humanidade
Quando muitos capoeiras4 brasileiros começaram a sair
do país, a partir do início da década de 1970, para trabalhar em grupos folclóricos no exterior, em busca de apoio e reco- nhecimento, não tinham ideia da magnitude que esse fenôme- no viria a ter três décadas mais tarde. No início, tudo era muito difícil e a rua era, frequentemente, o único espaço que eles encontravam para expressar sua arte ou para manter contatos com outros artistas do cotidiano, como palhaços e malabaris- tas das mais diversas origens.
O principal motivo da saída do Brasil de uma “avalanche” de mestres, professores e iniciados em capoeira para o exterior é determinado por fatores econômicos e está relacionado com a busca de melhores opções de trabalho, reconhecimento e prestígio. Se, no Brasil, a mensalidade para se fazer aulas de capoeira três vezes por semana oscila em torno de R$ 30,00 (o equivalente a US$ 10), nas principais cidades norte-america- nas e europeias esse valor corresponde a apenas uma hora de atividade. Para fazer apenas uma aula de capoeira na Acade- mia Alvin Alley Ballet, em Nova York, com a Mestra brasileira Edna Lima, o interessado tem que pagar US$ 20 (SANTANA, 2001, p. 7).
Esse movimento de expansão, motivado por inúmeros in- teresses, alguns legítimos outros não, mesmo assim traz consequências inusitadas para a capoeira e é visto, por muitos,
4 Para designar os(as) agentes da capoeira (praticantes, mestres(as), professores(as), militantes, etc.), será
utilizado o termo capoeira em detrimento do termo capoeirista, por entendermos que o primeiro tem na cultura o seu campo privilegiado de ação, enquanto que o termo capoeirista sugere uma intervenção mais específica, mais especializada, típica do(a) especialista.
como algo sedutor, embora venha causando inquietações por parte de pessoas preocupadas com a “manutenção” das suas tradições. Se, por um lado, muitos alegam que isso vem contri- buindo para o distanciamento dos princípios e valores que de- legaram à capoeira um emblema de “luta de resistência” con- tra a exploração, por outro, muitos consideram que esse pro- cesso está contribuindo para a valorização das referências cul- turais africanas e para despertar um interesse maior pelo Brasil e pela cultura brasileira.
Alguns analistas apregoam que, nos EUA, a capoeira tem contribuído, também, para revitalizar o elo entre os negros nor- te-americanos e a África, cuja relação foi abalada pelo proces- so violento de segregação desencadeado em séculos passados. Na busca desse “elo perdido”, muitos norte-americanos vêm para o Brasil com o objetivo de “beber na fonte” e procuram conhecer os mestres mais representativos dessa arte-luta.
Convém destacar que outro interesse marcante dos estran- geiros pela capoeira se desdobra imediatamente em dois dese- jos, conhecer o Brasil e falar o português. Esses interesses se originam do contato com mestres e professores que ministram aulas no exterior que, em busca de um apelo ao mais “tradici- onal”, fazem questão de se expressar no idioma português. Fa- lar português nas aulas de capoeira é um requisito que opera como uma espécie de “selo de qualidade” e vem contribuindo para abrir campos de trabalhos antes impensáveis. Em decor- rência da demanda provocada pela capoeira nos EUA, O Hunter College, uma das mais tradicionais faculdades de Nova York, já oferece cursos regulares de português (NUNES, 2001, p. 3).
O movimento de difusão da capoeira no contexto mundi- al é mais visível e intenso em direção aos Estados Unidos e à Europa. Com raras exceções, comprometidas politicamente em
desenvolver trabalhos de “retorno” dessa arte-luta à África, a mai- oria das iniciativas se destina aos países centrais do capitalismo.
Essa exportação não convencional (na forma de um sím- bolo étnico), que se expressa pelo movimento de saída de ca- poeiras do Brasil para trabalhar em outros países, assume di- mensões complexas e controvertidas. Uma delas que convém referenciar é que há muitos capoeiras acompanhando a tendên- cia de muitos jovens e trabalhadores de países empobrecidos, que buscam melhorias econômicas vendendo sua força de tra- balho de forma precária em países de capitalismo central.
Nesse movimento complexo, a capoeira vem se inserindo de forma cada vez mais abrangente em vários setores da co- munidade internacional. Como consequência, é possível iden- tificar alguns traços culturais da capoeira, tais como a oralidade, o improviso e a “mandinga”, que são subestimados para dar lugar a outras categorias mais “sintonizadas” com o momento atual, tais como: “mercadoria étnica”, “folia de espírito”, “ma- lhação” e “espetacularização”, etc. (VASSALLO, 2003).
O abandono de determinados rituais considerados "tradi- cionais", os quais exercem um poder simbólico muito forte nes- se contexto, é outro aspecto que desagrada experimentados capoeiras incomodados com alguns processos de transforma- ção dessa arte-luta.
No momento presencia-se a expansão da cultura brasilei- ra no mundo, e a capoeira insere-se como um dos componen- tes desse processo. O fato é que ela vem se expandindo em escala geométrica por todo o globo, e o incremento desse mo- vimento de internacionalização tem ocorrido em comunhão com outros símbolos da cultura brasileira, como o carnaval, o sam- ba, o pagode, etc. É possível afirmar que essa expansão da cultura brasileira se constrói sob os ditames da “globalização
econômica”, que produz uma brasilidade idealizada, construída por cima e ao largo das gritantes diferenças culturais e econô- micas que moldam a realidade concreta do povo brasileiro. Nessa direção, observa-se a disseminação mundial da cultura brasileira, empobrecida de reflexão crítica frente à globalização econômica, em busca de novos mercados para seus produtos culturais.