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O câncer é uma doença que surge a partir transformação de células normais em células tumorais que passam a crescer de forma desordenada e descontrolada. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta o câncer como a segunda causa de mortes no mundo, sendo responsável por levar a óbito aproximadamente 9,6 milhões de pessoas no ano de 2018 e os cânceres de pulmão, próstata, colorretal e de mama foram os mais prevalentes. Essa enfermidade pode afetar pessoas de todas as idades, porém a incidência de câncer aumenta drasticamente quando o envelhecimento, provavelmente em função da redução da eficiência de mecanismo de reparo celular (WHO, 2018).

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), serão diagnosticados no Brasil, entre os anos de 2018 e 2019, 600 mil novos casos de câncer, e os tipos de cânceres mais frequentes entre homens e mulheres, serão o de próstata (68 mil) e o de mama (60 mil), respectivamente (BRASIL, 2018). Aproximadamente 70% das mortes por câncer ocorrem em países de média e baixa renda, por isso é essencial que se busque novas alternativas ao tratamento desta doença para aumentar o acesso da população a terapias de combate a essa doença (WHO, 2018).

A modificação de células normais até o surgimento de células tumorais é o resultado da interação entre os fatores genéticos de uma pessoa com agentes externos, que podem ser físicos, químicos ou biológicos. (ALMEIDA et al., 2005; AGUIAR JUNIOR, 2016; WHO, 2018). O câncer é o resultado de mutações em genes que estão envolvidos com o controle do ciclo celular, reparação do DNA danificado e apoptose e esses genes relacionados ao câncer podem ser divididos em três grupos: oncogenes, proto-oncogenes e genes supressores tumorais (LOPES et al., 2002; ZHU et al., 2015). Os proto- oncogenes referem-se a uma família de genes que atuam de forma positiva no controle do ciclo celular normal, porém ao sofrerem mutações se tornarão oncogenes induzindo ou estimulando excessivamente a proliferação celular. Por fim, as proteínas que inibem o crescimento de células tumorais são codificadas pelos genes supressores tumorais (WARD, 2002; AUDIC; HARTLEY, 2004).

Diversos estudos tem demonstrado que a inflamação é um importante componente na progressão tumoral, uma vez que células e mediadores do sistema imune inato são detectados na maioria dos casos de câncer e essa alta prevalência de mediadores do sistema imune inato leva à indução de vias inflamatórias em células cancerígenas (SETIA; SANYA, 2012).

Os agentes químicos inflamatórios atuam para modifcar os tecidos adjacentes a uma determinada lesão, tornando-os permeáveis para que as células imunológicas possam penetrar e chegar ao local para destruir os agentes agressores, induzindo no local uma nova formação de pequenos vasos sanguíneos, de forma a permitir a chegada de oxigênio e nutrientes no local da lesão a ser reparada, e as células tumorais se utilizam dessas substâncias para induzir sua própria proliferação e torna-las permeáveis as barreiras que o

cercam. A inflamação regula a tumorigênese por diversos mecanismos como alteração do ciclo celular e proliferação celular, migração de células, estímulo à angiogênese e inibição da apoptose. Assim, a composição do microambiente inflamatório do tumor tem uma influência fundamental no resultado da doença (PAUL et al., 2013; CRUSZ; BALKWILL, 2015).

A enzima ciclooxigenase-2 (COX-2) constitui um ponto comum entre a inflamação e o câncer, pois, vários tipos de tumores expressam essa enzima em níveis elevados, o que aponta para um papel potencial da COX-2 na promoção e progressão tumoral (KUNDUH; SURH, 2008; CRUSZ; BALKWILL, 2015). A enzima ciclooxigenase apresenta duas isoformas denominadas de ciclooxigenase-1 (COX-1) e ciclooxigenase-2 (COX-2). A pimeira é considerada como fisiologicamente constitutiva, pois é expressa na maioria dos tecidos de maneira constante e apresenta papel regulador chave na fisiologia normal desses tecidos. Já a segunda é indutiva, sendo expressa apenas em situação de trauma tissular, inflamação, etc (KUMMER; COELHO, 2002; GARCÍA- BUENO; LEZA, 2008).

