III. Isolation du complexe TCTP/Bcl-xl
III.1. Etude en co-expression du complexe TCTP/Bcl-xL
III.1.2. Expression à grande échelle
A influência dos Oráculos Caldáicos25 nos escritos de Jâmblico é inegável, visto que o Deus Um ou o Inefável corresponde ao Primeiro Deus dos Oráculos.26 Assim, o transcendente ou o Primeiro Deus dos Oráculos, é Pai (fr. 3, 4, 7, 8,14, 22, 37, 77, 81, 115); é o Primeiro (fr. 3 e 5), é Fogo Transcendente (fr. 5), é Único (fr. 10), é o Bem (fr. 11), é Soberano (fr. 37).27 Embora haja discordância entre os scholars a respeito das influências dos Oráculos no pensamento de Jâmblico, assim como com relação à posição dos Primeiros Princípios, este “equívoco” é fruto, na maioria das vezes, de uma compreensão equivocada dos Oráculos Caldáicos, especialmente devido ao seu caráter filosófico-religioso, tendo esta visão influenciado negativamente a maneira como a filosofia de Jâmblico foi reconhecida ao longo da história.28
Saffrey-Westerink associa o primeiro Princípio de Jâmblico aos Oráculos Caldáicos e à primeira hipótese do Parmênides.
O domínio das primeiras hipóteses é organizado segundo Jâmblico conforme a seguinte hierarquia: 1) O Totalmente Inefável = Primeiro Deus; 2) O Primeiro Deus = a Mônada não coordenada à tríade; 3) os deuses inteligíveis = a tríade inteligível. Sempre segundo Jâmblico, o primeiro Deus e os deuses inteligíveis são demonstrados pela primeira hipótese do
Parmênides, o totalmente Inefável ou Deus Um vem dos Oráculos Caldáicos.29
Edouard des Places em A religião de Jâmblico salienta que a posição deste remonta não apenas aos Oráculos e a Numênio,30 mas muito especialmente a Platão e a Parmênides de Eléa, dizendo:
25 Ver Édouard des PLACES. Oracles Chaldaiques. Avec un choix des commentaires anciens. Paris: Les Belles
Lettres, 1989; Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I-II. Paris: Études Augustiniennes, 1968, pp. 86-102. Wallis, p. 105
26 Cf. SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, pp. XXXII-XXXVI.
27 Cf. Francisco Garcia BAZAN. Oraculos Caldeos (Con uma selección de testimonios de Proclo, Pselo Y M.
Itálico) & Numenio de Apamea (Fragmentos y Testimonios). Madrid. Editorial Gredos, 1991, p. 19.
28 Ver a este respeito o capítulo “Les entraves de Jamblique” em Polymnia ATHANASSIADI. La lutte pour
l’ortodoxie dans le platonism tardif – de Numénius a Damascius. Les Belles Lattres: Paris, 2006, pp. 145-190. Convém salientar também que o Apêndice II do livro de DODDS, The Greeks and The Irrational. Berkley, Los Angeles, London: University Press of California, 1951, pp. 283-311, intitulado Theurgy, influenciou negativamente os estudos sobre teurgia depois dele devido ao tom eminentemente negativo e depreciativo de seu enfoque sobre o tema. Ver a crítica de Athanassiadi sobre este artigo de Dodds em ATHANASSIADI, Polymnia.
Dreams, Theurgy and Freelance Divination: The Testimony of Iamblichus. The Journal of Roman Studies, Vol. 83 (1993), pp. 115-116.
