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2. ORGANIZATIONAL ASPECTS OF IMPLEMENTED MECHANISM OF

2.6. Feedback workshops

“É preciso imaginar Sísifo feliz”, diz Camus (2004, p. 88). Em sua reinterpretação do mito grego, o autor francês parte do ponto em que os mitos silenciam para elaborar uma reflexão sobre a tarefa a que o personagem fora submetido, sobre as aflições do absurdo, mas também sobre as possibilidades que sua condição lhe oferece.

Sísifo foi condenado pelos deuses a rolar uma pedra até um cume de uma montanha, quando a rocha fatalmente rolaria ladeira abaixo, exigindo um recomeço. Os motivos que levaram à condenação de Sísifo variam conforme a versão do mito, mas possuem em comum uma certa disposição à “leviandade para com os deuses” (idem, p. 85); desde o começo, Sísifo é um desobediente, um bufão, ou um ardiloso; alguém que, mesmo diante de potências que não pode controlar, resiste, revolta. Sísifo foi sentenciado, imaginaram os deuses, ao mais abjeto dos cotidianos, pois “não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança” (ibidem). Assim o vemos, “todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada”; vê-se, prossegue Camus, “o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro”, a “segurança toda humana de duas mãos cheias de terra” (idem, p. 86). Ao final do esforço imenso, a tarefa recomeça – uma tortura em modo moto-perpétuo.

Mas é preciso imaginar Sísifo feliz. Que pensa Sísifo diante da recidiva do tormento, na necessidade de recomeçar, quando vê a rocha cair inutilmente ou se prepara para levantá-la novamente? Camus oferece uma resposta:

É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a

pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo (CAMUS, 2004, p. 86).

Em seu trabalho imposto, em seu trabalho simplesmente, na negatividade do universo que lhe foi imputado, Sísifo, como o Homem Revoltado (CAMUS, 2011), encontra espaço para dizer “Não”, para encarar seu percurso com lucidez, para pensar e, simultaneamente, criar. Ele, é possível afirmar, derrota os deuses ao criar significado em cada recomeço de sua tarefa. É preciso imaginar Sísifo feliz, mas talvez seja mais urgente imaginar Sísifo como imagem de resistência – Sísifo resiste, uma resistência que “faz calar todos os ídolos”. “Seu destino lhe pertence”, nos diz Camus (idem, p. 87), “Seu rochedo é sua questão”. Diante deste esforço, maior do que o peso da pedra que carrega, “No universo subitamente restituído ao silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra” (ibidem).

Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz. (CAMUS, 2004, p. 88)

Cipriano Algor, o herói de A Caverna, tal como Sísifo, “convencido da origem toda humana de tudo que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim”, está sempre caminhando, pois “o rochedo continua a rolar” (idem, p. 88). A mesma lógica do inevitável, do fardo e da ignomínia lhe é aplicada, segundo a máxima do “é preciso, não temos escolha”, sabiamente relacionada por Isabelle Stengers (2015) a um certo manto de transcendência de que se reveste o mercado, especialmente quando anuncia suas inescapáveis “leis”. Quando demitido do Centro, Algor vê a solidez institucionalizada em que se imaginava arvorado exposta aos caprichos do mercado; sua segurança, como a de tantos outros no mundo líquido-moderno, transforma-se num “playground de forças globais que se encontram além do alcance do controle político e da capacidade dos afetados reagirem adequadamente a elas”, que dirá então de “resistir adequadamente aos seus golpes” (BAUMAN, 2007, p.19). Cipriano Algor é muito cônscio de que não é ele quem decide as regras da partida, e de que o que se desenrola “é um jogo desigual, em que as cartas foram todas para o mesmo lado e em que, se preciso for, os valores dos naipes variarão consoante a vontade de quem tiver a mão”

(SARAMAGO, 2016, p. 96). O shopping é retratado, sarcasticamente, como uma instituição que permitiu, benevolamente, a existência de uma olaria onde o barro é amassado da “mais artesanal das maneiras”, “em um forno que conserva traços de inadmissível antiguidade numa época moderna, não obstante os escandalosos defeitos e intolerâncias que a caracterizam”, “quando existe um Centro como aquele” (idem, p. 147). O Centro opera “no terreno dos factos comerciais”, assevera seu Diretor, e “teorias que não estejam ao serviço dos factos e os consolidam não interessam para o centro”; muito embora, reconhece o Diretor, o próprio Centro já elaborou suas teorias e “algumas vezes tivemos que lançar por aí, no mercado, quer dizer, mas só as que serviram para homologar e, se necessário, absolver os factos quando eles alguma vez se portaram mal” (idem, p. 97). O sistema mundial que se tornou conhecido por globalização tornou-se um processo autojustificante, um ato divino para o qual a análise do campo como está dado tomou lugar de qualquer crítica, como explica Sloterdijk (2008, p. 151):

Após uma fase inicial de vários séculos, o sistema mundial estabiliza-se cada vez mais em si próprio como um complexo de movimentos de rotação e de oscilação que se mantém pela sua própria dinâmica. No reino dos capitais em circulação, o momentum ultrapassou os motivos. A consumação substituiu a legitimação, os factos tornaram-se forças fundamentais. Quem diz ‘globalização’, poderia também dizer ‘destino’.

