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FENDER STOOL

Dans le document And Work (Page 30-33)

Jesus, durante sua vida de pregação, em várias passagens do Novo Testamento propôs como um elo do homem com Deus o momento da ceia. Na tradição cristã católica a ceia é a eucaristia e é entendida como Sacramento. Sua origem é vista em um mito143 fundado por Jesus Cristo há dois milênios, no momento em que antecede a sua peregrinação final até o calvário, na Santa Ceia. Em suas origens bíblicas, é interessante observar que Jesus atribuiu ao gesto de “comer com” durante a narração do Novo Testamento um sentido simbólico anterior a Santa Ceia. Em algumas passagens do Novo Testamento, por exemplo, a multiplicação dos pães e o milagre da conversão da água em vinho na boda de Caná e a multiplicação dos peixes, Jesus já anunciava o Reino como banquete festivo (cf. At 1,4; 10,40-42; Lc 24, 36-49; Mc 16-14; Jo 21, 1-14).

Quando fala do reino, frequentemente o faz em chave de banquete festivo ao qual Deus nos convida, como nas parábolas do filho pródigo ou do banquete do reino. O gesto da refeição é, para Jesus, uma ação profética com a qual quer dar a entender que o Reino vem, que já está aqui, e que vem para todos.144

142 Maná veja: Deuteronômio 8,3 e Êxodo 16,13-36. Maná é palavra derivada da expressão “MAN-HU”: (que é isto), que os israelitas empregaram ao vê-lo pela primeira vez. Ver versículos 15 e João 6,31 e I Cor 10,3 v. 15: “Este é o pão que o Senhor vos manda para comer”. No Novo Testamento João 6,30-34 também menciona o Maná e no Salmo 77, 24.

143 Mito entendido na concepção de Eliade: “o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial [...] É sempre, portanto, a narrativa de uma criação: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser”. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Op.cit., p.85.

Vários são os relatos nos evangelhos, nos quais, Jesus aparece compartilhando a mesa com os mais diversos segmentos da sociedade, até mesmo os mais excluídos. Sendo tais atos reprováveis e motivo de escândalo para um Messias sentar-se com pecadores. Jesus aparece no evangelho compartilhando a mesa com outros em casa de seus amigos, como Lázaro e Mateus, de fariseus e publicanos.145

Já se evidenciava a novidadeira atitude de “comer e beber” com os ímpios e aqueles mais marginalizados, dando a este gesto simbólico de comensalidade fraterna a possibilidade de reconciliação e comunhão (Koinonia) de todos indistintamente.

O cear com tem, na trajetória vivencial de Jesus, um significado todo especial. É bem enfatizado e sobressaltado durante a caminhada jesuanica em seus encontros ‘o comer com’ como um ato sagrado. Já não é somente o ato de comer um ato qualquer, como fonte de vida, converte-se também em fonte de unidade comunitária como comensalidade fraterna e um momento de união com Deus.

Desde o Antigo Testamento é doado um significado simbólico à ceia, como um momento de sinal realizador de comunhão. Porém, no Antigo Testamento Deus não se doa como comensal:

Nesse motivo narrativo, na ceia diante de Deus (não: ceia com Deus), se representa uma ligação entre Deus e o ser humano que, simultaneamente, mostra a incomparabilidade dos parceiros da aliança: Deus é quem institui a aliança, que oferece a ceia, ele se torna aliado; mas ele não é comensal ao lado dos demais comensais.146

Na aliança feita por Moisés no Sinai, que são aludidos nos relatos da instituição eucarística (Mc 14,24; Mt 26,28), o sacrifício com sangue. Em primeiro lugar, é bebida a metade do sangue por Moisés que lê o documento da aliança, todo o povo conclama concordando com o dito do documento. E, em seguida, a outra metade é aspergida por sobre o povo e Moisés proclama: “Este é o sangue da aliança que o Senhor (...) fez convosco” (Ex 24,8). Nesta aliança do Antigo Testamento, Deus ainda não havia se doado em sacrifício como comensal. O sacrifício de animais era uma tradição de agradecimento aos deuses pelo alimento recebido de forma religiosa com vistas comunitárias, ainda que nas ceias particulares judaicas havia a tradição e hábito do agradecimento diário pela refeição e alimento recebido de Deus.

145 Cf. ALDAZÁBAL, José. Op.cit., p.39. 146 SCHNEIDER, Teodor (org.). Op.cit., p.243.

Nessa aliança há uma associação entre a ceia e o sacrifício como se as duas coisas possibilitassem a união com Deus. Mas, em Israel, toda refeição diária conjunta começa com louvor e termina com agradecimento.147 O ‘comer com’ para o povo judaico tradicionalmente remetia a um ato sagrado, momento de união com Deus.

Mas o comer também é fonte de unidade comunitária. Os comensais que compartilham a mesa permanecem unidos. “Comer com os outros” sempre tem sido símbolo de solidariedade, amizade, comunicação interpessoal e festa. É o sentido do “convivium” e também do “symposium”, de “beber juntos”, no final da refeição, em clima de conversa.148

A ceia permeia a vida de Jesus como communio, symposium, convivium e koinonia. Durante o Novo Testamento várias são as passagens que remetem a atos simbólicos de Jesus como comensalidade fraterna e distribuição justa do alimento. Encontramos este gesto simbólico na multiplicação dos pães e peixes nos evangelhos de Mateus 14,13-21; Marcos 6 22-69; Lucas 22,14-20 e João 6,1-15. Vários são os momentos em que Jesus se utiliza do gesto simbólico do ‘comer com’ para deixar o modelo exemplar desse ato como possibilidade de união com Deus e com os irmãos. Gestos metafóricos, parábolas empregadas por Jesus deixa-nos entrever que o ato de comer ultrapassa o ato fisiológico e transborda num ato sacramental.

Estes atos enunciados por Jesus são marcantes em sua trajetória existencial com um cunho diferenciado do simples comer. Essa relação mistérica com o alimento é abraçada por Jesus e torna-se sua marca registrada, diríamos assim.

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