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Tivemos a fase de trabalho de campo como uma experiência muito tensa, prazerosa, enriquecedora e que nos permitiu desenvolver um novo olhar sobre as relações entre docentes x estudantes, gestor x docentes e gestor x estudantes. Vimos e ouvimos as dificuldades que envolvem o trabalho docente, percebemos o empenho dos profissionais da EDV em superar as dificuldades estruturais na tentativa de realizar o trabalho da melhor forma possível. Aqui iremos tratar das experiências que nos marcaram e das percepções que tivemos ao realizar nossa pesquisa na EDV.

A primeira percepção nossa foi a de receio e temor de que o estudo não se realizasse, ou que não atendesse aos requisitos que almejamos para realização da pesquisa. Foi inevitável levantar possibilidades de que algo não ocorresse dentro do planejado e surgisse a necessidade de escolher um novo campo empírico em detrimento do campo escolhido previamente, a EDV. Sabíamos da dificuldade que seria realizar uma pesquisa sobre violência e temíamos uma má aceitação da pesquisa por parte da comunidade escolar da EDV.

Tivemos a preocupação de pensar estratégias para evitar que o estudo fosse sabotado, além de nos preocuparmos bastante com as impressões que causaríamos e das repercussões que nossa pesquisa traria ao cotidiano da escola; tentamos ser o mais atencioso, educado, prestativo, simpático e principalmente discreto possível. Não queríamos gerar nenhum tipo de desconforto, nem atrapalho à rotina da escola. Isso implicou em um número maior de visitas à escola, além de gerar um maior envolvimento entre o pesquisador e os atores do campo.

Inicialmente antes de começar a pesquisa no campo propriamente dito entramos em contato com a Gerência Regional de Educação – Recife Norte (GRE – Recife Norte), para levantar informações a respeito do que seria necessário para realização da pesquisa na EDV. A GRE – Recife Norte solicitou um ofício de autorização do programa de pós-graduação ao qual estávamos lotados, carta de anuência com timbre da universidade, nome do orientador e nome da escola na qual seria realizada a pesquisa, além de solicitar uma cópia do projeto. Providenciamos toda a documentação e entregamos à GRE – Recife Norte. Um dia após termos entregue a documentação exigida, tivemos o retorno da GRE – Recife Norte informando que a solicitação foi atendida e que o pedido para realização do estudo foi deferido.

Após recebermos as documentações que atestavam a autorização do estudo pela GRE – Recife Norte entramos em contato com a Escola Dom Vital e agendamos uma conversa inicial com a gestora da escola, com a intenção de solicitar a autorização dela para realização do estudo. Fomos à escola, nos apresentamos e explicamos nossas intenções tanto na portaria, quanto na secretaria da escola. Na sala da secretaria aguardamos pelo atendimento da gestora que se mostrou bastante ocupada com as atividades demandadas de uma escola pública estadual do porte da EDV. Quando fomos recebidos na sala da gestão algum tempo após a chegada à escola, nos apresentamos, conversamos sobre a nossa pesquisa e sobre quais seriam as nossas atividades na escola, entregamos os documentos recebidos pela GRE – Recife Norte, explicamos a importância da pesquisa e solicitamos a autorização da gestora para realização do estudo. A gestora autorizou o nosso estudo e com isso afastamos os sentimentos negativos que tínhamos em relação à autorização para realização da pesquisa.

A primeira impressão que tivemos da escola foi a de uma escola pública enorme, limpa, segura e organizada, muito nos agradou apesar de algumas áreas sofrerem com a depredação, em particular as pichações nas paredes. Consideramos a escola segura, pois a escola conta com porteiro, segurança terceirizada, patrulha escolar e sistema de câmeras de segurança. A limpeza e a merenda também são realizadas por funcionários de empresas terceirizadas, ao menos o que percebemos.

Com o passar dos dias entramos em contato com os membros da comunidade escolar que viriam a ser participantes da pesquisa; queríamos que os atores aos quais convidamos para responder os questionários e participar das entrevistas ficassem bastante à vontade. Sentimos um pouco de receio por parte dos participantes. Após aproximadamente quinze dias realizando a pesquisa, a comunidade escolar foi se acostumando com nossa presença e houve uma maior interação com as pessoas.

