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6. Definitions

6.2. The T11-FC-FABRIC-ADDR-MGR-MIB Module

Antes de estarmos em debate sobre a cidade e o desenvolvimentismo, apresentamos aqui um trecho da letra Manguetown (Chico Science & Nação Zumbi, da Lama ao Caos,1994):

Andando por entre os becos, Andando em coletivos Ninguém foge ao cheiro sujo Da lama da Manguetown Andando por entre os becos, Andando em coletivos Ninguém foge à vida suja Dos dias da Manguetown [...]

O tema “desenvolvimentismo” presente na letra é também abordado por diversos autores, dentre os quais destacamos Tânia Bacelar30, em “A questão

30Economista e atualmente, é professora aposentada da Universidade Federal de Pernambuco, sendo também sócia da CEPLAN Consultoria Econômica e Planejamento. (via Curriculum Lattes:

regional” e “A questão nordestina”31 no livro Celso Furtado e o Brasil. Neste ensaio,

a autora usa como referência Celso Furtado32 e Francisco Oliveira33, apresentando

peças fundamentais para compreensão da situação em que o Recife se encontrava em 1990.

De acordo com a autora, para Francisco de Oliveira, o Brasil, durante quatro séculos (séc. XVI ao séc. XIX) foi um arquipélago de regiões, uma economia primária-exportadora. A chamada “questão regional” brasileira só se apresenta com nitidez no século XX, quando o Brasil passa para a condição de país de base industrial importante, com um mercado interno comandando sua dinâmica econômica e não mais o mercado externo como estratégica de comando. Citando Francisco de Oliveira, a autora afirma que deixamos de ser arquipélagos regionais para ter “uma economia nacional regionalmente localizada”. (BACELAR, 2001)

Para Tânia Bacelar (2001, p. 73), neste processo evidencia-se que determinadas regiões têm uma dinâmica diferente de outras. Durante 50 anos a Região Sudeste, principalmente o estado de São Paulo, comandou a produção industrial. Este processo de circulação das mercadorias e a intensificação das relações comerciais tiveram um impacto negativo na maioria das demais regiões do país. No Nordeste, em particular, a velha indústria têxtil nordestina, maior até do que a de São Paulo, não teve condições de competitividade e entrou em colapso com a rodovia Rio–Bahia construída por Juscelino Kubitscheck. (BACELAR, 2001, p.74).

Este colapso é apenas o início das condições que vão levar o Recife ao caos econômico e social cantado na letra vista anteriormente. Para Tânia Bacelar (2001, p. 75), a indústria têxtil é só uma das variáveis deste processo, e a autora a

31 O referido Seminário aconteceu na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e foi realizado

juntamente com a Fundação Perseu Abramo e com o Conselho Regional de Economia de Minas Gerais.

32 Foi um economista e pensador brasileiro, responsável pela arquitetura de muitas das políticas de

cunho econômico desenvolvido no Brasil nas últimas décadas. Faleceu em 20 de novembro de 2004. Disponível em: <http://www.infoescola.com/biografias/celso-furtado/> Acesso em 28/12/15.

33 Um dos mais importantes sociólogos brasileiros, é professor titular aposentado de Sociologia da

Universidade de São Paulo, diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP. Disponível em: <http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Autores/visualizar/francisco-de-oliveira> Acesso em 28 de dez de 2015.

classifica como de intensificação da concorrência inter-regional, que, junto com a grande seca deste período (anos 1950) e com a consequente expulsão de “moradores” da zona da mata nordestina para as periferias das cidades, vem agravar a situação da cidade do Recife.

É este quadro econômico e social que fez florescer o movimento social, muito intenso na região Nordeste, e Stefan Robock (apud BACELAR, 2001), cientista social norte-americano, contratado pelo Banco do Nordeste, e citado por Tânia Bacelar, declarou em seu livro o Desenvolvimento econômico do Nordeste do Brasil, que o Nordeste era “um caldeirão prestes a explodir” com a tensão social instalada: no semiárido, na zona da mata e nos centros industriais, onde falia a indústria têxtil.

