As afirmações de Josef Pieper sobre o mundo aparecem no conjunto da resposta à pergunta “o que é filosofar”. Entretanto, tal pergunta encontra sua radicalidade quando o filósofo indica que ela aponta diretamente para a essência do ser humano. (PIEPER, 2007, p. 07) Perguntar pelo ato do filosofar implica em reconhecer que um certo jeito de ser homem e mulher52 o sustenta, como indicarei. A resposta à referida pergunta, dirá o filósofo, não será uma “verdade acabada” (p. 08), o que justifica que anuncie, logo no início a necessidade de tratar, mais adiante, do que chama de “estrutura de esperança da filosofia” (p. 08). Seguramente, a impossibilidade de uma resposta final se explica pela própria implicação antropológica da pergunta e o reconhecimento da condição de inacabamento do ser humano.
anuncia em dimensões: cotidiano como referência à vida prática, a uma existência situada e, por fim, como encontro com o outro. Cf. DORIA, Francisco Antonio. O corpo e a existência. Rio de Janeiro: Vozes, 1972. Afirme-se desde já que o cotidiano não será tomado em sentido negativo como sendo o lugar da mesmice e de uma experiência que precise ser rompida por uma consciência ou de uma vida superficial, imediatista e manipuladora ou como algo que se refere exclusivamente ao que é útil, tal como defendem Carvalho e Netto. Cf. CARVALHO, Maria do Carmo Brant de, NETTO, José Paulo. Cotidiano: conhecimento e crítica. São Paulo: Cortez, 1994, p. 23-29. O cotidiano é o lugar da permanência de ser de certo jeito, bem como, o lugar de esboçar e constituir outros modos situados de ser.
52 A compreensão de homem e mulher de Josef Pieper não aparece junto do discurso sobre o corpo de Merleau -
Ponty e Adélia Prado, na parte inicial dessa reflexão, não por falta de convergência, mas porque ele está, de algum modo subentendido na reflexão que procura responder a pergunta sobre o filosofar. O filósofo não se ocupa em desenvolver, em detalhes como faz Merleau-Ponty, uma reflexão sobre o corpo ou o ser humano. Como se verá, a compreensão antropológica de Pieper reconhece a condição de criação de si mesmo e do mundo, fruto da admiração, da liberdade e da sua condição de inacabamento. É importante dar este destaque, porque a ausência de um discurso sobre o corpo não é ignorância dele. Toda a argumentação do filósofo consiste em vincular o ato filosófico a uma experiência humana num mundo que ele cria. Um elemento que merece destaque para assinalar a convergência acima indicada é a disposição, segundo defende Pieper, do ser humano para a totalidade. (2007, p. 67) Luiz Jean Lauand enfatiza a estreita ligação da reflexão sobre o filosofar e a antropologia na obra de Pieper quando afirma que a abertura para o todo, próprio do filosofar, expressa a natureza humana (Cf. LAUAND, Luiz Jean. Método e Linguagem no Pensamento de Josef Pieper - notas de conferência proferida no congresso
internacional: "Josef Pieper e o pensamiento contemporáneo", Buenos Aires, agosto de 2004; disponível em:
http://www.hottopos.com/videtur29/ljargport.htm; último acesso: fevereiro de 2017) Já apresentei que Merleau- Ponty, desde o prefácio da obra que aprecio, apresenta o corpo como fonte absoluta de onde o sentido do mundo e do próprio corpo brota. Adélia Prado, por sua vez, afirma o corpo como essa coisa bonita, essa coisa fora de série, a partir da qual a experiência do mundo é possível; mesmo a experiência religiosa é vivida no corpo. Há, portanto, certo reconhecimento da condição de abertura do corpo para o mundo, para o todo, de que o corpo é o lugar onde todas as coisas do mundo encontram um enfeixamento de sentido, lugar onde as coisas particulares encontram a sua unidade com a totalidade.
- 99 - As considerações sobre o filosofar começam indicando que se trata do ultrapassamento do mundo do trabalho (p. 08). Esse é uma referência ao “mundo da utilização, da necessidade”, o lugar que é regido pela utilidade comum (p. 08).
