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Fiche d’information Etude DOPPA

Dans le document Clara QUINTEN DOCTORAT EN MEDECINE Thèse (Page 86-93)

Acabámos de ler os três volumes que formam a vida do Duque de Palmela135, de que é autora a sr .ª D . Maria Amália vaz de Carvalho136, – nome cuja glória dispensa adjectivos .

De há muito que não tem saído dos prelos portugueses obra em que tão bem se fundisse o útil com o agradável numa superior manifestação de génio . Lendo-a, o espírito é depressa empolgado dum não sei quê, inatingível a palavras, – lindas formas de que se suspendem encantadoras ideias, acontecimentos quase românticos em que se agitam almas heróicas, – e, no meio de tudo, como se estivéssemos diante do mar, sente-se passar, com o estrépito de mil coisas misteriosas, a inflexível força que impele sempre a humanidade para diante . É realmente uma grande vida a Vida do Duque de Palmela, grande pela envergadura de quem principalmente a personaliza e grande ainda pelo poder de evocação de quem a escreve . A sr .ª D . Maria Amália vaz de Carvalho não só se afirma aí a primeira escritora que tem sido do seu país, mas também uma das poucas figuras que em Portugal sabem atirar com o pensamento para as alturas do espaço e do tempo, como Deus fez aos astros, – para orientar! Este juízo tem a sinceridade de um arranco de alma; a sua verdade impõe-se a uma simples leitura . Com efeito, a vida do Duque de Palmela apresenta-se tão cheia na síntese dos seus factos e tão habilmente entrelaçada na unidade do seu pensamento que é ao mesmo tempo a história completa da implantação do regime constitucional entre nós, – certamente a melhor história deste,

* O Distrito de Portalegre, nº 1 .130, 6 de Março de 1904, p . 1-2 . [Nota da edição] Este artigo divide-se em três partes . As duas primeiras não estão assinadas, mas a III (de 10 de Abril de 1904) é já publicada com a assinatura de ALN .

135 [Nota da edição] . A obra Vida do Duque de Palmela. D. Pedro de Sousa e Holstein, de Maria Amália

vaz de Carvalho, foi publicada em três volumes, pela Imprensa Nacional, entre 1898 e 1903 .

136 Maria Amália vaz de Carvalho (Lisboa, 1 .I .1847 – ibid ., 24 .III .1921) foi escritora e poetisa, tendo

protagonizado uma dinâmica actividade literária e jornalística tanto na imprensa portuguesa como brasileira . Daí resultou igualmente a organização de um dos primeiros salões literários lisboetas, tendo privado em sua casa com as principais figuras da intelectualidade portuguesa, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão ou Guerra Junqueiro . Casou em 1874 com Gonçalves Crespo .

já pelo sistema geral em que se amoldou, já pela contextura que lhe deu corpo, e ainda pela filosofia que definiu . verifiquemos .

I

A nossa história contemporânea, como a de outras nações, tem sobre as épocas anteriores a característica de uma maior complexidade de factos, a que corresponde também, no dizer de Spencer, uma afirmação de maior progresso . E, sendo assim, evidente se torna que aos historiadores modernos se impõe mais a obrigação de tomarem em linha de conta as condições de memória e de associação de ideias que assistem à natureza humana, para que, diante do concurso da quase infinidade de factos que estudem, os seus leitores não sofram a perturbação que tiveram um dia os que trabalharam no levantamento da torre de Babel . Não basta simplesmente por diante dos olhos lances dramáticos no meio de um cenário de formas admiráveis; é preciso também dar-lhes pontos de referência para que facilmente possa ficar na alma a impressão da unidade de um fim . De outra maneira não seria possível a filosofia da história .

É por isso que os sistemas narrativos foram sempre um objecto de grave preocupação para os historiadores . A nosso ver, porém, não há nenhum que se avantaje, sobretudo para os nossos tempos superiormente movimentados, ao sistema de expor factos, referindo-os, como em volta de um eixo, à individualidade que mais os dominou com o poder da sua acção simpática, destacando-se no meio deles, como sob os bramidos de uma tempestade no mar a voz do comandante entre a grita da marinhagem . Liga mais interesse à história, torna-a mais emotiva, ganham mais luz as ideias e maior relevo os factos, fazendo-os assistir como que a um interview que é a forma moderna de encontrar todas as antigas sensações de um romance e de descobrir todas as utilidades de uma lição . Teve já a larga intuição da superioridade deste sistema o consciencioso Agostinho Therry, escrevendo a vida de S . João Crisóstomo para fazer a história da Igreja do Oriente e a de S . Jerónimo para a história da Igreja do Ocidente .

É um sistema tão adequado à natureza humana que todas as grandes comoções sociais da antiguidade nos aparecem atribuídas a um ou outro indivíduo alargado sob a neblina das lendas . Instintivamente, os nossos historiadores, até o fim do século XvIII, foram também levados a comportar a história de Portugal na biografia dos reis . Se a rotina atinou assim por vezes com o maior protagonista da nossa vida social, as mais das vezes falhou; e só por isso, mas apenas por isso, achamos justa a revolta que contra semelhante sistema iniciou o ilustre historiador Coelho da Rocha ao traçar o seu Ensaio

sobre a história do governo e da legislação de Portugal .

