Em nosso país, o processo de expansão capitalista, via industrialização, teve início na década de 1930, mas somente na década de 1950 a participação da indústria na renda nacional superou a da agricultura. A economia brasileira, até então assentada no setor agrário-exportador, sofreu transformação a partir da Revolução de 1930, passando a se firmar em um novo modo de produção capitalista
que se alicerçou em uma estrutura produtiva de base urbano-industrial. Diversamente do que se poderia pensar, esse período de transição para o capitalismo industrial brasileiro não representou uma ruptura do sistema e tampouco uma transformação estrutural da sociedade, porque foi sustentado pela conciliação entre as forças políticas que tradicionalmente exerciam o poder no país, as classes proprietárias rurais e as forças políticas representantes da classe industrial burguesa.
O novo modelo econômico se constituiu a partir da atuação estatal, que criou um ambiente favorável para a acumulação capitalista industrial. O Estado brasileiro assumiu a representatividade dos interesses das classes proprietárias, instituindo privilégios ao setor empresarial urbano e redefinindo o papel para as atividades agropecuárias. Criaram-se assim condições para o aprofundamento da exploração do trabalho por meio de políticas de arrocho salarial.
Com a expansão do capitalismo industrial, grande contingente populacional afluiu do campo, ampliando a massa de desempregados nas cidades, o que impôs à atividade agropecuária o papel de supridora das necessidades dessa crescente população urbana. A definição deste novo papel para as atividades agropecuárias, frente ao novo mercado interno, objetivou a manutenção dos lucros pelos grandes proprietários rurais, apoiados no baixo custo de reprodução da força de trabalho rural. Neste aspecto se manifestou a conciliação dos interesses das classes dominantes, pois, ao mesmo tempo em que criou mecanismos para garantia da acumulação do capital, institui políticas destinadas a manter, sob controle, a classe trabalhadora.
Paralelamente, a partir da década de 1930, o setor terciário da economia passou a assumir papel mais relevante, porquanto cresceram diversos serviços nas cidades para servir de apoio ao processo de acumulação capitalista. Surgiu daí a necessidade de implementar modificações no sistema financeiro nacional, para adaptá-lo às necessidades da nova organização industrial.
A expansão do mercado interno exigia o aperfeiçoamento do sistema de crédito e o fortalecimento dos bancos nacionais em face dos estrangeiros, que detiveram, nas primeiras décadas do século, o monopólio dos financiamentos à
agricultura cafeeira, devido à insuficiente poupança interna no mercado de capitais (JINKINGS, 1995, p.27).
O sistema financeiro nacional iniciou sua ampliação durante a Segunda Guerra Mundial, que se intensificou no período pós-guerra, em decorrência da crise econômica mundial, estando diretamente relacionada ao desenvolvimento das atividades especulativas dos bancos, em contextos de intensificação do ritmo inflacionário. O processo de urbanização e industrialização estimularam o crescimento da rede bancária no país, reforçado também pela intervenção crescente do Estado na economia.
Diversas medidas estatais foram adotadas para estimular o crescimento do sistema financeiro nacional, com o fim precípuo de dinamizar o processo de acumulação capitalista no Brasil. Isto se deveu também ao fato de que o capitalismo industrial procurou atender exclusivamente à acumulação de capital, desprezando as necessidades básicas da maioria, o que revela, desde suas origens no Brasil, seu caráter concentrador de renda.
O modelo econômico imposto, essencialmente concentrador de renda e produtor de desigualdades sociais, o aumento progressivo da quantidade de trabalhadores nas cidades e de outro lado o elevado índice de exploração da classe trabalhadora, incitou a possibilidade de organização sindical, devido ao acirramento das contradições de classe, do que resultou na crise verificada nos primeiros anos da década de 1960.
O golpe militar de 1964 direcionou seus esforços para a implementação de políticas tendentes a ocultar e impedir a expansão das contradições existentes entre as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas. A repressão política, articulada com o crescimento econômico favoreceu o desenvolvimento de mecanismos de concentração e reorganização do poder do Estado, ambiente desejado para a implantação de políticas econômicas que impulsionam a acumulação privada do capital.
