• Aucun résultat trouvé

Exploitation et gestion de SwissPedDose

Dans le document Analyse de la situation «SwissPedDose» (Page 42-45)

4. Résultats

4.4 Exploitation et gestion de SwissPedDose

O primeiro estudo biomédico sobre ayahuasca foi realizado na década de 1990, quando uma equipe internacional multidisciplinar de pesquisadores comparou medidas fisiológicas e psicológicas entre membros da UDV que faziam uso religioso da bebida há mais de dez anos e um grupo controle de pessoas não-usuárias – estudo que ficou conhecido como “Projeto Hoasca”. Os resultados forneceram as primeiras evidências experimentais sobre efeitos terapêuticos do uso ritual da ayahuasca para a saúde mental, com destaque para condições de uso problemático de álcool e outras drogas, ansiedade e depressão. Além disso, testes neuropsicológicos não encontraram efeitos deletérios do uso a longo prazo sobre funções cognitivas (Grob et al., 1996). A partir de então um número crescente de estudos observacionais, pré-clínicos e clínicos têm sido realizados e fortalecem a hipótese de que a ayahuasca apresenta propriedades terapêuticas para uma série de transtornos psiquiátricos, incluindo depressão, dependência de substâncias, ansiedade, transtornos alimentares e traumas (para revisão, ver McKenna, 2004, Domínguez-Clavé et al., 2016, Dos Santos et al., 2016a,b, Nunes et al., 2016, Estrella-Parra et al., 2019, Hamill et al., 2019, Rodrigues et al., 2019; sobre transtornos alimentares, ver Lafrance et al., 2017, Renelli et al., 2018; sobre traumas e transtorno de estresse pós-traumático, ver Maté, 2014, Nielson e Megler, 2014).

Nesse contexto, os corpos de evidências mais consistentes até o momento se referem ao potencial terapêutico para o tratamento da depressão e da dependência de substâncias. Em ambos os casos, uma ampla gama de relatos anedóticos e estudos observacionais estimulou a realização de estudos pré-clínicos e clínicos (Dos Santos et al., 2016a,b; Nunes et al., 2016; Rodrigues et al., 2019). No caso da depressão, os estudos em modelos animais com roedores e primatas não-humanos apontam que os efeitos antidepressivos verificados estão ligados à de drogas alteradoras da mente. Em grego, a palavra entheos significa literalmente ‘deus (theos) dentro’ e foi usada para descrever a condição que se segue quando alguém é inspirado e possuído pelo deus que entrou no corpo. Foi aplicado a apreensões proféticas, paixão erótica e criação artística, bem como a ritos religiosos em que estados místicos eram vivenciados pela ingestão de substâncias que eram trans-substancialmente a divindade. Em combinação com a raiz grega gen-, que denota a ação de ‘tornar-se’, essa palavra resulta no termo que estamos propondo: entheogen [enteógeno]. (...) Em sentido estrito, apenas as drogas que produzem visões que podem ter figurado em rituais xamânicos ou religiosos seriam designadas enteógenas, mas em um sentido mais amplo, o termo também poderia ser aplicado a outras drogas, naturais e artificiais, que induzem alterações de consciência semelhantes àquelas documentadas para uso ritual de enteógenos tradicionais”. A lista de plantas enteógenas é extensa e a maior parte são pouco conhecidas. Uma obra clássica da literatura sobre plantas psicoativas utilizadas tradicionalmente em culturas indígenas/xamânicas é o livro Plants of the

Gods [Plantas dos Deuses], escrito pelo etnobotânico norte-americano Richard Evans Schultes (1915—2001)

e o químico suíço Albert Hofmann (1906—2008) (Schultes e Hofmann, 1979). Outra obra bastante abrangente acerca desse assunto é The Encyclopedia of Psychoactive Plants [A Enciclopédia de Plantas Psicoativas], do antropólogo alemão Christian Rätsch (Rätsch, 2005). Um resumo comparativo elencando as principais plantas psicoativas utilizadas ritualisticamente e suas respectivas características químicas pode ser encontrado em Carlini e Maia (2015).

