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APPENDIX I: TECHNIQUES FOR VERIFICATION AND VALIDATION

I.2. Techniques

I.2.4. Safety analysis techniques

I.2.4.2. Fault tree analysis

As fugas de escravos não ficaram documentadas apenas nos anúncios de jornais. Elas aparecem também nos inventários, porém, em menor incidência. Apesar disso, podem revelar certos aspectos da sociedade escravista em foco. Para Carlos Jarenkow, num estudo sobre a fuga escrava no Rio Grande de São Pedro, no século XIX, “nem todos senhores de escravos arrolaram, dentre os seus escravos, os que estavam foragidos”.210 O autor explica que em alguns casos, os “cativos eram arrolados por herdeiros que ansiavam com a esperança de uma possível captura, para que também pudessem ser partilhados assim como os outros bens do

206 HDBN, Diário de Pernambuco, 06.07.1841, n. 142. In. Escravos Fugidos.

207 GOMES, Flávio dos Santos. Jogando as redes revendo as malhas: fugas e fugitivos no Brasil escravista.

Tempo, Rio de Janeiro, vol. 1, 1996, p. 70.

208 HDBN, Diário de Pernambuco, 19.07.1844, n. 161. In. Escravos fugidos. 209 HDBN, Diário de Pernambuco, 06.05.1829, n. 918. In. Escravos fugidos.

210 JARENKOW, Carlos. Fugindo para o Orientais: As Fugas de Escravos pela Fronteira Meridional Brasileira (Brasil Uruguai, 1846-1870). Rio de Janeiro, 2018, p. 29.

inventariado”.211 Isso pode ter ocorrido também em Garanhuns, marcando assim a pouca incidência desses casos nessa fonte.

Em pelo menos dois inventários, é possível encontrar referências a esse tipo de resistência escrava. No inventário de Manoel Dias da Silva Queiros (1835), morador da povoação de Águas Bellas, termo de Garanhuns, foi registrado que o seu único escravo deixado de herança se encontrava foragido. O cativo João, de nação Angola, era já muito velho e coxo, e andava “fugido a (sic.) mais de 4 anos”. Sem ser proprietário de terras, Manoel Dias da Silva Queiro, constituiu o patrimônio de uma vida inteira quase apenas com animais, 47 vacas e 2 cavalos. Ali consta apenas um único escravo.212 Ele não era alguém de muitos cabedais, um homem de poucos bens. Daí porque a lembrança do escravo João, fugido há mais de 4 anos, constou no seu inventário. Chama a atenção o fato do escravo João, um homem velho e coxo, ao que tudo indica, puxando de uma perna, que provavelmente tinha pouco valor monetário, ter sido lembrado no processo de inventário. Mesmo com a sua ausência, afinal, empreendera fuga há mais de 4 anos, João ainda representava um bem para os herdeiros do finado Queiros, um patrimônio a ser partilhado por aquela família.

Carlos de Oliveira Malaquias e Ana Caroline de Rezende, estudando a resistência escrava num contexto de pequenas posses na Comarca do Rio das Mortes na década de 1830, explicam “que todos os senhores estavam sujeitos à fuga, mesmo os donos de pequenas escravarias, fato que sugere que a evasão do cativeiro relacionava-se a tensões no exercício senhorial de mando, mais do que com condições materiais previamente postas”.213 Foi o que provavelmente também aconteceu com os senhores de poucas posses do município de Garanhuns.

Outro exemplo, aparece no inventário de Fidelis da Costa e Andrade (1829). Ele era dono de dois escravos, um de nação Angola, chamado José, de apenas 10 anos, avaliado por Rs. 160$000, e Andreza, crioula de 22 anos, avaliada em Rs.170$000, além de alguns animais e uma pequena propriedade de terras, tudo de pouco valor (em comparação aos preços dos dois cativos). Mesmo com poucos bens, o seu inventário se estendeu por uma década. Dez anos depois, em 1839, o cativo José, agora com 20 anos, empreendeu fuga por não querer servir mais aos herdeiros. Nos autos do inventário, o tutor da menina Cipriana, filha mais nova do falecido Fidelis da Costa e Andrade, alegou que José fugira da casa da herdeira, “com o pretexto de

211 Ibid., p. 40.

212 APEJE, Cartório De Garanhuns – Inventário de Manoel Dias da Silva Queiros, Povoação de Águas Bellas,

vila de Garanhuns, 1835, fl. 04, Caixa 1830.

troca”.214 Ao que parece, buscava um novo senhor. Katia Mattoso explica que muitos cativos esperam “encontrar um senhor melhor e com frequência passam do ruim para o pior”.215 É importante destacar, que José de nação Angola, chegou ao Brasil muito novo, com 10 anos ou ainda até mais novo. Ele fazia parte de um comércio de escravos novos que abastecia o interior. Ao que tudo indica, teve pouco contato com outros escravizados, pelo menos na propriedade de Fidelis da Costa Andrade.

