imigração; uma relação com o espaço, com a terra, com o lugar em que se viveu e onde se vive, não só como espaços geográficos, mas também como espaço social; uma relação com o grupo social, aquele que foi deixado no lugar de origem e também aquele no qual o imigrante entrou, em maior ou menor grau de inserção. Segundo Sayad (2000), todas essas relações se mantêm entre si solidárias umas com as outras e constituem o ser social.
Segundo Sayad (2000), o espaço permite efetuar uma transição, estar aqui e depois lá, mas o tempo não permite voltar. O passado não regressa e também não se torna novamente presente; assim, constata-se uma irreversibilidade do tempo. “Se de um lado, pode-se sempre voltar ao ponto de partida, o espaço se presta bem a esse ir e vir, de outro lado, não se pode voltar ao tempo de partida, tornar-se novamente aquele que se era nesse momento” (Sayad, 2000, p. 12). É possível compreender que a pessoa, no sentido da experiência, nunca volta para o mesmo lugar, ou seja, “não existe verdadeiramente retorno (ao idêntico)” (p. 12). A pessoa no exterior vivenciou outras situações, teve mudanças de hábitos e ela construiu um novo cotidiano para sua vida. Assim, esse movimento de “retorno” pode ser considerado como uma ficção, como assinala Sayad (1998).
Em continuidade com os comentários do autor citado acima, os países e as cidades de origem não permanecem parados no tempo, pois as condições se transformam no transcurso do tempo. Tanto as pessoas quanto os lugares de origem se transformam, pois nas cidades acontecem eventos, festividades e encontros, mudanças políticas e sociais dos quais o emigrante não participa. Por outro lado, os acontecimentos na vida do migrante nos países de destino podem ser muito diversificados, com mudanças profundas nos significados atribuídos a práticas cotidianas e no entendimento da vida. Assim, do ponto de vista subjetivo, não há um retorno possível, mas sim outro deslocamento, que pode ser considerado como uma nova migração ou como um novo movimento migratório.
Porém, cabe assinalar que, mesmo com essas mudanças na vida do emigrante, não há como considerar uma renúncia ao grupo de origem. Segundo Sayad (2000), a emigração, mesmo de longa duração, não pode ser pensada como uma recusa ao grupo de origem ou uma abdicação dele, pois, como observa o autor, essa seria uma renúncia a si mesmo, visto que uma pessoa existe enquanto ser social, e por isso ela só tem existência pelo grupo e para ele, sobretudo no grupo de seus pares. O migrante somente deixaria o grupo para melhor encontrá-lo, e a ideia de ocorrer esse encontro como se nada tivesse acontecido participa
de uma ilusão, da qual se alimenta a nostalgia de pensar que irá encontrar tudo como era antes. Como afirma o autor, não é possível deixar uma terra impune, pois o tempo passa para todos.
A presença no país estrangeiro também tem seus efeitos, pois não é possível uma pessoa habitar outro lugar sem que “algo permaneça desta presença, sem que se sofra mais ou menos intensa e profundamente, conforme as modalidades do contato, dos domínios, das experiências e das sensibilidades individuais” (Sayad, 2000, p. 14). Para Sayad, a imigração deixa marcas nas vidas das pessoas e elas ocorrem no âmbito subjetivo, nas questões pessoais, nos modos de se organizar, de pensar e refletir sobre a vida. Diante das considerações de Sayad (2000) e Sayad (1998), pode-se compreender a relevância do fenômeno do retorno, quanto às problemáticas que advém com esse processo, não sendo simplesmente uma “volta”. Portanto, esse retorno ao mesmo poderia ser entendido como uma ilusão, ou como um “retorno” entre aspas, por se caracterizar um processo distinto de uma volta ou um regresso ao mesmo ponto de partida, sendo impossível esse movimento, mas sim seria um novo processo.
No contexto dos estudos da migração brasileira, pude observar que o fenômeno da migração de retorno teve mais evidência com as crises econômicas ocorridas nos Estados Unidos e Europa, iniciando-se entre 2007 e 2008. Dal Rosso (2012) esclarece que a crise de 2008 é um fato social. Segundo o autor, a crise financeira, econômica e social, iniciada naquele ano, projetou impactos negativos sobre as condições de vida das populações de países de todo mundo. A crise se iniciou nos Estados Unidos e, depois, desdobrou-se para a Europa, para o Japão e para outros países46.
Pereira e Siqueira (2013) assinalam que as estatísticas não contemplam as dinâmicas de retorno. De acordo com as autoras, a recente crise econômica mundial, ao afetar negativamente o contexto econômico de vários países de destino da emigração brasileira, constituiu-se um dos fatores que intensificaram o retorno. Alertam as autoras que o regresso ao país de origem pode também ser oriundo de dificuldades de adaptação e desafios presentes nos países de destino.
Segundo Maldonado e Hayem (2014), a incerteza econômica e o mercado de trabalho desaquecido na Europa afetaram a quantidade de dinheiro que os migrantes enviavam aos seus países de origem, especialmente os migrantes vivendo na Espanha, haja vista que os
46
Sobre a crise, ver Dal Rosso (2012), Dal Rosso (Org.) (2011) e Dal Rosso (2011).