regulação ou modulação de mecanismos celulares (como homeostase energética celular, funções mitocondriais e estresse oxidativo), hormonais (principalmente do cortisol) e neuronais (em especial, elevações nas concentrações de BDNF (do inglês, brain-derived

neurotrophic fator: fator neurotrófico derivado do cérebro), uma proteína endógena envolvida

na neuroplasticidade) (Farzin e Mansouri, 2006; Lima et al., 2006; Fortunato et al., 2009, 2010a,b; Réus et al., 2010, 2012; Abelaira et al., 2013; Liu et al., 2017; Da Silva et al., 2019). Já entre os estudos em humanos, verificou-se uma redução imediata e a médio prazo (até 21 dias após a administração) de sintomas depressivos avaliados por instrumentos padronizados e validados em decorrência de uma experiência única com ayahuasca realizada em contexto clínico entre pacientes com depressão resistente ao tratamento (Osório et al., 2015; Sanches et al., 2016; Palhano-Fontes et al., 2019). No estudo mais recente, os efeitos foram comparados com um grupo que recebeu placebo, em um desenho experimental duplo-cego, tendo verificado efeitos antidepressivos estatisticamente significativos no dia seguinte e após 7 dias da administração da ayahuasca (Palhano-Fontes et al., 2019). Em concordância com os estudos pré-clínicos, análises biológicas avaliando biomarcadores relacionados à depressão verificaram que, associado ao efeito antidepressivo, a ayahuasca induziu efeitos de modulação dos níveis de cortisol e BDNF (Galvão et al., 2018; De Almeida et al., 2019), os quais estão envolvidos na etiologia da depressão e atuam na regulação de processos fisiológicos, cognitivos e emocionais (Juruena et al., 2004; Tapia-Arancibia et al., 2004; Gold, 2015). Ademais, estudos de neuroimagem verificaram um aumento do fluxo sanguíneo cerebral em regiões implicadas na regulação emocional (como núcleo accumbens, ínsula e área subgenual) após uma sessão única com ayahuasca em pacientes com depressão (Sanches et al., 2016); e uma redução da atividade da Default Mode Network (DMN), uma rede cerebral hiperativa na depressão (Palhano-Fontes et al., 2015).

No campo dos estudos sobre a dependência de substâncias, evidências epidemiológicas, qualitativas e pré-clínicas indicam que a ayahuasca apresenta propriedades terapêuticas possivelmente relacionadas a efeitos neurobiológicos envolvidos na dependência. No entanto, estudos clínicos controlados ainda não foram realizados e a magnitude da influência do contexto religioso/cultural sobre os efeitos constitui um fator de confusão importante (Brierley e Davidson, 2012, Winkelman, 2014, Nunes et al., 2016, e Rodrigues et al., 2019). Nesse sentido, estudos observacionais e estudos caso-controle verificaram diminuição/cessação do uso de substâncias e redução de sintomas de abstinência após o início do uso ritual da ayahuasca, principalmente entre membros das religiões ayahuasqueiras (Grob et al., 1996; Doering-Silveira et al., 2005; Halpern et al., 2008; Fabregas et al., 2010; Thomas

et al., 2013; Fernández et al., 2014; Barbosa et al., 2016, 2018; Berlowitz et al., 2019). Nesses trabalhos, os resultados mais expressivos se referem ao uso de álcool e cocaína/crack, o que foi alvo de estudos qualitativos posteriores que investigaram em profundidade esse fenômeno a partir de uma perspectiva psicológica e antropológica (Loizaga-Velder e Verres, 2013; Loizaga-Velder e Pazzi, 2014; Talin e Sanabria, 2017; Cruz e Nappo, 2018). Paralelamente, estudos em roedores verificaram que a administração de ayahuasca ou de b-carbolinas isoladas (em especial, a harmina e a harmalina) gerou reduções no consumo, em sintomas de abstinência ou em parâmetros comportamentais relacionados à dependência de álcool, cocaína e morfina (Glick et al. 1994; Aricioglu-Kartal et al., 2003; Oliveira-Lima et al., 2015; Cata- Preta et al., 2018).

Em contextos terapêuticos, o emprego da ayahuasca em sistemas clínicos e/ou comunitários de tratamento para a dependência de substâncias já acontece desde a década de 1990 no Peru (Mabit et al., 1996; Mabit, 2007; Argento et al., 2019) e tem se proliferado em outros países nos últimos anos, principalmente no Brasil (Mercante, 2009, 2013; Fernández e Fábregas, 2014; Lopes, 2016), no México (Loizaga-Velder e Verres, 2013; Loizaga-Velder e Pazzi, 2014) e no Canadá (Maté, 2014). As evidências disponíveis até o momento indicam que a experiência com ayahuasca parece ter influência em fatores de ordem biopsicossocial, atuando como catalisadora do processo de tratamento (Loizaga-Velder e Pazzi, 2014; Frecska et al., 2016). Contudo, embora os estudos farmacológicos em animais de laboratório forneçam evidências sobre um efeito neurobiológico em si produzido pela ayahuasca e seus componentes sobre a dependência de substâncias, a amplitude da influência dos fatores sociais (como o apoio social dentro de grupos religiosos) e da interação desses fatores com os fatores psicofisiológicos envolvidos nos efeitos da ayahuasca permanecem uma pergunta em aberto (Frecska et al., 2016).

Dans le document Analyse de la situation «SwissPedDose» (Page 42-45)