29 SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, 1978, p. XXXIII.
30 Traduções dos fragmentos de Numênio (neopitagórico do séc. II): Édouard des PLACES. Numénius -
Fragments. Paris: Les Belles Lettres, 1973 e Francisco Garcia BAZAN, Oraculos Caldeos (Con uma selección
de testimonios de Proclo, Pselo Y M. Itálico) & Numenio de Apamea (Fragmentos y Testimonios). Madrid. Editorial Gredos, 1991. Ver Peter KINGSLEY, Ancient Philosophy, Mystery, and Magic. Empedocles and
Primeiramente, além de Plotino e Porfírio, é preciso aqui remontar a Numênio e aos Oráculos
Caldáicos. E do mesmo modo, para compreender bem a posição de Jâmblico, com relação a Platão até Parmênides de Eléa. Um esforço secular, ou ainda milenar, conduziu o pensamento grego do Um do Parmênides ao Deus Inefável de Jâmblico.31
A linhagem de Jâmblico, portanto, é muito antiga, fazendo parte de uma tradição que remonta não apenas aos Oráculos Caldáicos, ou a Platão, mas que vai muito além, antes deste, incluindo aí, dentre outros o próprio Empédocles,32 e o Orfismo.33 O sistema caldáico dos Oráculos remonta, portanto, à tradição órfica e organiza-se em tríades correspondendo a primeira tríade,34 à mônada do Pai, o Deus Supremo, e à sua Potência e ao seu Intelecto. A segunda tríade corresponde ao segundo Intelecto e a terceira às Ideias.35 A primeira tríade corresponde à mônada triádica, como aponta o Fragmento 26:
Pois ao te ver mônada triádica o mundo te reverenciou.36
Os Oráculos distinguiam no Pai três Princípios ativos: a sua Potência, o seu Intelecto e a sua Vontade.37 O Pai enquanto “mônada paterna” reina separado no silêncio do abismo,38 onde ele forma uma tríade, como vimos, com a Potência e o Intelecto. A partir do Pai se assenta a díade, que tem duas funções, conforme o Fragmento 8:
Junto Dele reside a díade, pois ela tem duas funções, guardar os inteligíveis no intelecto, porém introduzir a sensação nos mundos. 39Fragmento 8.
Mônada, díade e tríade formam um todo e de onde quer que se olhe, vê-se os três aspectos formando um só e, a partir deste, os demais. O aspecto triádico das realidades comporta, para além de si mesmo, um aspecto henádico, pois cada termo é um e é triplo. No sistema de Proclo, distinguem-se duas hênadas: a hênada puramente inteligível formada pelo
31 E. des PLACES. La Religion de Jamblique. In: De Jamblique a Proclus. Entretiens sur L’Antiquité Classique.
Tome XXI. Genève: Fondation Hardt, 1975, p. 71.
32 Sobre Empédocles ver Peter KINGSLEY. Ancient Philosphy, Mystery, and Magic. Empedocles and
Pytagorean Tradition.
33 Sobre Orfismo ver o estudo de W. K. C. GUTHRIE, Orpheus and Greek Religion. Princeton, New Jersey:
Princeton University Press: 1993 [1952].
34 A primeira tríade inteligível de Jâmblico corresponde em Damáscio ao Unificado. Cf. Pierre HADOT.
Porphyre et Victorinus I. Paris: Études Augustiniennes, 1968, p. 97, n. 2.
35 Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I, p. 262.
36 Tradução de Édouard des PLACES. Oracles Chaldaiques. Avec un choix des commentaires anciens, p. 72. 37 Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I, p. 96, n. 2.
38 Neste sentido o Pai ou o Primeiro Deus são totalmente incognoscíveis.
39 Oráculos Caldáicos, Fragmento 8. Tradução de BAZAN. Oraculos Caldeos (Con uma selección de
testimonios de Proclo, Pselo Y M. Itálico) & Numenio de Apamea (Fragmentos y Testimonios), p. 58. Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I, p. 201, n.1. FESTUGIÈRE em La Révélation d’Hermès Trimégiste IV – Le
Dieu inconnu et la gnose. Paris: Librairie Lecoffre, 1954, p. 55, cita este mesmo fragmento utilizando o termo “sentimento”, ao invés de “sensação” como BAZAN e des PLACES, como vemos a seguir: “sentimento (= vida,
encontro entre a tríade caldáica (Pai – Potência – Intelecto) e a tríade platônica (Ser – Vida – Pensamento) e a hênada inteligível-intelectual. A primeira hênada representa uma lei de constituição de toda realidade, pois Proclo faz corresponder ao Pai, o repouso; à Potência, a processão e ao Intelecto, a conversão.40
Cada um dos aspectos da tríade acima faz ver o momento e o movimento de passagem que conduz entre duas instâncias denominadas também como o hápax epekeina (Pai), correspondente ao que “está além de um modo um” e o dis epekeina (Segundo Intelecto ou Intelecto demiúrgico) correspondente ao que está “além de um modo diádico”.41 Entre estas duas realidades encontra-se, nos Oráculos, Hécate ou a Deusa da vida.42 Assim está escrito num verso dos Oráculos:
O centro de Hécate se move entre os Pais.43
O fragmento acima carrega em si um elemento de indefinição, pois não deixa claro quem são os pais. Finamore-Johnston44 argumentam que Hécate é uma deusa Inteligível cujo lugar se situa entre o Pai e o segundo Intelecto (o Demiurgo), colocando-a na posição intermediária designada ao poder feminino no Fragmento 6.
