Os vídeos do DVD 11 apresentam as mulheres no espaço privado, no público, além da singularidade da posição fronteiriça. No espaço privado, as mulheres estão sempre em companhia de um homem com o qual tem algum laço de parentesco: pai, companheiro ou filho(s). A presença do casal é uma constante, diferente dos filhos que nem sempre estão presentes.
Quando o cenário é a sala de estar, nos episódios mais antigos, elas escutam o rádio ou assistem à televisão, quando retratadas nos períodos mais recentes. As notícias lhes chegam através dessas ferramentas de comunicação que, decididamente, passam a ser coadjuvantes, norteadoras das discussões políticas dentro das famílias, instrumentos que alimentam o diálogo das mulheres com os homens.
Quando aparecem no horário das refeições, os personagens se aglutinam ao redor da mesa da sala de jantar e as mulheres são remetidas para as funções de cuidadoras, independentemente da classe social a que pertencem.
Em ―Da Nova República ao Real‖ (E8), aparece o Programa Eleitoral, que é acompanhado por uma família de classe média, através da televisão, onde os candidatos Collor e Lula apresentam suas propostas de governo. Para os personagens, homens e mulheres, os comentários sobre a campanha presidencial são diferenciados. Para o casal Glicério e Cleuzinha:
G – O Collor parece um homem sério, de boa família, fala inglês, é moço.
C – E bem apanhado! O outro, o barbudo, não me agrada.
E para o casal Benedita e Sandoval, que representa a família de classe popular:
S – Esse Collor vai moralizar o país. B – Vai ser um presidente bonitão!
Apesar de algumas características apontadas pelos homens parecerem questionáveis (falar inglês, ter boa família e ser jovem), a maioria das características elencadas pelos homens sobre o candidato demonstra que a escolha é feita através de uma análise em que valores éticos, como moralidade e seriedade, estão presentes; para as mulheres, o julgamento é superficial: ―bonitão‖ e ―bem apanhado‖ são termos lisonjeiros que se referem à beleza física. Novamente, ao fazê-las falar através de julgamentos inconsistentes, pode-se perceber como a produção insiste em representar as mulheres pelo estereótipo da incapacidade intelectual crítica.
No espaço público, as mulheres aparecem sempre acompanhadas por homens, tanto nas relações de trabalho, como no ativismo político dos movimentos
sociais ou acadêmico. Para exemplificar, aqui, a sua performance nos espaços públicos, dois pequenos diálogos são apresentados.
―No regime dos militares‖ (E7) apresenta a personagem Maria Clara, que é uma mulher atuante, politizada, que assume uma posição de liderança em resistência ao regime militar, chegando a ser presa, torturada, asilada e, por fim, anistiada. Ela é mostrada em uma conferência realizada em Londres, quando denuncia a ação repressora do regime ditatorial brasileiro, na década de 1970 (Figura 2). No momento da conferência aparece em uma cadeira de rodas, fazendo seu depoimento em língua inglesa com apresentação de legendas em português.
A atuação de resistência ao regime militar foi uma prática que a história sempre enfatizou, naturalmente, como ação masculina. A presença das mulheres era apenas episódica, nos movimentos de vanguarda. Elas só tinham registro quando participavam de movimentos sociais relativos ao seu gênero e/ou em lutas específicas, voltadas para a melhoria da qualidade de vida da família, tais como implantação de creches e contra a carestia. No exemplo citado, Maria Clara atua politicamente e participa dos destinos do país, o que viabiliza a condição de sujeito, mulher, sem restrição de interesses.
Figura 2 Maria Clara denuncia o regime ditatorial brasileiro em uma conferência em Londres
O segundo exemplo é uma contraposição do relato anterior. Nele as mulheres aparecem tagarelas e fúteis apesar de estarem assistindo a uma ópera, evento que a classe hegemônica classifica como erudito e considera que não agrada às classes populares (Figura 3).
Figura 3 Plateia cujos personagens assistem a um espetáculo de ópera
Fonte: DVD 11: E4 ―O puxa-encolhe da borracha‖
―O puxa-encolhe da borracha‖ (E4) aborda as instabilidades econômicas do ciclo da borracha, com a convocação de nordestinos para trabalhar no seringal da Amazônia. A estratégia dos patrões, para fixar os ―sangradores‖ no local, é a de lhes oferecer alojamento e alimentação ―amarrando-os‖ com dívidas até que o trabalhador não possa mais voltar para a sua terra. Além das questões das terras indígenas, o poder dos donos da terra e o declínio do ciclo da borracha também aparecem.
Existem duas situações em que as mulheres de classe sociais opostas aparecem: as de classe alta se apresentam com um discurso de frivolidade ao assistir um espetáculo no teatro; a outra situação traz uma mulher de classe popular incentivando o marido e, em um segundo momento, também o filho para irem trabalhar na Amazônia como uma forma de ganhar algum dinheiro. Ela fica e eles se vão. Nesse episódio, não existem mulheres em situação de trabalho, tampouco algum nome feminino é citado.
Vale destacar aqui o diálogo referente a uma cena onde aparecem dois casais brancos no Teatro da Paz, em 1911, em que as mulheres discutem sobre roupas70:
M1 – Que mal lhe pergunte, mas não estás repetindo o vestido da ópera passada?
H1 – Silêncio, bela!
M2 – O navio com meu novo guarda-roupa atrasou. Problema de quem se veste em Paris.
H2 – Vai começar a ópera.
M1 – Nesse caso, ha! ha! ha! ha!, o Rio tem suas vantagens.
