5.2 A propos des résultats
Annexe 2 Extraits d'entretiens
Numa primeira análise ao manuscrito constata-se que a sua redacção foi executada por mãos hábeis, habituadas ao exercício da escrita, verificando-se uma escrita regular quanto ao ductus (traçado) das letras, homogeneidade no seu tamanho, sem rasuras e regularidade na inclinação da escrita, sempre à direita. Verifica-se também bastante rigor no respeito à pauta e às suas linhas imaginárias, bem como no respeito das margens da mancha gráfica, a margem direita sempre maior quando recto(r), e a margem esquerda quando verso(v.). Os mediums apresentam uma tonalidade acastanhada, surgindo por vezes em tons mais desvanecidos ou quase preto, demonstrando uma grafia corrida e de traçado fino, o que remete para a possibilidade de um instrumento de escrita, provavelmente a pena de ave, muito comum à época, de ponta bem fina e de fácil deslizamento sobre o papel. Ao longo do manuscrito é observável uma relativa quantidade de borrões, por vezes relacionados com a oxidação da tinta ferrogálica, excessos de tinta ou derivados ao próprio ductus em que ocorre uma sobreposição do seu traçado.
Caracteriza-se por uma caligrafia cursiva, bastante corrida, apresentando um grande número de nexos entre si, o que dificulta em algumas situações a sua interpretação. A pontuação é bastante escassa, reduzindo-se quase ao ponto final, ainda que se verifique, muito ocasionalmente, a vírgula e o sinal de igual como elemento sinalizador de uma pausa na leitura. De referir o recurso ao sinal gráfico de barra dupla ( // ) quando se apresentam as assinaturas situadas no remate dos alvarás ou nos termos de medição66.
Nenhum dos fólios é rubricado ou iluminado, sendo contudo de realçar o facto dotexto iniciar em cada fólio com capitular, simples e sem ornamentação.
Ao nível da letra, é notório no decurso do documento a constatação de diversas realizações da grafia de uma mesma letra, pois não raras vezes a grafia reflecte as influências e características pessoais dos autores dos textos e também é uma consequência da escrita pouco cuidada do século XVIII, notoriamente vincada nas instituições periféricas. A este factor, não podemos dissociar o facto de se tratar de uma caligrafia com letras cursivas, caracterizadas por serem corridas, traçadas na maioria das vezes sem
66 Estas assinaturas não são as originais, tendo sido transcritas pelo escrivão do Tombo, aquando do traslado dos termos de medição e confrontação.
descanso da mão, surgindo um encadeado de palavras, que mescla os traços da letras.
Os exemplos a seguir corroboram esta inconsistência ao nível da letra:
Incongruências ao nível do ductus Tabela nº 5
J
V
S
Além destas inconsistências ao nível do ductus, também se detectou no presente documento algumas ocorrências que suscitam situações de dúvida por parte do escrivão na redacção do Tombo, em que algumas palavras surgem com redacções distintas ou no caso de palavras em que o ductus de letras é igual, contudo tratando-se de letras diferentes, vejamos:
Situações de dúvida do escrivão Tabela nº 6 concelho conselho pedaço pedasso Joam Joaõ cham chaõ Izabel juis
Ao nível da ortografia é evidente a influência do Período Pseudo-Etimológico, que vingou durante a Época Moderna, em que a admiração pela cultura clássica motivou uma atenção particular ao latim, levando a que os eruditos tentassem aproximar a nossa língua portuguesa à sua língua mãe, o latim. Esta circunstância provocou o abandono da simplicidade da representação fonética do português arcaico medieval, dando espaço a uma escrita com base etimológica. Deste modo, começa-se a assistir a um frequente emprego de consoantes duplas (delle, ditto, officiaes, castellos, etc.) e à ocorrência dos grupos dígrafos CH, RH, PH e TH (Thome, notheficado, sachristia, etc.).
Assim, no que concerne às características ortográficas da escrita, neste Tombo verificam-se as seguintes situações:
Características ortográficas da escrita Tabela nº 7
- o recurso a h, formando dígrafo -
Thome Notheficada
- h, no artigo indefinido um ou uma - hum huma
- repetição de consoantes - Villa cappitam
- uso de tre em vez de ter -
detremina
- troca na posição da consoante vibrante R - proçaõ - aes, ditongo, no lugar de ais -
actoaes quintaes
- n, como terminação nasal no lugar de ões - condesoens
- am, em substituição do ditongo decrescente ão
Escrivam
Por outro lado, também se registam ocorrências de poligrafia, em que o escrivão escreveu de diferentes modos a mesma palavra, talvez uma certa incerteza quanto ao grafema a usar pelo próprio escrivão, vejamos:
Ocorrências de poligrafia no Tombo Tabela nº 8 Sacristia Sancrestia Fólio 139v Sanchrestia Fólio 140v Sachrestia Fólio 141 Sacrestia Fólio 142
Na execução do presente traslado, o escrivão não apresenta um critério claro no uso da letra maiúscula, tendo-se constatado um uso recorrente de letras maiúsculas a iniciar as palavras durante a redacção do texto, bem como em situações ocasionais, no meio de algumas palavras o destaque de letras com formato de maiúsculas, que na verdade deverão ser minúsculas.
aBiul Abiúl – Freguesia do Concelho de Pombal
Um facto curioso prende-se com a quase total ausência de braquigrafias neste traslado do Tombo dos Bens do Concelho de Pombal:
Ocorrências de braquigrafia Tabela nº9
Alvará p.a se aforarem Fólio 12
Tr.º de Juramto Fólio 27
Reconhecim.to Fólio 475
Termo de Reconhecimto Fólio 479
Tr.o de Reconhecimto Fólio 481v
Por fim, apesar de, como foi referido no início deste subcapítulo, a obra não apresentar rasuras no seu texto, foi possível constatar erros e correcções, que em alguns casos o próprio escrivão cuidou de as rectificar de imediato, como se pôde contabilizar por 107 vezes. Deste modo, quando o escrivão se depreendia com algum erro na cópia, interrompia a escrita com “digo” e retomava a redacção correcta.
No fólio 430 o escrivão equivocou-se na apresentação da data de execução do Termo de Medição e Confrontação, reportando-se a uma data 100 anos posterior ao seu momento de execução: “Aos vinte e oito dias do mês de Julho de mil e oito centos e quarenta e seis annos”.
No fólio 479v o escrivão não apresenta o dia em que se concretizou o Reconhecimento dos lavradores da vintena de Punhete, tendo ficado o espaço em branco. Contudo, teria ocorrido no dia 14 de Abril de 1746, data apresentada nos Termos de Reconhecimento, anteriores e posteriores ao que se apresenta.