Como uma membrana intelectiva tomada como uma cintura, [Hécate] dissocia o primeiro e o segundo fogo que desejam se mesclar.45 (Fragmento 6)
Ou seja, entre o hápax epekeina e o dis epekeina. Hans Lewy,46 segundo Finamore- Johnston, interpreta o Fragmento 6 dizendo que Hécate (como a Lua) é identificada com o “midmost” dos três “Pais”, o que quer dizer o Soberano do Sol, devendo, portanto, ser identificada com a Alma do Mundo. Essa dedução de Lewy veio a influenciar a interpretação assumida pela maioria dos scholars depois dele que passaram também a relacionar Hécate corresponde à Alma do Mundo. Essa posição, no entanto, é criticada por Luc Brisson que
40 Cf. Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I, p. 262. Sobre as interconexões e as influências de Porfírio no
pensamento de Proclo e Damáscio com relação às tríades, ver também pp. 262-272.
41 Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I, 1968, p. 262. 42 Ibid., p. 265, n. 4.
43 A citação acima se refere ao fragmento 50, embora Hadot não tenha especificado o mesmo. Cf. Pierre
HADOT. Porphyre et Victorinus I, 1968, p. 266.
44 John FINAMORE e Sara Iles JOHNSTON. The Chaldean Oracles. Esse artigo foi gentilmente cedido pelos
autores antes mesmo de sua publicação e constará como capítulo do livro The Cambridge History of Philosophy
in Late Antiquity a ser editado por Lloyd GERSON em 2011, p. 8. (draft)
45 Tradução de E. des PLACES. Oracles Chaldaiques. Avec un choix des commentaires anciens. Paris: Les
Belles Lettres, 1989, p. 68.
46 Hans LEWY. Chaldean Oracles and Theurgy. Edited by M. Tardieu. Paris: Etudes Augistiniennes, 1978. Cf.
John FINAMORE e Sara Iles JOHNSTON. The Chaldean Oracles (artigo a ser publicado em The Cambridge
argumenta que ela está colocada acima da Alma do Mundo neste sistema47 e por van den Berg48 que argumenta que Hécate é dupla, tanto no sistema caldáico como no procleano, podendo estar presente em dois níveis distintos, acima e abaixo do Demiurgo. Finamore, por sua vez reitera que Hécate se situa entre o Pai e o segundo Intelecto (o Demiurgo) e neste ponto encontra o apoio de Sara Iles Johnston,49 que revê a sua posição apresentada em seu livro Hecate Soteira, conforme Finamore-Johnston, no artigo The Chaldean Oracles escrito a quatro mãos, conforme nota abaixo:
À época em que este artigo foi escrito, Johnston havia sido persuadida pelos argumentos de Brisson e de outros no sentido de que a conexão entre Hécate e a Alma não é direta como havia sugerido em 1990. Ela está de acordo com o esboço relativo ao lugar de Hécate no esquema apresentado neste artigo.50
Importa reconhecer a posição de Hécate porque, como veremos, a sua posição irá influenciar o pensamento dos filósofos neoplatônicos tardios e mais especialmente Jâmblico. Enquanto intermediária, a Alma olha nos dois sentidos e assim ela se torna dupla podendo se associar às duas realidades, como o que parte de seu centro une o que estás em cima ao que está em baixo. E. des Places em sua introdução aos Oráculos Caldáicos, se indaga se a alma estaria no terceiro ou quarto níveis sem responder à questão, embora sugira que as notas às traduções dos fragmentos trarão alguns elementos de solução, o que não se verifica completamente.51 Festugière apresenta três versões relativas à posição da alma na hierarquia dos Princípios: na primeira delas, a Alma ocuparia a quarta posição após os três Primeiros Princípios52; na segunda, sob o símbolo de Hécate, estaria situada entre os dois Pais assumiria o terceiro lugar, estando associada ao terceiro Deus;53 na terceira, ela seria o resultado de uma
