5.9 Extensions
5.9.2 Extension multicapteurs
Foi interessante observar que todos os entrevistados que migraram com o obje- tivo de estudar demonstraram uma grande preocupa¸c˜ao com a quest˜ao da lega- lidade. A maioria emigrou j´a com visto/autoriza¸c˜ao e, quando este caducou, os que quiseram permanecer nos pa´ıses de destino esfor¸caram-se para conseguir a sua prorroga¸c˜ao. Aqueles que n˜ao conseguiram optaram por retornar ao Brasil, em vez de permanecerem na ilegalidade:
. . . n˜ao d´a pra vocˆe ter uma vida, n´e, uma vida pelo menos do jeito
que eu gostaria de ter, n˜ao da pra vocˆe ter uma vida sem visto e a´ı passou a n˜ao fazer mais sentido ficar l´a. . . F´abia – Londres –
2004
Rocha (2010) j´a havia chamado a aten¸c˜ao para o facto do estatuto de acad´emico, como categoria valorativa que qualifica a pessoa e a distingue buro- craticamente de outros indiv´ıduos, pouco ou nada influenciar, de modo a re- lativizar e mitigar quaisquer dificuldades que este tipo de imigrante possa ter. Ou seja, apesar do estatuto de estudante, este imigrante acaba por sucumbir `
as mesmas leis impostas `a qualquer outro tipo de imigrante, tendo somente a
facilidade burocr´aticaem quest˜oes de vistos e autoriza¸c˜oes, devido ao facto
de, normalmente, j´a emigrar com essa documenta¸c˜ao tratada.
Por isso, em muitas entrevistas,o ter que regressar e n˜ao o querer re-
gressarest´a expl´ıcito. Para al´em da quest˜ao legal, outras raz˜oes que aparecem
como determinantes para o retorno prendem-se com o facto destes estudantes
possu´ırem la¸cos familiaresecompromissosno pa´ıs de origem en˜ao que-
rerem subempregos:
. . . eu tinha que voltar pra me formar. . . mas se eu pudesse, con-
tinuaria l´a facilmente. Estela – Porto – 2010
. . . eu j´a tinha uma filha aqui, e ent˜ao tinha isso tamb´em. . . Lu-
cas – Londres – 1997
. . . Eu v´ı muita gente que foi ficando, foi ficando, foi ficando, e
com 26 anos a pessoa falou: Pˆo, eu ainda nem comecei a faculdade! Trabalhavam s´o em sub-empregos? Sub-empregos, o que com 18, 19 anos ´e legal, mas se com 24 o cara volta pr´o Brasil, entra na fac- uldade com 25, sai da faculdade com 29, n˜ao consegue emprego, ´e dif´ıcil! Ent˜ao eu achei que tinha que voltar. Daniel – Londres –
2006
Conclus˜oes
Nesta amostra, dos 23 entrevistados que afirmaram terem tido como raz˜ao para emigrar o estudo, 11 o fizeram para Portugal e 12 para o Reino Unido.
Dos que emigraram para Portugal, a grande maioria, ou seja, nove dos en- trevistados emigraram atrav´es de um intercˆambio acadˆemico na gradua¸c˜ao e apenas dois o fizeram com bolsa de estudos na p´os-gradua¸c˜ao.
Dos que emigraram para o Reino Unido, a maioria, ou seja, oito o fizeram com o intuito de aprender/ aperfei¸coar a l´ıngua inglesa, quatro afirmaram terem ido para prosseguir com os estudos na p´os-gradua¸c˜ao.
Observou-se, portanto, uma grande importˆancia dada ao aprendizado da l´ıngua inglesa. Da´ı o porque da grande maioria que escolhe o Reino Unido o fazer com o objetivo de aprender ou aperfei¸coar essa l´ıngua e, por outro lado, a escolha sobre Portugal recair, sobretudo, devido a falta de dom´ınio de uma outra l´ıngua. Tendo como base uma pesquisa da National Union of Students, King, Findlay e Ahrens(2010, p. 24) j´a haviam referido que quando estudantes Erasmus foram questionados sobre as raz˜oes, avalia¸c˜oes e experiˆencias de mo- bilidade, 61% apontarammelhoria nas competˆencias lingu´ısticas.