A esse respeito, Octavio Ianni (1981, p.35) assinalava:
Desde que se instalou, a ditadura se viu fortemente induzida a organizar e concentrar a violência estatal, em conformidade com a violência da acumulação monopolística. Tanto assim que o desenvolvimento capitalista
no Brasil ingressou numa fase especial: cresceram a concentração e a centralização do capital, reforçando-se o poder do capital monopolista, altamente articulado com o poder estatal, e em conformidade com as determinações do imperialismo; formaram-se e desenvolveram-se associações e fusões de empresas [...]. Ao mesmo tempo em que se desenvolveram as forças produtivas e as relações de produção, tanto na indústria como na agricultura, na cidade e no campo, desenvolveram-se e ganharam amplo predomínio os monopólios.
O projeto de desenvolvimento no Brasil do capitalismo monopolista, com vistas a dar suporte ao capital industrial e comercial, reclamou do governo brasileiro a implantação de reformas no sistema financeiro, o que acarretou na Reforma Bancária instituída pela Lei no. 4.595, de 31.12.1964, que criou mecanismos legais de controle e fiscalização, pelo Estado, das instituições públicas e privadas do sistema financeiro. Seguiram a Reforma Bancária de 64, a Reforma do Mercado de Capitais (Lei 4.728 de 14.07.1965), o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG de 1964 a 1966) e os manuais de instruções e regulamentos do Banco Central, em 1967.
Desta forma, o sistema financeiro nacional passou a assumir a posição de setor estratégico para o desenvolvimento econômico do país.
Iniciou-se assim, um processo de expansão do setor, que teve como consequências inegáveis o aumento da concentração da riqueza privada e o alastramento da especulação financeira. O Estado assumiu, desta maneira, importante papel de impulsionador do processo de concentração e oligopolização do sistema financeiro nacional. O Banco Central foi criado na década de 1960 e assumiu a direção da criação de mecanismos de poder, mediante a padronização das atividades e rotinas dos bancos, além de adotar uma política concentracionista para o setor, incentivando o crescimento das maiores instituições.
No início dos anos de 1970, após um longo período de crescimento do capitalismo, as economias capitalistas centrais experimentaram profunda crise, o que, por muitos cientistas é diagnosticado como o momento a partir do qual o padrão de desenvolvimento capitalista de base fordista apresenta sinais de esgotamento.
Segundo Robert Brenner (apud ANTUNES, 2005), a crise do capitalismo, encontra
[...] suas raízes profundas numa crise secular de produtividade que resultou no excesso constante de capacidade e de produção do setor manufatureiro internacional. Em primeiro lugar, o grande deslocamento do capital para as finanças foi a conseqüência da incapacidade da economia real, especialmente das indústrias de transformação, de proporcionar uma taxa de lucro adequada. Assim, o surgimento de excesso de capacidade e de produção, acarretando perda de lucratividade nas indústrias de transformação a partir do final da década de 1960, foi a raiz do crescimento acelerado do capital financeiro a partir do final da década de 1970. [...] As raízes da estagnação e da crise atual estão na compressão dos lucros do setor manufatureiro que se originou no excesso de capacidade e de produção fabril, que era em si a expressão da acirrada competição internacional.
Os padrões de acumulação de produção taylorista/fordista, pela incapacidade de assimilar e reagir à retração do consumo que se acentuou, apresentou sinais evidentes de esgotamento, assumindo a expressão mais marcante da crise estrutural do capital (ANTUNES, 2005). Paralelamente, ocorreu a queda da taxa de lucro, resultante dentre outros pelo aumento do preço da mão de obra, a hipertrofia da esfera financeira, que ganhava relativa autonomia frente aos capitais produtivos, o que colocava o capital financeiro como um campo prioritário para a especulação (ANTUNES, 2005)20.