3.2 Uniaxial tension and compression test
3.2.1 FEM analysis of the tension and compression test
Retornando para a questão da compreensão da proposta de comunismo defendida por Badiou, é necessário abordar e discutir a própria noção de “Ideia” que está implícita. Para nosso Filósofo, a Ideia de comunismo implica em uma abstrata totalização dos três elementos primitivos, ou seja, “a Subjetivação de uma relação
entre singularidade de um Processo de Verdade e uma representação da História”
(BADIOU, 2012, p.134). No sentido dado por Badiou, Ideia nada mais é do que a compreensão de um indivíduo de que sua participação enquanto militante em um
Processo de Verdade (neste caso um Processo Político singular) possui a
capacidade de se tornar uma decisão histórica. É justamente no limite entre o próprio Processo (Político) de Verdade e do indivíduo que a Ideia de comunismo existe enquanto elemento de Subjetivação sustentado pela projeção desta Verdade na História. A expressão “projeção” é aqui de muita importância em virtude de que, nesta concepção, a História não possui uma existência Real, mas apenas Simbólica, já que, não possui uma existência efetiva em razão de ser apenas uma narrativa que se constrói após a ocorrência de um fato.
Em Jacques Lacan é encontrado o auxílio na sua proposta da relação Real, Simbólico e Imaginário. É possível afirmar, com Badiou, que o Processo de Verdade é o Real que sustenta a própria Ideia por meio de uma Subjetivação que é a instância do Imaginário que projeta o Real (Verdade) no Simbólico (História). A razão de a Subjetivação ser da instância do Imaginário se justifica pelo simples fato de que a Verdade, como todo Real, não pode ser simbolizado, ou seja, é “insimbolizável”106
por definição. O esclarecimento do texto de Alain Badiou é aqui indispensável:
(…) a Ideia expõe uma Verdade numa estrutura de ficção. No caso particular da Ideia comunista, operante quando a Verdade da qual se trata é uma sequência Política emancipadora, diremos que “comunismo” expõe essa sequência (e, portanto, os militantes dessa sequência) na ordem simbólica da História. Ou ainda, a Ideia comunista é a operação imaginária pela qual uma Subjetivação individual projeta um fragmento de Real político na narração simbólica de uma História. É nesse sentido que é judicioso dizer que a Ideia é (como já esperávamos!) ideológica. (BADIOU, 2012, p.137).
Ocorre que há um movimento realizado por Alain Badiou que é crucial, e a razão de ser da presente abordagem, a negação do autor em aceitar o uso da expressão “comunista” enquanto um adjetivo. Aqui se encontra a “novidade” Badiouniana na questão de sua Ideia comunista, a concepção de que a apropriação e significação do termo “comunismo” levada a termo durante quase todo o século XX acabou por desconstituir e desnaturalizar o próprio conceito e a noção do que se pretende dizer com a palavra. Badiou, como já foi introduzido, propõe um terceiro
106 Como já referido anteriormente, o termo “insimbolizável” é utilizado por Lacan para significar o que não é passível de simbolização, ou seja, que não pode ser substituído por resistir ao esquema de substituição de uma cadeia significante.
movimento na batalha por significação do termo “comunismo”, movimento este antecedido pelo sentido original, com o surgimento da utilização do termo no século XIX, e pela já apontada descaraterização do sentido conceitual praticada no século XX, que permitiu a construção e uso de expressões como “Estado Comunista” e “partido comunista”, como se tais não constituíssem explícita contradição. Como é possível denotar, a proposta do autor não é a de negar o passado do termo “comunista”, mas apontar a possibilidade de interpretar o progresso da Verdade em sua dimensão histórica de modo a permitir a superação da qualificação de adjetivo tão contemporânea ao termo “comunista”. Resulta assim, desta proposta, uma percepção da síntese de suas dimensões Política, ideológica e histórica. Isso não implica, no entanto, em alterar a concepção de que não há nenhum Real da História, há sim a sua existência Simbólica. Badiou explicita que, em determinado sentido, a História não existe, ela na verdade é uma construção de simbolismos regrada pela
Lógica do Estado da Situação (para usar a terminologia de O Ser e o Evento
(BADIOU, 1996), da Lei do Aparecer de cada um dos Mundos (na terminologia de
Lógicas dos Mundos (BADIOU,2008), não se trata de algum Real. Ao contrário, é a Verdade que promove “um encontro com o Real” de um Mundo e a Subjetivação é a
decisão que sustenta este processo por meio do Sujeito Militante. Esta relação fica mais clara na afirmação de que “é preciso começar pelas Verdades, pelo político,
para identificar a Ideia na triplicidade de sua operação: Real-política, Simbólico- História, Imaginário-ideologia.” (BADIOU, 2012, p.138). Já tendo sido analisada a
integração que resulta do Processo de Subjetivação, ainda que inicialmente em nível individual, entre os campos do Real, do Simbólico e do Imaginário, e a relação destes para com a Verdade, a História e a ideologia, resta abordar a questão de como ocorre a ruptura que inicia esta integração.
Em um Mundo, ou Situação, há corpos e linguagens que conservam uma determinada disposição que está submetida às Leis Transcendentais107 deste Mundo, ou à Estrutura da Situação, que acabam por determinar as possibilidades internas. Temos assim, que em um Mundo (ou Situação) existe uma regra (Lei) que determina o que é e o que não é possível. Este sistema que impõe as possibilidades e impossibilidades, como já foi discutido no capítulo 2, é denominado por Badiou como
107 Como já referido em capítulo anterior, “Transcendental designa a capacidade constitutiva de todo Mundo de atribuir ao que está aí, neste Mundo, intensidades variáveis de identidade com tudo o que está, igualmente, aí.” (BADIOU, 2008, p.649). É uma referência ao aparecer de objetos,
Estado da Situação (ou simplesmente Estado). Ao determinar as possibilidades em
uma Situação, o Estado também acaba por “artificializar” uma totalização simbólica, ou seja, pretende ter a capacidade de simbolizar (representar) tudo aquilo que pertence e está incluído em uma Situação particular. Ocorre que, por definição axiomática, toda Situação necessariamente possui um “inapresentável”, ou como afirmou o Filósofo francês: “toda Apresentação estruturada inapresenta “seu” Vazio,
no modo desse não-Um que nada mais é do que a face subtrativa da Conta.”
(BADIOU, 1996, p.52). Como consequência, em toda Situação, necessariamente, sempre há a possibilidade do impossível, ou seja, há sempre “algo” que escapa da capacidade em contar-por-Um, assim como em um Mundo sempre há a possibilidade de maximização da intensidade de existência do que então era inexistente108.
Assim, esta incapacidade implícita a todo sistema de imposições formais pode ser relacionada com a existência, como já visto, de algo “insimbolizável” que é tido pelo Estado como algo impossível. Este impossível, para Lacan, é sinônimo de Real e aqui podemos retornar ao Processo de Verdade em sua relação para com a Ideia de comunismo no sentido Badiouniano aqui apresentado. O passo seguinte será retomar a categoria de Acontecimento enquanto denominação de uma ruptura ou, em termos mais lacanianos, enquanto advento do Real enquanto possibilidade futura.