facteurs humains, logistiques
PARTIE 1 LES FACTEURS HUMAINS
No que diz respeito às distintas fases dos estudos sobre diásporas, Cohen (1997, 1998: 2-14), considerou:
1) A fase da diáspora prototípica: é caracterizada pela ideia de que existe um evento traumático (definido em termos de escala e intensidade), que conduz à dispersão a partir da "Terra-mãe". Considera igualmente a existência de uma saliência característica da "Terra-mãe", na memória colectiva do grupo forçado à dispersão (restaurar ou retornar à "Terra-mãe" original é uma preocupação-chave)37.
2) A fase do conceito expandido de diáspora: relativamente a esta fase, refira-se que William Safran (1991), embora grandemente influenciado pelo paradigma da diáspora judaica, notou, em Diasporas in Modern Societies: Myths of Homeland and Return, que a experiência judaica "se expandia" para muitos outros grupos étnicos, que viviam situações semelhantes ou análogas às diásporas prototípicas, relacionadas com o modo de partida da origem, ou uma aceitação limitada no destino. Em verdade, enquanto Safran notava que os belgas flamengos da Valónia38, a massa de emigrados polacos para
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O autor forneceu exemplos como os da diáspora judaica, a diáspora africana iniciada com o comércio de escravos, as diásporas arménia, irlandesa ou palestiniana, inicialmente sempre marcadas por calamidades históricas (sob o ponto de vista da experiência histórica, elas são diásporas-vítima, embora possam exibir algumas características de outras diásporas também).
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Ao contrário daquilo que considerava Richard Marienstras, em virtude do seu deslocamento físico por referência a um centro linguístico particular - em Marienstras, R. (1985), "Sur la notion de la diaspora", in G. Chaliand (ed.): Les Minorités à L'Âge de L'État-Nation, Paris, Fayard, pp. 215-226.
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os Estados Unidos em finais do séc. XIX39, ou os latinos na América do Norte, não constituíam exactamente diásporas, este autor entendia que "uma definição ligeiramente expandida incluiria os portugueses e os magrebinos em França, ou os turcos na Alemanha, na qualidade de diásporas, ou de grupos nos quais uma consciência de diáspora e o mito de retorno persistem, apesar de a sua condição em relação à "Terra- mãe" diferir marcadamente de arménios, judeus e palestinianos" (Safran, 1991: 86-87). Safran destrinçava, ainda, as diásporas judaica ou arménia, das diásporas indiana (pela relação com a "Terra-mãe" e o estatuto político assumido), corsa, parsi (concentrada na região indiana de Bombaim), chinesa (e sua relação com o chamado "capitalismo pária"), os negros americanos ou a diáspora cubana. De acordo com Safran (1991), há diásporas que persistem por não existir já "Terra-mãe" à qual retornar, ou essa "Terra- mãe" não ser acolhedora e os exilados não poderem identificar-se com ela, ou ainda pelo facto de a alternativa de abandonar a diáspora se poder tornar "demasiado disruptiva", nalgumas ocasiões. O mito do retorno serviria, assim, para solidificar a solidariedade e a consciência étnica, "quando a desintegração ameaçasse famílias e comunidades, e a religião já não pudesse servir esses propósitos" (Safran, 1991: 91). Bem-recebidos, tratados como "estranhos dentro de portas", ou explorados em função dos interesses domésticos ou diplomáticos do país de acolhimento, os membros de minorias mantêm-se, por vezes, como diásporas "de modo a salvaguardarem a unidade social interna do seu grupo" (Safran, 1991: 92). A fase dois dos estudos sobre diásporas agrupou-as, portanto, em sub-tipos e elencou, com maior sofisticação, as suas características.
3) A fase das críticas dirigidas pelos constructivistas sociais ao conceito de diáspora: quanto a esta fase, Cohen (1997) referiu que ela operou um rompimento com a análise que vinha sendo feita na fase dois, devido ao uso generalizado e indiscriminado do termo "diáspora", auxiliado pela desconstrução, que alguns investigadores operaram, das noções de casa, "Terra-mãe" (Brah, 1996) e comunidade étnica/religiosa40. Ou, como notou Brubaker (2005), "se toda a gente é diaspórica, então ninguém o será distintivamente". Foi o caso de Brah (1996), ao distanciar-se da noção de "Terra-mãe" para privilegiar o sentimento de nostalgia pela casa (tido como lugar mítico de desejo na imaginação diaspórica). Ou de Anthias (1998), ao criticar "noções absolutistas de
39 Eles deslocaram-se para trabalho e colonização, a maioria dos seus descendentes assimilou-se
rapidamente e optou por casamentos mistos, já não falavam polaco e não demonstravam preocupações políticas com a "Terra-mãe" dos progenitores.