As primeiras advertências do filósofo são imediatamente apresentadas. A primeira chama à atenção que a “utilidade comum” não pode ser igualada ao “bonum commune”, posto que sendo mais geral, acolhe outras dimensões do viver que não são regidas pela utilidade, tal como, a contemplação, a meditação e o próprio filosofar (p. 08). A outra advertência é que, a despeito da condição mais geral do “bonum commune”, a utilidade comum, o mundo do trabalho avança para ser o “mundo em geral” (p. 09). Trata-se de uma pretensão de transformação do mundo cotidiano do trabalho na totalidade do mundo, numa determinação de “toda a esfera da existência humana.” (p. 09)
A totalização do mundo do trabalho é a impossibilidade do filosofar autêntico e da própria filosofia, dirá Pieper, posto que, sendo incomensurável o exercício filosófico, não poderá ceder ao “bonum utile” da utilidade comum, posto que a ele não pertence. (p. 09) Por isso mesmo, mais adiante dirá que o filosofar não está disponível para fins (p. 17).
Não defende o filósofo que o ultrapassamento do mundo do trabalho que a filosofia deve realizar, é a completa negação do mundo, posto que reconhece que o mundo cotidiano do trabalho “pertence essencialmente ao mundo do homem”, lugar onde são forjados os elementos que sustentam a existência física do ser humano (p. 10). A questão do filosofar é apenas incomensurável para este mundo marcado pelas demandas da necessidade, ultrapassando-a com as perguntas que transtornam o fluxo do atendimento das demandas da existência física.
Além da filosofia, a poesia, a experiência religiosa, a proximidade da morte, o Eros53 poderão gerar o que o filósofo chama de profundo abalo existencial54 que altera as relações com
53 É adequado referir-me à convergência que há com a obra de Adélia Prado, especialmente, por afirmar que a
morte, a fé ou Deus e o sexo são elementos fundamentais para mover os homens e mulheres. Para usar a linguagem de Pieper, eles servem para abalar o modo como se vive, tal como propõe o filósofo. Na entrevista que concedeu em 2014 ao programa Roda Viva, à qual vou me referir mais adiante, a poeta afirma que o sofrimento é a possibilidade de criar mais consciência, onde vejo forte proximidade com as afirmações do filósofo sobre o abalo existencial. No texto que segue a relação entre morte, sexo e fé na obra de Adélia Prado é tratada. Cf. OLIVEIRA, Cleide Maria de. Erotismo, mística e morte: a tríade adeliana. Horizonte, Belo Horizonte, v. 10, n. 25, p. 105- 120, jan./mar. 2012. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175- 5841.2012v10n25p104/3562. Último acesso: abril de 2017.
54 Outra advertência do filósofo que apenas indicarei é que esse abalo se dará mediante a autenticidade do ato
filosófico, poético, etc. Trata-se de reconhecer que há filosofias que aparentemente ultrapassam o mundo cotidiano do trabalho, não promovendo, de fato, a transcendência já apontada. São pseudofilosofias que se rendem ao mundo do trabalho, colaboram com a sua totalização e se convertem em filosofia sem esperança, sem transcendência. (p. 13-16)
- 100 - o mundo quando “o homem experimenta a não-conclusividade desse mundo cotidiano: transcende-o, dá um passo além dele.” (p. 12) Como escreve Adélia Prado:
No cemitério é bom de passear. A vida perde a estridência,
o mau gosto ampara-nos das dilacerações. (1978, p. 48)
Note-se imediatamente as bases antropológicas do ato do filosofar: o abalo existencial que permite ver o mundo cotidiano como não acabado, reaviva a própria condição de inacabamento do ser humano, a tarefa que lhe está posta de forjar a si mesmo. Inevitável afirmar a dimensão antropológica do ato de filosofar quando, em oposição à pseudofilosofia – bem como a pseudoarte, pseudopoesia -, Pieper afirma a condição de liberdade da filosofia: o ser humano abalado, diante da descoberta de um mundo que ocultou a sua contingência e que, agora se mostra em construção, dá-se conta não apenas da sua condição “poiética”, mas igualmente, da liberdade que a sustenta.
