Como lembra Jonathan Culler, à semelhança do signo linguístico, as disciplinas e os departamentos possuem também uma identidade diferencial: tal como nas palavras de Saussure, a característica mais específica de cada um é ser o que os outros não são.25 Daí que as fronteiras e possibilidades dos paradigmas disponíveis sejam continuamente redefinidas por contraponto ou reacção a deslocamentos estratégicos no espaço dos valores de cada um dos outros a que se opõem, simplesmente porque não são eles. Esta movência ou errância presta um valioso auxílio quando se trata de explicar a dissolução silenciosa do paradigma filológico: colocado no centro de uma constelação de novos enfoques disciplinares em rota de autonomização, ele viu a integridade dos seus métodos, modelos e valores corroída em diversas frentes, numa teia extremamente complexa de rebatimentos opositivos. Mas este processo não foi suficiente para apagar todas as marcas da sua passada influência, ou talvez não se tenha ainda consumado em todos os sentidos. O fundamento institucional do ensino e investigação em literatura permanece um derivado da história: a nacionalidade.26
Isso deve recordar-nos algo fundamental: podemos escolher, em parte, o nosso futuro, mas não escolher o nosso passado. Como previne Homi Bhabha, esta é a primeira condição para a aceitação de uma cultura comum como cultura de uma liberdade partilhada,27 e talvez resida aí
24
Idem, p. 36.
25
Cf.: Jonathan Culler, “Comparative Literature, at Last”, in AAVV, Comparative Literature in an Age of Globalization – The
American Comparative Literature Association Report on the State of the Discipline, 2004 (edited by Haun Saussy), Baltimore,
The Johns Hopkins University Press, 2006, p. 237.
26
Culler assinala com luminosa ironia o paradoxo daqui decorrente: “Programs in comparative literature are still small or struggling, and we have to tell the very smart and interesting graduate students that we admit: “Welcome to comparative literature, where we do not believe that the national literature is the logical basis of literary study, but be warned that while doing Comp. Lit. you also need to act as if you were in a national literature department so as to make yourself competitive for a job in one.”, idem, p. 238.
27
“Podemos, em determinadas circunstâncias, escolher agir de formas que entram em conflito com os nossos «passados» ou contemplar «futuros» que se contrapõem aos mundos vividos que herdámos. No entanto, ao contrário do que acontece com o futuro, não podemos «escolher» o nosso passado cultural ou biográfico; podemos esquecê-lo num gesto de amnésia histórica; podemos reconstruí-lo de modo a que se adeqúe aos nossos interesses presentes; ou podemos condensá-lo no presente, a fim de
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também a primeira pista para reconstituir à herança de que somos portadores um testamento globalmente válido.
Num prefácio tão breve quanto significativo, Miguel Tamen denuncia o “mal-entendido filológico” responsável pelo facto de toda uma geração haver sido “industriada na convicção de que a sua pátria era a língua portuguesa”, graças à tresleitura da frase de Bernardo Soares:
A ideia de que uma entidade como pátria pode ser definida como uma língua, que goza de larga aceitação, representa em Portugal uma vingança sobre o fenómeno conhecido por «descolonização»: saímos de Angola, mas deixámos lá a língua de Herberto Helder, quiseram torcer-nos o pescoço, mas deixámos aos japoneses um par de cantigas do rei D. Sancho I e o conceito de «tempero». (...) Acontece porém que este tipo de comemorações deu origem a um ersatz ideológico da teoria da vantagem competitiva: a nossa produtividade industrial será baixa (e as nossas casas de banho sujas), mas eles não têm Os Lusíadas. Eles, claro, não têm Os
Lusíadas. Mas desse facto trivial e sem remédio não se pode estabelecer uma correlação com a exuberante
produtividade de certas economias, para não falar da limpeza imaculada das suas instalações sanitárias (será que se deve a terem eles Milton, porventura também o inventor do método epónimo de desinfecção?). Claro está, os países não têm coisa nenhuma, ou têm coisas num sentido especial de têm.28
É quase desnecessário sublinhar a presença muda de um certo entendimento de filologia subjacente à reflexão. O carácter desassombrado e mordaz das palavras de Miguel Tamen não esconde a dimensão propriamente traumática implícita nesse “mal-entendido”, e será justo reconhecer que a ideia formal aqui expressa se aplica a um universo bem mais extenso do que o português – tão lato, pelo menos, quanto o número das antigas escolas filológicas: germânica, hispânica, latina e românica. A denúncia da mobilização de uma ideia de literatura nacional como mecanismo compensatório ou fetiche colectivo, no sentido freudiano, define de maneira irremisível o lado politicamente sombrio da filologia. Mas se este trecho, a vários títulos polémico, surge aqui, tal deve-se à convicção de que ele ajuda a compreender a condição da crítica, da investigação e do ensino da literatura, hoje.