Estados Unidos apresentam melhoras econômicas em 2014. Conforme os autores, a diminuição do fluxo de remessas ao Brasil está vinculada ao retorno dos migrantes ao Brasil. Segundo eles, cerca de 20% de migrantes brasileiros do exterior retornaram em comparação com o número de migrantes em 2010, e explicam que isso é devido às melhoras econômicas no contexto brasileiro.
Para Fusco e Souchaud (2010), o retorno de brasileiros se mostra ainda um fenômeno pouco estudado, mas com significativa representação, pois agrega muitas facetas pouco conectadas, fragmentadas e em construção. De acordo com esses autores, há dificuldade em compreender as pessoas retornadas, pois elas não apresentam diferenças quanto ao emprego da linguagem, características físicas e não aparentam outras diferenças quanto aos brasileiros residentes no país. Nas relações cotidianas, elas parecem ser pessoas como outras que já viviam no país. Porém, há diferenças como variações na linguagem, esquecimentos, as falas com termos estrangeiros entre outros.
Outro aspecto importante levantado por Fusco e Souchaud (2010) é de o retornado geralmente não voltar ao lugar de nascimento ou para onde residem seus familiares, mas ao lugar o qual tinha deixado antes de partir. Marandola Jr. e Dal Gallo (2010) salientam que emigrar envolve processos de redefinição de territorialidades. Esse conceito é referente à relação estabelecida pela pessoa direcionada ao com seu contexto social, uma produção singular e cotidiana para se estabelecer em um determinado espaço e lugar. A migração exige que a pessoa desenvolva novos entrelaçamentos com o mundo social para produzir seu pertencer, sendo um processo que pode trazer dificuldades, haja vista as situações desconhecidas a serem enfrentadas, e pode até desestabilizar a pessoa em relação à sua segurança pessoal. Como o retorno é um novo processo, ele também é cercado de exigências, pois os migrantes precisam desenvolver novas inter-relações com os espaços e com as pessoas, agravado pela necessidade de “estar melhor” do que quando partiu.
Com uma perspectiva transacional das migrações, Cavalcanti e Parella (2013) mostram a necessidade de entender o retorno para além de um processo de inversão da migração, observando a impossibilidade de pensar nele como uma ação estática e definitiva. Ao contrário, para os autores é preciso compreendê-lo imerso na dinâmica das relações e experiências entre as sociedades de destino e origem. Para a pessoa, os espaços e os saberes proporcionados pela experiência migratória nos países de destino promovem ampliação dos conhecimentos e
possibilidades de circulação nos territórios. Na análise dos autores, o regresso não pode ser pensado como definitivo, tampouco com a existência de rompimento de laços estabelecidos nos países de destino.
A partir de estudos com migrantes brasileiros de retorno, Siqueira, Assis e Dias (2010) identificaram cinco processos: retorno temporário, com o migrante definindo o país de destino como permanente; retorno continuado, em que o migrante tenta o retorno, mas, por não ter conseguido se adaptar, volta ao país de destino; retorno permanente, no qual aquelas pessoas retornam e conseguem se estabelecer na cidade e no país de origem e não pretendem migrar novamente; o transmigrante, sendo aquele que reside entre dois lugares por ter condições sociais e econômicas para uma mobilidade permanente; e os retornados da crise pós-2007, pois, segundo os autores, as pessoas foram atingidas pela crise e estavam ocupando majoritariamente o mercado de trabalho secundário, como construção civil e outros subempregos.
Do ponto de vista das informações estatísticas, como apresentei na introdução desta tese, pode-se perceber um acréscimo da migração de retorno entre os brasileiros. Como assinalei também, existem dificuldades em mesurar a população de brasileiros retornados. No entanto, foi possível verificar transformações nos registros de retorno nas análises dos Censos Demográficos dos Censos de 2000 e 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012a; 2012b). Os dados do IBGE mostram um número significativo de brasileiros retornados no Censo de 2010 (IBGE, 2012a; 2012b). No Censo de 2000, 87.886 mil pessoas residindo no Brasil eram brasileiros de retorno, e, no Censo de 2010, 175.766 mil pessoas residindo no Brasil eram brasileiros de retorno.
Essas informações mostram número de retornados dobrou no transcorrer de dez anos. Segundo o Censo Demográfico em 2010, o percentual de brasileiros (migrantes internacionais de retorno) foi relativamente maior entre aqueles que vieram dos Estados Unidos (84,1% eram brasileiros retornados), Japão (89,3% eram brasileiros retornados) e Portugal (76,7% eram brasileiros retornados), e menor entre aqueles com origem no Paraguai (56,4% eram brasileiros retornados) e na Bolívia (24,5% eram brasileiros retornados) (IBGE, 2012a; 2012b).
Com essas considerações teóricas apresentadas neste capítulo, sobre trajetórias laborais e migrações internacionais, busquei iluminar um caminho compreensivo para análise dos resultados da tese. Esse caminho teórico posteriormente foi incorporado às análises dos
resultados da pesquisa, articulando as informações geradas e ampliando- as. No próximo capítulo da tese, apresento os procedimentos teóricos e metodológicos da pesquisa, os procedimentos de coleta de informações, o processo de entrada no campo, o estudo exploratório e o processo de análise das informações.
3 PERCURSO