2. FAITS MARQUANTS
2.1 Faits marquants de la période
Na volta para o Kilombo ainda consegui fazer uma entrevista com Dó, sentados em frente minha barraca, no final da tarde, horário em que os mosquitos não dão sossego – fui praticamente atacada por eles. O sino tocou chamando para o almoço. Já estava escurecendo quando terminamos e fomos pra casa comer.
À noite, o pessoal preparou a sala para uma sessão “cinema” e assistimos o filme “Besouro”. Eu e alguns outros não ficamos até o final, o sono era muito já às 22h e fui para a barraca dormir.
Trabalho na horta
Retornando à rotina após o Permangola, acordei novamente às 5h30 da manhã para treinar capoeira, com uma sensação estranha, por ter dormido mais que de costume (passado o evento, sentia-me tão cansada, que tirei o dia e a noite de segunda-feira para recuperar). Mas finalmente meu corpo se sentia com mais energia. Estes dois dias após o Permangola foram voltados à organização e faxina do Kilombo e organização dos trabalhos dos novos voluntários que ficariam no local.
Fiquei na função de acompanhar Annie até a horta, juntamente com Lucia e Vili, recém- chegados. Annie, quem estava responsável pela horta durante os últimos três meses em que lá viveu como voluntária, estava já de partida e nos levou para passar as informações sobre o trabalho que vinha fazendo e orientar quanto às necessidades futuras. Lucia – quem veio a ser a próxima responsável pela horta – é argentina, tem cerca de trinta anos de idade, estudou ciência política, teve algumas experiências com hortas comunitárias e seu intuito era de aprender mais principalmente sobre horta e agrofloresta no Kilombo. Vili é um jovem alemão, de vinte e poucos anos, que passou um tempo em Belo Horizonte fazendo estágio na universidade e foi ao Kilombo para vivenciar e aprender mais sobre a permacultura em uma comunidade. Ele nunca havia feito capoeira antes e ficou cerca de um mês no Kilombo. Lucia já treinava capoeira na Argentina.
Fomos então para a horta e Annie nos passou seu caderno com anotações sobre o que havia plantado e feito por lá. Ela estava com algumas dificuldades de recuperar a horta após a enchente que havia levado tudo embora, há pouco mais de um mês atrás. A terra ali ainda não era muito fértil, a horta tinha um tamanho considerável, de fato bem maior que o necessário para o dia-a-dia no Kilombo (mas um bom tamanho para se produzir o suficiente para os eventos). Alguns insetos, como a vaquinha e formigas estavam atacando as hortaliças e Annie tentava algumas misturas, usando urina de vaca e humana, cinza, tabaco, entre outros ingredientes para tentar combater as vaquinhas, sem muito sucesso. Lucia chegou com ideias de outras misturas e disse que as experimentaria.
Quem iniciou a horta naquele local, atrás da casinha azul foi a Cris, uma mineira que morou no Kilombo durante cerca de oito meses e realizou um grande trabalho de destilação de plantas e frutas do Kilombo, sendo uma das responsáveis pela construção de um laboratório de destilação no local (saberes que ela aprendeu com o mestre Índio, em MG). Ela contou um pouco como foi o trabalho para iniciar a horta – roçar e tirar a raiz das braquiárias (o mato que havia ali antes); e fazer as camas para plantar as hortaliças. Explicou que primeiramente
foi feita uma parte da horta e que, quando estava tudo plantado e esperando para ser colhido, é que começaram a trabalhar na outra parte. Enquanto uma parte esperava em torno de seis semanas com composto orgânico, para enriquecer o solo, plantava-se em outras partes. Outra sugestão de Cris era plantar mais de uma espécie juntas, em consórcio, por exemplo leguminosas, como o jiló, junto com outras plantas que precisem um pouco de sombra para uma ajudar a outra a crescer.
Depois do trabalho na horta, naquela manhã, fui para o rio lavar roupas. Estávamos somente eu e Charlie, capoeirista inglesa que está vivendo no Rio de Janeiro e veio para o Permangola. Ficamos conversando e curtindo o sol e o rio enquanto lavava roupa. Depois, chegaram os irmãos Isac e Israel para tomar um banho de rio e aproveitei para falar sobre a pesquisa e perguntar se poderia ir até a casa deles depois para fazer uma entrevista. Eles foram simpáticos e concordaram.