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origem e pertença" e Soysal (2000), pelas críticas que dirigiu ao conceito de diáspora. Cohen (1997) considerou simplesmente que, para estes autores, o termo "diáspora" não podia endereçar as suas agendas próprias da maneira desejada: "Anthias não via nele uma base para um movimento transétnico sensível ao género e anti-racista; Soysal não o tomava como forma de compreender convenientemente a cidadania pós-nacional na Europa" (Cohen, 1997: 11).
4) A fase da consolidação do conceito de diáspora: enfim, esta fase iniciou-se com as pontes construídas por alguns autores, entre a perspectiva dos sociais constructivistas e o ponto de vista dos teóricos da diáspora. Brubaker (2005) insistiu que três elementos- chave constituíam o termo "diáspora" (dispersão, orientação para a "Terra-mãe" e manutenção de fronteiras), enquanto Tölölyan (2005) aconselhava alguma moderação entre as duas posições, embora reforçando a importância do "lugar" na definição da diáspora. Para Brubaker (2005), a dispersão poderia ser entendida, no sentido estrito, como qualquer dispersão forçada ou traumática; e no sentido amplo, como qualquer tipo de dispersão no espaço, que atravessasse fronteiras de Estados; ou, no seu sentido metafórico, como dispersão dentro de um mesmo Estado. Alguns autores substituíram, no entanto, dispersão por divisão, e definiram diásporas como "comunidades étnicas divididas pelas fronteiras de Estados" (King e Melvin, 1998, 1999), ou "segmentos de um povo vivendo fora da Terra-mãe" (Connor, 1986, cit. por Brubaker, 2005). Há, além disso, nas diásporas, uma orientação para a "Terra-mãe" real ou imaginada, como fonte de autoridade, valor, lealdade e identidade, tendência enfatizada nas primeiras conceptualizações (Safran, 1991) e que tem perdido relevância, enquanto alguns autores valorizam as "conexões descentralizadas e laterais" (Clifford, 1994; Anthias, 1998; Falzon, 2003). O terceiro critério constitutivo das diásporas é a manutenção de fronteiras, que envolve a preservação de uma identidade distintiva em relação à(s) sociedade(s) de acolhimento, e que pode resultar de uma resistência deliberada à assimilação por via de endogamia, auto-segregação, ou exclusão social não-deliberada (Armstrong, 1976; Smith, 1986; Safran, 1991; Laitin, 1995; Tölölyan, 1996, Cohen, 1997; Brubaker, 2005). Esta fase final nos estudos diaspóricos terá ajudado a construir um melhor entendimento sobre os factores que levam à mobilização ou desmobilização da diáspora, e ao nascimento de formas de socialização com outras comunidades (exº: Sökefeld, 2006), articulando os estudos diaspóricos com os estudos pós-coloniais (exº: Chariandy, 2006), e compreendendo as alterações ocorridas na relação diáspora/"Terra-
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mãe" que podem levar ao desenvolvimento de uma consciência dual (exº: Safran, 2005) (Cohen, 1997, 1998).
Em síntese, ainda na senda de Cohen (1997, 1998), atrás distinguimos, detalhando as suas especificidades, quatro fases dos estudos sobre diásporas: 1) A fase da diáspora prototípica; 2) A fase do conceito expandido de diáspora; 3) A fase das críticas pelos constructivistas sociais ao conceito de diáspora; e 4) A fase da consolidação do conceito de diáspora. Como vimos, este autor desconstrói criticamente as objeções levantadas pelos constructivistas sociais, relacionando-as com agendas de investigação próprias, às quais o conceito de diáspora não se ajustaria.
