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Passado algum tempo comecei a trabalhar a meias com o meu pai, dividíamos a maquia, metade para cada um, para que se compreenda melhor esta

dar uma explicação. pequena história, vou tentar

Os cereais eram medidos por o alqueire, ou por meio alqueire, medidas que eram feitas em madeira, o alqueire levava catorze litros, o meio alqueire levava sete litros, medidas essas com que o moleiro se servia para fazer o intercâmbio com os seus fregueses, isto é, o freguês mandava para o moinho seis alqueires rasos de trigo, e recebia do moleiro também seis alqueires de farinha, mas com um camoiço, só que um alqueire raso de trigo dava mais do que um alqueire de farinha com camoiço ou seja, uma tarefa com seis sacos de trigo dava sete sacos de farinha, esse saco que dava a mais, chamava-se a maquia, ficava para o moleiro, como sendo seu ordenado, só que havia trigo em que a mesma quantidade, rendia mais ou menos farinha, consoante a sua qualidade, se tinha mais, ou menos impurezas, ou se a farinha era mais fina, aumentava de volume, se era mais arreloada diminuía de volume.

Certo dia ao dividir-se a maquia…

DI RI Narração

Em relação aos discursos da ordem do narrar, conclui-se que, nos textos em análise, a distinção entre RI e a narração nem sempre é evidente, por duas razões: por um lado, o RI pode não ser marcado ao nível local por deíticos; por outro lado, a narração pode ser decomposta a partir de uma origem temporal parcialmente coincidente com a do RI. Com efeito, os acontecimentos passados podem ser relatados remetendo para situações temporais com valor pontual ou não pontual, podendo gerar-

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Entende-se aqui o valor aspetual durativo como “um estado de coisas, localizado num dado intervalo de tempo, ocorre n vezes nesse intervalo de tempo” (Xavier & Mateus 1992, com base em Mateus et al. 1983).

173 se, neste segundo caso, um efeito de genericidade, a que poderão estar associados diferentes graus de atorialidade: se se verificar algum grau de atorialidade do produtor textual (eu-lá-então), estamos perante o RI; se se verificar a ausência de atorialidade (o(s) outro(s)/lá/então), estamos perante a narração.

3.2. Operações psicológico-discursivas de ocorrência opcional

Como foi atrás demonstrado, os TD são operações que atuam a nível global, entrando na constituição de qualquer texto; a sua configuração linguística é condicionada quer pela especificadade da língua natural em que se realizam, quer pelo género textual adotado.

A construção textual do conhecimento não é feita, no entanto, apenas com base nos TD – resultando, pelo contrário, da articulação entre essas quatro operações globais e outro tipo de operações psicológico-discursivas, de ocorrência opcional. Nos textos memorialísticos em análise, destacam-se algumas dessas operações, cuja ocorrência se verifica a dois níveis distintos da arquitetura textual – o nível infraestrutural e o nível superficial:

 ao nível infraestrutural, salientam-se as operações de descrição, explicação e argumentação;

 ao nível superficial, sobressaem as operações de evocação, reformulação, generalização e modalização.

Estas operações não serão necessariamente as únicas que ocorrem no género memórias nem tão pouco nos textos memorialísticos em análise. Ainda assim, de acordo quer com a análise feita, quer com os estudos teóricos (sobretudo literários) apresentados na Parte I, as operações de descrição, explicação, argumentação, evocação, reformulação, generalização e modalização são aquelas que constroem de forma efetiva a identidade do género memórias e que, por isso mesmo, podem ser concebidas como parâmetros genológicos.

Ao contrário dos TD (que se reduzem a quatro tipos discursivos, admitindo variantes e fusões), as operações psicológico-discursivas de ocorrência opcional (determinadas pelo género textual) serão em maior número: cada género textual determinará a existência de operações específicas. Nesse sentido, as operações de

174 ocorrência opcional que a seguir se apresentam são condicionadas pelo género memórias, mas não constituem uma lista fechada nem esgotam todas as possibilidades de operações passíveis de ocorrência em textos memorialísticos.

3.2.1. Operações ao nível infraestrutural

As operações ao nível infraestrutural relacionam-se com a planificação dos TD – trata-se, pois, de configurações psicológico-discursivas que operam ao nível mais profundo da arquitetura textual, contribuindo para a organização profunda do conteúdo temático. Nos textos em análise, destacam-se três operações deste tipo: operações de descrição, explicação e argumentação.