O filosofar autêntico flerta com a liberdade; talvez seja mais adequado dizer que se alimenta da liberdade. Por isso o filosofar autêntico é inútil “no sentido de aproveitamento e aplicação imediatos” (PIEPER, 2007, p. 17), bem como, “no fato de a filosofia não se deixar usar, de não ser disponível para fins que estejam fora dela mesma, de ser ela mesma um fim. A filosofia não é um saber de funcionário (...), mas um saber de gentleman.” (p. 17)
Para manter a ênfase na dimensão antropológica do ato do filosofar, é adequado indicar que a liberdade é a recusa de reduzir o existir e, por consequência o filosofar, ao que é necessário, à sobrevivência o que representaria a degeneração mesma do ser humano e do ato do filosofar. A transcendência do mundo do cotidiano do trabalho de que trata Pieper, bem se alinha com a transcendência do sentido, da experiência perceptiva de que trata Merleau-Ponty e com o corpo que se assentando no alpendre do viver, deixando-se apaixonar pelo mundo todos os dias, afetado pelo seu lugar, olha a pedra e vê mais que pedra, como diz Adélia Prado no poema “Paixão” (1978, p. 75).
A liberdade do filosofar, dirá Pieper “significa que o saber filosófico não recebe legitimação a partir de sua utilidade e de sua aplicabilidade, de sua função social, de sua referência à “utilidade comum”.” (PIEPER, 2007, p. 17) A liberdade do filosofar é “liberdade entendida como não-disponibilidade para fins.” (p. 18) É a liberdade que alimenta a alegria da contemplação, tal como escreve Adélia Prado, e de escapar de uma vida regida pelo útil.
- 101 - Irmã Agnes alegra-se de ver o Rei e pronto, sai voando. É mais ou menos, quero dizer, é muito mais que quando Ramou apareceu. Me contentava de olhar ele, olhava, olhava, olhava, se pudesse olhava até o fim dos tempos. Os contemplativos têm muito lucro de deixar tudo e ir para o eremitério. Estão livres de procurar roupa pra irem em casamento, de pagar prestação, de se cansar com vendedor boçal fazendo discurso sobre manga raglan e alisando meu ombro como se eu fosse idiota, livres para dormir com o bem-amado deles, sem acordar para fazer café, botar o lixo pra fora, avisar no jornal que perdeu a carteira com documento e dinheiro. (1992, p. 141)
Não se deverá entender, como já indiquei, que a filosofia não guarde relações com o bem comum ou, como, desprende das afirmações da poeta, que não nos preocuparemos mais, em definitivo, com o café da manhã, com o lixo que precisa ser retirado: o que se recusa é que o ato do filosofar seja regido ou regulado por ele. Diz Pieper:
Não como se não houvesse mais nenhuma relação entre a realização do bem comum e a filosofia ensinada nas nuvens! Porém: essa relação não pode ser formada e regulada pelo administrador do bem comum. Aquilo que possui em si mesmo seu sentido e seu fim, o que é ele mesmo fim, não pode se tornar meio para um outro fim – tal como não se pode amar alguém “para que” ou “a fim de que”! (p. 19)
Curiosamente, as considerações seguintes sobre a filosofia explicitarão a relação do filosofar com o mundo. Ao afirmar a liberdade própria do ato de filosofar, que sustenta a transcendência do mundo cotidiano do trabalho e sua pretensão de totalização, Josef Pieper dirá que “filosofar é a forma mais pura do theorein, do speculari, do puro olhar receptivo sobre a realidade, no qual só as coisas dão as medidas e a alma é exclusivamente receptora destas.” (p. 19) O fazer teórico da filosofia é a afirmação do mundo, o reconhecimento da condição criadora do mundo e, por fim, a própria possibilidade do ato filosófico. O teórico, a que se refere o filósofo, aponta para olhar o mundo, para a contemplação ou, como já indicou anteriormente, para a admiração, o mirandum55 de que trata Aristóteles e São Tomás de Aquino (p. 12).