A COX-2 exerce uma importante função na produção das prostaglandinas, que por sua vez estão envolvidas em diversos processos fisiológicos e patológicos, incluindo os processos inflamatórios. Diversos estudos demonstram que as prostaglandinas apresentam a capacidade de promover a proliferação celular, a angiogênese associada ao tumor, inibir a morte celular de maneira a favorecer o crescimento tumoral, inibir a resposta antitumoral e modular a invasão do tumor (BOUGHTON-SMITHet al., 1983; SHENG et al., 1998; CAMACHO et al., 2008). Por isso, diversos agentes terapêuticos direcionados a mediadores da resposta inflamatória tem sido utilizados para a prevenção e tratamento do câncer (CRUSZ; BALKWILL, 2015).

Dentre as principais formas de tratamento do câncer estão excisão cirúrgica, radioterapia e quimioterapia. A cirurgia e a radioterapia são recomendadas para tratamento da doença localizada, sendo utilizadas nos estágios iniciais da doença e em geral possuem um papel limitado em cânceres mais avançados e por isso, atualmente, a quimioterapia é considerada o método mais efetivo no tratamento contra o câncer, porém, as células cancerígenas podem apresentar alta resistência aos fármacos aplicados e

ainda a elevada toxicidade e inespecificidade desses medicamentos é um problema muito comum, acarretando em uma alta incidência de efeitos colaterais (AJITH; JANARDHANAN; 2003; VON MINCKWITZ; MARTIN, 2012). Em função disso, a procura por novos medicamentos anticancerígenos têm-se aumentado cada vez mais, a fim de se encontrar fármacos mais eficazes e específicos que impeçam o avanço da doença (BRANDÃO et al., 2010).

As plantas constituem uma importante fonte de compostos com potencial para prevenção e cura do câncer, e de fato muitos fármacos utilizados no tratamento desta patologia são de origem exclusivamente vegetal ou obtidos a partir de precursores naturais, sendo que mais de 3000 espécies de plantas em todo o mundo exibem propriedades anticarcinogênicas (ALVES- SILVA et al., 2017; TARIQ et al., 2017;SECA; PINTO, 2018). Como exemplo podemos citar vincristina, paclitaxel, homoharringtonina, entre outros. A vincristina é um alcaloide isolado da vinca (Catharantus roseus - Apocynaceae) que foi um dos primeiros agentes anticancerígenos derivados de plantas aprovados pela agência norte-americana que regula os alimentos e medicamentos FDA (Food and Drug Administration) (MESQUITA et al., 2009; NEWMAN; CRAGG, 2016). Paclitaxel é uma molécula complexa que se tornou uma das drogas quimioterápicas para câncer mais conhecidas e é isolado da casca de Taxus brevifolia (WEAVER, 2014). A homoharringtonina é um alcalóide que foi inicialmente isolado de Cephalotaxus harringtonii e Cephalotaxus fortunei, espécies utilizadas na medicina tradicional chinesa, atualmente sua forma semissintética é usada para a produção industrial (KANTARJIANet al., 2013).

Além dos fármacos já utilizados para o tratamento da doença, pesquisas têm demonstrado que diversas plantas medicinais apresentam potencial antitumoral com perspectiva para utilização na terapia contra o câncer, dentre as quais podemos citar as espécies que são objetos de estudo no presente trabalho, a Varronia curassavica (PARISOTTO et. al, 2012) e a Momordica charantia (DIA; KRISHNAN, 2016). Bendaoud e seus colaboradores (2010) também demonstraram que o óleo essencialdas espécies do gênero Schinus, S. molle L. e S. terebinthifolius, apresentam atividade antiproliferativa contra células de câncer de mama humano. Dentre tantas

outras espécies com propriedades anticâncer, podemos cita ainda a Annona muricata, conhecida popularmente como graviola (YAJIDet al., 2018).

Os métodos colorimétricos para avaliar a proliferação celular em cultura, que possilitam inferir sobre a atividade antitumoral de produtos naturais, são bastante utilizados, por serem rápidos e baratos (BETANCUR- GAVIS et al, 1999). O método colorimétrico MTT (3(4,5-dimetiltiazol-2-il)-2,5- difeniltetrazólio brometo) é um dos ensaios mais utilizados para a avaliação da citotoxidade. Foi descrito inicialmente por Mosmamm (1983) e é baseado no princípio de redução do MTT resultando de coloração roxa. O MTT, que é um sol solúvel em água de cor amarela, é convertido em formazan, o seu produto de coloração roxa, por enzimas desidrogenases mitocondriais, dessa forma, apenas as células metabolicamente ativas conseguem reduzir o MTT permitindo quantificar as células viáveis (Figura 27).

Figura 27 - Redução do MTT catalisada por desidrogenases mitocondriais gerando o seu produto reduzido, o formazan.