Dos anos 1964 a 1985, o país passa por um processo de ditadura que deixa como legado para o período da redemocratização, segundo Francisco de Oliveira, citado por Tânia Bacelar (2001, p. 78), uma economia nacional regionalmente localizada, mas cuja dinâmica é nacional. Esta mudança é positiva, mas se apresenta para Oliveira como uma distorção da ideia de Celso Furtado na Sudene. Furtado tinha como cerne financiar uma indústria para o mercado do Nordeste, com empresários nordestinos, uma espécie de “burguesia industrial” que, na visão de Furtado, tivesse o poder estratégico de confrontar “o peso fantástico”, nos termos da Bacelar, das oligarquias agrícolas. E o que se viu na ditadura foi o capital produtivo industrial do Sul e do Sudeste migrar para o Nordeste em busca do sistema de incentivo da Sudene (BACELAR,2001, p. 79), agravando o quadro de sucateamento e falência da indústria local.

Em relação às oligarquias rurais locais, em vez da diversificação de produção pensada por Furtado, o monopólio da cana na zona da mata tinha duplicado sua área de plantação de 250 mil para 500 mil hectares devido ao Pró-álcool. Furtado vê aí uma modernização conservadora feita nos anos da ditadura: onde o país tinha conseguido dar saltos, modernizar-se, o Nordeste tinha conseguido se agarrar à dinâmica nacional, industrializar-se, mas a miséria continuava intacta. Para ele, segundo Tânia Bacelar (2001, p.81), a “cara” do Brasil estava refletida com muito mais força no Nordeste.

No entanto, cabe ressaltar que essa modernização conservadora não resolveu o drama da região, sua grave problemática social, privilegiando-se assim as elites conservadoras locais em aliança com elites de outras regiões. Furtado

reconhece o erro e, para ele, a questão regional só poderá ser enfrentada através de dois ativos: terra e educação. (apud BACELAR, 2001, p.83).

Para Bacelar (2001), a configuração da região na década de 1990 tem raízes em todo este processo de desenvolvimento pelo qual passou o Nordeste. Uma das consequências foi o caos que tomou conta da Metrópole Recifense, quando a miséria se espalhou na cidade e uma de suas expressões foi o aumento do desemprego dos jovens recifenses.

O Movimento Manguebeat vai tratar destas questões vinculadas aos resultados deste processo de desenvolvimento na região, o que podemos perceber na forma como os integrantes do movimento constroem as letras. Fred 04, por exemplo, ao se referir ao aumento do desemprego dos jovens recifenses, afirma: “o trabalho mal remunerado, a tecnologia, a falta de perspectiva e a vontade de revolucionar (‘minha alma deseja e sonha’) são elementos constantes” (NETO, 2000).

Neto (2000, p.155) afirma que a perspectiva do Movimento é a de não apenas denunciar e reivindicar uma transformação para os resultados deste processo de desenvolvimento, mas também inverter esta lógica legitimada de centro e periferia, entre o Sudeste e o Nordeste. Para Neto (2000), Chico Science enxergava a cidade a partir do mocambo e propôs uma articulação, um referencial poético novo no sistema do consumo cultural, até então tão exclusivamente voltado para os produtos do eixo Rio-São Paulo/EUA.

Ao tratar da questão urbana, o Movimento denuncia o que considera ser uma “cínica noção de progresso", um quadro de miséria e caos urbano que nos anos 1990 culmina com Recife sendo a cidade que detém o maior índice de desemprego do país, tendo mais da metade dos seus habitantes vivendo em favelas e alagados, “homens caranguejos”, como no romance de Josué de Castro. Chico Science faz referência a esse autor e obra no trecho da música: “Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça. Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça” (CHICO&NAÇÃO ZUMBI -

DA LAMA AO CAOS,1994).

