2.4 Totality-based observational equivalence
3.1.2 Experiments and interpretation
Em função da chegada dos europeus na América, uma abertura de pensamento fez-se necessária para compreender a presença de um Novo Continente. Romper com o conhecimento teológico-científico, com resquícios medievais, fez-se necessário, além de desafiar o mito de origem da humanidade ao evidenciar a presença de habitantes no novo território. Dessa forma, a nova geografia e o nativo americano passaram a ser um problema de compreensão para os habitantes do mundo moderno, pois, segundo Benito Mendez Fernandez (1993)
…era lógico pensar que los “indios” de América no pertenecieran a la especia humana. Se confirma de ese modo la convicción de que la existencia de Antípodas era imposible, y, si existían, no podían ser hombre. (Fernandez, 1993, p.38).
A suposição da existência das Antípodas remonta à Antiguidade Clássica Grega e é retomada na Idade Média, dentro de uma lógica de simetria e balanço da terra. Logo, supõem-se a existência de terras opostas equivalentes. Contudo, a crença na presença de homens nesse território ao Sul não é possível, pois o cristianismo construiu a ideia de uma origem única do homem, e este ainda não havia cruzado o oceano. Como já havia destacado Santo Agostinho:
seria demasiado inverossímil afirmar-se que alguns homens tenham podido navegar através da imensidade do Oceano até chegarem à outra parte onde também se teria estabelecido o género humano procedente do primeiro e único homem (Agostinho, 2000, p. 1477).
Logo, os nativos não poderiam ser homens. Contudo, havia um imaginário acerca da presença de seres que habitavam as possíveis Antípodas, e estes tinham uma vida quotidiana ao revés da vida no hemisfério norte, ou seja, tudo seria o oposto do que era vivenciado na Europa, Ásia e África. Entretanto, mesmo que as ditas terras antípodas existissem, por uma questão de compreensão de mundo à época, era impossível crer que no novo território houvesse homens. Com a confirmação da existência de terras em outro continente, e a presença de homens neste, rompe-se com esta visão tripartite da terra e novos desafios estão postos para o europeu:
a entrada en escena de la existencia de seres humanos que no habían estado en contacto con el Evangelio, hizo necesaria la reflexión sobre el hombre mismo, sus posibilidades naturales y la responsabilidad ante su destino en una situación que no había sido prevista. (Fernandez, 1993, p.18).
Enquanto a tradição clássica concebia o homem pela sua capacidade de raciocínio, a tradição cristã o definia de acordo com sua capacidade de receber a
graça divina (Fernandez, 1993, p.38). Nesse sentido, o cristão era definido a partir desta dupla tradição, não havendo um espaço lógico para enquadrar os indígenas, pois estes estariam apartados do restante da cristandade. Além disso, os cristãos europeus teriam o dever de civilizar e converter ao cristianismo os nativos. Para lograr êxito no processo de conversão, era necessário conhecer o indígena, e para tanto, era necessário conhecê-lo minimamente, sobretudo para os primeiros colonizadores. O filósofo e linguista Tzvetan Todorov (1983) se questiona sobre a coexistência de dois mitos contraditórios em Cristóvão Colombo ao tentar caracterizar os indígenas: “um em que o outro é um ‘bom selvagem’ (quando é visto de longe), e o outro em que é um ‘cão imundo’, escravo em potencial?” (Todorov, 1983, p.68). Contudo, a visão acerca do homem inesperado passa por pelo menos dois momentos de interpretação, um primeiro que nega sua humanidade e capacidade de converter-se em cristão, e um segundo, oposto a este, que visa estabelecer pontos de contato entre a natureza humana e sua bondade, para estabelecer elos passíveis de serem utilizados como ferramenta de conversão. Porém ambas denotam uma base comum,
...que é o desconhecimento dos índios, a recusa em admitir que sejam sujeitos com os mesmos direitos que ele, mas diferentes. Colombo descobriu a América, mas não os americanos. (Todorov, 1983, p.68).
A dicotomia de Colombo, apresentada por Todorov, acerca dos nativos serem bons, embora selvagens, ou maus e raivosos é fruto não somente do desconhecimento dos europeus que efetuaram o contato, mas também dos intelectuais que não tiveram contato com o Novo Mundo, mas buscavam dar explicações racionais e rápidas acerca de tais relações. Isso ocorre, sobretudo, com os primeiros intelectuais da escola de Salamanca que, em um primeiro momento, buscam compreender o nativo para instruir os colonizadores de como agir frente aos indígenas. Em um segundo momento, visam informar os europeus acerca dos nativos e do Novo Mundo e propor melhorias no processo de conquista. Isso ocorreu sobretudo após a ida de alguns destes intelectuais à América, que ao retornarem apresentaram relatos que, em muitos casos, confirmavam o imaginário que gostariam de encontrar, fruto da construção dos primeiros intelectuais.
“Encontraron bárbaros y primitivos (porque esperaban encontrarlos) a sus habitantes” (Elliot, 1972, p.40). Em outros casos, expuseram realidades difíceis de serem admitidas pelos espanhóis, como os abusos cometidos pelos colonos com os indígenas, além da ineficiência no que toca à conversão dos grupos americanos. Compreender, informar e classificar faz com que os europeus construam sua identidade a partir de um sistema classificatório onde se “aplica um princípio de diferença a uma população de uma tal forma capaz de dividi-la (e a todas as suas características) em ao menos dois grupos opostos – nós/eles; eu/outro” (Woodward, et. All. 2000, p.40). Todorov aponta que Colombo fez uma discreta classificação entre dois grupos de nativos:
entre índios inocentes, cristãos em potencial, e índios idólatras, praticantes do canibalismo; ou índios pacíficos (que se submetem ao poder dele) e índios belicosos, que merecem por isso ser punidos; mas o importante é que aqueles que ainda não são cristãos só podem ser escravos: não há uma terceira possibilidade. (Todorov, 1983, p.64).
Essa divisão, em muitos casos, acaba polarizando os grupos classificados em polos positivos e negativos, a fim de facilitar o processo de civilização e conversão destes grupos. Esse processo também ocorreu no contato com a América, onde o discurso acerca do indígena foi construído sob dois grupos, como veremos a seguir.