Problématique et état de l’art
1.5 Expression du débit durable en contexte tran- tran-sitoiretran-sitoire
Os depoimentos dispersos de Sophia que conseguimos localizar indicam que a sua criação literária destinada à infância e à juventude parte da atitude interventiva. “A minha forma de intervir é escrever”,174 disse Sophia. Escritas maioritariamente na década de 50 e 60, período marcado pela ditadura salazarista, as narrativas inserem-se nas demais atividades de empenho no domínio político-cultural que se prolongaram após o 25 de abril. Tal como a obra poética e as narrativas para adultos, as narrativas infantis não estão dissociadas da luta pela justiça e pela igualdade social, duas questões de preocupação constante da poeta.
A atitude séria motivadora da escrita para o público infantil e pré-adolescente prende-se intimamente com a aspiração pela construção social, mais concretamente a transformação no plano cultural. Sophia vê na cultura a base da sociedade. Após o 25 de Abril, opina em vários contextos sobre a questão cultural nos quais não esconde a indignação pelo atraso cultural dada a falta de liberdade de expressão provocada principalmente pelo ambiente político. Nas críticas insistentes ao modo como a cultura é encarada pela sociedade portuguesa em geral, estão subjacentes as convicções da força transformadora da educação pela literatura, no que diz respeito à infância. Esta forma de educação é vista como a preparação dos futuros cidadãos para a sociedade.
173 Maria Leonor Nunes, “Vida de versos,” Jornal de Letras, 26 de janeiro a 8 de fevereiro de
2011.
174
Entrevista dada a José Carlos de Vasconcelos, JL/Jornal de Letras, Artes e Ideias, 25 de junho de 1991.
111 Numa entrevista radiofónica dez dias após a revolução, a poeta aponta a alienação cultural como um problema grave do país contra o qual era preciso combater. Nessa mesma ocasião, revela que a sua escrita para crianças é feita “com uma consciência política”. Apela também à necessidade de acesso aos livros infantis por parte das crianças, independentemente do meio social do qual são oriundas. Com este apelo atua como voz da infância e de algum modo revela um olhar crítico da sociedade do seu tempo, principalmente no que respeita às desigualdades sociais. O acesso aos livros, na nossa opinião, é para a contista, um índice de igualdade social.
De entre os vários contextos em que reflete sobre a questão cultural, a sua intervenção política enquanto deputada à Assembleia Constituinte merece a nossa maior atenção. Ao recordar a relevância da cultura como um fator fundamental da construção do ser e da sociedade, esta é vista com um papel transformador da sociedade fundamentada na liberdade e na justiça.
(…)
Nós sabemos que a cultura influi radicalmente na estrutura social e na estrutura política.
E por isso a questão da liberdade da cultura e uma questão primordial.
E sabemos que toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e que por isso toda a “cultural real” é, na sua raiz, revolucionária.
E sabemos que não poderemos construir de facto o socialismo se não ultrapassarmos o uso burguês da cultura.
Pois a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades.
A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exactamente porque é capaz de criar a cultura.175
Destacada por Oliveira Martins como “a mais importante no domínio da liberdade de criação e da cultura”,176 a intervenção reenvia ao ambiente político- cultural vivido no passado e sugere a visão da autora sobre o modo como a sociedade deve relacionar-se com a cultura. Ao sublinhar a cultura como “necessidade fundamental” para a “construção do ser” e da sociedade, Sophia está a sugerir o motivo e a finalidade da sua criação para as crianças. Os dois são afirmados nesta
175
Veja “Intervenção na Assembleia constituinte sobre os artigos 23ª e 29ª (Sessão nº 40 de 2 de Setembro de 1975), acedido a 28.05.2014. http://purl.pt/19841/1/1970/1970.html/
176
112 entrevista em que volta a realçar, como já fizera no discurso, que a cultura tem a ver com o dia-a-dia, isto é a não separação da vida do dia a dia, e tem a ver “com o comportamento das pessoas.”177 Considera “uma necessidade vital”, nas relações sociais, o que designa por “dignidade de comportamento”.
... também com o desejo de viver numa sociedade em que todos tenham um nível básico de cultura, não empurram, não cuspam para o chão, falem bem, tenham um certa dignidade de comportamento. É uma necessidade vital. Por isso escrevo para crianças.178
Com efeito, não nos surpreende, como vamos demonstrar, o caráter formador das mensagens da sua criação: a transmissão de valores ético-morais.