Esta noção de supletividade repousa na sensação quase infantil de reconforto existencial proporcionada pela posse de alguma coisa: aquele sentido muito especial de ter. Temos razões para acreditar que esse apego metafísico a uma ideia de “posse” não ficou no passado. A encerrar esta leitura demasiado breve e quase impressiva do panorama crítico contemporâneo, só posso concluir que, hoje, os sinais de uma tal presença estão em todo o lado: as velhas ideias de avatares de um espírito nacional apressaram-se, atrás das cortinas, a despir as roupagens bafientas, e apresentam-se
demonstrar a continuidade da tradição cultural como parte da confluência de uma história partilhada. Em cada um destes casos, negociamos com o «passado» para transformar as nossas vidas; mas não podemos simplesmente escolher ou «desescolher» o passado. O passado cultural é uma presença «incubatória» nas nossas vidas (Gramsci).”, Homi K. Bhabha, “Ética e estética do globalismo: uma perspectiva pós-colonial”, in AAVV, A Urgência da Teoria (Actas do Fórum Cultural “O Estado do Mundo”), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian e Tinta-da-China, 2007, pp. 29-30.
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impecavelmente trajadas com as últimas modas da voga intelectual. Não há como evitar, porém, o desconforto das peças que vestem mal. Em mais sentidos do que seria possível explorar aqui, os categoremas de arrumação da literatura hoje em uso ressoam os mesmos vícios e bizarrias de que enfermava essa ideia redentora de literatura.
É-se então levado a pensar que talvez não seja fortuito que a nossa herança não seja precedida por qualquer testamento. Esse testamento ausente, impossível, é a palavra inconfessável de uma continuidade que a generalidade dos agentes do campo repudiaria como anacronismo ou insulto. E contudo, aproxima-os o mesmo fascínio pelo índice, a inclinação para a redução a (convenientes) catalisadores estratégicos do discurso, a procura de processos de identificação individual ou colectiva (a “teoria da vantagem competitiva”), a necessidade de fazer o texto legitimar qualquer coisa – ainda que essa coisa seja apenas e só o facto de se falar sobre aquele texto e não outro.
Finalmente: uma releitura da contemporaneidade crítico-literária deverá ser orientada para a compreensão da liquefacção que se apresenta à superfície deste plano, tomando a lição de Zygmunt Bauman sobre a condição fluída do nosso tempo.29 Contudo, se desejamos de facto compreender o lugar da palavra que insiste ainda hoje, tão tardiamente na história, em referir-se à literatura, talvez devamos começar por nos debruçarmos sobre os efeitos deletérios que implica também esta outra travessia.