Por volta de 15h da tarde, o corpo cansado e com muita fome, fui ao bar da dona Nalva para entrevistá-la, como combinado. Chegando no Bonfim aproveitei para comer um PF (prato feito) de peixe. Depois, dona Nalva pacientemente sentou-se comigo e se disponibilizou para nossa entrevista, com seu sorriso de sempre. Ela contou sobre sua vida no lugar, as dificuldades e coisas boas que passa, mostrou-se muito agradecida pelas conexões e amizades que vem fazendo com pessoas que chegam para o Kilombo e passam por ali. Agradeceu inclusive por eu tê-la escolhido para entrevistar. Disse que eu é que agradecia por sua grande contribuição.
Organização comunitária
Naquela noite, o mestre Cobra Mansa chamou para uma reunião após o almo-janta com o pessoal que ficaria no Kilombo por mais tempo, já que ele estaria de partida, indo viajar na madrugada seguinte. Fomos eu, Lucia, Vili, Caetano (marceneiro canadense), Marcos (paulista, engenheiro e filósofo) e Sai Baba (inglês, massagista), que chegou ao final, atrasado. O mestre falou sobre a rotina do Kilombo e distribuiu responsabilidades: Lucia e Vili ficariam responsáveis pela horta e agrofloresta, Marcos pelo plantio de mudas, Caetano pelos trabalhos com madeira e eu ficaria responsável pelos treinos de capoeira. Cada um já havia expressado seu interesse ao chegar ao Kilombo, porém a divisão aconteceu de uma forma mais imperativa pelo mestre mesmo. O mestre falou que iria focar nos trabalhos com o plantio e não teria trabalhos de construção neste momento. Falei que estaria também realizando a pesquisa, explicando que eu teria outros trabalhos a fazer além das demandas do Kilombo, como a realização de entrevistas com moradores locais, momentos para escrever, etc.
Em momentos como aquele, sentia a força da autoridade do mestre no local, lembrando que a proposta de organização comunitária do Kilombo se dá com presença de uma hierarquia forte, já que Cobra Mansa, além de ser mestre de capoeira é o proprietário do local. Ao mesmo tempo em que ele é uma pessoa aberta para conversar sobre qualquer tipo de assunto, para abraçar ideias e projetos de outras pessoas e para acolher pessoas as mais diversas, sendo uma liderança carismática e agregadora, estimulante de construções autônomas pelas pessoas, é também uma liderança que se posiciona de forma autoritária em certas ocasiões.
Aquele dia foi aniversário da Charlie. Fizeram dois bolos de aniversário para ela e combinamos de fazer uma festinha. Mas já passava de dez horas da noite quando terminamos a reunião e não parecia haver clima de festa. Mesmo assim peguei meu violão, que já não tocava há alguns dias, e tocamos, cantamos e algumas pessoas dançaram até perto de meia noite.
Um dia de sexta-feira (06 de fevereiro de 2015)
Treinamos às 6h da manhã novamente. Puxei o treino, focando principalmente nos iniciantes, que eram maioria – Vili, Caetano, Sai Baba e Peter, os únicos mais veteranos eram Kamila e Baraúna. Fizemos alongamento, movimentos individuais em círculo, jogo dois a dois e uma sequência básica de rabo de arraia, negativa, rabo de arraia, cabeçada. O treino foi até as 8h da manhã. Na partilha final, Peter agradeceu o treino que pôde aproveitar, como iniciante.
Tomamos o café da manhã juntos, como sempre. O momento das refeições são geralmente de bastante interação, conversas e risadas. Aprendizados de palavras e expressões em diversas línguas, já que entre as dez pessoas que aqui estão somos: três brasileiros, uma polonesa, uma argentina, um inglês, um americano, um francês, um alemão, um italiano.
Baroni, o italiano que encontra-se há mais tempo no local, sendo o atual responsável pelas finanças, compras e funções administrativas no Kilombo, saiu logo após o café para fazer compras em Valença. Não falou sobre as atividades do dia, como de costume. Nós mesmos nos organizamos.