Apesar desses mesmos autores terem afirmado que, as evidˆencias sobre o
verdadeiro valor acrescentado de estudos no estrangeiro continuam a ser ex- tremamente escassas, outro fator apontado por grande parte dos nossos en-
trevistados foi o valor acrescido ao curr´ıculo no Brasil, quando se tem uma experiˆencia de mobilidade estudantil internacional. Na pesquisa da National Union of Students referida acima,King, Findlay e Ahrens tamb´em haviam evi- denciado que 72% dos inquiridos consideramter melhores perspectivas de em-
pregouma das raz˜oes para a mobilidade.
Em nossas entrevistas, alguns dos inquiridos deixaram claro que conseguiram melhores oportunidades profissionais ap´os a experiˆencia de mobilidade interna- cional:
Quando eu voltei, h´a pouco tempo, eu concorri a uma vaga no
DIEESE – Departamento Intersindical de Estat´ıstica e Estudos So- cioecon´omicos, e fui aprovada. . . . uma das coisas que eles falaram foi que me selecionaram por causa da minha experiˆencia, seu curr´ıculo destacava perto dos outros porque vocˆe fez a “sandu´ıche” fora. Ent˜ao acho que valoriza bastante sim. Beatriz – Londres – 2010
Para al´em disso,conhecer outras culturaseter uma experiˆencia fora do
pa´ıs de origem, foram outros objetivos evidenciados.
Ainda nesta amostra observou-se uma tendˆencia migrat´oria para o estudo mais acentuada a partir de 2006. Atrav´es dos resultados obtidos constatamos que a motiva¸c˜ao ´e muito estimulada pelas redes sociais estabelecidas com outros estudantes que j´a estiveram, ou ainda est˜ao, em Portugal ou no Reino Unido. Almada(2010, p. 240) j´a havia chamado a aten¸c˜ao para o facto dos fluxos imi- grat´orios estaremsempre em redes estabelecidas e a estabelecer. Zamberlam
et al. (2009, p. 75) tamb´em j´a haviam referenciado que,a rede possibilita que
Aliado `a isto, observamos tamb´em o crescente incentivo dado `a mobilidade internacional de estudantes nas universidades brasileiras. Entre os programas universit´arios, s´o o de Mobilidade Acadˆemica da UNIRIO, que tinha no segundo semestre de 2009 quatro estudantes em mobilidade internacional, teve, no se- gundo semestre de 2011, este n´umero aumentado para 26.5
Tamb´em em 2011 foi lan¸cado a n´ıvel governamental o programa Ciˆencias
sem Fronteiras, e ainda mais recentemente o Programa de Bolsas de In-
tercˆambio para Alunos de Gradua¸c˜ao da Universidade de S˜ao Paulo (USP) –
considerada a melhor universidade do Brasil no Ranking Web of World Universi- ties de 2012. Este programa ´e in´edito e oferecer´a mais de 1.000 bolsas de estudos no exterior, distribu´ıdas em duas modalidades: Bolsa M´erito Acadˆemico e Bolsas de Empreendedorismo.
A perce¸c˜ao das condi¸c˜oes sociais, pol´ıticas e econ´omicas no Brasil, como estas tˆem melhorado ao longo dos anos, sobretudo em determinadas regi˜oes brasileiras, foi outro fator apontado pelos inquiridos para explicar o aumento no fluxo de estudantes brasileiros em mobilidade internacional. Rocha(2010) j´a havia chamado a aten¸c˜ao para o facto de, historicamente, desde 1700 a perce¸c˜ao no afluxo de estudantes brasileiros ter como consequˆencia a dinamiza¸c˜ao econ´o- mica no Brasil.
Hoje, tamb´em devido `as novas tecnologias da informa¸c˜ao e da comunica¸c˜ao, h´a mais informa¸c˜ao, mais acesso `a informa¸c˜ao e, com isso, mais facilidade para se planear as viagens. Almada (2010, p. 240) tamb´em j´a havia referido que,
hoje as imigra¸c˜oes s˜ao dadas tamb´em com existˆencia `as informa¸c˜oes de acesso
do destino.
Apesar disso, e do facto de muitos estudantes terem revelado quen˜ao pude-
rampermanecer no pa´ıs de destino, por terem la¸cos familiares e compromissos
no Brasil e n˜ao quererem, sobretudo, ficarem de forma ilegal, a grande maioria disse que s´o voltaria a emigrar em contextos muito particulares:
. . . a n´ıvel acadˆemico eu tenho vontade sim de voltar, mas assim,
pra morar, pra trabalhar n˜ao. Cristiane – Porto – 2009
Isso demonstra que, apesar da dinamiza¸c˜ao da economia brasileira provocar uma maior mobilidade estudantil, ´e esta mesma dinamiza¸c˜ao a respons´avel por uma posterior fixa¸c˜ao destes estudantes no Brasil.
