1. INTRODUCTION
1.3 Cyanobacteria
1.3.2 Factors influencing Cyanobacteria
Apesar do considerável número de casamentos entre os escravos em Serrinha, através da análise dos registros de batismos, percebe-se que a grande maioria das crianças era reconhecida apenas pelas mães. Tal constatação pode estar associada ao fato de que essas crianças eram resultados de uniões não oficializadas pela Igreja ou porque suas famílias foram formadas sem a figura do pai.
Segundo Alida M etcalf, a inexistência de grandes plantéis impunha barreiras à formação de uma família nuclear, conforme registrou em seu estudo sobre Santana do Parnaíba durante o século XIX, que
a estrutura econômica da escravidão em Parnaíba e a instabilidade da vida familiar dos escravos de pequenos proprietários encorajaram a formação de famílias escravas matrifocais. T ais famílias formaram-se como parte do ciclo familiar dos escravos, surgindo em épocas de mudança econômica na vida dos proprietários – quando escravos eram vendidos – ou após herança – quando famílias eram separadas. Em tais épocas, o laço familiar mais provável de ser reconhecido e mantido pelos senhores era o entre mãe e filhos. Por razões bastante práticas conservavam-se freqüentemente as mães junto com seus filhos, especialmente os pequenos proprietários, para que elas pudessem continuar a criá-los. O vínculo entre mães e filhos foi, de certa forma, o menor denominador comum da família escrava, e aquele com maior probabilidade de sobreviver aos deslocamentos durante o ciclo familiar escravo causados por herança ou mudanças econômicas na vida do proprietário.296
Se o fato de Serrinha caracterizar-se pela pequena propriedade dificultou a estabilidade familiar o suficiente para que os laços familiares entre escravos fossem mais duradouros, sem dúvida não inviabilizou a formação de famílias nucleares, como já foi mostrado. M esmo as uniões consideradas mais difíceis, como aquelas entre escravos de senhores diferentes e entre escravos e pessoas livres foram encontradas em Serrinha.
Entre aqueles que provavelmente estiveram solitários até o fim da vida estava Polycarpo, 90 anos, solteiro, escravo de Antônio Ferreira Coitinho, que faleceu de “moléstia
296
METCALF, Alida C. Vida familiar dos es cravos em São Paulo no século d ezoito: o caso d e Santana d e Parnaíba. Estudos Econômicos. São Paulo, v. 17, n. 2, p. 229-243, 1987. p. 238.
do coração” em 01 de janeiro de 1880297. Outro caso é o de M aria, africana, 80 anos, solteira, escrava de M aria M oreira da Reprezentação Carneiro, que faleceu de “moléstia interna” em 17 de julho de 1871298. Nesses casos, ou Polycarpo e M aria estavam inseridos em famílias não-oficializadas pela Igreja ou permaneceram sozinhos por toda a vida. De fato, muitos escravos encontraram diversas dificuldades para formar suas famílias, ou simplesmente optaram por viverem “solitários”.
O número de crianças batizadas entre os anos de 1868 a 1888 é consideravelmente grande, totalizando 448 batizandos, mesmo sendo respeitados os dados de mortalidade infantil nesse período, visto que a idade das mães não consta nos registros, torna-se impossível detectar a idade em que essas escavas mais reproduziam, como fez Heloísa M aria Teixeira em seu estudo sobre M ariana299. Segundo a autora, as mulheres escravas de M ariana não costumavam ter filhos muito cedo. “Entre as menores de 20 anos, apenas quatro mulheres foram descritas como mães casadas, e 16 como solteiras com filhos”300.
Com relação à associação entre os números de filhos com a expectativa dos senhores em aumentar sua escravaria, sabe-se que a Lei de 1871 limitou bastante a utilização dos filhos das escravas como mão-de-obra, causando certo desânimo por parte dos senhores em relação à reprodução como alternativa para aquisição de mão-de-obra. De acordo com Heloísa M aria Teixeira, a Lei desestimulava os senhores que possuíam menos de 20 escravos na utilização da mão-de-obra infantil301. Contudo, a maior parte dos batizados em Serrinha ocorreu justamente após a institucionalização da Lei do Ventre Livre, decaindo apenas depois dos primeiros anos da década de 1880.
Dos 448 registros de batismo encontrados, em 385 não havia a menção ao pai das crianças, representando 86% dos casos. Em apenas 3% deles, as mães casaram com os possíveis pais dos batizandos certo tempo depois, como já foi demonstrado em alguns exemplos. De acordo com o censo, pouco mais de 54% das mulheres escravas eram solteiras em 1872. Na verdade, a partir dos registros de batismo, não se sabe ao certo se as crianças nas quais não consta o nome do pai nos registros viviam realmente com a ausência da figura paterna ou se eram fruto de uma união não reconhecida pela Igreja. Essa é uma constatação que apenas as fontes paroquiais não auxiliam a elucidar, visto que só eram consideradas pela Igreja as uniões oficializadas.
