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Famille et compensation des pertes de revenu

2. L'incidence de la notion de famille en droit social

2.2. Famille et droits

2.2.1. Famille et compensation des pertes de revenu

Este tópico apresenta um estudo de Rancière (2004) para compreender os caminhos pelos quais o seu princípio “igualdades das inteligências” atravessa os caminhos da experiência do pensar. Nesse intento nos apropriamos das leituras de Kohan (2003) e Rancière (2004) . Em sua obra O mestre ignorante, Rancière conta a história de Joseph Jacotot, um professor que, em 1818, enfrenta uma aventura intelectual, em uma situação que rompe com as condições básicas de qualquer ato de ensinar. Conforme Kohan (2003):

Nascido na França em 1770, J. Jacotot, professor de Literatura Francesa, serve no exército, ensina retórica, ocupa cargos públicos e é eleito deputado em 1815. O retorno dos ‘Borbones’ (família real que ainda hoje reina na Espanha) o obriga a ir para o exílio e, nesse momento, Jacotot recebe um convite para dar aulas na Universidade de Louvain, nos Países Baixos. Ali, o espera uma surpresa: seus alunos falam uma língua que ele desconhece (flamenco) e eles desconhecem a língua que ele fala (francês). O ato comunicativo, base de todo ensino, se quebra: o professor não pode se comunicar com seus alunos. Não há signos comuns entre ensinante e aprendizes (KOHAN, 2003, p. 186).

Mas, conforme Rancière (2004, p. 17-18) o acaso decidiu outra coisa, pois se publicara em Bruxelas, naquela época, uma edição bilíngüe do Telêmaco. Estava encontrada a coisa comum. Por meio de um intérprete, Jacotot solicitou aos jovens alunos que aprendessem o

texto francês, apoiando-se na tradução. Era uma solução de improviso, mas, conforme o autor, ainda assim, uma experiência filosófica.

A experiência de Jacotot superou suas expectativas, pois estava esperando por terríveis barbarismos, por uma impotência absoluta da parte dos estudantes. Como poderiam todos aqueles jovens, privados de explicação, compreender e resolver dificuldades de uma língua nova para eles? O resultado, no entanto, foi absolutamente surpreendente: eles se saíram notavelmente bem diante dessa difícil tarefa. Essa experiência provocou uma revolução no pensamento de Jacotot sobre o ato de ensinar, já que seus alunos tinham aprendido sem que ele lhes tivesse dado nenhuma explicação sobre a língua e seus fundamentos.

Conforme Rancière (2004), essa experiência do acaso provocou-lhe uma revolução, pois, até então, somente acreditava no que acredita todo professor: “[...] que a grande tarefa do mestre é transmitir seus conhecimentos aos alunos, para elevá-los gradativamente à sua própria ciência precisando evitar esses caminhos do acaso [...]” (p. 18). Ensinar era, “[...] nessa perspectiva, transmitir conhecimentos e formar os espíritos, levando-os, segundo uma progressão ordenada, do simples ao complexo” (p. 19).

Rancière (2004) observa que uma súbita iluminação se tornou brutalmente nítida, no espírito de Jacotot, no que diz respeito a essa cega evidência de todo o sistema de ensino: a necessidade de explicações. No entanto, o que haveria de mais seguro do que essa evidência? Ninguém nunca sabe, de fato, o que compreendeu. E para que compreenda é preciso que alguém lhe tenha dado alguma explicação. O segredo do mestre “[...] é saber reconhecer a distância entre a matéria ensinada e o sujeito a instruir, a distância entre aprender e compreender”30 (p. 21-22).

A revelação que acometeu a Jocotot (professor-personagem na obra O mestre ignorante) se relaciona ao seguinte: é preciso inverter a lógica do sistema explicador. Conforme Rancière (2004, p. 24, grifos nosso):

A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender. É, ao contrário, essa incapacidade, a ficção estruturante da

concepção explicadora. É o explicador que tem necessidade do incapaz, e não o contrário, é ele que constitui o incapaz como tal. Explicar alguma coisa a alguém

é, antes de mais nada, demonstrar-lhe que não pode compreendê-la por si só.