Se podemos chamar de tragédia a saga de Cipriano Algor é porque seu destino está atrelado a forças imperiosas, desconhecidas e onipresentes, como que comandadas por deuses absurdos: assim como aqueles que empurram Sísifo a um destino fatídico. Algor está sujeito à flutuação de abstrações incognoscíveis e imprevisíveis (o mercado, o capital global, as alterações da demanda, a globalização) diante das quais pouco pode fazer, além de continuar. Não é esta a mesma escolha que Camus destaca como fio condutor de sua releitura da tragédia grega: persistir ou perecer? Para Camus, que defendia que a única questão filosófica relevante diz respeito a se a vida vale a pena ser vivida, deve-se concluir do absurdo da existência duas saídas: o suicídio ou a morte. Ocorre que

[...] os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição,

sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o ‘porque’ desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. ‘Começa’, isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento (CAMUS, 2004, p. 14).

O reestabelecimento nada mais é do que o grito que ecoa quando tudo impele ao silêncio. Velho, cansado, destinado a não abandonar o ofício que preenche e dá significado à sua vida, Cipriano Algor dizia consigo mesmo: “Já não posso o que podia”; “mas, lá no fundo da sua consciência, uma voz que também era sua contrariava, Nunca pudeste tanto Cipriano, nunca pudeste tanto” (SARAMAGO, 2016, p. 208). É necessário recomeçar, é necessário continuar, como aqueles que fogem procurando uma arma, onde “procurar” significa antes de tudo “criar, criar uma vida ‘depois do crescimento econômico”, uma vida que explora conexões com novas potências de agir, sentir, imaginar e pensar” (STENGERS, 2015, p. 14-15). Nessa linha, George Steiner (2001, p. 106) defende que

É por sermos capazes de contar histórias, sejam elas fictícias ou matemático-cosmológicas, sobre um universo criado há biliões de anos; é por sermos capazes de […] discutir e conceber a manhã de segunda-feira depois da nossa cremação; é por os nossos ‘se’ […] serem capazes de, a seu bel-prazer, negarem, reconstruírem e alterarem o passado, o presente e o futuro, delineando de outro modo os determinantes da realidade pragmática; é por isso que a existência continua a valer a pena. A esperança é a gramática.

Paramos, conforme defende Donskis (BAUMAN; DONSKIS; 2014, p. 198), “de contar uns aos outros as histórias comoventes”; em contrapartida, alimentamos incessantemente “a nós mesmos e ao mundo com teorias conspiratórias (que sempre tratam dos grandes e poderosos, e não dos humildes e humanos), matérias sensacionalistas e relatos de crimes e horror”. Essa incapacidade, assumida ou imputada, põe em risco a completude do humano enquanto espécie que abstrai, projeta e anseia por um outro agora, e inerentemente se alimenta de um “ainda- não”. Nessa condição, o ser humano é, e não pode deixar de ser, um animal “transcendente” e transgressor, que vive sempre à frente do presente; nossas ideias,

expressas via linguagem, nos colocam adiante da experiência vivida e nos conduzem a territórios não explorados. Porque pensamos, transpomos, repete incessantemente Ernst Bloch (2005). Emil Cioran (2011, p. 67-68) expressa, em sua linguagem particular, ideia semelhante:

Se, pelo capricho de um poder maléfico, perdêssemos o uso da palavra, ninguém mais estaria a salvo. Conseguimos transferir para o domínio de nossos pensamentos a necessidade de assassinato inscrita em nosso sangue: só esta acrobacia explica a possibilidade, e a permanência, da sociedade.

Imaginemos então essa figura, a de Sísifo, como forma de nomear o percurso e a tragédia de Cipriano Algor, operário do absurdo que, encarando com consciência o destino da utopia degenerada que o atrai – conspicuamente, como toda utopia –, prefere o desprezo. Toda a alegria silenciosa de Algor repousa aí.

O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo (CAMUS, 2004, p. 86).

É preciso, nesse caso, imaginar que Cipriano resiste. Seguindo os passos de Camus (2011, p. 21-22), para quem “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”, a liberdade humana nada mais é do que uma oportunidade de melhorar, e “o único modo de lidar com um mundo sem liberdade é tornar-se tão absolutamente livre que sua própria existência seja um ato de revolta” (CAMUS apud BAUMAN, 2011, p. 221).