M2 – Nem tanto, jamais eu repetiria vestido de uma modista qualquer.
M1 – O que importa é que repetes, como estás repetindo agora! M2 – Repito, sim! Coisas especiais como este colar, encomendado também em Paris, desenho único no mundo. E este anel, de brilhante raríssimo.
H2- Essas mulheres!
M1 – Quisera eu estar em melhor companhia no Teatro Amazonas, infinitamente superior a este casebre.
M2 – Alto lá! A Paris tropical, que é Belém, não tem nenhum casebre. M1 – A Paris tropical não é Belém, é Manaus.
M2 – É Belém! M1 – É Manaus! M2 – É Belém! M1 – É Manaus!
Isso vem explicitar que o fato de as mulheres serem representadas no espaço público, muitas vezes, não expressa uma sua ação emancipatória. Na cena da ópera, por exemplo, as duas mulheres aparecem como coadjuvantes; elas são utilizadas, em uma ação completamente discriminatória, muito mais para quebrar a narrativa histórica e introduzir cenas humorísticas.
Alguns trabalhos têm sido desenvolvidos visando a crítica aos materiais didáticos os quais, primeiramente, focaram textos e imagens dos livros e, mais recentemente, atendendo às exigências do avanço das novas tecnologias para a educação, também passam a ser objetos da crítica. Para Marcondes, Menezes e Toshimitsu (2003, p. 28-30):
Comportamento sexual, orientações sexuais, preconceito regional, lingüístico, étnico, associação do sexo feminino à burrice, associação de classes menos favorecidas ou de categorias profissionais à ignorância, relação entre a velhice e a impotência total, seja sexual seja de discernimento, são pontos de partida para criação de
supostos tipos sociais e, a partir deles, a criação do que chamam humor.[...] Não há dúvidas de que o ridículo faz parte da estrutura do argumento do poder. Colocando o outro no ridículo, estamos rindo como se estivéssemos na tribuna, em um ponto elevado, distante daquele que se encontra abaixo de nós.
A cena referida só desqualifica as mulheres, que falam alto e interrompem o espetáculo, recebendo uma vaia da plateia em reação ao seu comportamento inadequado, como se fossem crianças mal-educadas que precisassem ser corrigidas. As falas masculinas que aparecem no vídeo depreciam o comportamento das personagens femininas e assumem uma representação de autoridade capaz de fazê-las se calar. Aqui se aplica o pensamento de Sacks (1979, p. 202) sobre os papéis das mulheres e homens, que estão em contraposição, quando define que ―os homens são adultos sociais e as mulheres tuteladas domésticas‖.
Retratar a classe alta, com seus signos71 e estereótipos que apontam para um discurso feminino pleno de frivolidades, pode reforçar as teorias da ciência moderna que descrevem as mulheres com menor capacidade intelectual. Como as construções discursivas pertencem às classes hegemônicas, não é novidade que elas funcionem para a manutenção dos moldes da sociedade conservadora. Reis (1992) aponta que:
O discurso da chamada alta cultura tem, o mais das vezes, estado a serviço do poder e do Estado: os sistemas sígnicos, as práticas significantes (a linguagem cinematográfica, da televisão, da ficção, das ciências, da religião) produzem efeitos e moldam formas, de que se tem mais ou menos consciência, que estão relacionadas muito perto com a manutenção ou transformação dos sistemas de poder existentes.
Representar as mulheres dessa forma pode trazer prejuízos para a formação de meninos e meninas ao se verem através dessas dramatizações, as meninas como pessoas superficiais, com interesses voltados para os valores econômicos, tutoradas por homens que as repreendem em público, e os meninos, que podem se ver e também serem vistos, como aqueles aos quais é permitido ter
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Entre os signos utilizados para a identificação da classe social dos personagens em cena incluem-se: espaço público privilegiado do teatro, local da assistência em galeria, vestidos rebuscados das mulheres com pérolas e rendas, joias e tipo de penteados, além da utilização de leques. Para os homens, é determinante a utilização de fraque.
domínio sobre as mulheres. Dessa forma, o modo de ver de Johnni Langer (2004, p. 7-8) aponta para a perspectiva de utilização de vídeos em sala de aula:
Em uma época onde a leitura tornou-se minoritária perante as tecnologias como a TV e a computação, o cinema dissemina os referenciais populares sobre História com muito mais rapidez e eficácia que qualquer historiador. Isso reflete no ensino, visto a grande utilização do recurso por parte dos professores. Desta maneira, conseguir analisar produções cinematográficas, desconstruir seus estereótipos e criar um referencial crítico nos estudantes é uma meta importante para qualquer educador. E o campo está aberto para novas investigações acadêmicas, com imensas possibilidades de temas e pesquisas.
Há, também, no material analisado, algumas mulheres que aparecem naquilo que poderíamos chamar de fronteira entre o público e o privado. O primeiro está em ―Canudos e Contestado: guerras de Deus e do Diabo‖, o segundo em ―Questão social: caso de polícia‖ e os dois últimos em ―O puxa-encolhe da borracha‖. Em todos eles, a mulher aparece conversando com os habitantes do mundo público, que estão do lado de fora da casa, na janela, emoldurada e limitada ao espaço privado, embora em conexão com o espaço público através do seu olhar e do diálogo com um interlocutor. Aqui, a fronteira entre esses espaços, público e privado, remete à discussão sobre a posição social da mulher no mundo, seja o mundo real ou aquele de ficção, representado pelos vídeos do programa TV Escola.