8. Prévention par une adaptation
8.6 Faciliter la manipulation des objets
O essencial deste estudo será compreender as diversas situações de vida das mulheres e das/os surdas/os e problematizá-las no campo teórico, político e mesmo em termos de ação para uma verdadeira justiça social das mulheres e das/os surdas/os (Olesen, 1998). Desta forma, a escolha que se faz ao nível do método procura corresponder a estas intencionalidades. Como referem Araújo, Magalhães & Fonseca, “a metodologia qualitativa, enquadrada numa epistemologia feminista, atravessaria todos os processos e momentos de pesquisa, à procura de dar conta das condições sociais e da ação humana das mulheres: escutar, conhecer, interrogar, expressar, interpelar, compreender, identificar e transformar” (2000: 138).
Será utilizada, como método, a narrativa biográfica. Como refere Bourdieu, não basta agir enquanto investigadora para controlar a interação aquando da narrativa (nomeadamente no que diz respeito à linguagem, sinais verbais e não verbais), é, também, necessário agir “sobre a própria estrutura da relação (…), portanto na própria escolha das pessoas interrogadas e dos[/as] interrogadores[/as]” (2001: 696). É, reconhecendo as especificidades e singularidades das vidas individuais, optou-se pela construção de três narrativas biográficas. As participantes biografadas escolhidas foram: uma mulher surda adulta, formadora de LGP e presidente de uma associação relacionada com a comunidade surda, uma outra mulher surda mais velha e uma estudante do Ensino Superior surda. Estas mulheres são de faixas etárias diferentes, de forma a perceber as particularidades vividas por estas três mulheres surdas que passaram por diferentes políticas, diferentes movimentos sociais,... Os sujeitos
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de todo o trabalho. Reconhece-se que a sua implicação é crucial e que a sua “experiência pode constituir-se num manancial poderoso de conhecimento sobre os quotidianos ao mesmo tempo que pode potenciar possibilidades científicas e margens políticas para a transformação social” (Fonseca, 2005: 162). Deste modo, são importantes não só as pessoas e as suas vidas, mas também o contexto em que elas se inserem de modo a refletir-se as suas experiências numa temporalidade histórica. Tal como refere a autora supracitada, para esta investigação foram mobilizadas perspetivas biográficas culturais enquadradas numa epistemologia feminista “que procura descobrir diversos sentidos da vida” (Fonseca, 2005: 187).
3.1 - O método biográfico
No presente trabalho, o enfoque que se pretende dar centra-se nos percursos de vida das diferentes mulheres surdas, salientando o que as afasta e o que as aproxima em diversas áreas das suas vidas. As suas experiências diárias, desde a escola ao trabalho, são relevantes para as suas construções identitárias enquanto mulheres e surdas. O método biográfico surge, desta forma, como consequência de considerações epistemológicas e teóricas com o intuito de colocar em prática uma tomada de consciência dos processos através dos quais, neste caso, as/os adultas/os se constituem. Mathias Finger acrescenta, ainda, que o método biográfico justifica-se porque “valoriza uma compreensão que se desenrola no interior da pessoa, sobretudo em relação a vivências e a experiências que tiveram lugar no decurso da sua história de vida” (1988: 84). Assim, não se pode desvincular as experiências e vivências pessoais das profissionais, ou seja, o social do individual, levando a que as próprias pessoas envolvidas participem na elaboração das suas narrativas e “trabalhem com elas numa perspetiva de autoconhecimento e de permanente reinvenção de si mesmos[/as]” (Neto, 2009: 105). Neste sentido, e na esteira do mesmo autor, a construção de narrativas biográficas é um caminho que se inicia no individual em direção ao social, numa relação dialética que supõe estudar o contexto das pessoas biografadas envolvidas, as suas formas particulares de apreensão e de resposta aos problemas, e de refletir sobre o seu significado na complexidade das ações humanas. Assim, as narrativas biográficas são uma forma de dar conta à/ao investigadora/r e à/ao leitora/r o das trajetórias de vida que foram realizadas pelos sujeitos biografados, bem como um modo de mostrarem quem são. Ao colocar as pessoas biografadas na investigação a gestualizar/narrar aspetos das suas histórias está-se a trabalhar com relações de poder que se pretende que sejam alteradas, ou seja, que este não esteja somente do lado da investigadora, mas que esteja maioritariamente do lado das mulheres surdas, pois ver o que as pessoas dizem é dar poder (Fonseca, 2005).