Ao analisar o documento acima, pode-se compreender mais sobre o cotidiano dos escravos foragidos. A história desse escravizado evidencia as pequenas lutas contra a dominação senhorial. Para Flávio dos Santos Gomes, “enquanto durou a escravidão no Brasil, temos notícias das variadas formas de resistência dos cativos”.216 Para o autor, as fugas destacam “algumas das formas explícitas da luta dos escravos contra a dominação”.217 O escravo José conhecia os limites da liberdade, pois como ressalta o documento, fugira com a intensão de ser trocado. Um novo senhor representava, mesmo que hipoteticamente, melhores condições de vida e mesmo, possíveis espaços de liberdade, sendo o seu próprio envolvimento na negociação, um indício de luta por maior autonomia. Como ressalta Flávio dos Santos Gomes, “homens e mulheres escravizados agenciavam suas vidas não como objetos passivos do processo histórico que vivenciavam, mas como sujeitos com lógicas próprias, forjadas em experiências sociais concretas”.218

Para Marcus Carvalho, “trocar de senhor poderia representar uma significativa transição nas condições de vida do indivíduo. Para melhor ou para pior”.219 O autor explica que “a transferência onerosa de um cativo era uma operação mercantil corriqueira, que exigia os mesmos cuidados dispensados na compra e venda de um animal de algum valor, com as garantias de praxe”.220 No entanto, as pessoas escravizadas tinham experiências próprias do cativeiro, que as ajudavam, a negociar em alguns casos mais autonomia em determinadas situações.

Segundo Carlos de Oliveira Malaquias e Ana Caroline Rezende, “no jogo de tensões e compromissos entre escravos e senhores, na cotidiana disputa entre autonomia e exploração, a fuga é um momento de resistência escrava ao poder senhorial, quando a política de domínio

214 APEJE, Cartório De Garanhuns – Inventário de José Fidelis da Costa de Andrade, Sítio Canhoto, vila de

Garanhuns, 1829, fls. 03v.- 05v. – Caixa 1820.

215 MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Op cit., 2003, p. 153.

216 GOMES, Flávio dos Santos. História de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995, p. 16.

217 Ibid., p. 16. 218 Ibid., p. 17.

219 CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel. Op cit., 1998, p. 272. 220 Ibid., p. 217.

costumeira falha em atender legitimamente aos anseios do cativo”.221 A fuga e a troca de senhor poderia significar uma ruptura na dominação senhorial.

Esses indícios de autonomia podem ser vistos em outros documentos. Um caso semelhante ao relatado acima aparece em um anúncio do Diário de Pernambuco, em 21 de abril de 1827, quando o senhor Manoel Dionizio Gomes do Rego, Comandante da Povoação de Afogados, no Recife, descreveu que “o preto Antonio de nação Benguela, procurou a sua casa para ele o comprar”.222 Segundo o anunciante, o comandante se prontificou a comprar o escravo do senhor Antonio José Bernardo, morador da povoação de Aguas Belas, termo de Garanhuns. Chama a atenção, o fato do preto Antonio está longe de casa agenciando a sua possível compra. A história do preto Antonio, registrada em poucas linhas nesse anúncio, nos dá a possibilidade de ampliar essa discussão. De fato, a fuga do interior para o subúrbio do Recife aconteceu, o que demonstra a iniciativa do preto Antonio. Porém, ao que tudo indica, Manoel Dionísio teria acoitado esse escravo e até mesmo, utilizando-se dos seus trabalhos de forma ilegal. Como autoridade policial (ele era comandante na povoação de Afogados), Manoel Dionísio sabia que cometia um crime contra a propriedade. A ideia de “comprar” um escravo era desejada. Era importante destacar que foi o escravo que o procurou para esse fim, demonstrando certa isenção no processo. Não sabemos o final desse caso, que pontua também o limite da autonomia escrava, da ação de escravos que, dentro da lógica do cativeiro, procuraram mudar de donos, e quem sabe mudar de vida.

Não é nada incomum na historiografia da escravidão, os casos de escravos que buscam um novo senhor. Para José Maia Bezerra Neto, “fugir, não significava o abandono das atividades de trabalho, mas representava a possibilidade de os trabalhadores exercerem efetivo controle sobre o processo de trabalho, desconstruindo a escravidão”.223 Neste caso em especial, o preto Antonio fugiu em busca de práticas de trabalho que o favorecessem. Ainda sobre o assunto José Maia Bezerra Neto explica que:

Os escravos fugidos, em sua luta contra o domínio senhorial, não se destituíam da sua condição de trabalhadores, embora expressassem sua recusa em continuar sendo explorados por seus proprietários. Na verdade, eram enquanto trabalhadores que lutavam pelo efetivo exercício do controle do ritmo e do tempo de trabalho, desconstruindo as relações sociais de trabalho calcadas na escravidão, conforme as suas próprias experiências e visões de liberdade. (BEZERRA, 2000, p.264).

221 MALAQUIAS, Carlos de Oliveira. REZENDE, Ana Caroline de. Op cit., 2016, p. 32. 222 HDBN, Diário de Pernambuco, 21.04.1827, n. 85. In. Escravo Fugido.

223 BEZERRA NETO, José Neto. Fugindo, sempre fugindo: escravidão, fugas escravas e fugitivos no Grão Pará (1840-1888). Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e

Esses documentos revelam indícios de que a liberdade não era um ato consumado e sim um processo cheio de idas e vindas.