55 Lauand, tratando da relação entre o filosofar e o ato poético afirma que a admiração é o princípio da filosofia e
da poesia, desde o pensamento de Pieper. (Cf. LAUAND, Luiz Jean. O Filósofo e o Poeta - (originalmente, “Que há de comum entre estes dois senhores? ” e “Filosofia e Poesia”, artigo publicados no Jornal da Tarde, resp. 15-8- 81 e 19-6-82); disponível em: http://www.hottopos.com/geral/naftalina/poet.htm; último acesso: fevereiro de 2017.) A menção a esta afirmação é importante, pois a tradução do livro O que é filosofar, de Josef Pieper anota que a admiração é o início ou o começo do filosofar (2007, p. 41), enquanto a palavra princípio aponta para uma
- 102 - Teórico, nomeadamente neste sentido pleno (visando de modo puramente receptivo, sem vestígios de uma intenção de transformar as coisas, antes, precisamente ao contrário, pronto pra fazer depender o sim e o não da vontade unicamente da realidade do ser que se manifesta no conhecimento da essência) -, teórico, nesse sentido não enfraquecido, só poderá ser o olhar humano quando o ente, o mundo for-lhe algo mais do que o campo, o material, a matéria-prima da atividade humana. Teoricamente, no sentido pleno, poderá olhar na realidade somente aquele para quem o mundo é de algum modo digno de veneração, criação final em sentido estrito. Somente nesse solo germina o “puramente-teórico” pertencente à essência da filosofia. Desse modo, seria uma união última e profunda, mediante a qual a liberdade do filosofar e, portanto, o filosofar mesmo tornam-se intimamente possíveis! (p. 20)
Eis aqui mais um elemento que mostra a convergência das reflexões de Josef Pieper sobre o filosofar e a relação com a admiração do mundo, com a percepção, o sentido, do corpo próprio, de que trata Merleau-Ponty e do ser humano que passa a roupa por causa de algo maior, o reino dos céus, como escreve Adélia Prado. Transcendência não é fuga do mundo56, uma negação da objetividade do viver – “essa tese, na qual de modo inclusivo tanto a liberdade como o caráter teórico da filosofia são afirmados, não nega o mundo do trabalho (...)” (PIEPER, 2007, p. 21), mas uma afirmação de uma dimensão mais profunda da vivência humana que constrói mundos humanos, que reinventa os mundos humanos como expressão da sua liberdade, da ampliação do sentido. O filosofar, ancorado na liberdade, é um exercício teórico de olhar o mundo como quem o reconhece como criação. Essa é a condição mesma da teoria: “se o mundo não é mais visto como criação, então não pode haver mais theoria em sentido pleno.” (2007, p. 21) A ampliação de sentido, de que trata a fenomenologia, igualmente, é possível pelo reconhecimento de que o mundo não está plenamente apreendido, como indicarei, o que justifica a ele retornar, para reviver um contato com o mundo como se fosse a primeira vez. O corpo próprio evoca um mundo; o inacabamento do ser humano e a possibilidade de transcender o mundo do trabalho, condições do ato de filosofar, anuncia a admiração do mundo; corpo que
força que rege e permanece regendo desde dentro não sendo, portanto, apenas um começo. É só mais adiante que um esclarecimento sobre o initium e o principium aparece na obra de Pieper (p. 45).
56 Talvez isso explique o estranhamento da poeta com Platão anunciado num dos versos do poema “Uns outros
nomes de poesia”:
Toda vida resisti a Platão, a seus ombros largos, a sua república aleijada, donde exilou os poetas. Contudo, erros de tradução são ordinários, eu não sei grego,
eu não comi com ele um saco de sal. Por isso o que ele disse e o que eu digo é carne dada às feras,
- 103 - confere à casa, à velhice, à religiosidade um valor existencial afirma a sua inevitável ligação com o cotidiano.
Seguramente, como mostrarei, o cotidiano na obra de Adélia Prado, também é convite para a admiração do mundo, tal como se lê no poema “Janela”. Note-se que abrir a janela não é uma metáfora para fugir do cotidiano, mas um outro modo de tocá-lo (meu pé esbarra no chão), a reafirmação da disponibilidade ver para o mundo.
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela. Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada, janela jeca, de azul.