De partida, impõe-se problematizar a escolha da figura de Sísifo como emblema para um personagem imerso em uma sociedade líquido moderna – isto é, uma sociedade radicalmente modernizada, em permanente revolução, na qual as instituições e posições sociais antes sólidas e previsíveis estão agora em constante dissolução. Um dos temas que atravessam a produção de Bauman é a relação entre segurança e liberdade: na modernidade “sólida”, como aponta Freud em seu

diagnóstico sobre a civilização, o excesso de repressão e controle às pulsões individuais cobravam seu preço através das neuroses. O indivíduo sofre com excesso de segurança e ausência de liberdade. Na modernidade líquida, teorizada incialmente por Bauman (1998a) como Pós-modernidade, a relação se inverte. O “superego” estatal é uma sombra que evoca permanentemente novos terrores de modo a parecer no controle de algo, mas de fato perdeu grande parte do seu poder; outras estruturas associadas à estabilidade, à segurança e ao controle, como o trabalho e a família, se tornam voláteis, instáveis, orientadas pelas variações do mercado. Na sociedade de consumidores líquido-moderna, o mal-estar parece estar no excesso de liberdade (ainda que isso signifique a liberdade para morrer de fome, por exemplo), acompanhado pela ausência de segurança.

Ora, Sísifo é tudo, menos livre. Como todo prisioneiro, sua rotina é repleta de certezas; seguramente, a montanha estará lá amanhã; certamente o rochedo rolará depois de ser erguido. No entanto, mesmo nesta condição, há um lugar, “terrivelmente pequeno”, é verdade, mas inarredavelmente existente e “grande o bastante para entrada de Prometeu”, herói de O Homem Revoltado; é na justaposição entre Sísifo e Prometeu que Cipriano Algor encontra o proletário dos deuses; e é desse encontro que “Sísifo ainda pode se converter, de uma figura trágica de escravo das coisas, em seu feliz produtor” (BAUMAN, 2011, p. 221) Se ele encontra liberdade é no desafio contra o absurdo que lhe foi imputado, através da criação de significados em cada nova jornada rumo ao cume. Ainda que o cenário estático de Sísifo aparentemente não guarde relação com a compulsão por novidade que caracteriza o mundo de Cipriano Algor, faz-se necessário atentar às sutilezas e ambivalências que permeiam a situação dos dois personagens. Sísifo vive em um mundo de segurança, é certo, mas foi condenado a ele. Na sociedade líquido-moderna, escreve Bauman, as possibilidades de libertação via consumo produzem dilemas semelhantes:

O que pode ter começado como um empreendimento consciente pode se transformar, no curso do tempo, numa rotina cumprida de maneira irrefletida, pela qual a afirmação, interminável e ubiquamente repetida, de que ‘você pode se transformar numa pessoa diferente’ é reformulada como ‘você deve se transformar numa pessoa diferente’. ‘Você deve’ não combina com a prometida e esperada liberdade, e é por causa de seu sincero desejo de liberdade que muitas pessoas se rebelam contra isso. Quer você possua ou não os recursos substantivos exigidos para ‘fazer o que deve’, esse

‘deve’ soa mais como escravidão e opressão do que como qualquer avatar da liberdade que se possa imaginar. [...] Se ‘ser livre’ significa ser capaz de agir de acordo com os próprios desejos e perseguir os objetivos que se escolheu, a versão líquido-moderna, consumista, da arte da vida pode prometer liberdade para todos, mas a distribui de modo esparso e seletivo (BAUMAN, 2009, p. 105).

No final das contas, a obsessão pelo novo, a compulsão pelo consumo imposta como modo de vida é tão fatalista quanto um destino estático. Algor, ao contrário de Sísifo, é imensamente livre, mas lhe é negada o que Bauman chamaria de metaliberdade crucial: a liberdade de livrar-se do mercado. “Um pássaro numa gaiola pendurada à janela poderá imaginar que está em liberdade”, reflete Marta Algor na sua primeira visita às moradas do Centro, ao que seu marido responde: “Estas janelas não se podem abrir, Porquê, Por causa do ar condicionado, Evidentemente” (SARAMAGO, 2016, p. 276). Se “não existe destino que não se supere pelo desprezo”, os dois personagens, Sísifo e Cipriano Algor, se encontram no desprezo ao destino que não escolheram, no qual não foram partícipes na construção, mas cujas consequências lhes são cominadas como fado. Enquanto Sísifo procura diariamente transformar sua sina em destino (BAUMAN, 1999) – isto é, modelar o que lhe foi dado em algo singular, escolhido, significativo –, é possível ver as possibilidades de emancipação na situação de Cipriano Algor, na medida em que, nas palavras de Agnes Heller, é “a satisfação das necessidades de autodeterminação, e não de simples carências, que melhor permite a transformação de nossa contingência em destino” (HELLER & FEHER, 2002, p. 46). Nesse caso, a transformação da aleatoriedade em autodeterminação se dá quando um indivíduo alcança a consciência de ter feito o melhor com suas possibilidades praticamente infinitas (BAUMAN, 1999) 28. Retomando as palavras do atormentado habitante do subsolo, de Dostoiévski (2000, p. 46):

