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Dans le document Digital Technical Journal (Page 47-50)

As informações obtidas por médio do questionário respondido pela psicóloga do abrigo, vimos que os(as) adolescentes estudavam em escolas públicas no município, Lara, Mairon e Almir estão matriculados na rede municipal e Maria na rede estadual. Segundo as Orientações Técnicas do Serviço de Acolhimento para Crianças e Adolescentes quando houver o acolhimento de crianças e ou adolescentes na instituição deve-se priorizar a escola de origem, para assim manter os vínculos na comunidade e afins (BRASIL, 2009).

Os(as) adolescentes acolhidos(as) iam para escola acompanhados dos(as) colaboradores(as) da instituição e do motorista. A educadora Milka informou que nas escolas que os(as) adolescentes acolhidos(as) estudavam, a maioria dos(as) alunos(as) iam para a escola sozinhos(as) e a pé, e que, em poucos casos, alguns pais levavam os filhos de moto, e,

geralmente, nesses casos isso se dava porque o início das aulas coincidia com o horário de trabalho deles. No entanto, segundo a educadora, as crianças e adolescentes do abrigo eram sempre transportados para a escola no carro da instituição, sendo que a única adolescente que se deslocava sozinha e a pé para a escola era Maria. Quando perguntamos à Maria por que ela preferia ir desacompanhada para a escola, ela respondeu: “porque eu já sei me virar na rua”.

Sobre essa possível autonomia da adolescente Maria, a educadora Jamile relata que, aos poucos, os(as) profissionais do abrigo tentavam construir a autonomia dos(as) adolescentes para resolverem as coisas e saírem sozinhos(as) pelas ruas. E afirma ainda que os(as) profissionais acompanhavam esse processo, ligando para os locais para certificar que os(as) adolescentes estavam seguros e agindo de forma “correta”. Assim, segundo a educadora, nos casos em que os(as) adolescentes começava a mentir e se desviar o caminho, os(as) profissionais passavam a acompanhá-lo(a). Os(as) educadores(as) explicam também que fazem as atividades e levam os(as) adolescentes para a escola a pé quando a distância é curta, e de ônibus ou de carro quando a escola está mais distante do abrigo. A educadora destaca também que o carro utilizado tinha a logomarca da assistência social, e que os(as) adolescentes detestavam isso, que ficavam constrangidos(as), pois todos saberiam que moram no abrigo, e que, em um caso específico, a adolescente tinha tanta vergonha que não aceitava andar no carro.

Almir apesar de relatar um sentimento de tranquilidade em relação ao fato de ir para a escola no carro da instituição, apontava um certo constrangimento ao afirmar que os(as) colegas “vê e mexe”, chamando-o de “ô casa lar6”. Ele ainda afirma que reagia a esses insultos e retrucava dizendo: “sou casa lar com muito orgulho”. A educadora Jamile também relata essa situação quando os(as) colegas da escola observavam os(as) adolescentes chegando de carro à escola:

Tem muita zuação, lá vem... Está na casa lar! Tannanan, tannanan, muita é... Zueira mesmo, só que, igual os nossos que estão há mais tempo com a gente, hoje leva até na esportiva: Ah! Eu venho de carro, você vem a pé, né? Já levam até na esportiva, os que estão chegando que ficam meio chateados, a gente explica né, mas aí...(Educadora Jamile).

Os(as) educadores(as) relataram que mediante aos xingamentos de colegas, os(as) adolescentes reagiam com palavras de calão, e que mesmo que se as agressões se constituíssem como cotidianas, elas não estavam “naturalizadas” para os(as) adolescentes, que

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Casa Lar – Antigamente o serviço de acolhimento no município era de Casa Lar, no entanto, passou por uma reorganização do serviço e agora pertence à modalidade de Abrigo Institucional, tem outro nome de identificação, mas é conhecido popularmente como “casa lar”.

se sentiam extremamente desconfortáveis e constrangidos com a situação e com o estigma por ela gerado.