Para ela, esse desejo é tanto mais relevante quanto um outro: a aproximação da poesia à vida quotidiana das pessoas, inclusive à das crianças. Ao dirigir a sua escrita ao público infantil, o desejo de que a sua poesia possa “ser para todos por todos entendida”179 concretiza-se indireta e inconscientemente através da linguagem narrativa poetizada. Resulta da utilização de vários elementos formais da poesia e da adequação do discurso ao nível de compreensão dos destinatários sem desvalorizar a capacidade de raciociniar e de pensar.
Sophia atribui uma função didática à arte, inclusive à literatura. A sua conceção é evidente nas duas entrevistas concedidas no âmbito da literatura infantil. Na primeira, pouco tempo depois da revolução, Sophia opina sobre o papel dos escritores e dos livros infantis na sociedade do pós 25 de Abril.180 Para a poetisa, os livros infantis devem desempenhar um papel na formação cultural dos futuros cidadãos da sociedade também em transformação. Os livros infantis permitem a oportunidade de as crianças independentemente do meio sociocultural de proveniência acederem a fundamentos sociais. Podem constituir “um ponto de partida para uma linguagem cultural comum”.181
177
Entrevista dada a José Carlos de Vasconcelos, ob. cit.
178
Ibid., 197.
179
Ibid.
180
Soledade Martinho Costa, Inquérito ao livro infantil (Mira Sintra: Gráfica Europam, 1980), 48.
113
É justamente dentro desse espaço aberto para a comunidade e para a vida que entendo a importância fundamental da literatura infantil. Pois o livro infantil é uma forma de pôr a cultura em comum. De facto na sociedade em que vivemos, o operário e o professor universitário, normalmente, não lêem os mesmos livros. Mas o filho do operário e o filho do professor universitário podem ler os mesmos livros. E assim se poderá criar um ponto de partida para uma linguagem cultural comum.182
Neste mesmo contexto, embora pouco satisfeita com as transformações no plano sociopolítico pós 25 de abril, Sophia mostrou-se satisfeita com as transformações no plano cultural, mesmo que o “uso burguês da cultura” contra o qual combateu continuasse a existir.
Para Sophia, a arte contém de forma imanente uma capacidade educativa: “Creio profundamente que só a arte é didática.”183 Diz ela na entrevista que acabamos de referir. É com a mesma convição que termina o posfácio de Primeiro livro de
poesia, a seleção de poesia com a qual realiza o seu projeto poético para crianças e
adolescentes: “Não quis fazer um livro de ensino mas apenas mostrar o poema em si próprio. Pois creio que só a arte é didáctica.”184
Como se verifica, Sophia concebe a escrita para crianças a partir das duas intenções: didática e a literária e vê o livro infantil em geral como instrumento auxiliar na educação artística e estética das crianças: “É mais ainda uma forma mais funda de educação; educação através da imaginação, da inteligência poética, da sensibilidade, da inteligência visual.”185 É de referir que quando se refere ao livro infantil, a escritora considera não apenas o texto mas outros elementos, designadamente a ilustração e a apresentação gráficas. Todos, para ela, concorrem para a educação da infância.
Ao atribuir uma função didática à arte e à literatura em geral, Sophia não faz distinção entre a literatura geral e a literatura infantil, o que sugere o seu reconhecimento da literatura infantil como uma manifestação artístico-literária. Para além disso, como vamos comprovar, com a sua obra para o público mais pequeno, não nega os dois caráteres que esta pode ter, ou seja a presença dos dois elementos
182 Ibid. 183 Ibid. 184 Ibid., 188. 185 Ibid.
114 aparentamente incompatíveis, a seriedade e o jogo. Daí que seja possível deduzir que para ela a arte e a literatura, desde que tenham caráter artístico, educam e entretêm em simultâneo. Sophia está a sugerir a relevância do elemento jogo na comunicação do que é sério, reconhecendo a capacidade comunicativa da linguagem de que se serve para concretizar a intencionalidade pedagógica como instrumento de construção social. Ao propor experiências de que as crianças vão necessitar para o estar no mundo, Sophia está a valorizar a educação da sensibilidade nesta fase da vida humana, não a formal, mas a informal fora do meio escolar. Trata-se da educação por assimilação não por imposição.