47 Luc BRISSON. La place des Oracles Chaldaiques dans la Théologie Platonicenne, In: S Ph. SEGONDS-C.
STEEL. (ed.) Proclus et la Theólogie Platonicienne. Acts du Colloque International de Louvain (13-16 mai 1998) en l’honneur de H. D. Saffrey et L.G. Westerink, Leuven, Paris, 2000. Cf. R. M. van den BERG. Proclus’
Hymns: Essays, Translations, Commentaries. Leiden, p. 253.
48 R. M. van den BERG. Proclus’ Hymns: Essays, Translations, Commentaries. Leiden, p. 252-259. A posição
de van den Berg nos parece a mais razoável tendo vindo a influenciar John Finamore e Sara Iles Johnston, como veremos.
49 Sarah Iles JOHNSTON. Hecate Soteira. American Classical Studies 21. Atlanta: Scholars Press, 1990. 50 John FINAMORE e Sara Iles JOHNSTON. The Chaldean Oracles. Esse artigo foi gentilmente cedido pelos
autores antes mesmo de sua publicação e constará, como capítulo, do livro The Cambridge History of Philosophy
in Late Antiquity a ser editado por Lloyd GERSON em 2011, p. 9, n. 11. (draft)
51 Édouard des PLACES. Oracles Chaldaiques. Avec un choix des commentaires anciens, p.11. Embora não
possamos assegurar que o 3º e 4º níveis relativos à indagação de des PLACES correspondam à 3ª e 4ª hipótese do Parmênides, trabalharemos a partir da hipótese de que estes níveis se referem às realidades consideradas a partir de sua relação e distancia com relação ao Princípio Primeiro, estabelecendo, a partir de perspectivas diferenciadas, a distância que estes níveis revelam.
52 R. P. FESTUGIÈRE. La Révélation d’Hermès Trimégiste III: Les Doctrines de L’Âme; JAMBLIQUE, Traité
de L’Âme, traduction et commentaire; PORPHYRE, De l’animation de l’embrion. Paris: Librairie Lecoffre, 1953, pp. 52-53.
mistura composta pelo Pai, o Intelecto (2º Deus) e o Sopro (3º Deus, idêntico ao Amor), vindo a estar situada em quarto lugar.54
Nesta instância é fundamental Hécate, a Alma do Universo,55 figura central do sistema
teológico e ritual caldáico, por ser intermediária entre o soberanamente transcendente e o cosmos, pois ocupa a região hiper-cósmica, que está imediatamente sobre o mundo. Hécate, como mãe virginal, é fecunda, é fonte de vitalidade, mas carece de órgãos generativos. Sua “cabeça” é o “mais além unitariamente” (hápax epekeina) de onde tem lugar toda a realidade arquetípica ou as ideias que chegam desde o Intelecto paterno como pensamento em si mesmo; suas “mãos” são o “mais além de um modo diádico” (dis epekeina), que exerce a atividade demiúrgica, os desígnios da Inteligência paterna, mas como intelecto agente e uma vez que a deusa lhes dá movimento ou vida. Coerentemente, desde Hécate, como seio de vida, provém toda existência hiper-cósmica e cósmica.56
O lugar da Alma nos Oráculos está guardado, como um mistério a ser desvelado e cujas influências podem ser sentidas especialmente na filosofia religiosa de Jâmblico, em sua ânsia por apresentar a teurgia como um complemento da filosofia.57