Ensaiando, agora, uma síntese conclusiva deste Capítulo 1, comecemos por regressar brevemente ao ponto 1.1 e às definições e tipologias de migração e migrantes. O Quadro 1.5 introduz um sumário útil:
Quadro 1.5 - Sumário a Respeito de Alguns Aspectos Relevantes, Para Investigar os Conceitos de Migração e Migrantes
Elaborado pela autora, 2018
Verificámos que alguns autores reinscrevem a migração nos processos de transformação social mais vastos, enquanto outros se debruçam sobre os processos migratórios para investigar alterações provocadas no ambiente de partida. Em qualquer dos casos, a complexidade do fenómeno é reconhecidamente crescente, tendo em conta problemáticas como a etnicização das comunidades migrantes, ou a contestação da figura do migrante. Abordámos a questão do delineamento de fronteiras, da desespacialização e quebra de localidade nos movimentos migratórios internacionais. No contexto das múltiplas definições de migração propostas, encontrámos características comuns, e subscrevemos as definições de John Archer Jackson (1986), e ainda a tipologia de D. Jackson e A. Passarelli (2007). No ponto 1.2, propusemos um conceito próprio de grupo étnico, com base na revisão de literatura efectuada, e seguimos Glick Schiller e Fouron, a propósito da noção de raça, justificando-o. O conceito de etnicidade proposto é
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consonante com os resultados das pesquisas de Williams (1988) e de Basch, Glick Schiller e Szanton-Blanc (1994). Adoptámos a noção de "terceiro espaço" de Bhabha (2004) e enfatizámos, na sequência de Vertovec, os modos de recepção e acolhimento no destino, como variável complementar às noções de raça e etnicidade, e como um dos aspectos importantes a ter em conta na construção de uma identidade migrante. Finalmente, diferenciámos integração, aculturação, assimilação e marginalização. No ponto 1.3, analisámos os lugares de encontro e os modos de pertença. A pertença múltipla e as transformações da pertença estão envolvidas em todas as migrações: seguindo as conceptualizações de Marchetti et al. (2011), distinguimos camadas nessa pertença (recepção, aceitação, identificação e envolvimento). Descrevemos a forma como Simmel (1908) expôs as características identitárias do "estrangeiro". Nesta sequência, expusemos problemáticas relacionadas com a identidade cultural e a linguagem, as identidades dos migrantes e as chamadas "identidades diaspóricas", envolvendo uma negociação entre (pelo menos) dois tempos e dois lugares, assim como uma tensão relacional entre estabelecimento e deslocalização (Gilroy, 1993; Hall, 2003). No ponto 1.4, iniciámos uma exposição das discussões relativas ao uso do conceito de diáspora: suas definições, tipos e fases dos estudos sobre diásporas. O Quadro 1.6 resume sucintamente as principais definições de diáspora analisadas, e o Quadro 1.7 compara quatro visões distintas, a respeito dessa noção:
Quadro 1.6 - Resumo 1: Conceito de Diáspora - Definições Analisadas Elaborado pela autora, 2018
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Quadro 1.7 - Resumo 2: Conceito de Diáspora - Quatro Visões Comparadas Elaborado pela autora, 2018
Observamos que alguns autores encaram as diásporas como comunidades, outros como minorias expatriadas; outros, ainda, sublinham o aspecto de auto-definição e apropriação na definição daquilo que é uma diáspora; ou, enfim, o facto de haver uma religião, língua e ideologia compartilhadas. Clarificámos aquilo que a maioria dos investigadores considera como traços distintivos de uma diáspora (deslocamento para fora da origem, conexão com a "Terra-mãe", incompleta integração no destino e uma consciência de identidade de grupo), para perfilharmos a definição detalhada de Cohen (1997), justificando essa opção. Indicámos ainda as reflexões de Brubaker (2005) como forma de ultrapassar a oposição entre uma corrente conservadora, e outra que acentua a hibridez na definição de diáspora. Este autor introduziu, expressamente, a complexidade do tempo e do espaço na noção, dando continuidade aos contributos de Gilroy, Hall ou Cohen, a esse respeito. A dupla qualidade do tempo e a tripla qualidade/complexidade do espaço, na experiência diaspórica, são detalhadas no Quadro 1.8:
Quadro 1.8 - Especificidades Sobre a Experiência Diaspórica Elaborado pela autora, 2018
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Vimos que a nova comunidade distintiva nasce de um conjunto de práticas sociais, que activam esta duplicidade espaço/tempo. Com estas breves notas conclusivas, finalizamos o nosso primeiro capítulo sobre Migração, Diásporas e Diversidade Cultural.
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