Ap´os os eventos colisionais que deram origem `a Faixa Sergipana no Neoproterozoico foram geradas fraturas profundas com orienta¸c˜ao NW-SE. Estes falhamentos controlaram parte da abertura do Rifte Recˆoncavo-Tucano-Jatoba durante o Mesozoico, deslocando os seus depocentros e atuando como falhas de borda.Com a mudan¸ca da dire¸c˜ao do vetor de abertura do rifteamento(Magnavita, 1992), as antigas zonas de colagens cratˆonicas, por serem zonas de fraqueza, passaram a se comportar como pontos de nuclea¸c˜ao das zonas de fraturas oceˆanicas durante a abertura do Oceano Atlˆantico (Figuras 6.3 e 6.4(C1)).
Durante o soerguimento da margem continental das bacias de Jacu´ıpe e Sergipe-Alagoas foram escavados vales profundos nas principais descontinuidades do embasamento. No li- toral norte da Bahia, o Lineamento do Itapicuru atuou como zona facilitadora da incis˜ao, resultando em um grande cˆanion ligando a zona costeira com a zona de fratura oceˆanica do Itapicuru (Figuras 6.2 e 6.4(C2)). No estado de Sergipe, o cˆanion do Japaratuba se originou de modo semelhante. Esta fase da evolu¸c˜ao se encerra com a deposi¸c˜ao da Forma¸c˜ao Barrei- ras que recobriu os remanescentes deste cˆanion (Figuras 6.4(C3)), durante as transgress˜oes do Oligo-Mioceno (Rosseti et al., 2013).
A fase seguinte se inicia com o soerguimento miocˆenico (Oliveira, 2008; Japsen et al., 2012) e a consequente queda eust´atica a 16-17 Ma (Rosseti et al., 2013), marcada pela presen¸ca de solos later´ıticos. Com a continuidade do soerguimento ocorre a implanta¸c˜ao de uma rede de drenagens e a forma¸c˜ao de vales incisos, ambos maiores e mais retil´ıneos a partir do rio Itapicuru. Este efeito se estendeu tamb´em pela plataforma continental (Figura 6.5(C4)).
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Figura 6.3: Zonas de suturas geradas durante a colis˜ao do Cr´aton do S˜ao Francisco, e seus controles no Rifte Recˆoncavo-Tucano-Jatob´a e na abertura do oceano Atlˆantico. Modificado de Kosin (2009).1- Local de prov´alvel escava¸c˜ao junto `a linha de costa. 2- Extremo nordeste do Recˆoncavo, que provavelmente teve sua propaga¸c˜ao interrompida pela presen¸ca do Lineamento. 3- Mudan¸ca na propaga¸c˜ao da Bacia de Tucano devido `a presen¸ca do Lineamento. 4- deslocamento da borda leste da Bacia de Tucano, devido `a presen¸ca do Lineamento.
O efeito erosivo durante as transgress˜oes do Quatern´ario superior (Est´agios Isot´opicos Marinhos MIS11, MIS9, MIS5, MIS1), tamb´em s˜ao mais pronunciados `a nordeste do Line- amento Itapicuru, com um vis´ıvel recuo da linha de paleo-fal´esias que delimita o contato entre os dep´ositos da Forma¸c˜ao Barreiras e os dep´ositos quatern´arios (Figura 6.5(C5)).
O efeito erosivo atuante neste litoral durante os baixos n´ıveis do mar no Quatern´ario foi acentuado pela presen¸ca de rochas sedimentares menos resistentes `a eros˜ao que preenchem os cˆanions mais antigos. O efeito combinado da queda eust´atica e da eros˜ao diferencial pro- porcionou a implanta¸c˜ao dos vales incisos na plataforma continental da Bahia e de Sergipe, mais especificamente, do maior vale inciso do litoral baiano, o vale inciso do rio Itapicuru (Figura 6.5(C6)).
Assim, pode-se concluir que o vale do Itapicuru n˜ao ´e resultado da atua¸c˜ao isolada das transgress˜oes e regress˜oes do Quatern´ario. Diferentes taxas de soerguimento (ou quedas eust´aticas) atuaram neste litoral escavando vales mais pronunciados, os quais, devido `a presen¸ca dos lineamentos, se tornaram mais retil´ıneos.
cratˆonico e as rochas sedimentares preenchendo o cˆanion mais antigo, denominado de Cˆanion de Conde que possibilitou o desenvolvimento de uma grande ba´ıa nesta regi˜ao durante os est´agios isot´opicos MIS9 ou 11. Da mesma forma, posteriormente, a eros˜ao diferencial pos- sibilitou a escava¸c˜ao do vale inciso na plataforma, provavelmente aproveitando a menor resistˆencia das rochas sedimentares que preenchem este cˆanion mais antigo.