Daí vem o julgarmos que a sr .ª D . Maria Amália foi de um notável acerto impondo a figura do duque de Palmela a toda a história da implantação do nosso regime constitu- cional . Tornando assim aquela mais susceptível de ser admirada, simplificou ao mesmo tempo esta, refundiu-a de um carácter mais humano, deixou transparecer melhor a sua filosofia . Deste modo avincou para o futuro a vitória de um grande sistema .

Mas teria realmente sido o Duque de Palmela a figura superiormente dominadora da sua época? A sua intervenção nos factos do seu tempo teria, com efeito, sido das mais

simpáticas para os juízos da posteridade? Assim me parece, e ainda nessa demonstração se agigantou mais uma vez o talento da sr .ª D . Maria Amália .

Entre as maiores figuras contemporâneas que se amparam com a do Duque de Palmela notam-se D . Pedro Iv, Mouzinho da Silveira e o Duque de Saldanha . Nenhum, porém, o iguala em harmonia de acção individual .

D . Pedro Iv foi grande, mas nem ele deixou completamente triunfante a implantação do regime liberal, nem o seu prestígio resultou tanto das suas qualidades pessoais como das tradições dinásticas que simbolizava . E, demais, foi ele quem nos arrancou o Brasil, apressando a evolução histórica a um ponto a que só mais tarde se chegaria . Isto não pode ser indiferente para o sentimento de uma pátria .

Mouzinho da Silveira, se influenciou notavelmente a sua época com as importantes reformas que iniciou, interrompeu, aliás, em muitas destas, a evolução lógica da nossa consciência colectiva, desafeiçoando-nos por imitações estranhas de um modo de ser tradicional . Por isso nos custaram tanto sangue tais reformas!

O Duque de Saldanha esse não passava de uma grande criança, bamboleando por ventos de glória, sempre a sonhar a simpatia das multidões . Como militar, enormíssimo na sua estatura; como político, de um porte menos que regular . Sobre a sua memória há-de pesar sempre aquela explosão de despotismo que foi um rapto no Porto em 1854 e que, para maior desgraça, como Cícero para Catalina, tem a lembrá-la eternamente uma monumental acusação de Carlos Pinto Coelho .

Sobranceira a essas figuras ergue-se indubitavelmente a do Duque de Palmela . É uma individualidade completa . O seu carácter teve todas as condições de formação para uma extraordinária grandeza . Entre os seus antepassados há, com a glória de um alto nome de família, o peso de verdadeiras tragédias, – o melhor cadinho das vontades . Destaca-se aí aquele em que a sua mãe, D . Isabel Juliana de Sousa Coutinho, de 15 anos apenas, reage vitoriosa contra o despotismo do Marquês de Pombal, – ela que tinha apenas, para defender-se, as asas brancas de um puríssimo amor com que voou para dentro da história!

Por si pôde o Duque de Palmela conhecer também as amarguras da diversidade . O seu espírito, como os grandes oceanos, foi agitado de formidáveis tormentas .

Com este tempero de vontade coincidiu uma fina cultura de inteligência . Esteve nos principais países da Europa, frequentou as cortes mais predominantes do mundo, conviveu com os melhores estadistas do seu tempo, percorreu a maior parte das nossas províncias e teve ocasião de conhecer directamente o Brasil . A sua sensibilidade pôde também desabrochar para as mais subtis delicadezas da arte . Teve o toque educativo das grandes comoções, ouviu os melhores músicos, tratou com os mais celebrados pintores, entrou em todos os museus conhecidos, sentiu intimamente as fascinações de almas geniais como a de Staël137 e conheceu os deslumbramentos dos principais salões do mundo .

137 Anne Louise Germaine Necker, baronesa de Staël-Holstein, conhecida como Madame de Staël (Paris,

22 .Iv .1766 – ibid ., 14 .vII .1817) foi uma escritora francesa . filha de Necker (1732-1804) – o famoso ministro de Luís XvI (1754-1793) –, conviveu desde cedo com a elite intelectual francesa . Publicou, em 1800, a sua primeira grande obra – De la Littérature Considerée dans ses Rapports avec les Institutions

De tudo isso resultou um equilíbrio de carácter que forma dele uma individualidade tão segura como as dos melhores heróis de Plutarco .

