A estrutura fundiária do Nordeste do Brasil foi determinada pela monocultura da cana de açúcar através das Capitanias Hereditárias, uma das forças motrizes da economia colonial executada por Portugal. Como o próprio nome sugere, hereditárias é, na prática, um começo histórico que vai dificultar a lógica da reforma agrária no Nordeste desde o litoral até o sertão dos coronéis.
A Igreja no Nordeste, como em outras regiões do Brasil, demorou a se desvencilhar do poder estruturante por causa do seu compromisso histórico com as elites. A Igreja Católica sempre fez parte da engrenagem do sistema econômico legitimando-o. Era o antigo pacto colonial5, difícil de ser quebrado, deixando de acreditar nos ricos como agentes transformadores das situações de pobreza. Era preciso que o clero e os leigos, primeiro, tomassem consciência de que qual era a função da Igreja no mundo, e, em que lugar ele deveria se localizar. Uma reflexão desse porte não é fácil de ser feita, a Igreja tem um poder central decisório e dogmático, que tem um desenho pré-definido de sua missão institucional que foram definidos em concílios em tempos bem antigos.
As respostas vieram em muitas vozes. A voz no Nordeste mais conhecida da Igreja na luta em diversas frentes por justiça social foi a do
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arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara. Ele tinha assumido a TDL – Teologia da Libertação como a única alternativa teórica do cristianismo ao continente latino americano. O desafio proposto pela Igreja no Nordeste enfrentaria sérias dificuldades diante do regime que já tinha uma postura definida sobre a luta campesina e o que ela significava diante da visão social do estado. A liga campesina foi criminalizada, bem como todo e qualquer movimento que fosse entendido como de risco a segurança nacional.
Convencidos pela Teologia da Libertação, Dom Helder Câmara e tantos religiosos, passaram a fazer uma leitura da terra como pertencendo a Deus e que deveria ser de todos, e das causas que produziram no continente o sofrimento coletivo de milhares de pobres. Era uma reflexão que iria causar muitos problemas para o regime político vigente porque partia de uma teologia militante que estava articulada com as outras ciências6. Frei Betto explica:
Na América Latina, não se coloca a questão da “pessoa humana”. Na América Latina se coloca o problema da “não pessoa”: há trezentos milhões de latino-americanos que vivem em condições sub-humanas. Então, não basta a filosofia para assessorar a teologia. São necessárias as ciências sociais que expliquem por que a grande maioria da população desse continente vive em condições sub-humanas. Essa é uma grande diferença: a teologia da libertação não é só mediatizada pela filosofia, mas sobretudo pelas ciências sociais que nos ajudam a entender os mecanismos que geram tantas injustiças. (BETTO; ROSSI, 1984).
Conforme Gileno (1987), a Igreja Católica assumindo a bandeira da reforma agrária no Nordeste alertava a sociedade que esse problema era também urbano. Era obrigação de todos os cidadãos participarem das discussões e lutas. Pois, a consequência inevitável da não solução dos conflitos no campo seria migração para as cidades como de fato ocorreu, e gerou mais pobreza e conflitos urbanos que não foram solucionados no campo. As cidades não possuíam a estrutura para o acolhimento dessas famílias oriundas da vida rural, estas também não estavam preparadas para as
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A teologia da libertação ela está articulada com a sociologia, história e filosofia. Esse tripé garante uma nova hermenêutica do texto bíblico que passa por esse funil. Por exemplo: O Deus coletivo que se manifestou a Moises e que foi trazido pela tradição oral não anti- imperialista contra faraó passou a ser um estado nos mesmos moldes com Davi e Principalmente com Salomão. A teologia sozinha não descobre isso. Precisa da sociologia, história e filosofia.
imposições da vida urbana, por isso, caíram inevitavelmente na marginalização e potencializaram os bolsões de miséria que chegaram até nós nas periferias das grandes cidades brasileiras.
