Falar da espetacularização da mídia também é necessário para nos acercarmos de nosso objeto, já que a construção das notícias policiais passa pelo fenômeno do estético- espetacular. Para isso, usaremos um pouco dos conceitos de Guy Debord (1997, p.13), para quem “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. A Sociedade do Espetáculo, descrita por Debord, autor de inspiração marxista (1931-1994), é aquela na qual a imagem é o que existe de maior valor, enquanto a vida real é pobre e fragmentária. Este autor usa o prefácio de “A Essência do Cristianismo”, do filósofo alemão Ludwig Andreas Feuerbach, para fazer um esboço de um dos conceitos relacionados ao espetáculo:
E sem dúvida o nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. O que é sagrado para ele, não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade. Melhor, o sagrado cresce a seus olhos à medida que decresce a verdade e que a ilusão aumenta, de modo que, para ele, o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado (DEBORD, 1997, p.8).
O texto mostra a contemplação de um fenômeno que, já naquela época da história, em 1841, unificava a sociedade em uma falsa consciência. O espetáculo é a afirmação de uma aparência, é a negação da realidade e a prisão a sonhos fomentados por aparências. A relação estabelecida pelos veículos de comunicação entre imagem, consumo e dinheiro faz com que as sociedades neguem, cada vez mais, a realidade, por meio de produções culturais altamente diluídas.
As pessoas são obrigadas a consumir as imagens daquilo que lhes falta na existência real. O olhar se volta para os políticos, as estrelas que viveriam no lugar dos simples mortais. A soberania nesta sociedade está no aparecer. Desta forma, é a sociedade que valoriza não mais o ser, mas o ter e o aparecer. A vida é um show em que as melhores imagens não podem ser perdidas. O espetáculo nesta sociedade em que a economia não é mais um meio, mas um fim, é uma verdadeira religião terrena e material. Ele trabalha as emoções e desejos da sociedade, reduzindo o pensamento reflexivo das pessoas e alienando-as por meio de produções midiáticas que as motivam a um comportamento hipnótico.
Em 1967, Debord toca na questão política e na divisão do mundo entre capitalistas e comunistas, distinguindo, então, dois tipos de espetáculo, que ele chama de “difundido”, para o tipo ocidental e “democrático”, e o “concentrado.” O primeiro seria aquele caracterizado pela abundância de mercadoria e produtos e uma aparente liberdade de escolha. O segundo seria o existente nos regimes totalitários, no qual a identificação com o poder era imposta a todos os indivíduos. Mas estes dois tipos de espetáculo cederam lugar a um tipo único: o “integrado”. A sociedade foi remodelada sob a máscara da democracia, segundo a própria imagem.
Nesta sociedade, em que “a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real” (DEBORD, 1997, p. 15), é justamente este espetáculo que vai definir as prioridades do que se conhece e sobre o que se deve pensar. O que é bom vai aparecer e o que aparece será considerado bom. Além disso, o espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo, formando-se, então, uma sociedade fundamentalmente espetaculista.
Nunca a tirania das imagens e a submissão ao império da mídia foram tão marcantes quanto agora, porque a imagem passou a ser dominante em todos os setores, seja na arte, na
economia, na política, enfim, em tudo. Hoje existe muito mais interatividade entre meios de comunicações e espectadores/leitores do que na década de 1960. Então, a mídia, muitas vezes, nos orienta sobre o que pensar e como estabelecer modelos na sociedade contemporânea do espetáculo, do descartável, do instantâneo. “O espetáculo [...], com suas formas dramáticas e sensacionalistas, produz identidades e sentimentos, numa hierarquização de temas entre os que são de interesse público e os que não se enquadram em tal categoria” (FREITAS, 2004, p. 71).
A relação do homem com o mundo passa a ser pela midiatização. Os veículos da mídia, por sua vez, se especializam e criam discursos diferentes de acordo com cada classe diferente a que se destinam. O jornalismo popular insere-se na sociedade do espetáculo por assuntos-show que causem comoção no leitor. Ele enfatiza assuntos de interesse humano, que são personalizados e descontextualizados, assumindo, desta maneira, a função de entretenimento e espetacularização.
Amaral (2005, p. 7) diz que a matriz dramática à qual está ligada o jornalismo popular da grande imprensa tem uma linguagem baseada em imagens, sendo pobre em conceitos, e, com os conflitos histórico-sociais apresentados como interpessoais. A estética é a sensacionalista e a melodramática. Maria da Consolação Guedes, que também pesquisa o “Super Notícia”, chama atenção para as características da espetacularização neste periódico:
A chamada sociedade espetacular dissemina seus produtos, principalmente, através de mecanismos culturais de lazer e consumo, serviços e entretenimentos regulamentados pelos critérios da publicidade e de uma cultura da mídia comercializada. Os produtos midiáticos são feitos para serem consumidos por um público cada vez maior, ou seja, massivamente. Nessa lógica, podemos exemplificar com o Super Notícia, que tem um preço acessível e formato tabloide que facilita a leitura e manuseio, assim como um layout agradável e colorido, além de brindes e sorteios para seus leitores (GUEDES, 2010, p. 39).
Para se aproximar do nosso objeto, tanto no que diz respeito ao sensacionalismo quanto à espetacularização, precisamos pensar se, mesmo com todas as modificações deste tipo de imprensa, se ainda há uma valorização destes fatores ao se narrarem as ações da PMMG no “Super”. Que ações são midiatizadas, já que a imprensa não se interessa por todas as manobras policiais diárias, enquanto outras contra determinados tipos de crimes considerados repugnantes pela sociedade ou quando o próprio policial é o agente deste comportamento desviante, principalmente se estamos falando de um fait divers, são manchetes.
3. POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS E “SUPER NOTÍCIA”: FONTE E