Uma das dificuldades que encontramos foi a não devolução de alguns questionários. Mesmo assim conseguimos uma boa quantidade de questionários respondidos. Outras dificuldades encontradas foram a quantidade de dias improdutivos no campo, seja por causa de turmas liberadas anteriormente, vestibulares agendados, avaliações, excursões didáticas e também participantes que vieram a faltar as entrevistas marcadas, além disso, tivemos turmas que hostilizaram a pesquisa (Gracejos, gritos, má recepção), isso dificultou a aplicação dos questionários e o recebimento dos mesmos, ainda tivemos certa dificuldade nos primeiros dias com o deslocamento e orientação espacial dentro da escola, isso por causa da mecânica das salas ambientes, que levava os estudantes a trocar de sala várias vezes ao longo do turno, e do grande espaço físico que a escola possui. Por último tivemos pessoas que se negaram a participar da entrevista e também os documentos que pretendíamos analisar que não foram encontrados na escola.

O(s) livro(s) de ocorrência do período letivo compreendido entre os anos de 2007 a 2010 eram os documentos que tínhamos interesse em analisar na nossa pesquisa. Quando solicitamos os livros aos responsáveis pelos documentos, eles alegaram não saber onde os mesmos se encontravam. Eles explicaram que algumas buscas tinham sido realizadas ao longo do tempo e que as buscas foram realizadas por toda estrutura física da escola, mas que todas foram malsucedidas. Solicitamos que uma nova busca fosse realizada e nos candidatamos a ajudar com as buscas. Procuramos na sala da secretaria, na sala da coordenação, no arquivo da escola e também no arquivo morto da mesma. Não tivemos acesso a procurar na sala da gestora, a mesma alegou que os documentos não se encontravam em sua sala. Restou-nos encerrar o trabalho de campo, pois tínhamos esgotado nossas possibilidades de busca.

Conseguimos interagir com os estudantes para entrega e recebimento dos questionários em sua grande maioria na sala de aula, mas também nos corredores, pátios e quadras. Foi estabelecida uma boa relação com alguns estudantes, isso facilitou bastante, pois os discentes ajudaram a localizar outros estudantes e também na orientação espacial dentro da escola.

Tivemos alguns facilitadores no campo que podemos destacar; dentre eles fomos bem recebidos e bem atendidos pela gestora que permitiu a realização da pesquisa e não interferiu com o andamento do estudo, demostrando confiança no trabalho que estava sendo realizado; tivemos o auxílio de um(a) docente e de um(a) funcionário(a) para nos guiar até as salas de aula, solicitar permissão aos docentes para interromper as aulas temporariamente para que conseguíssemos entregar os questionários e de forma geral também nos apresentar aos docentes e mostrar a estrutura física da escola. Quando não tínhamos acesso a essas pessoas, alguns estudantes nos auxiliavam no que era necessário com relação à localização e ao deslocamento na área física da escola.

Na primeira visita noturna realizada a EDV, quando adentramos às dependências da escola nos deparamos com um evento religioso organizado por uma igreja local. Observamos a participação de docentes, técnicos e estudantes. O evento contou com shows, apresentações teatrais e a presença e participação de um jogador de futebol do Santa Cruz Futebol Clube. O objetivo do evento foi conscientizar os jovens do perigo das drogas. Ao longo do evento houve distribuição de brindes aos participantes.

Não podemos deixar de destacar que as visitas noturnas à escola sempre eram muito tensas. Elas não eram tensas por causa da escola ou das pessoas que a frequentavam no período noturno, mas pela constante sensação de insegurança que permeia os arredores da escola, isso somado aos relatos de violência que ouvíamos da comunidade escolar. Casa Amarela tem como uma das suas principais características ser um bairro comercial. O centro de Casa Amarela é formado por diversos pontos comerciais, além do comércio informal e é isso que dá vida ao bairro. A área residencial de Casa Amarela é um pouco mais afastada do centro, e isso limita de certa forma o público que circula no bairro, que em sua grande maioria visita o bairro no intuito de usar os serviços locais. Ao anoitecer e com o fechar dos pontos comerciais as ruas ficam desertas e percebemos que mal iluminadas também; as pessoas andam em grupos e a passos acelerados; os pontos de ônibus ficam relativamente distantes da EDV o que faz com que a comunidade escolar se desloque por longas distâncias nas ruas desertas até chegar ao ponto de ônibus, e para aqueles que vão a pé para casa, torna-se ainda mais perigoso dependendo da localidade de destino dessas pessoas. Ouvimos relatos de pessoas que só se sentem seguras, pois chegam e saem da escola de carro e outro relato de uma participante da pesquisa que utiliza o serviço de táxi na volta para casa, pois considera a parada de ônibus perigosa, além da demora do coletivo.