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Figura 6.4: Bloco diagrama apresentando o controle exercido pelo Lineamento Ita- picuru durante a fase inicial de abertura do proto-oceano Atlˆantico no litoral norte do Estado da Bahia. As setas em amarelo tem seu compri- mento proporcional as taxas de soerguimento, ou queda eust´atica, que s˜ao maiores no sentido nordeste.
Figura 6.5: Bloco diagrama apresentando o controle exercido pelo Lineamento Ita- picuru durante a fase inicial de abertura do proto-oceano Atlˆantico no litoral norte do Estado da Bahia. As setas em amarelo tem seu compri- mento proporcional as taxas de soerguimento, ou queda eust´atica, que s˜ao maiores no sentido nordeste.
CAP´ITULO 7
Conclus˜oes e Estudos Posteriores
O vale do rio Itapicuru ´e o maior vale inciso do litoral norte do Estado da Bahia. Da mesma forma que os outros vales presentes no litoral norte, a sua origem tem sido atribu´ıda `
as oscila¸c˜oes do n´ıvel relativo do mar durante o Quatern´ario.
Por´em na regi˜ao estudada, devido `a presen¸ca do Lineamento do Itapicuru, a incis˜ao deste vale foi controlada por outros fatores, n˜ao contemplados nos modelos geol´ogicos existentes.
A integra¸c˜ao dos dados geof´ısicos e geol´ogicos sugere que a heran¸ca geol´ogica, gerada durante a colis˜ao do Cr´aton do S˜ao Francisco com a Prov´ıncia Borborema, guiou a evolu¸c˜ao da zona costeira do litoral norte do Estado da Bahia desde o rifteamento Mesoz´oico at´e o per´ıodo Quatern´ario.
A presen¸ca deste controle geol´ogico, enriquece os modelos evolutivos existentes, expli- cando algumas peculiaridades geomorfol´ogicas presentes nesta regi˜ao. As taxas de soer- guimento diferenciadas quando somadas `a presen¸ca de rochas menos resistentes `a eros˜ao geraram as condi¸c˜oes necess´arias para a implanta¸c˜ao do maior vale inciso deste litoral.
A Geof´ısica se mostrou uma ferramenta poderosa no estudo de uma regi˜ao praticamente recoberta pelos sedimentos miocˆenicos da Forma¸c˜ao Barreiras. Tanto as por¸c˜oes mais pro- fundas da crosta, quanto as mais rasas puderam ser avaliadas qualitativamente e quantita- tivamente atrav´es das metodologias geof´ısicas aplicadas conjuntamente.
As novas interpreta¸c˜oes produzidas pela interpreta¸c˜ao integrada da geologia com a geof´ısica geraram informa¸c˜oes tanto de interesse acadˆemico quanto industrial. Dentre estas informa¸c˜oes podemos citar: a liga¸c˜ao entre as antigas suturas do cr´aton com as zonas de fraturas oceˆanicas e; a rela¸c˜ao de paralelismo, sen˜ao concordˆancia, entre os lineamentos do Itapicuru e Vaza- Barris com os Montes Submarinos da Bahia.
A presen¸ca de um cˆanion mais antigo do que a Forma¸c˜ao Barreiras possibilita uma importante liga¸c˜ao entre a zona costeira deste litoral e a regi˜ao de ´aguas profundas da Bacia de Jacu´ıpe. Este cˆanion poderia ter atuado como conduto preferencial de sedimentos arenosos para dentro desta bacia.
Devido ao sucesso da explora¸c˜ao petrol´ıfera na Bacia de Sergipe, a possibilidade de um grande cˆanion na Bacia de Jacu´ıpe dever´a ser estudada com mais detalhes, atrav´es da utiliza¸c˜ao e da integra¸c˜ao de dados s´ısmicos, gradiom´etricos e dados aeromagn´eticos de alta resolu¸c˜ao.
Durante a modelagem gravim´etrica foi verificada a presen¸ca de uma interface crosta- manto demasiadamente mais rasa que o previsto pelo conhecimento atual. Sondagens Mag- netotel´uricas associadas `a S´ısmica de Refra¸c˜ao poderiam confirmar, ou n˜ao, a presen¸ca de uma interface t˜ao rasa. A confirma¸c˜ao dessa interface, elevaria o grau geot´ermico desta regi˜ao, trazendo grandes implica¸c˜oes nas modelagens de sistemas petrol´ıferos.
Estas informa¸c˜oes poderiam mudar o atual modelo de rifteamento existente para as Bacias de Jacu´ıpe e Sergipe. Inicialmente seriam produzidos textos acadˆemicos, e gradualmente, `
a medida que novos dados fossem incorporados, as suas aplica¸c˜oes poderiam resultar em incrementos reais nas reservas de hidrocarbonetos.
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