29
III
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Limites e possibilidades
de uma cultura literária pós-filológica
Articular historicamente o passado não significa reconhecê-lo «tal como ele foi». Significa apoderarmo-nos de uma recordação (Erinnerung) quando ela surge como um clarão num momento de perigo. Ao materialista histórico interessa-lhe fixar uma imagem do passado tal como ela surge, inesperadamente, ao sujeito histórico no momento do perigo. O perigo ameaça tanto o corpo da tradição como aqueles que a recebem. Para ambos, esse perigo é apenas um: o de nos transformarmos em instrumentos das classes dominantes. Cada época deve tentar sempre arrancar a tradição da esfera do conformismo que se prepara para a dominar. Pois o Messias não vem apenas como redentor, mas como aquele que superará o Anticristo. Só terá o dom de atiçar no passado a centelha de esperança aquele historiador que tiver apreendido isto: nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer. E este inimigo nunca deixou de vencer.1
Na tese VI dos fragmentos “Sobre o conceito da História” (tese na qual, creio, cabe toda a presente dissertação) Benjamin leva tão longe quanto possível o sentido e significado do trabalho de releitura do passado enquanto trabalho de uma poiesis histórica. Em cada palavra sente-se o peso da responsabilidade que sobre esse acto impende: “arrancar a tradição da esfera do conformismo” não é apenas um trabalho de reorganização dos dados, e tampouco um trabalho de “rigor” (“não significa reconhecê-lo «tal como ele foi»”). Articular historicamente o passado é salvar no presente a nossa possibilidade de ter lugar, enquanto sujeito histórico: conservar suficientemente aberto e desimpedido o diálogo com a memória que nos constitui como receptores de uma tradição que converge toda sobre este ponto em que nos encontramos, aqui e agora, com um livro entre as mãos, e nos preparamos para nascer (uma vez mais) como leitores. Não podemos ignorar que este gesto, o mais frágil, se encontra cercado de todos os lados, sob permanente ameaça: de todos os lados se erguem tentativas (/tentações) de recapturar o texto (a Literatura) para regiões inofensivas, zonas meticulosamente trabalhadas onde ele passa a dizer exactamente aquilo que alguém quer que ele diga. A bateria de instrumentos com que esse ataque se prepara é temível: repertórios intermináveis de temas, obsessões, sintomas, comparações, analogias e equivalências, desfuncionalizações, intemporalizações, autonomizações... O filólogo sabe disso. E prepara-se, paciente e intrépido, para o momento do choque. Ele sabe que é absolutamente necessário atiçar no passado essa centelha de esperança: assegurar-se de que o texto encontrará um leitor. Para isso, não o ignora, deve empenhar-se em libertar o fragmento de que se ocupa da ameaça de se tornar “instrumento”, isto é, pretexto. Ele sabe também que isso só poderá ser feito combinando um incomensurável esforço de
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memória com uma dose bem medida de esquecimento: é absolutamente necessário que o literário acolha incondicionalmente o resultado do seu ofício, e isso significa também colocar entre parêntesis aquilo que nele aponta para a docilidade sócio-política do “património cultural” (por isso irá Benjamin falar em “escovar a história a contrapelo”). O filólogo está bem consciente de que, mais cedo ou mais tarde, soprará do paraíso um vendaval que se enrodilhará nas suas asas, arrastando-o imparavelmente para o futuro, ao qual ele volta costas, fixando o olhar numa cadeia sem fim de ruínas (catástrofes, documentos de cultura, documentos de barbárie) que cresce até ao céu.2 Ele sabe que “O passado traz consigo um index secreto que o remete para a redenção”:3
Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveu os que vieram antes de nós? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de ânimo leve esse direito.4
O filólogo sabe-o, e sabe também que o seu esforço nunca será inteiramente reconhecido: o inimigo nunca deixou de vencer. E nós, sabê-lo-emos ainda?