Sobre o método biográfico, o autor Franco Ferrarotti que apresenta o seguinte paradoxo epistemológico sobre este método: “[o/a] homem[/mulher] é o universal singular. Se nós somos, se todo o indivíduo é, a representação singular do universal social e histórico que o rodeia, então podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma praxis individual” (1988: 26-27). O que o autor propõe é que, a partir do método biográfico, se possa olhar e compreender a sociedade, isto é, começando no individual para o coletivo, vendo as especificidades e, ao mesmo tempo, a multiplicidade de situações existentes. Segundo o autor, após a recolha e elaboração da narrativa biográfica não se pode limitar o olhar somente a esse documento, mas conetá-lo a caraterísticas globais de uma situação ou contexto. Deste modo, efetua-se um movimento heurístico de vai e vem entre e biografia e o sistema social emergindo, deste movimento duplo, ou seja, “relações dialéticas e mediadas entre uma sociedade e um indivíduo específico” (Ferrarotti, 1991: 173).
A narração de uma história de vida não é uma mera narração histórica da vida mais ou menos objetiva. José Alberto Correia toma uma analogia para melhor compreensão da narrativa de uma história de vida, afirmando que assim como não se arrumam as recordações e as marcas do passado para o compreender, mas em função do presente para haver uma melhor transformação, “também [A]quele que narra a sua história de vida seleciona e articula as suas experiências em função de um presente ou em função dos traços ainda difusos de um projeto” (1998: 150). Deste modo, tudo tem uma lógica que permite um melhor funcionamento do pensamento e de acesso ao passado para refletir o futuro.
Plummer (1983), numa das suas obras sobre documentos de vida, aponta quatro problemas com que a/o investigadora/r se confronta ao longo de toda a sua investigação e que ele designa por paradigma dos problemas metodológicos. O primeiro insere-se nas questões das CS em que a/o investigadora/r terá de justificar a sua pesquisa (“Porquê?”). Em seguida surgem as questões técnicas e práticas da própria investigação (“Como?”). O terceiro problema prende-se com as questões e dilemas éticos e políticos. Por último, o autor apresenta as questões pessoais da vida particular da/o investigadora/r. No presente estudo é importante refetir sobre todos eles. Assim, esta pesquisa é relevante para as CS no sentido em que apela à participação e empoderamento das mulheres surdas (aqui representadas por três delas). Ao longo da recolha das entrevistas biográficas foram surgindo questões técnicas específicas do estudo com pessoas surdas, por exemplo, que foram sendo ultrapassadas e justificadas no corpus do trabalho. Os dilemas éticos e políticos também vão sendo explicados e quanto às questões pessoais da investigadora, não sendo contornáveis, procurou deles tomar-se uma consciência crítica.
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O método biográfico apresenta algumas fragilidades e contradições. Como refere Ferrarotti: “[t]oda a entrevista biográfica esconde tensões, conflitos e hierarquias de poder; apela para o carisma e para o poder social das instituições científicas relativamente às classes subalternas, desencadeando reações espontâneas de defesa” (1988: 27). No sentido de esbater alguma diretividade por parte da pessoa investigadora, realizam-se entrevistas biográficas de modo a permitir às mulheres biografadas uma maior liberdade de resposta. Poirier, Clapier-Valladon & Raybaut apresentam uma outra contradição teórica que se prende com o facto de a investigadora estar a fazer uma pesquisa em que há lugar a uma “[e]scuta dos[/as] dominantes ou dos[/as] dominados[/as]?” (1983: 11). Uma vez que este trabalho é co- realizado com mulheres surdas (grupo muitas vezes ocultado e esquecido pela demais sociedade) esta questão pode ser levantada. O que se pretende é criar algumas possibilidades de «escutá-las» e «vê-las», não para lhes dar uma receita milagreira para a sua emancipação, mas para lhes dar oportunidade de exprimirem as suas reflexões sobre as suas próprias experiências de vida.
3.2 - A construção das narrativas biográficas