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3. L’autre face de l’abstraction logique : la connaissance et la pensée en

3.2.3. Faire la « psychologie de l’intelligence »

A situação das vítimas que tiveram suas cabanas destruídas, suas casas desapropriadas (20,19), seu gado roubado (24,2-4) se agrava cada vez mais: “os pobres são desviados do caminho ” (24,4), isto é, violados em seus direitos, porque impedidos de recorrer ao tribunal e reivindicar justiça. Desviados do direito, são forçados a desaparecer do ambiente público e, “juntamente, os oprimidos da terra foram escondidos ” (24,4). Nessas condições, nenhum dos necessitados pode fazer qualquer declaração.206

Expulsos de suas terras, e desviados/ impedidos de exigir seus direitos num tribunal, os pobres saem à procura de trabalho e pão para seus filhos (24,5). A situação dos pobres,

204 Mackenzie, Dicionário. p.125-126. 205 Mackenzie, Dicionário. p.84. 206 Grenzer, Análise. p.28-31.

procurando pão, é um dado de realidade oposta ao que Elifaz afirmara sobre o futuro dos ímpios: vagueiam à procura de pão (15,23). Na busca por pão, os pobres vão ceifar “num campo sem que este lhe pertença (AlyliB.), e, na vinha do ímpio ([v'r'), colhem o tardio ” (24,6). O poeta insiste em afirmar que as terras onde os ímpios se encontram não são deles, pois eles são os autores do deslocamento das fronteiras. Ao utilizar a fórmula: “vinha do ímpio ”, Jó lembra a vinha do próximo, na qual o pobre pode comer e ficar saciado (Dt 23,25-26). No entanto, os que se fazem donos da vinha já não são próximos, mas “ímpios, que levantam à noite para assassinar o pobre e o indigente, rondar as casas e roubar” (24,14). Essa prática lembra o relato da violenta e injusta do rei Acab, quando este tomou posse da vinha de Nabot (1Rs 21). Fica claro que a propriedade da terra perdeu sua função social e, com isso, Israel deixou de ser a vinha de Javé.207

A situação dos pobres que trabalham na vinha do ímpio, “carregando feixes, espremendo o azeite e pisando os lagares” (24,10-11) não fica melhor. Eles continuam nus, famintos, sedentos, sem proteção contra o frio, sem moradia, obrigados a refugiarem-se abraçados nas rochas (24,7-8.10-11). Essa situação revela a existência de escravidão e exclusão, reafirmada por Jó quando descreve como vivem os marginalizados, os excluídos, as massas sobrantes: eles foram banidos da sociedade, a gritos, como ladrões e são os rejeitados da terra; vivem mirrados pela fome, colhem malvas entre os arbustos de regiões desoladas, moram em barracos escarpados, em covas e grutas do rochedo (30,3-8).

O contraste social é gritante. De um lado encontram-se os ímpios que roubam e matam e vivem em terras férteis, com abundância de produção, acumulando riquezas, lucrando com os negócios, tudo correndo bem e em paz (21,7-13). “Na tenda dos ladrões (~ydId>vo ) reina paz e estão seguros os que desafiam a Deus, pensando que o têm na mão”

(12,6) e “os ímpios (~y[iv'r>) continuam a viver ,e ao envelhecer, se tornam ainda mais ricos” (21,7). De outro lado, as vítimas dessa violência e injustiça, que espoliados do direito de suas terras e de seus bens, têm suas vidas e seus descendentes constantemente ameaçados. A injustiça torna-se visível em seus rostos desfigurados e em seus corpos feridos, testemunho e documento vivo da violência social.