Chico Science incorpora o pensamento de Josué de Castro de que a fome é um problema político. Os “urubus” aos quais Chico faz alusão na letra remetem à perspectiva de exploração denunciada por Josué: “denunciei a fome como flagelo

fabricado pelos homens contra outros homens”. (JOSUÉ DE CASTRO apud DE MELO; NEVES, 2007).

O Movimento propunha uma reflexão sobre o espaço urbano e a reivindicação de participar da dinâmica política e econômica da cidade através da cultura. De acordo com o Manifesto Mangue o objetivo era o de “recuperar a alma da cidade”.

[...] Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruir as suas veias. O modo mais rápido também, de enfartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários [...] (CAMPOS, 2013, p.1)

Há aqui uma questão clara de percepções distintas relacionadas ao desenvolvimento: a cidade crescia, suas veias eram obstruídas por carros, construções, mas como a quarta pior cidade do mundo para se viver, segundo pesquisa do Instituto de Estudos Populacionais de Washington, fica evidenciado o problema político que dava contornos à desigualdade vivenciada pela população.

Foi através da música que os jovens artistas começaram a compor o cotidiano da cidade, e isso se confirma na afirmação de Neto (2000, p. 30), que defende que “a técnica de composição de Chico (e de outros integrantes do Movimento Mangue) justapõe imagens do Recife, formando um painel que sugere uma razão para o caos”. Essa ideia pode ser apreendida na letra e música do próprio Chico Science intitulada A Cidade:

[...] A cidade não para, a cidade só cresce O de cima sobe e o de baixo desce A cidade se encontra prostituída

Por aqueles que a usaram em busca de saída [...] Pra a gente sair da lama e enfrentar os urubus num dia de sol Recife acordou

com a mesma fedentina do dia anterior

(CHICO SCIENCE&NAÇÃOZUMBI-DA LAMA AO CAOS,1994)

A relação entre o homem e a cidade também se faz presente na letra da música Antene-se da discografia da Lama ao Caos, Chico Science & Nação Zumbi (1994):

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo

Escutando o som das vitrolas, que vem dos mocambos Entulhados à beira do Capibaribe

Na quarta pior cidade do mundo Recife cidade do mangue

Onde estão os homens caranguejos Minha corda costuma sair de andada No meio das ruas e em cima das pontes é só uma cabeça equilibrada em cima do corpo Procurando antenar boas vibrações

Preocupando antenar boa diversão Sou, sou, sou, sou, sou, sou Mangueboy Recife, cidade do mangue

Onde a lama é a insurreição

Onde estão os homens caranguejos? Minha corda costuma sair de andada No meio da rua, em cima das pontes

É só equilibrar sua cabeça em cima do corpo Procure antenar boas vibrações

Procure antenar boa diversão

Sou, sou, sou, sou, sou, sou Mangueboy

Na letra da música acima apresentada, Chico Science denuncia o caos econômico e social da Recife, aprofundando a metáfora da lama como vida e insurreição onde os homens, tal como os caranguejos, saem de “Andada”, se referindo aqui ao período reprodutivo em que os caranguejos machos e fêmeas saem de suas galerias (tocas) para se acasalar34. Constrói-se, na letra, uma oposição entre a vida e a morte, conforme citada por Neto (2000, p.30) para quem a música:

Contextualiza o caos urbano, exibindo ao mesmo tempo a desgraça da propulsão da vida recifense e a necessidade de brincar, lutar, gingar, globaliza-se, unir-se numa identidade festiva e combatente. É a lança do caboclo35 contra a máquina social inconsequente e caduca. Natureza e ciência em busca da unificação.

Como vimos, mesmo em meio a um contexto de caos, pobreza, degradação das questões de vida, este “movimento” ou “cena” ganhou força tornando-se um movimento de destaque no mercado da música feita em Pernambuco.

34 Sobre a “andada” do caranguejo, disponível em: <http://www.sindbares.com.br/ultimas-noticias/definidos-os-

periodos-da-andada-do-caranguejo-uca-em-2017/> Acesso em: 11 mar. 2017. 35 Lança do Caboclo parte da indumentária do Caboclo de Lança do Maracatu Rural.

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