A região Nordeste, fazendo um percurso até o agreste e o sertão, é também marcada pela estrutura latifundiária originária da pecuária que serviu de ponte para as ocupações dessas regiões. A figura do coronel se fez presente como dominador das cidades em que moravam, estes eram também os pecuaristas e proprietários da terra. Era preciso romper paradigmas históricos em busca da reforma agrária. Não seria fácil. E, depois como entender uma instituição que cuida das coisas espirituais, agora tomar partido em lutas sociais? Muitos padres e bispos foram tachados de comunistas pelas forças dominantes da economia nordestina.
Dom Helder, com sua atuação junto às ligas campesinas em Pernambuco, teve seu assessor assassinado. Era bem mais difícil matar um arcebispo do alto clero. Esse assassinato teve como objetivo intimidar e frear as ações da Igreja em Pernambuco. Quarenta e cinco anos depois da morte do padre Antônio Henrique Pereira Neto, a Comissão da Verdade (2014) esclareceu o crime:
O padre Antônio Henrique foi assassinado na manhã do dia 27 de maio de 1969. Seu corpo foi encontrado com marcas de tortura e execução, em um terreno baldio, na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife. De acordo com documento apresentado nesta terça, a morte foi uma forma utilizada por membros da ditadura militar para coibir as atitudes libertadoras de Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife. Padre Henrique foi assessor de Dom Hélder e trabalhou na Pastoral da Juventude. Os detalhes foram revelados por Henrique Mariano, secretário-geral e relator do caso, e Fernando Coelho, coordenador-geral da comissão. (Globo.com, Comissão da Verdade, 27/05/2014)
Mesmo com as adversidades sociais antigas e consideradas válidas pelos grupos dominantes, as lutas não pararam no Nordeste. As CEBs – Comunidades Eclesiais de Base, também estavam presentes no campo na região Nordeste.
A Igreja Católica no Nordeste não teria outro caminho para articular a reforma agrária senão através de uma pedagogia teológica voltada para o
enfrentamento social. A região tem seus valores alicerçados numa pirâmide social na qual a terra não poderia ser dividida. Isso significaria, na prática, perca de poder dos criadores de gado e detentores da terra e do poder político regional. O modelo da casa grande e senzala era repetido, sem muitas dificuldades, como forma de manutenção do estamento social, muitos anos depois da abolição da escravatura. Era uma nova forma de encarceramento social, agora pela fome que levou muitos nordestinos ao Sudeste.
As tentativas de romper esse modelo no campo foram implementadas pelas pastorais da terra. A PJR – Pastoral da Juventude Rural e PJMP - Pastoral da Juventude do Meio Popular serão duas extensões fortes no campo da formação para os jovens em luta no campo. Alicerçados na teologia da enxada, que convoca para a luta, esses jovens faziam encontros de formação com duração de setenta e duas horas estudando a literatura profética e os evangelhos, além de história e sociologia relacionadas com as lutas pela terra no antigo e novo testamento e a Cartilha da PJR:
É missão de todos os cristãos a luta pela partilha da Terra no mundo. Não haverá justiça sem reforma agraria. O próprio Jesus afirma que todos devem viver em abundância. Não haverá essa fartura sem reforma agraria. O cristão precisa ser profeta no anuncio da justiça e na denúncia da opressão. A reforma agraria no Brasil é condição indispensável para a manutenção da vida dos pobres e suas futuras geração no campo. (CARTILHA PJR,1996 p. 26).
Mesmo com todas as lutas da Igreja junto aos pobres do campo e com todos os avanços, ainda há muito por se fazer no Nordeste do Brasil. A estrutura fundiária ainda continua rígida. A qualidade e a produtividade dos assentamentos ruins, sem incentivo à produção, isso está atrelado a dois fatores: falta assistência técnica e de linha de crédito. O que estamos vendo ao longo desses últimos anos são inícios de favelização de alguns assentamentos. O Estado executa reforma agrária sobre pressão popular, quando executa não dá segmento necessário a outras ações fundamentais para a vida no campo.
