud ROUDINESCO & PLON, 1998. p. 785).
Segundo Roudinesco, Winnicott foi transgressor em sua prática, rigoroso em sua doutrina e sempre apoiou os rebeldes e os dissidentes. Na ocasião de sua morte em 1971, Pontallis escreveu na revista ‘L’Arc e a Nouvelle Revue de Psychanalyse’, a qual lhe prestou homenagem: “Talvez não haja nenhum seguidor. E é melhor assim. Com mestres, a psicanálise pode sobreviver durante algum tempo. Sem juízes nem mestres, ela tem a possibilidade de viver indefinidamente” (PONTALIS, apud ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 785).