297
ASAFSA: Registros de Óbito de Serrinha: 1868-1888. 298
ASAFSA: Registros de Óbito de Serrinha: 1868-1888. 299
TEIXEIRA, Heloísa Maria. Família escrava, sua estabilidade e reprodu ção em Marian a: 1850-1888. Afro-
Ásia – Centro de Estudos Afro-Ori entais – FFCH/UFBA, Salvador, v.28, p. 179-220, 2002. p. 179-220.
300
Id. Ibid. p. 187. 301
Dentre as possíveis famílias em que a ausência do pai é marcante, encontra-se o exemplo dos irmãos Roberto, cabra, batizado em 09 de junho de 1872; Antônio, pardo, batizado em 03 de maio de 1874; Basílio, pardo, batizado em 28 de setembro de 1875; e Anselmo, pardo, batizado em 28 de setembro de 1877302, todos filhos de Ambrósia, cabra, escrava de Bernardina M aria de Lima. Outro caso é o dos irmãos Custódia, crioula, batizada em 09 de março de 1871; M aria, crioula, batizada em 01 de junho de 1873; Emília, crioula, batizada em 16 de maio de 1875; Francisco, cabra, batizado em 17 de junho de 1877; e Antônio, cabra, batizado em 06 de outubro de 1878303, filhos de Antônia, crioula, escrava do Alferes Pedro Alves Pinheiro.
Nesses casos, nenhuma criança foi encontrada nos registros de óbito, sendo consideradas sobreviventes. Há também a constatação de que esses dois exemplos, se não há a existência de uma família nuclear não oficializada pela Igreja, são exceções nos casos das famílias consideradas matrifocais, visto que as mães solteiras geralmente não ultrapassavam o número de três filhos.
A situação mais casual nas famílias possivelmente matrifocais era um pequeno número de filhos. Um exemplo é o de Bemvinda, crioula, escrava de M anoel Pedreira M arques de Freitas, que batizou duas filhas: Anna, crioula, em 07 de agosto de 1876, e Francisca, cabra, em 11 de julho de 1880304. Anna faleceu de “maligna” em 10 de agosto de 1876305, após 20 dias de nascida. Outro caso é o de Clemência, crioula, escrava de M aria M oreira da Reprezentação Carneiro, que batizou dois filhos: Izidoro, crioulo, em 09 de julho de 1871, e Fulgêncio, cabra, em 23 de março de 1883306. Nesses casos, como já foi mencionado, as famílias eram menores, talvez pela incerteza dessas mulheres numa difícil labuta diária para criar sozinhas seus filhos, como afirma Elisangela Ferreira,
nos sertões da Bahia, sem poder contar com o apoio de uma presença masculina, ‘tão necessária nessa sociedade em que o verbo poder se conjugava no masculino’, não raro as mulheres se viam sobrecarregadas pela difícil tarefa de criar sozinhas suas proles ilegítimas, sobretudo nos grupos menos favorecidos, incluindo as escravas.307
302
ASAFSA: Registros de Batismo de Serrinha: 1868-1888. 303
ASAFSA: Registros de Batismo de Serrinha: 1868-1888. 304
ASAFSA: Registros de Batismo de Serrinha: 1868-1888. 305
ASAFSA: Registros de Óbito de Serrinha: 1868-1888. 306
ASAFSA: Registros de Batismo de Serrinha: 1868-1888. 307
FERREIRA, Roberto Guedes. A amizade e a al fo rria: um trânsito entre a escravidão e a liberd ade (Porto Feliz, SP, Século XIX). Afro-Ásia – Centro de Estudos Afro-Ori entais – FFCH/UFBA, Salvador, n. 37, 2007.
Através do diálogo entre as fontes paroquiais, não é possível perceber se essas crianças eram frutos de uniões consensuais ou se realmente viveram com a ausência do pai. Certo é que as uniões envolvendo escravos existiram de forma muito mais acentuada do que o esperado, visto que as condições para tal eram adversas, como as dificuldades postas, por exemplo, para escravos de senhores diferentes manterem suas uniões estáveis. Dessa forma, percebe-se que, através das negociações cotidianas com seus senhores e lutas diárias, alguns cativos conseguiram de fato vencer todas as possíveis vicissitudes postas pelo regime escravista. Sem dúvida, os laços de solidariedade entre os cativos em Serrinha não se limitaram apenas à constituição de famílias, sendo também consideradas importantes as relações de compadrio construídas entre eles ou com a população livre.