Nos últimos anos, no Nordeste, a Igreja Católica apesar de manter um forte núcleo de bispos ligados à luta por reforma agrária e também muitos padres e religiosos, a eclesiologia, isto é, o estudo do comportameto da igreja na sociedade, tem identificado um afastamento considerável de parte da Igreja
na luta por reforma agrária. Quais as causas? Esse asfatamento está atrelado sobtretudo, a nova geração do clero católico, que não estão preparados para esse tipo de situação. A formação nos seminários voltou-se para as disciplinas, na qual a teologia é rígida e não progressista. Os novos sacerdotes tem uma outra visão da sociedade e direcionam o povo e sua prática pastoral para outras atividades que não produzem a contradição e o conflito. Uma igreja alheia a muitos problemas ficando exclusos a reforma agrária. É um retrocesso que tem se espalhado por todo o corpo eclesial no Brasil e também na América Latina. É a teologia ortodoxa ocupando todos os espaços na Igreja, de forma que agora depois dos anos 2000, de modo muito dominante e prematuro deseja incutir na comunidade católica que a Teologia da Libertação morreu, discurso proferido massificadamente hoje pelo Clero conservador. Mas, segundo Lowy:
Obituários da teologia da libertação existem em quantidade [...] Mas tais obituários são prematuros. Eles fazem uma leitura errônea da situação atual, e refletem uma falta de compreensão do que significou e ainda significa a teologia da libertação. A própria teologia é retratada em termos estáticos, e seu sucesso ou fracasso é associado intimamente com o destino, a curto prazo, de movimentos ou regimes. Mas a teologia da libertação é qualquer coisa, menos estática: tanto suas idéias como a expressão delas em grupos e movimentos evoluíram substancialmente com o passar dos anos. [...] (LOWY, 2000, p. 204-205).
As provas práticas desse retrocesso são o surgimento de comunidades cristãs como a Canção Nova e Obra de Maria. Cristãos católicos ultra conservadores adpetos do catecismo e do direito canônico e com forte caraterística jurídica e doutrinal. Fazem a defesa da Igreja, cultivam a espiritualidade e condenam as teologias progressistas. Estão presentes em todas a regiões do Brasil. E no Nordeste criaram um novo paradigma teológico que parecia já ter desaparecido e agora precisa ser ressigificado novamente para a luta. As comunidades evangéicas, hoje, também seguem no mesmo caminho da RCC – Renovação Carismática Católica, desconectadas das discurssões sociais. Basta ver os prgramas de TV para nos depararmos com uma teologia que não compromete com o coletivo. Apenas a salvação da alma é o fundamento, é como se Jesus e cristianismo nunca tivessem conflitos com o estado.
Mesmo diante da mistificação dessas comunidades o sentimento do campesinato não mudou em relação à Igreja e à reforma agrária. As lutas sempre irão existir em todas as comunidades em busca de justiça no campo e terra para todos.
A Teologia da Libertação é uma literatura de confronto e conflito. Não se pode encarar como surpresa que essa teologia causasse desconforto em segmentos conservadores do clero católico. Uma teologia que, desde seu nascedouro, resolveu que não iria compactuar com os sistemas vigentes, mas denunciá-lo seria sua missão. Fosse em zona urbana ou rural, a Teologia da Libertação, tentava ser uma resposta aos empobrecidos de como se organizar para as lutas sociais.
Com o enfraquecimento da Teologia da Libertação, se produziu uma nova geração de leigos no Nordeste que não sabe ler a realidade teologicamente. E quando o faz é apenas impositivo, doutrinário e desprovido de soluções práticas para as demandas do campo. A formação mudou ao longo dos anos com o envelhecimento da velha guarda que acreditava em uma igreja comprometida com as causas sociais a partir de uma leitura critica da Bíblia sobre a realidade.
4 MOBILIZAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA NA OCUPAÇÃO DA FAZENDA