VI. CAS DE SCORBUT AU GHPSO DE CREIL
5. Femme de 83 ans
É redundante citar a pertinência da produção científica para o desenvolvimento do indivíduo, mas alguns aspectos são relevantes e devem ser comentados. Acreditamos que a melhor maneira de demonstrar até onde e como devemos apoiar a produção científica poderia se resumir à história de Jack Andraka, um garoto que com 13 anos se preocupava como combater o câncer pancreático, preocupação alheia à atenção da maioria dos meninos de sua idade, mas que lhe rondava o pensamento.
Passados dois anos de consultas fatigantes a inúmeros periódicos científicos de acesso livre, Jack se depara com artigo sobre métodos analíticos usando nanotubos de carbono; daí para a criação de um exame para diagnóstico de câncer pancreático e ovário foi um salto. Com ajuda de um pesquisador da Johns Hopkins School of Medicine sua imaginação e consequente estudo tomam forma, materializando-se em fitas de papel, capazes de medir os níveis de mesotelina. Não destacamos apenas a capacidade fantástica de este garoto conseguir atingir, com tão pouca idade, uma conquista dessa grandeza. Queremos lançar o olhar na forma como ele a conseguiu. No desenvolvimento da pesquisa, se não tivesse acesso e se deparado com artigos científicos que haviam sido disponibilizados, livremente, por outro garoto de semelhante genialidade, Aaron Swartz, talvez Andraka não tivesse conseguido atingir tal patamar de desenvolvimento. Entretanto, a liberdade, principalmente a que a internet nos oferece, nem sempre pode ser considerada perfeita para a máxima disseminação do conhecimento científico, pois, como veremos a seguir, ela pode ser distorcida para o ganho financeiro.
Intrigante artigo chamado “O oligopólio das editoras acadêmicas na Era Digital”, publicado no periódico PLOS One da editora PLOS, em junho de 2015, fornece dados alarmantes (http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0127502). O artigo analisa a publicação de 44.483.425 documentos publicados em periódicos científicos no período entre 1973 e 2013 e constata que, a partir da década de 1990, houve tendência de concentração dos periódicos científicos em cinco grandes editoras particulares: Elsevier, Taylor & Francis, Wiley-Blackwell, Springer e Sage Publications, as quais cresceram vertiginosamente por meio da indexação de novas publicações ou pela aquisição de periódicos
consagrados. Ainda de acordo com o artigo, as editoras, combinadas, detinham participação de apenas 10% dos artigos publicados em 1973, número que chegou ao percentual de 66% em 2013. Constatou ainda que, o aumento na participação das editoras ocorreu em grande parte devido ao advento da internet e à facilidade em pulverização dos artigos, o que ocasiona maior divulgação indireta dos respectivos conteúdos. A facilidade de difusão fez aumentar o fator de impacto dos documentos, o que ocasionou, consequentemente, mais autopromoção. Isso se deve não apenas ao fato de as editoras possuírem maior poder financeiro, mas também porque, pelo fato de serem mais reconhecidas, atraem autores consagrados, que serão consequentemente mais citados. A partir das informações do citado artigo, podemos afirmar que o mercado se comporta como se estivesse em um ciclo de retroalimentação positiva. Sendo um oligopólio, os valores cobrados independem da demanda, criando, portanto, um lucro fantástico por meio da comercialização e um produto fornecido de graça pelo produtor (o autor) e que é examinado, por sua vez, também sem remuneração, pelos pares acadêmicos.
Por outro lado, a partir da experiência com Terræ Didatica, acreditamos que as publicações realmente abertas e livres sofrem para captar recursos, pois não contam com a máquina editorial. TD hoje conta apenas com captação financeira por meio da veiculação de espaço publicitário de empresas particulares que se interessem em dialogar com o público leitor da revista. Conforme visto a dinâmica é difícil e extremamente laboriosa, pois mesmo com um corpo editorial composto por diversos profissionais de renome; a captação de recursos depende também de dedicação e dispêndio de tempo, o que se revela complicado, principalmente quando todos os envolvidos na produção de Terræ Didatica possuem carreiras e atividades além da revista. Por outro lado, os valores captados ainda são insuficientes para a contratação de profissionais com dedicação plena, sendo que a revista hoje tem um custo de produção , entre versão impressa e digital de aproximadamente R$ 12.000,00. Importante salientar que os valores são integralmente destinados a serviços diretamente ligados à produção e distribuição. Não poderia ser diferente, pois se trata de periódico sem fins lucrativos.
Terræ Didatica conta unicamente com a dedicação dos editores, os quais
apaixonadamente não só pela publicação, mas principalmente pelas ciências, pela educação e o pelo exercício da boa docência, lutam para seu crescimento e manutenção. A revista abre espaço não somente para publicação de artigos científicos e documentos, mas disponibiliza uma janela capaz de gerar visualização de novas técnicas e práticas de ensino e aprendizagem. Possibilita que as linhas se formem e criem movimento. Terræ Didatica propicia então a
capacidade de que um pedaço de papel tome forma e ganhe vida própria, trazendo benefícios não somente ao autor, mas também a sociedade.
A produção científica deve ser popularizada primordialmente sob regime de livre acesso, para que possamos continuar com evolução social constante que a pesquisa científica de maneira geral proporciona. Disponibiliza-se assim para as presentes e futuras gerações a possibilidade de facilmente disseminar o conhecimento científico, abrindo portas para o saber. Afastando com isso a limitação mercantilista imposta pelas corporações as quais utilizam o conteúdo científico apenas como forma de acúmulo de riquezas e não como ferramenta de desenvolvimento social.
Infelizmente, é usual avaliar a importância dos periódicos relacionando-os à sua qualidade. Referimo-nos à qualidade quanto às características bibliométricas, de gestão editorial, de impacto na comunidade a que se destinam, de índices de citação de artigos em indicadores internacionais e outros elementos. Entretanto, os índices não qualificam uma revista quanto à efetividade dos trabalhos que divulga. Para quantificar se existe efetividade e em que medida ela acontece e merece ser alcançada, devemos entender primeiro o seu significado. Dentre as várias acepções que podemos encontrar para efetividade nos deparamos com a de Washington Souza (2008), que descreve que a efetividade depende da avaliação dos efeitos produzidos em relação a uma ação. Introduzimos aqui a positividade, a qual designa um efeito que se soma à efetividade. Assim, a produção do resultado correto deve ser também positiva do ponto de vista do resultado inicialmente proposto. Se um dado periódico tem como objetivo o de ser um veículo adequado de difusão e fortalecimento de conhecimento do ensino de Geociências, deve ser observado se possui meios efetivos e positivos para atingir o objetivo. Devemos ter em mente, portanto, que a aceitação dos artigos para publicação precisa atender de maneira objetiva aos preceitos da educação, levando-se em consideração a oferta sistemática de meios e de elementos que favoreçam o ensino, provocando o leitor em relação à aprendizagem e auxiliando-o no território em que ambos – o ensino e a aprendizagem – se conectam, conforme exposto na teoria dos círculos secantes da educação.
Queremos então, não somente que se materialize uma análise da revista per si, mas também avaliar como ela se relaciona no tempo com seus leitores alvo, e que frutos ela produz ou poderá produzir se determinado caminho proposto for trilhado, utilizando os autores e processo editorial como ferramenta capaz de produzir os efeitos desejados.