Eu vejo assim... No meu ponto de vista, que Mairon, ele num... Meio que tem uma vergonha de ser institucionalizado né? E... Almir... Eu acho que, ele teve vergonha, mais isso passou e ele usou né, essa forma dele, esse jeito dele de ser, pra mascarar isso, daí porque realmente, você chegar na escola: Ah! Vem o menino da casa lar, tudo da casa lar, olha né! É constrangedor! Você já é taxado né, já te, já te marcou, você é da casa lar. Maria, pelo tempo que ela teve aqui dentro, eu não observei nada que ela não gostasse... O Almir e Mairon ainda brincam e falam assim: Eu vou de carro, cês vão a pé, ooo a pé! Assim... Leva na esportiva, mas de qualquer forma né, aquilo ali fica remoendo por dentro, né? Oooo casa lar! Ooo casa lar! Quer dizer né: Eu tenho mãe, eu tenho família e você é da casa lar. (Educadora Jamile). Em relação aos professores(as) entrevistados(as) apenas dois mencionaram sobre essa questão. O professor Eduardo relatou que questionou a direção da escola sobre o porquê de o aluno Mairon chegar à escola no carro da assistência social, mas que nunca vivenciou nenhum preconceito e enfatizou que na escola todos(as) lidam com naturalidade. Já a professora Tamiris mencionou dizendo não ter como esconder, relatando que a aluna Lara vem no carro da instituição e às vezes fica na secretaria da escola esperando o carro chegar para ir embora, relata que algumas vezes ouviu os(as) alunos(as) chamarem de “casa lar”, mas afirmou ser “brincadeira de menino”. Percebe-se então nos relatos, que os(as) professores “naturalizam” o preconceito e o estigma, percebendo-o como “brincadeira” e “zuação”.

Esses(as) adolescentes estão sujeitos a uma forte estigmatizacão e a todo um conjunto de estereótipos negativos e ligados à má reputação de onde vivem. E esse estigma (o menino casa-lar) produz uma relação com o outro despersonalizada, impessoal, em que a individualidade do sujeito é apagada, embaçada, e ressurge como um produto das características comuns típicas do estigma construído. Assim, o estigma constrói uma categoria de marcas internas que ao serem externalizadas compõem uma visão totalizante do sujeito (o da casa-lar). Assim, a atitude mais comum consiste em anular aparentemente o estigma e assim mostrar-se na violência, desviar-se e dirigir-se para o próprio autor (pois cada indivíduo é determinante daquilo que ocorre interna e externamente nestas relações (DUBET, 1994).

Também podemos fazer referência a Goffman (1982) que apresenta os signos como informações sociais, assim como o carro e sua marca institucional que vem transmitindo a informação contra a vontade do sujeito que o utiliza, convertendo-se em um estigma que posiciona e condiciona (ao menos em parte) o indivíduo à sua situação social. Ainda, devemos considerar a construção desse estigma como responsável no fortalecimento dos processos de exclusão e que potencializa as desigualdades. Existe uma hierarquia social,

problemas sociais que definem a distância social, a identidade e a integração (integração essa advinda dos acúmulos de várias desvantagens como por exemplo, pobreza, isolamento e reputação infamante), que coloca o indivíduo numa posição frágil, de excluído, dominado, estigmatizado, na qual os adolescentes dependem da opinião do outro para poderem certificar- se interiormente (DUBET, 1994).

Segundo as Orientações Técnicas do Serviço de Acolhimento para Crianças e Adolescentes os acolhimentos não devem instalar placas indicativas na instituição evitando nomenclaturas que remetam a aspectos negativos para assim não estigmatizar os(as) acolhidos(as) (Brasil, 2009).

Assim fica o questionamento: em que medida um carro pode carregar essa marca e de forma cruel exibir esses(as) adolescentes dessa forma? Muito além do carro enquanto um objeto social, estão as marcas, as situações e as condições existenciais em que esses(as) adolescentes estão expostos. Melo (2000) apresenta a sociedade como responsável por estabelecer um modelo, padrões e categorias como um sistema de controle e com objetivo de catalogar as pessoas por atributos considerados “comuns e normais” a todos, no entanto, esses rótulos só servem para isolar, estigmatizar, marginalizar, e classificar os sujeitos que não se enquadram nessas tais categorias. Com isso, e convivendo diariamente com a produção e reprodução desses estigmas, os(as) adolescentes passam a ser transvestidos de uma marca, um sinal de alerta, de ausência de produtividade, criatividade ou deformações éticas e morais, perdendo em parte sua individualidade diante do outro e de si mesmo, e configurando-se como o menino ou a menina “casa lar”

Goffman (1982), apresenta o estigma como um atributo capaz de produzir um descrédito na vida da pessoa, que o coloca como uma marca ou desvantagem em relação ao outro. Para os estigmatizados, a sociedade reduz suas oportunidades e seus esforços, impõe a perda da identidade social, o descreve como diferente que passa a ser nocivo e incapaz, não dando conta de responder os parâmetros da sociedade. Dubet (1994), apresenta esta s experiências vividas pelos indivíduos como ameaça e destruição da personalidade, fazendo com que eles vivam “sacudidos”, levados pelas circunstâncias e efeitos do grupo que impedem, ou ao menos, dificultam que eles se vejam e se compreendam como autores da própria vida.

Dans le document Digital Technical Journal (Page 47-50)

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