5 http://www2.unirio.br/unirio/relacoesinternacionais/portugues/programa-de-
Referˆencias
Almada, P. (2010) Associa¸c˜ao de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em
Coimbra (APEB-Coimbra): Desafios e perspectivas para a imigra¸c˜ao estu- dantil e pol´ıtica-cient´ıfica em Portugalin Atas do 1o Semin´ario de Estudos
sobre Imigra¸c˜ao Brasileira na Europa.
BELTA (2009) Estudo de Inteligˆencia de Mercado para o Segmento de Estudos e Intercˆambio.
CAPES/MEC (2011) Plano de a¸c˜ao da CAPES para expans˜ao da forma¸c˜ao de estudantes de p´os-gradua¸c˜ao, gradua¸c˜ao e docentes no exterior.
Fonseca, M. e Hortas, M. (2011)International Students in Portugalin Cana-
dian Diversity, 8 (5), pp. 98–104.
GPEARI (2011) Vagas e Inscritos no Ensino Superior [2000-2001 a 2009-2010]. GEB (2011) Por uma vida melhor: brasileiros e brasileiras em Londres, 2010. IOM (2010) World Migration Report 2010 - The Future of Migration: Building
Capacities for Change.
King, R. (2002)Towards a New Map of European Migrationin International
Journal of Population Geography, N.o 8, pp. 89-106.
King, R., Findlay, A. e Ahrens, J. (2010) International student mobility liter- ature review, Report to HEFCE, and co-funded by the British Council, UK: National Agency for Erasmus.
Rocha, F. (2010) No¸c˜oes de imigra¸c˜ao e cultura na era da globaliza¸c˜ao: o
caso dos estudantes brasileiros da Universidade de Coimbra in Atas do 1o
Semin´ario de Estudos sobre Imigra¸c˜ao Brasileira na Europa.
Zamberlam, J. et al. (2009) Os estudantes internacionais no processo global- izador e a internacionaliza¸c˜ao do ensino superior, Porto Alegre: Solidus.
Sites acedidos:
IBGE,http://www.ibge.gov.br, acedido em 25 de Abril de 2012.
Cerca de 150 mil brasileiros moram em Londres, diz estudo em http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u357790.shtml, ace- dido em 25 de Abril de 2012.
Brasileiros s˜ao o maior grupo de estudantes estrangeiros em Portu-
gal em http://embaixada-portugal-brasil.blogspot.pt/2010/07/ brasileiros-sao-o-maior-grupo-dos.html, acedido em 25 de Abril de 2012.
Universidade do Porto recebe mais de 1500 estrangeiros esse ano em http://porto24.pt/porto/27022012/universidade-do-porto-recebe- mais-de-1500-estrangeiros-este-ano/, acedido em 25 de Abril de 2012.
Ciˆencias sem Fronteiras atrai Universidades Estrangeiras em http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria- de-noticias/midias-nacionais/brasil/brasil-economico/2011/09/ 08/ciencias-sem-fronteiras-atrai-universidades, acedido em 25 de Abril de 2012.
Brasileiros procuram gradua¸c˜ao estrangeira em http:// operacoescambiais.terra.com.br/noticias/pessoa-fisica-
3/brasileiros-procuram-graduacao-estrangeira-325, acedido em 20 de Maio de 2012.
OECD (2011) Education at OECD Publishing em http://dx.doi.org/10. 1787/eag-2011-en, acedido em 25 de Abril de 2012.
Programa de Mobilidade Acadˆemica em N´umero – UNIRIO -
http://www2.unirio.br/unirio/relacoesinternacionais/portugues/ programa-de-mobilidade-academica-em-numeros, acedido em 7 de Maio de 2012.
Superintendˆencia de Convˆenios e Rela¸c˜oes Internacionais da UFRJ –
http://www.scri.ufrj.br/, acedido em 7 de Maio de 2012.
Programa das Na¸c˜oes Unidas para o Desenvolvimento, http: //www.pnud.org.br/atlas/ranking/IDH-M%2091%2000%20Ranking% 20decrescente%20(pelos%20dados%20de%202000).htm, acedido em 9 de Maio de 2012.
Programa Santander Universidades Mobilidade Internacional, http: //www.santanderuniversidades.com.br/Paginas/iesbolsaluso.aspx, acedido em 20 de Maior de 2012.