Eu pulo você por dentro e pra fora, monto a cavalo em você, meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi o casamento de Anita esperando neném, a mãe do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis. Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração. (PRADO, 2012, p. 105)
Se o filosofar é o ultrapassamento do mundo do trabalho a pergunta que Pieper apresenta, na continuação da reflexão, e a resposta que se segue, merece destaque: “para onde vai o filosofante ao transcender o mundo do trabalho?” (PIEPER, 2007, p. 23) As demais questões apresentam outros elementos, tais como se o mundo ultrapassado é o inautêntico e o campo da filosofia o autêntico; se esse ultrapassamento estabelece uma relação entre a parte e o todo, entre outras. A resposta do filósofo segue apontando para o mundo, em particular para a relação ser humanomundo:
Seja qual for a resposta dada a essas questões particulares, em todo caso ambos os campos, o do mundo do trabalho e aquele no qual o ato filosófico avança ao ultrapassar o mundo do trabalho, pertencem ao mundo do homem, que portanto possui uma estrutura evidentemente articulada de modo poliédrico. (p. 23)
A discussão sobre o sentido do filosofar, como já indiquei, aponta para uma certa compreensão do ser humano e para um jeito de habitar o mundo que faz deste, mundo do
- 104 - homem. E para Pieper isso significa dizer que o ser humano, diferentemente dos objetos, estabelece relação com o mundo que, segundo o filósofo, “há relação onde há um interior, portanto, um centro dinâmico a partir do qual toda ação surge e ao qual se refere tudo o que se recebe e sofre.” (p. 24) Pieper se refere ao mundo, tal como o faz Merleau-Ponty, como o campo de relação.
O ser humano possui um mundo, posto que, desde si é capaz de relação com o mundo. O seu “dentro”, como dirá Pieper, “significa a capacidade de relação e de inclusão.” (p. 24) Tal como já indiquei sobre a espacialidade e a temporalidade do corpo próprio em Merleau-Ponty e o que ainda apresentarei sobre o mundo vivido, aponta para o mesmo rumo de Pieper quando destaca que a presença do ser humano no mundo57 é distinta quando comparada aos objetos.
Dirá Pieper que “quanto mais alto o lugar do ser-interior, ou seja, quanto mais extensa e abrangente for uma capacidade de relação58, tanto mais amplo e elevado será o campo de relação submetido a esse ser.” (p. 25) Por isso mesmo, à rigor, só o ser humano possui um mundo. No que tange aos animais, o mais correto será dizer que possuem um meio ambiente, que é um meio restrito de vivência dos animais, mas que segue “determinada e limitada mediante a finalidade biológica” (p. 27). Mesmo que os homens e mulheres desejem não podem escapar da possibilidade de criar mundos. Escreve Adélia Prado: “Vaca não escolhe, cumpre. Eu a invejo e peço a Deus que escolha pra mim.” (2007b, p. 28)
O campo de relação do animal não é o seu ao redor, menos ainda o seu mundo, mas seu “meio ambiente” neste sentido determinado: um mundo no qual algo é deixado de fora, um meio recortado, no qual seu possuidor ao mesmo tempo está adaptado e trancado. (PIEPER, 2007, p. 27)
Mesmo reconhecendo que, de algum modo, também o ser humano está envolvido pelas limitações das demandas biológicas, ele as transcende por conta da sua capacidade do
57 Merleau-Ponty, na obra que tomo como principal referência, não se ocupará, como o faz Pieper, de mostrar que
há níveis de relação com o mundo, por exemplo, das plantas e animais. Como mostrarei, o filósofo quer mostrar a abrangência do mundo do ser humano ao tratar do mundo da planta ou do animal, mais propriamente dito, meio ambiente. Na obra de Merleau-Ponty a radicalidade do corpo próprio permite afirmar que um “mundo” da planta ou dos animais se configura na experiência perceptiva do corpo próprio. É na relação corpomundo que a presença das coisas no mundo assume seu sentido. É o corpo que ali reconhece uma presença distinta da sua no mundo. Ao fazer essa anotação não pretendo justificar a ausência do tema em Merleau-Ponty ou indicar que a reflexão de Pieper ignora que o mundo da planta o é para um corpo. Trata-se apenas de realçar que os dois filósofos, a seu modo, reconhecem a singularidade e a grandiosidade da presença do ser humano, uma vez que este cria mundos nas relações que estabelece com o mundo.
58 A capacidade das plantas, dirá Pieper, está restrita à proximidade de contato e, por isso, é o mundo mais inferior
- 105 - conhecimento espiritual, entendendo por isso a “faculdade de se colocar em relação com a totalidade das coisas existentes.” (p. 28) Trata-se da capacidade humana de estabelecer relação que se encaminha para a totalidade do ser (p. 28).
O espírito, segundo sua essência, não é determinado tanto pela característica da não-corporeidade, mas primariamente pela capacidade de relação direcionada à totalidade do ser. Espírito, significa uma faculdade de relação com tal amplidão e tal abrangência de força, que o campo de relação associado