A sua acção na vida social portuguesa é demorada e progressiva . Serve na mocidade às ordens de Gomes freire de Andrade, representa Portugal como ministro junto de várias cortes defendendo sempre com raro aprumo os interesses nacionais, assiste a congressos e conferências europeias de alcance para a nossa pátria, tenta adiantar-se à revolução de 1820 recomendando a D . João vI as reformas que os tempos mostravam convenientes, torna-se depois a alma do partido liberal, incutindo em D . Pedro Iv as esperanças da vitória, preparando para esta o concurso de aventureiros românticos como Cockrane ou Doyle, de heróis como Napier, de homens de negócio como Mendizabal, de políticos como Canning, e por último arriscando a sua vida e a sua honra para o bom êxito da expedição que salvou definitivamente a causa da liberdade entre nós . Triunfante esta, procura consolidá-la . Como par do reino a sua palavra impõe moderação e senso prático à luta dos partidos; como ministro reorganizador procura implantar reformas tão habilmente traçadas que num dos respectivos relatórios viu Armand Carrel “o documento financeiro mais importante depois de Neker [sic]”; como diplomata obtém o reconhecimento solene do governo inglês de que o tratado de 1810, tão ruinoso para o nosso comércio, se achava extinto, e põe honrosamente termo ao cisma religioso com a Santa Sé; como político, dá o seu apoio a Costa Cabral enquanto a sua acção se mantém liberal dentro da ordem; e tira-lho logo que ele se converte num órgão reaccionário e despótico, e por último coroa a sua vida com o ministério de Março a Outubro de 1846 que é um alto modelo de administração pública, e que teve as simpatias gerais da nação, até mesmo dos elementos mais avançados do partido popular como Passos Manuel138; deixou assim firmado um belo exemplo de consolidação constitucional .

Depois disto, quem poderá apontar aí, no período da implantação do regime liberal, maior figura que a de Palmela?

O seu carácter assombra . Prevendo o movimento da revolução liberal, indica reformas para que ela se evite; vencedora a revolução, impõe-lhe moderação para que ela vingue; estabelecido um governo em condições normais, esforça-se por acomodar as conquistas liberais às tradições da nação, tornando regular a nossa evolução colectiva . Nesta orientação nada há que o desvie, nem incompatibilidades individuais, como quando convida Saldanha, seu grande inimigo pessoal, a entrar no primeiro ministério do reinado

napoleónico e acabou por partir para o exílio: na Alemanha, desenvolveu o seu gosto pela literatura germânica e, em Itália, conheceu D . Pedro de Sousa Holstein, futuro duque de Palmela, com quem manteve uma relação muito próxima . A publicação, em 1813, da obra De l’Allemagne, constituiu um marco na difusão da literatura alemã no seio do romantismo europeu, cujo valor, pela via da inspiração e do génio, é enfatizado pela autora .

138 Manuel da Silva Passos (Bouças, 5 .I .1801 – Santarém, 16 .I .1862), conhecido como Passos Manuel, foi

advogado, parlamentar e ministro . Destacou-se como orador no Parlamento, situando-se politicamente na ala mais esquerdista do liberalismo . Ocupou, em 1836, um lugar preponderante no contexto do processo revolucionário, assumindo entre 1836 e 1837 os cargos de ministro do Reino, da fazenda e da Justiça, tendo um importante papel na reforma financeira, na publicação do novo código administrativo e na esfera da educação . Manteve uma vida política activa, ocupando, com a Constituição de 1838, o lugar de Senador e, com a Regeneração, o cargo de deputado .

de D . Maria II, nem amor-próprio ofendido, como quando acede, depois da revolução da Maria da fonte, em circunstâncias excepcionalmente difíceis, a formar ministério, não obstante os profundos motivos de ressentimento que tinha da Rainha, nem a ambição das suas comodidades, como quando arrisca a sua vida e até a sua honra para que vingue a expedição a que se deveu a vitória definitiva da causa liberal, nem a ingratidão das multidões, como quando foi do tumulto das Chagas que o não abateu no interesse pela governação pública . firme, sempre igual a si mesmo . Nada lhe quebra a linha de aprumo . Extraordinária envergadura! Num brilhante artigo crítico, nota-lhe o sr . Silva Cordeiro uma certa falta de espontaneidade de acção . Mas, onde o ilustre escritor parece ver um defeito, vejo eu apenas mais uma confirmação de superior carácter do Duque de Palmela . A espontaneidade nas acções representa o predomínio das forças fatais sobre a vontade, e o carácter tem apenas esta como base da sua segurança . As iniciativas para a afirmação de um grande carácter equilibrado não se apreciam por arrancos impulsivos . É por isso que todos os movimentos sociais que tomam estes como ponto de partida não alcançam em regra estabilidade na realização dos seus sonhos .

O Duque de Palmela teve politicamente o plano de realizar todas as reformas liberais dentro de uma revolução pacífica, e a sua vontade, como se conclui facilmente da obra da sr .ª D . Maria Amália, esteve sempre à altura desse plano . Desde 1808 até 1850 pairou dominadoramente nos nossos destinos nacionais, imprimindo-nos a consciência e orientação .

Na sua vida íntima e particular não desmentiu as mesmas condições de carácter: amorável no seio da família, resistente a solicitações estonteadoras de paixão individual, cuidando da manutenção honrosa das tradições do seu nome, foi o que, francamente, se pode chamar um bom marido, um bom pai e um bom amigo . Que lhe faltaria, pois, para em tudo ser excepcionalmente grande e impressivo? Apenas a justiça da história, e essa chegou com os três volumes que, sobre a sua vida, atirou agora a público o superior talento da sr .ª D . Maria Amália vaz de Carvalho . (Continua)

D. Maria Amália Vaz de Carvalho – Vida do Duque de Palmela,

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