Antes de ser o ato pedagogo, a explicação é o mito da pedagogia, a parábola de

um mundo dividido em espíritos sábios e espíritos ignorantes, espíritos maduros

30

Conforme Rancière (2004, p. 23), “‘compreender’: essa simples palavra recobre tudo com um véu. Compreender é o que a criança não pode fazer sem as explicações fornecidas, em certa ordem progressiva, por um mestre”.

e imaturos, capazes e incapazes, inteligentes e bobos. [...] O mito pedagógico [...] divide o mundo em dois. [...] Há, segundo ele, uma inteligência inferior e uma superior. A primeira registra as percepções ao acaso, retém, interpreta e repete empiricamente, no estreito círculo dos hábitos e das necessidades. É a inteligência da criancinha e do homem do povo. A segunda conhece as coisas por suas razões, procede por método, do simples ao complexo, da parte ao todo. É ela que permite ao mestre transmitir seus conhecimentos, adaptando-os as capacidades intelectuais do aluno, e verificar se o aluno entendeu o que acabou de aprender. Tal é o princípio da explicação. Tal será, a partir daí, para Jacotot, o princípio do embrutecimento.

Para Rancière (2004), o problema é revelar uma inteligência a ela mesma. Há sempre “[...] alguma coisa que o ignorante sabe e que pode servir de termo de comparação [...]. É Telêmaco, mas pode ser uma oração ou uma canção que a criança ou o ignorante saiba de cor [...]” (p. 50, grifos nosso).

Para emancipar um ignorante, concebe Rancière, é preciso e suficiente que sejamos nós mesmos emancipados; isto é, conscientes do verdadeiro poder do espírito humano. O ignorante aprenderá sozinho o que o mestre ignora, se o mestre acreditar que ele o pode, e “o obrigar a atualizar sua capacidade: circulo da potência” (RANCIÈRE, 2004, p. 34). Para o autor (2004, p. 34, grifo nosso), “[...] contra o círculo da potência, o círculo da impotência está sempre dado, [...] ele é a própria marcha do mundo social, que se dissimula na evidente diferença entre ignorância e a ciência”.

Concebe o autor que não há homem sobre a terra que não tenha aprendido alguma coisa por si mesmo e sem mestre explicador, e chama a essa maneira de aprender de ‘Ensino Universal’. Maneira de aprender que existe desde o início do mundo ao lado de todos os métodos explicadores; a mesma inteligência está em ação em todos os atos do espírito.

Com a experiência de Jacotot, entende Rancière (2004) que quem ensina aprende e quem aprende ensina, uma vez que aprender é uma virtualidade que se verifica no encontro com outros iguais. Aprender não é diferente de repetir, imitar, traduzir, decompor, recompor, experimentar o prazer e a dor, e comunicar esse prazer e essa dor aos seus semelhantes para comover-se reciprocamente, para compreender e ser compreendido pelos outros seres razoáveis.

Daí nos trazer o autor “[...] que seu objetivo ao ensinar pintura não é o de fazer grandes pintores, senão capazes de dizer ‘eu também sou pintor’” (p. 99). Disso depreenderá Kohan (2003), que nas experiências coletivas do pensar importa compreender “[...] que ensinar filosofia teria a ver não com formar excelsos filósofos, mas com possibilitar, pela emissão de certos sinais que alguns, não importa a sua idade, digam ‘eu também sou filósofo’” (p. 203).

De acordo com Rancière (2004, p. 142), “[...] jamais um partido, um governo, um exército, uma escola ou uma instituição emanciparão uma única pessoa”. Compreende que a emancipação intelectual não pode institucionalizar-se, mas pode ser praticada e, conforme Kohan (2003, p. 203-203), é possível “[...] anunciá-la para que outros se inspirem na boa nova, sigam, por seu próprio caminho, esse sinal. É um princípio que pode permitir-nos pôr em questão nossa prática, os sentidos de nosso ensinar e aprender”.

3.4 GALLO E A POSSIBILIDADE DA FUGA DA EXPERIÊNCIA NO MOVIMENTAR