O trabalho para a horta, nesta manhã, foi coletar palha perto da casa do mestre, onde Baraúna havia recém roçado, e levar até lá em baixo, na casa azul, onde está a horta, para cobrir a terra e para utilizar na compostagem. Assim fizemos. Primeiro, utilizando o carrinho de mão, depois, percebemos que colocar a palha em um lençol e carregá-lo era mais fácil. A primeira leva levamos o pano cheio de palha até a horta. Depois, com a volta de Baroni com a caminhonete, coletamos bastante palha e levamos na traseira da caminhonete.
Passando do meio dia, o corpo estava todo suado e coçando por causa da palha. Paramos para um lanche coletivo, o que não é de costume. Sai Baba, que ficaria de ajudante de Vili no almoço de hoje, fez um suco verde, com couve, rúcula, banana e abil, uma fruta deliciosa que vim a conhecer aqui no Kilombo. Comemos o pão integral feito de manhã e guardado para aquele momento. Depois, fomos tomar banho de rio. Kamila, eu, Lucia e Caio. Sempre bons momentos para conversar. Conversamos mais sobre as pessoas que aqui estão, algumas dificuldades com o caso de pessoas que parecem vir para o Kilombo fugindo de algo na sua vida e não com o intuito de realmente aprender e praticar a permacultura e a capoeira, pois não se dispõem a contribuir muito com os trabalhos necessários no Kilombo.
À tarde, cada um seguiu com suas funções de trabalho. Fiz uma entrevista com Kamila, que estava novamente no Kilombo, tendo antes passado alguns meses vivendo como voluntária. Depois, fui à casa de Israel, como combinado, para entrevistá-lo. Israel tem cerca de vinte e
poucos anos de idade e vive com sua mãe e seu irmão, em um terreno mais acima, seguindo a mesma estrada de terra que passa no Kilombo. Ele me recebeu Ele me recebeu muito bem, sentamos no quintal e conversamos bastante. Após a entrevista, Israel me levou para conhecer a plantação de maracujá que ele cuida, com seu irmão, uma área imensa, fiquei impressionada. É uma monocultura de maracujá, onde utilizam insumos químicos. Depois me levou na prainha no rio, em seu terreno, muito gostoso o lugar. Já no fim da tarde, ajudei Israel a molhar sua pequena horta, ainda em estágio inicial, conversei mais um pouco com ele e seu irmão sobre outros assuntos e voltei para o Kilombo.
Cheguei de volta à casa na hora do almo-janta. Sai Baba e Vili fizeram uma refeição à base de aipim – tortas de aipim assadas, aipim frito, feijão e salada bem servida de rúcula, pepino, cenoura e flores, tudo enfeitado com flores comestíveis. Sr. Domingos, vizinho e parceiro do mestre, chegou com seu filho Julian e sentaram para “um dedo de prosa”. Ele geralmente faz visitas ao Kilombo, que está no caminho de sua casa.
Havíamos combinado de fazer uma roda aquela noite, mas depois do jantar a maioria das pessoas estavam deitadas e cansadas. Ainda assim, alguns de nós nos juntamos para fazer um ritmo de capoeira. O ritmo demorou a fluir no início, quando estavam somente eu, Kamila e dois iniciantes, Sai Baba e Peter. Depois, chegaram Baraúna e Vili. Cantei, emocionada com a notícia que acabara de receber do nascimento do meu sobrinho: “quando meu sobrinho nasceu, eu perguntei à parteira, o que é que o menino vai ser, o menino vai ser capoeira!...”. Quando Baraúna pegou a viola, fizemos um ritmo gostoso de jogo de dentro. O mestre Paulo Brasa então chegou e colocou o seu axé ao tocar o atabaque.
2.1.1. Capoeira e permacultura no cotidiano do Kilombo: rotinas, ritmos e
corporalidade
Um dos sentimentos que me tomou nas primeiras semanas no Kilombo foi o cansaço físico. A rotina não é nada fácil, como eu já bem sabia: acordar às 5h da manhã todos os dias para treinar capoeira, até umas 7h30. Depois tomar um café da manhã reforçado e começar a trabalhar na roça entre 9h e 10h da manhã, debaixo do sol bastante quente e ficar o dia todo em atividade, sem almoçar. A fome e o cansaço, o corpo maltratado pelo sol, já se fazem sentir na primeira ou segunda horas de trabalho.