Tais configurações podem ter um estatuto sequencial, quando coincidem com as sequências prototípicas supra-ordenadas, hierarquicamente estabilizadas (Adam 1992) – ou, pelo contrário, podem ser constituídas por segmentos (que o autor designa como enunciados ou conjuntos de enunciados) não organizados sequencialmente. Por outro lado, as operações em causa não são aqui encaradas como realidades apenas formais pré-existentes, resultantes de atos mecânicos por parte do produtor textual – ao invés, assiste-lhes uma dimensão psicológica determinante, resultante da implicação do produtor textual no discurso. Por outras palavras: ao proceder a uma operação descritiva, explicativa ou argumentativa, o produtor textual não se limita a reproduzir uma estrutura formal pré-existente, mas, pelo contrário, cria, pela linguagem, a partir do modelo pré-existente mas de forma não mecanizada, um novo mundo virtual.

Como se verá de seguida, as operações que ocorrem ao nível infraestrutural, apesar de não serem exclusivas do género memórias, têm uma configuração específica, determinada genologicamente.

3.2.1.1. Operações de descrição

Em Le Texte Descriptif, Adam & Petititejean (1989) traçam a história da evolução histórica das formas descritivas. De acordo com estes autores, a primeira ocorrência do termo surge no dicionário Larousse, no século XIX, mas a noção de descrição enquanto unidade textual caracterizada pela presença de uma isotopia constante é bem mais antiga, remontando a à Antiguidade Clássica e estando presente quer em géneros literários (a descrição do escudo de Aquiles é paradigmática nesse

175 sentido), quer em géneros retóricos (em que a descriptio ou ekphrasis/hipotipose surge associada à pormenorização de um objeto concreto de exposição). Nos séculos XIX e XX, a noção de descrição é teorizada, sendo alvo de diversas classificações97, que culminam na identificação de duas classes, ainda hoje tidas em conta: o retrato e a desccrição. Aos autores assumem a descrição como noção geral (sem distinguir o funcionamento do retrato do funcionamento da paisagem) e desenvolvendo o conceito de descrição de ação.

Adam & Petitijean (1989) entendem que a as proposições se encontram organizadas em esquemas sequenciais dinâmicos que constituem o fundamento da própria textualidade – nesse sentido, o texto é encarado como estrutura sequencial de n sequências (completas ou elípticas) e a leitura/compreensão de um texto, como um processo centrado no reconhecimento de esquemas de reagrupamento em estruturas mais ou menos convencionais, com regras próprias de funcionamento. A descrição corresponde a uma dessas estruturas, sendo constituída pelas operações de assimilação, aspetualização e tematização. A descrição de ação, especificamente, é definida nos seguintes termos:

Ici, la séquence descriptive est déclenchée par un thème-titre désignant une action, voire un ensemble d’actions. Ces descriptions d’actions […] peuvent se présenter, soit sous forme de séquence d’actions non-ordonnées, et, dans ce cas, il s’git le plus souvent d’une simple liste d’action, soit sous forme de séquence d’actions ns ordonnées, conventionnellement ou non.

Adam & Petitejean 1989, 158-159

Tal como acontece com as sequências narrativas, também as descrições de ações ordenadas de forma convencional possuem uma progressão temporal – no entanto, ao contrário das primeiras, as segundas não assentam num processo de desencadeamento de tensão (não se baseiam num princípio de transformação característico do “récit”, em que uma situação inicial se transforma numa situação final, sendo essa transformação assegurada por três macroproposições, que formam o nó do processo narrativo).

Nos textos memorialísticos em análise, sobretudo em PM, as operações descritivas são recorrentes, podendo atuar quer como unidades configuradoras dos

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Adam & Petitijean destacam a classificação de Fontanier (1821), que a seguir se explicita:topografia (descrição de um lugar), cronografia (descrição em que se caracteriza o tempo/as circunstâncias de um acontecimento), prosografia (descrição de um ser animado, real ou fictício, tendo em conta aspetos fisionómicos ou aspetos fisionómicos e psicológicos), etopeia (descrição psicológica/moral de uma personagem real ou fictícia), retrato (descrição física e psicológica/moral de um ser animado, real ou fictício) e paralelo (existência de duas descrições, consecutivas ou intercaladas, feitas com base na comparação) (Fontanier 1821, apud Adam & Petitjean 1989).

176 episódios memorialísticos (descrição de espaços) ou ocorrer localmente (descrição de espaços, de personagens, de ações). Tais configurações encontram-se, em geral, ao serviço da ordem do narrar, mas podem planificar também a ordem do expor. Apresentam-se de seguida dois exemplos ilustrativos do funcionamento das operações descritivas nos textos MMV e PM.