3.1.5. Visões diferentes diante de um mesmo problema

Vale observar que existe um ponto de convergência na avaliação que Jó e seus interlocutores fazem do ímpio. Eles afirmam que o ímpio ocupa injustamente a terra, rouba a casa dos pobres e a riqueza está acumulada em sua casa. Há, porém, um diferencial no modo de tratar o problema. Os interlocutores de Jó falam de forma genérica do problema e a indignação que mantêm leva somente a condená - los, esperando o dia da vingança, no futuro. Eles não são capazes de levar a sério a denúncia que brota da boca e dos corpos das vítimas e se defendem ou se justificam apelando para a tradição dos sábios com a doutrina da retribuição. São incapazes de avaliar criticamente essa postura e constatar que a realidade contradiz a teoria. Eles, que se consideram representantes da tradição, deveriam ser os primeiros a tomar posição quando é levantado um grito por justiça, como o fez Jó: “Grito: “Violência!”, mas, ninguém me responde, peço socorro, e ninguém me defende” (10,7). A indiferença que têm pela injustiça é semelhante à postura das massas diante do progresso dos ímpios: ninguém reprova sua conduta e nem mesmo lhes dá a paga pelo que fazem (21,31).

Jó, ao contrário, encontra-se com o pé fincado na história. Ele conhece a tradição e a doutrina transmitida pelos sábios, mas suas entranhas estão coladas no chão da realidade e permite que a dor, o grito dos pobres que se levanta na cidade (24,12) atinja suas entranhas,

chegue a seu coração, à sua boca e às suas mãos para defendê-los contra toda forma de injustiça. No tempo em que se encontrava numa situação privilegiada, ele estendeu a mão ao pobre quando, na penúria clamava por justiça, chorou com o oprimido e compadeceu-se do indigente (30,24-25); ao ver o órfão, ele repartiu o seu pão e tomou sua defesa diante da porta, no tribunal (31,17.21); ao encontrar o indigente nu e passando frio, cobre-o e aquece- o (31,19-20); diante das necessidades do fraco e da viúva manifesta-se sensível (31,16); os seus servos tiveram sempre seus direitos respeitados (31,13); nem mesmo diante de seu inimigo alegrou-se com sua infelicidade (31,29). Ele se deixou tocar pelas fronteiras quando foram mudadas, pelo roubo que atingia o órfão e a viúva, pela situação em que vivia o trabalhador do ímpio depois que suas terras foram roubadas; sensibilizou-se com a luta difícil e inglória do injustiçado para obter o pão, a roupa, a moradia; fez-se próximo da angustiante situação da mulher que teve seu filho arrancado do seio materno como penhora de suas dívidas; acolheu os gemidos dos moribundos e feridos que suspiravam por socorro (24,2-12).

O fato de estar imerso no mundo das vítimas aguçou sua percepção em relação à prática dos ímpios. Daí a denúncia de maneira clara, precisa, sem rodeios, expressa não de forma violenta, mas em forma de lamento, na maioria das vezes, sem deixar de desmascarar a insensibilidade de seus interlocutores que persistiam em manter suas teorias, negando-se a confrontá- las com a realidade.

O contraste entre a visão e a fala de Jó e de seus interlocutores revela que eles se encontram em posições sociais diferentes e essas influenciam significativamente a postura religiosa que assumem.

A legitimação religiosa defendida por Elifaz, Baldad e Sofar certamente está enraizada nos interesses práticos e imediatos, justificados por complexos significados que

fazem parte da tradição religiosa. Ela visa manter a realidade daquele mundo socialmente construído no qual as pessoas existem nas suas vidas cotidianas, junto com interesses conflitantes.208 O debate que eles estabelecem e que vai se tornando cada vez mais duro e condenatório contra Jó revela que algo acontece na sociedade que não permite mais uma visão unívoca da religião; a justificação doutrinária não responde mais às exigências do momento histórico.

Paira, em todo o livro, um clima de mistério em torno do protagonista. Encontrando-se numa situação de sofrimento e marginalização, suas palavras constituem ameaça para seus interlocutores. A força de que ele dispõe, tal como um profeta, manifestou-se em sua prática em favor dos desfavorecidos, no tempo de sua vida privilegiada. Agora, em condições de castigado e amaldiçoado, com o corpo chagado e vivendo como escravo que suspira pela sombra (7,2.5), entregue a injustos e jogado nas mãos dos ímpios (16,11), seu discurso afeta os interesses religiosos do grupo social representado por seus interlocutores. Tudo indica a existência de um conflito entre grupos que têm poder, estando um em posição privilegiada e outro, não só em desvantagem, mas precisando ser combatido e silenciado.