Entre 12h e 14h é o horário em que procuramos as sobras de comida do café e do almoço do dia anterior. Frutas há à vontade no Kilombo, só depende de serem colhidas. Mas ir até a casa, comer algo e descansar um pouco é algo que não é explicitamente acordado na rotina dos voluntários. Por volta das 15h é quando se começa a cozinhar o “almo-janta”136, que só fica
136 Usamos a expressão “almo-janta” para nos referir à refeição que corresponderia ao almoço, porém acontece
pronto por volta das 18h, depois que o sol se esconde e não é mais possível trabalhar no campo. À noite é o momento de prática de música de capoeira ou da roda de capoeira. Ou seja, as atividades não terminam antes das nove horas da noite. Assim, sentia meu corpo constantemente cansado e sem muita energia. Talvez porque ainda estivesse no período de adaptação.
Em relação à estrutura para a estadia no Kilombo, houve uma melhoria considerável no ano de 2015 com a construção dos mezaninos para alojar os voluntários e a instalação de uma estrutura de chuveiros, para se ter a opção de tomar banho sem precisar ir até o rio. A estrutura dos banheiros secos, no entanto, ainda não se encontravam em boas condições137.
Nem todas as pessoas que chegam ao local se adaptam bem à rotina. Cada um com sua ginga vai se encaixando nas atividades e nos trabalhos à sua maneira. Há a liberdade de cada um focar em seus talentos e habilidades, há pessoas com mais, menos ou até nenhuma experiência anterior, em capoeira e/ou na permacultura. E há certos trabalhos mais leves e outros mais pesados fisicamente – ainda que haja uma demanda grande de trabalhos braçais a serem mantidos diariamente no Kilombo. Há pessoas que gostam e se inserem numa rotina de trabalho pesado, mas há também pessoas que passam tempos no Kilombo sem contribuir muito com os trabalhos coletivos necessários.
Acontece que não há uma delimitação pré-estabelecida quanto às horas de trabalho e de tempo livre para os voluntários que chegam. Praticamente todo o dia, durante a semana, seria, teoricamente, preenchido por trabalho, treino de capoeira, dois momentos de refeição (manhã e fim do dia), havendo somente um dia de folga. Assim, não se tem pré-determinado tempo livre (além de um dia de folga) para as pessoas aproveitarem o local, o contato com a natureza, ler, estudar, cuidar de si, descansar, sair para conhecer as redondezas, etc. – o que não significa que elas não criem brechas para criarem esses tempos em suas semanas.
Durante o tempo em que lá passei para realizar o trabalho de campo, eu sentia o desconforto de estar na função de pesquisadora, quando precisava sair para fazer entrevistas, enquanto outras pessoas seguiam com os trabalhos necessários no dia-a-dia do local. O desconforto era também por sentir que não estava ali realmente entregue aos aprendizados da
137 Quanto à estrutura dos banheiros secos, após o tempo que estive no Kilombo, já no segundo semestre de 2015,
foram construídos novos banheiros e chuveiros. Uma possível solução para a área de acampamento durante os eventos seria a construção de banheiros com estruturas móveis de madeira – assim como é feito no Epicentro Marizá – utilizando-se da mesma técnica dos banheiros provisórios feitos para os eventos, que consiste em cavar um buraco onde caem as fezes e enterrar (Ver Anexo D).
permacultura, do cultivo da terra, não me aprofundando em algum daqueles conhecimentos, a ponto de saber, por exemplo, como cuidar de uma horta.
Poderia pensar nessa rotina como um treino intensivo de capoeira, no sentido de se fortalecer o corpo, adaptando-o a um ritmo muito mais intenso de atividade se comparado ao ritmo que levo na cidade, como estudante/pesquisadora, passando horas sentada em uma cadeira.