28

Destaque-se aqui minha discordância com a sequência do pensamento de Heller, no qual a autora afirma que “uma sociedade transforma sua contingência em destino se seus membros chegam à consciência de que não prefeririam viver em nenhum outro lugar e em nenhuma outra época que não aqui e agora” (BAUMAN, 1999, p. 247). No plano do indivíduo, e do modo como Heller o expressa, o pensamento carrega possibilidades de emancipação mediante a consciência e a autonomia, mesmo em face à contingência crônica. No plano da sociedade, e novamente do modo como ela o expressa, traduz apenas uma ética da resignação e o consequente enfraquecimento de qualquer perspectiva utópica verdadeira – essencialmente um “não-aqui”, “não-agora” ou “ainda-não”.

[...] o homem é um animal criador por excelência, condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que

seja. Mas talvez precisamente por isto lhe venha às vezes uma vontade de

se desviar, justamente por estar condenado a abrir esse caminho, e talvez ainda porque, por mais estúpido que seja um homem direto e de ação, ocorre-lhe às vezes que o caminho vai quase sempre para alguma parte, e que o principal não está em saber para onde se dirige, mas simplesmente em que se dirija, e em que a criança comportada, desprezando a arte da engenharia, não se entregue à ociosidade destruidora, que, como se sabe, é mãe de todos os vícios.

Em um caso como em outro, trata-se de persistir, tateando as possibilidades de sublevação que se apresentam, muitas vezes silenciosamente, ou perecer. Cipriano Algor parece ser uma dessas pessoas a que Bauman alude, que percebem a carga de falsa liberdade contida nas promessas da sociedade de consumo e se rebelam contra isso – pagando, por isso, seu preço. Esse deslocamento do olhar, segundo Bauman, da

[...] transformação da sina em destino, da tolerância em solidariedade, não é apenas uma questão de perfeição moral, mas uma condição de sobrevivência. A tolerância como ‘mera tolerância’ é moribunda; só pode sobreviver sob forma de solidariedade. Simplesmente não basta ficar satisfeito com o fato de a diferença do outro não limitar ou ameaçar a nossa — uma vez que algumas diferenças, de alguns outros, voltam-se evidentemente para constranger e prejudicar. A sobrevivência no mundo da contingência e diversidade só é possível se cada diferença reconhece outra diferença como condição necessária da sua própria preservação. A solidariedade, ao contrário da tolerância, que é sua versão mais fraca, significa disposição para lutar; e entrar na luta em prol da diferença alheia, não da própria. A tolerância é egocêntrica e contemplativa; a solidariedade é socialmente orientada e militante (BAUMAN, 1999, p. 270-271).

Na sociedade contemporânea, a contingência como destino exige a tolerância. Por sua vez, a tolerância tanto pode conduzir ao respeito pela diferença enquanto tal – o que na verdade é uma forma de indiferença e isolamento – quanto pode orientar a construção da solidariedade. O desafio de Cipriano Algor está em manter vivas a tolerância e a solidariedade, ou o que Isabelle Stengers (2015) chama de nossa capacidade congênita de pensar e cooperar, em tempos de adiaforização e de proclamação da futilidade das “causas comuns” – algo um tanto contraproducente numa sociedade de consumidores que dispõe alternativas de sucesso individuais em suas prateleiras. Como argumenta Bauman (2009), em

oposição a Rousseau, os seres humanos dificilmente podem ser coagidos a ser livres; e tal coação, como o demonstra todo esforço de “democratização” de outros países empreendido nas últimas décadas pelas potências imperialistas, raramente redunda em liberdade de fato.

Quanto à felicidade, relembrando o diagnóstico de Kant (BAUMAN, 2009), trata-se de um ideal da imaginação, não da razão – daí a formulação extremamente precisa de Camus, de que é preciso imaginar Sísifo feliz. A felicidade é uma realidade criativa. Nesse sentido, o princípio antigo dum spiro, spero (enquanto respiro, tenho esperança), que sugeria que, “sem trabalho duro, a vida não ofereceria nada que a tornasse valiosa” (idem, p. 173), em consonância com o que defende Bloch (2005, p. 13), para quem “o ato de esperar não resigna: ele é apaixonado pelo êxito em lugar do fracasso”, não perdeu sua atualidade para os milhões de Sísifos e Algores que navegam na sociedade líquido-moderna.