*
A relação entre a leitura crítico-interpretativa e a reconstituição histórica será, porventura, o mais agudo problema que se coloca a uma topologia da leitura pós-filológica. Em face de um certo horror vacui que experimenta perante a tradição (e a ideia de passado, em geral), a crítica contemporânea construiu dispositivos de substituição, potencialmente capazes de dar conta de textos literários sem recurso a um discurso que é, como vimos, historiográfico, inespecífico, panorâmico, holístico, enfim, não-especializado. Alberto Pimenta, comentando Adorno, coloca, em 1975 (início do fim de um certo entendimento institucionalizante de filologia), uma pergunta crucial:
Talvez se possa julgar e considerar essa a função arquetípica da arte (literária): criar perspectivas novas, pondo em questão o dogmatismo da perspectiva oficial: metafísica, política, pragmática. Eis o que Adorno quer dizer, quando afirma: «Ainda a obra de arte mais sublime assume uma atitude determinada em relação à realidade empírica, na medida em que sai da sua esfera de domínio não de uma vez para sempre, mas de cada vez concretamente, de modo inconscientemente polémico contra a posição daquela em face da hora histórica.» Assim surge, se quisermos, uma tábua de ligação entre o passado e o presente. Perguntemos então: podem as obras de arte literária continuar a considerar-se ainda momentos de um processo ou devem considerar-se antes 2 Idem, p. 14. 3 Idem, pp. 9-10. 4 Idem, p. 10.
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estruturas autónomas? Por outras palavras: a filologia tem ainda razão de ser, ou os seus métodos devem
passar a ser outros?5
O modo inconscientemente polémico como cada obra sai da sua “esfera de domínio” permite entrever uma necessidade de activação do diálogo que implica essa resistência à hora histórica na qual (e contra a qual) a obra literária se define. Continuemos, porém, a transcrição, atentando na resposta de Alberto Pimenta:
Que as obras de arte literária podem em todo o caso continuar a considerar-se momentos de um processo, ainda quando esse processo consiste em desfazer o que foi feito, disso suponho que não há dúvida. (...) O método filológico (o que toma as obras de arte literária por momentos de um processo de transformação de que o homem é o sujeito e não o objecto) não perdeu pois a razão de ser; perdê-la-á no dia em que se recuse a aceitar este movimento dialéctico da arte literária, este inevitável momento de «negação determinada» que começou já nos fins do século XVIII e chegou entretanto aos arquitectos do concreto, dos que sabem que não há causa nem consequência, mas simultaneidades sem fim (nem princípio), (...). Trata-se naturalmente de ver o presente como futuro implícito no passado, mas também como o presente que é, único que pode ser.6
O “método filológico” garante a legibilidade do movimento dialéctico através do qual se define uma obra literária. Daqui decorre uma consequência iniludível: sem o modo de relação entre o texto e o leitor pressuposto pela filologia, poderá continuar a existir a leitura, mas é de duvidar que possamos ainda falar em “Literatura”. E isto porque, o que quer que seja a Literatura, todos concordamos que ela tem alguma coisa a ver (algo de íntimo e visceral) com a dialéctica, isto é, com a presença e a negação do tempo. Pelo mesmo motivo, seria errado falar-se em “competência filológica”: não se trata, em última análise, de um “saber-fazer” (embora haja um saber-fazer implicado nisto), mas sim, de facto, de um modo de nos relacionarmos com uma ideia de literatura, ou, na expressão de Robert Scholes, de um protocolo de leitura, que existe, enquanto problema, “devido ao facto de os seres humanos viverem no tempo”.7
Podemos, pois, antecipar que, uma vez inteiramente privada desse protocolo de leitura, a crítica (entenda-se, ainda e sempre: crítica, investigação, ensino, estudo e leitura) se verá reduzida à possibilidade de uma auto-referência irónica, dolorosa encenação de um “wishful thinking” do qual, espera-se, poderá advir algum resultado proveitoso. Mas, em coerência, devemos questionar também se haverá ainda lugar à crítica, num modelo esvaziado do sentido de Literatura (Literatura que é, de resto, a última das “grandes palavras”, vestígio de um outro tempo, que tem resistido a ser saneada, como último o sobrevivente de uma ordem de ideias que já não cabe na exiguidade das nossas “micronarrativas”).
5 Alberto Pimenta, “Reflexões sobre a função da arte literária” (1975), in O Silêncio dos Poetas, Lisboa, Cotovia, 2003, p. 54. 6
Idem, pp. 54-55.