Essa questão da rotina foi apontada como uma dificuldade para o desenvolvimento dos trabalhos na horta pela maioria das pessoas que lá viveram como voluntárias com as quais conversei e entrevistei. Uma das voluntárias que viveu durante oito meses no local (Cris, de MG), responsável pela horta e pelo laboratório de destilação relatou que precisou abrir mão dos treinos de capoeira pela manhã durante um período para iniciar o trabalho na horta cedo pela manhã. Ela interpretou essa questão fazendo uma relação com a ancestralidade: na permacultura, ou na natureza, aprende-se a observar o tempo natural, do sol, das plantas, para o trabalho na roça. Assim, o respeito a essa ancestralidade implica em começar o trabalho na roça ao nascer do sol, que é o melhor horário para se trabalhar a terra fazer outros trabalhos na sombra durante o pico mais quente do sol (que no verão vai de 10h, 11h da manhã até 3, 4h da tarde) e depois retornar para a roça no final da tarde.
Cris já tinha experiência com o trabalho com a terra desde sua infância e posteriormente em um espaço de permacultura. Ela pondera que o tempo da capoeira não deveria prejudicar o tempo do trabalho na terra, para que ambos possam fluir conjuntamente. Ou seja, acordar o corpo treinando capoeira às 5h ou 6h da manhã, ainda que já tenha se tornado uma tradição na prática do mestre Cobra Mansa, incorporada à rotina do Kilombo, vai de encontro ao ritmo do trabalho na roça. Todos os agricultores com os quais conversei e dos quais tenho conhecimento iniciam o trabalho na roça bem cedo pela manhã. Da mesma forma, Kabengele Munanga descreve o horário de trabalho em regiões tropicais africanas, em que o trabalho acompanha o ritmo da natureza:
Num clima tropical, com calor de 30 a 40 graus, o trabalho começa cedo e termina por volta do meio-dia, uma hora da tarde. Isso é importante, a fim de refazer as energias para o dia seguinte. Nas regiões mais quentes da África, as populações passam as tardes nas aldeias, à sombra das árvores, descansando, comendo e conversando. Essa situação reforçou a falsa imagem do negro preguiçoso, diante de um branco ocidental, que vive num clima diferente e obedece a um horário convencional, abstrato. Os autóctones estavam acostumados a um horário concreto, social, integrado ao ritmo da natureza e do cosmos. (MUNANGA, 2009, p.34)
Chegamos a conversar sobre o horário dos treinos entre todos que estavam no Kilombo e pensamos em fazer a experiência de começar a trabalhar cedo e treinar por volta de 11h da manhã. Mas a ideia não chegou a se concretizar. Em conversa com a mestra Gegê (que treina e convive com o mestre Cobra Mansa há cerca de 25 anos), em um dos dias em que ela veio dar o treino pela manhã, ela ponderou que muitas pessoas já levantaram essa questão para o mestre, mas esse é o horário de treino dele, parte de sua vida há muitos anos. De modo que esta é uma das poucas coisas na rotina do Kilombo que nunca mudou. Entendemos que seria desrespeitoso fazer essa experiência de mudança com a ausência do mestre. Ainda mais que estávamos somente de passagem e este lugar é, antes de tudo, a casa dele.
Naquele momento, me deparei com o duplo desafio de administrar o envolvimento afetivo com o lugar: como capoeirista e pesquisadora, que parte do olhar desde dentro e junto com os sujeitos do estudo, saber até onde poderia ir minha participação-intervenção. Como angoleira, lembrei-me do exercício da calma, destacado pelo mestre Pastinha e por meus mestres, que se relaciona à ética da capoeira, para que, em um jogo, se cuide para não agir impulsivamente. Também o princípio da paciência para esperar o tempo de cada coisa, flexibilidade e ginga para lidar com diferenças de pensamentos, naquele caso. E observar e escutar os/as mais velhos/as antes de falar.
Sendo o cotidiano do Kilombo um reflexo do ritmo do seu líder, vemos que uma de suas características é o movimento constante, como ele mesmo disse138: “eu sou como uma bicicleta, posso ir mais rápido ou mais devagar, mas se eu parar eu caio” (ANGULO, 2008, p.228). Percebi que um dos motivos da minha dificuldade em acompanhar o cotidiano do Kilombo