Uma das experiências mais marcantes no campo foi quando fomos convidados para sermos avaliador da feira de conhecimento da escola. Aceitamos o convite e contribuímos na

medida do possível com o andamento das atividades. Avaliamos sete trabalhos, as temáticas eram variadas, foram abordadas questões como tipos de preconceitos, dentre eles o preconceito com os estudantes de escolas públicas. Alguns estudantes relataram a discriminação que sofrearam citando a crença de que as escolas públicas são redutos de marginais e locais de violência exacerbada e negociação de drogas. Comentei os trabalhos e problematizei estas questões com eles enquanto os avaliava. Os estudantes do 1º ano do ensino médio comentaram terem sofrido diversas formas de preconceito e principalmente de serem chamados de ―pobrezinhos‖ por estudantes de uma escola privada local. Avaliamos três trabalhos com a temática dos tipos de preconceito. Dentre as problematizações feitas investimos em esclarecer que conhecemos ao longo da nossa trajetória acadêmica colegas tanto da graduação, quanto da pós-graduação que eram oriundos da escola pública e que conseguiram excelentes resultados acadêmicos, incentivamos que os mesmos estudassem e se qualificassem para estarem aptos a buscar melhores oportunidades após a conclusão do ensino médio. Expliquei sobre possibilidades e oportunidades que alguns desconheciam. Os estudantes se mostraram bastante animados e participativos. Os outros trabalhos avaliados tinham as seguintes temáticas: alimentos transgênicos, clonagem, alterações genéticas e inseminação artificial. Aprendemos bastante; a feira de conhecimentos teve um excelente nível de organização e foi aberta à comunidade local. Destacamos o empenho dos estudantes em realizar trabalhos de qualidade. Sentimos felicidade em ter contribuído com o evento, além de que isso estreitou mais ainda a relação da comunidade escolar com o pesquisador.

Também queremos destacar que na segunda semana que estávamos no campo de pesquisa, uma casa lotérica localizada na rua da EDV a aproximadamente 100 metros da escola foi assaltada em plena luz do dia, no período da tarde, e isso incomodou alguns membros da comunidade escolar da EDV; alguns comentavam que a violência era sempre presente na região.

Em algumas visitas que fizemos à escola percebemos a presença da viatura da patrulha escolar estacionada no pátio da escola. Inicialmente achamos que tinha acontecido alguma ocorrência e fomos investigar. Para nossa surpresa era apenas uma visita rotineira. Não deixamos de nos espantar com a presença de uma viatura policial dentro do espaço escolar.

Com relação à aplicação das entrevistas tivemos algumas dificuldades, atores que faltaram ao compromisso, dificuldades locais de barulho, calor, algumas entrevistas foram interrompidas temporariamente e certa dificuldade de disponibilidade por parte de alguns participantes, além da negativa de alguns sujeitos. Realizamos entrevistas em salas de aula, na

sala de educação especial, na área externa onde os estudantes se alimentavam, na sala do arquivo, na sala da coordenação e em uma sala de aula de outra escola pública estadual.

Após vivenciarmos essa experiência ficamos ligados à reflexão de quão difícil é pesquisar a temática da violência. A quantidade de informações, fatores que interferem, os relatos, a forma da fala e a entonação emocionada dos participantes atingem o pesquisador de forma muito dura. Se assim podemos definir, temos a sensação de receber uma carga densa e pesada de energia, que gerou um misto de emoções e sentimentos perturbadores, inquietantes e por vezes negativos. Não é fácil não se chocar, nem se emocionar com os relatos dos participantes, em especial dos professores.

Ainda se tratando das entrevistas, conseguimos localizar um dos(as) gestores(as) da EDV do período de 2007 a 2010. Entramos em contato, agendamos a entrevista e fomos ao encontro do(a) participante da pesquisa. Realizamos a entrevista com êxito.

O último ponto a destacar do trabalho de campo foi a realização das fotos da pesquisa. Precisamos de mais de um dia para conseguir alcançar imagens na qualidade que queríamos. A área externa foi mais problemática, mas com algumas visitas adicionais conseguimos realizar as fotos com sucesso. As fotos foram realizadas com uma câmera de 2 megapixels acoplada ao tablet CCE TR72.

Essas foram nossas impressões do trabalho de campo, a seguir vamos tratar dos procedimentos de análise dos dados obtidos na pesquisa.

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