Analisando esse indicador, confirma-se a ideia de que cada indivíduo é único, e percorre o seu processo na construção do conhecimento e da autonomia. Observou-se também como o trabalho do mediador é de fundamental importância para a superação de estágios do conhecimento em direção a avanços voltados à autonomia do sujeito.
Para melhor entendermos o que está sendo posto, vamos acompanhar a conversa realizada em um dos fóruns, na disciplina de Psicologia da Vida Adulta, com as intervenções da tutora e da professora em relação ao assunto escolhido para realizar o trabalho de um grupo de alunas.
Inicialmente a aluna H fez o seguinte questionamento referente ao tema central sobre o conflito de gerações:
“Como trabalhamos na área da educação, é comum ouvirmos a seguinte frase: os alunos não são como antigamente. O que está mudando? A escola não consegue acompanhar as mudanças da sociedade?”
A aluna J complementa a ideia dizendo:
“[...] Acredito que depois dos pais e mães, somos nós, professores, os personagens que mais precisam aprender a lidar com essas mudanças. Por estas questões é que pensamos em desenvolver uma pesquisa sobre tema no trabalho da disciplina: Psicologia na vida adulta. E não é apenas para entender as novas gerações. É para refletir como ficamos nós, adultos, profissionais da educação – e também mães, avós e futuras mães - em meio a tantas mudanças e como fica nossa sanidade mental em meio a tantos conflitos”.
Assim também a aluna E complementa a discussão:
“O convívio entre seres humanos quase sempre é um desafio, e ainda mais difícil quando existe diferença de idade, pois há diferentes valores e interesses. Os mais velhos na maioria das vezes vêm de famílias tradicionais e valores muito distintos e severos, quanto aos mais jovens a instituição família mudou e automaticamente seus valores também mudaram, e além do mais é uma geração muito adaptada às novas tecnologias, que age de modo a desafiar limites e regras o tempo todo, essa geração possui muita informação, mas pouco aprendizado. Precisam adquirir outro
tipo de conhecimento, algo em que a geração anterior pôde contribuir devido à sua vivência. Diante desde conflito de geração nada mais sensato do que uma troca de experiências e de aprendizado, compartilhando o que cada fase tem de melhor”.
Neste momento da discussão do grupo, a tutora 3, atenta às colocações, faz sua contribuição em relação ao que postaram:
“Olá Meninas,
A conversa de vocês traz uma discussão bem pertinente ao cotidiano escolar!
Vocês podem trazer outras leituras, pesquisas e também experiências pessoais para a discussão.
Que eu me lembre, o grupo de vocês trabalha com alunos na faixa dos 10 aos 15 anos, então, para ajudar na discussão de vocês, recomendo a leitura do texto "Evolução intelectual da adolescência à vida adulta", de Jean Piaget. O texto trata do desenvolvimento psicológico dos adolescentes e a importância do desenvolvimento e das experiências vividas até esse período. O texto encontra-se nas leituras sugeridas da disciplina”.
E, logo em seguida, acrescenta:
“Para qualificar a discussão do grupo de vocês indico também a leitura do texto "Aprendizagem amorosa: transformações na convivência de aceitação do outro como legítimo outro", escrito por Luciane Magalhães Corte Real e Jaqueline Picetti. O texto trata da aprendizagem amorosa e nas mudanças estruturais a partir da convivência com o outro. O texto também está nas leituras sugeridas da disciplina”.
A professora 2 não fica de fora dessa troca importantíssima:
“Gurias, a discussão está ótima e, com certeza, suas descobertas serão úteis para as colegas. Sugiro o livro adolescer, de Outeiral. Ele comenta essa questão de que sentimos que os adolescentes de hoje estão diferentes. E traz um texto de Aristóteles fazendo exatamente essa queixa”.
Nota-se que a troca vai acontecendo entre todos os envolvidos e, além das leituras já sugeridas no ambiente da disciplina, de acordo com o desenvolvimento da discussão no fórum, tutores e professores agem atentamente, sugerindo novos caminhos e possiblidades de um entendimento maior sobre o assunto estudado. No desenrolar da conversa, a aluna E mostra a receptividade e aceitação das sugestões de leitura oferecidas.
“Fiquei curiosa com a bibliografia sugerida, o livro traz uma reflexão sobre os adolescentes, suas vivências e sua personalidade, que são próprias de cada pessoa. Também aborda a relação entre nós, adultos, e adolescentes, que para compreendermos bem esse difícil convívio devemos lembrar que já fomos adolescentes um dia, e para entendê-los precisamos pensar sobre nossas próprias experiências [...]”.
A dinâmica de expor ideias individuais num grupo de trabalho, refletindo sobre questões da vivência e da realidade de cada uma delas, é um espaço muito importante, pois, além de se constituir uma caminhada coletiva, percebe-se a trajetória individual das alunas, dentro do grupo. Essa experiência permite que cada sujeito seja respeitado na sua individualidade. O respeito é um dos princípios da ética.
O tutor 2 também traz um comentário instigante diante de uma postagem no blog, da aluna M sobre o assunto: “Esse tal de imediatismo....”
“[...] a referência que faz no teu comentário é bastante pertinente para pensarmos os tempos de aprendizagem. Outra questão, quando fala das políticas de educação, precisamos de políticas de Estado e não partidárias, nesse sentido são políticas que permanecem para além do partido que está no governo”.
Não podemos pensar em ética e autonomia se não conseguirmos compreender o ser humano, na sua essência, na sua originalidade e na sua individualidade. Só conseguiremos entender o outro quando o outro for reconhecido por nós. Nessa relação de entendimento humano, o sujeito introjeta-se nos seus pensamentos, reflete a sua postura original do ser, promove a autorreflexão, sobre sua posição em relação ao outro. “A prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer” (FREIRE, 2015, p. 39).
Promover o pensar ético, de si mesmo, do outro e das relações existentes, é construir a autonomia das ações do cotidiano.