7
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Pergunta-se: que contributo pode, então, da filologia aportar a este enclave da história? Hans Ulrich Gumbrecht, para quem a filologia pode e deve funcionar como a “curadoria histórica de um texto”,8 defende, num ensaio recente, que ela nos proporciona um sentido de presença com o qual
temos a aprender:
What I see at work in the philological practices – as their hidden, lively, truly fascinating side – is a type of desire that, however it may manifest itself, will always exceed the explicit goals of the philological practices. (…) And what exactly do these desires refer to and long for? It is my impression that, in different ways, all philological practices generate desires for presence, desires for a physical and space-mediated relationship to the things of the world (including texts), and that such desire for presence is indeed the ground on which philology can produce effects of tangibility (and sometimes even the reality thereof).9
A dimensão propriamente empírica do trabalho filológico fornece um modelo de relação com a literatura que é, de facto, bem mais tangível do que, digamos, aquela com que se confronta um leitor ao ver-se na situação de escrever um ensaio sobre a personagem feminina no romance queiroziano. Neste sentido de presença podemos ler, além disso, uma certa nostalgia pela crescente desmaterialização do nosso contacto com a literatura – não, como é óbvio, nos apocalípticos anúncios do “fim do livro” na era do digital, mas, o que é bem mais sério, pelo desaparecimento de uma ideia de Literatura fundada na possibilidade de um amplo conhecimento do literário, cada vaz mais remetida para longe pela sobre-especialização dos leitores, concentrados em particularidades quase incomunicáveis, por intermédio de uma ideia de “textos” que passa sem pagar portagem à estruturalidade da ideia de cultura.
A proposta de Gumbrecht consiste em recuperar a noção filológica de leitor enquanto editor, e, nessa medida, enquanto produtor de sentido: de cada vez que um fragmento permanece presente enquanto possibilidade e enquanto literatura, em lugar de ser reprimido, perdido ou destruído, é sempre possível produzir sentido, não apenas como efeito secundário ou colateral de uma reconstituição, mas como a produção de sentido por excelência,10 trazendo ao trabalho com a literatura (com os textos, aqui num sentido inteiramente diverso), uma centelha da ideia que desejamos reconstituir de Literatura (Gumbrecht refere-se-lhe como “o telos filológico”).11 A deflagração desse processo depende do investimento – filológico – nas margens do texto (ou nas “cicatrizes” de que ele é feito),12
que nos deverão fazer esquecer, pelo menos por algum tempo,
8
Hans Ulrich Gumbrecht, The Powers of Philology. Dynamics of textual scholarship, Urbana and Chicago, University of Illinois Press, 2003, p. 2. 9 Idem, p. 6. 10 Cf. idem, p. 28. 11 Idem, p. 16. 12 Idem, p. 15.
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“the primary pressuposition that we know how to handle the objects that we encounter”,13
tornando possível, de novo, uma ideia de texto, singular, inassimilável, como se o lêssemos pela primeira vez, e uma ideia de literatura, como aura desse objecto de desejo. Sem surpresa, Gumbrecht conclui que essa ideia de estudo da literatura – a ideia filológica de investigação – impõe uma condição:
The condition of the possibility for lived experience and for Bildung to happen is time – more precisely, the academic and ivory tower-like privilege of being allowed to expose oneself to an intellectual challenge without the obligation to come up with a quick reaction or even with a quick “solution.” Naturally, without specific institutions and without specific individual efforts, such excess time will never be available. We need institutions of higher education to produce and to protect excess time against the mostly pressing temporalities of the everyday. In this new sense, it is not only plausible that “classical philology as a profession is untimely,” as Nietzsche once said. Giving a slightly different meaning to the same words, one might want to argue that the academic institution is all about such untimeliness.14
Permito-me agora “torcer a ponta” à conclusão de Gumbrecht: talvez a filologia, mais do que os textos, defenda o tempo. Um tempo muito especial, nessa sua intemporalidade: o tempo do