GOTAD’ÁGUA
discutem os moradores pobres da “Vila-do-Meio-Dia” – quanto pelos críticos dessa obra de Chico Buarque e Paulo Pontes.
As visões destes últimos especialistas quanto o quê seria um espetáculo popular determinam o resultado da recepção de Gota D’água: a idéia de ter sido “populista” e não voltada realmente para o “povo”, além de conter uma apresentação “comercial”. Por esse aspecto, foram as determinações dos críticos – idéias historicamente vividas e construídas ao longo do processo – que fundamentaram escritas e retaliações à obra.
Há que se levar em conta que, tanto nas palavras do governo, quanto nas chamadas esquerdas, a alegação sobre um “povo brasileiro” sempre foi um ponto de forte reflexão, defesa, ou polêmica. Por sob o discurso dos militares, houve uma preocupação que surgia desde os anos de 1960 e se realizou na década posterior: a criação dos chamados organismos protecionistas em relação à produção cultural – como o Plano de Ação Cultural (PAC) e Serviço Nacional de Teatro (SNT) –; e isso simbolizava, basicamente, a busca pela “segurança” e “identidade nacionais”.198
Quanto à discussão do conceito de “povo brasileiro”, observamos de forma clara que a apreensão do governo por uma efetivação de seus planos se justificava frente às obras artísticas, as quais se colocavam em oposição ao regime. Mas afinal, o que é o “povo”? O que é ser “popular”? E mais ainda: o que significa representar esse “popular” dentro da cultura?
O estudioso que criou e discutiu o difundido termo “nacional-popular” foi Antonio Gramsci. Para ele, um conceito imbuído de uma visão democrática, diferente da determinação autoritária do fascismo italiano ou de uma dominação burguesa; quando do pleno desenvolvimento da organização de sujeitos coletivos – que não se 198 Sob a tentativa de “erradicar a ameaça comunista no Brasil”, que simbolizava a traição “à soberania
nacional”, o governo militar criou uma política cultural para o país. Sustentava-se a idéia de seu controle sobre as produções que se realizavam, forjando a criação de uma “identidade” entre a população brasileira (nação/pátria); identidade essa realizada apenas no plano do discurso, por ser homogenizadora das diferenças sociais e por conjugar práticas que encobririam intenções de poder e hierarquia. Essas determinações da ditadura na área cultural se deveram sobretudo à uma reação contra os interesses da intelectualidade de esquerda na busca por uma revolução socialista – ainda no governo João Goulart –, momento em que desenvolveram-se projetos como os Centros Populares de Cultura (CPCs) com a União Nacional dos Estudantes (UNE). Sobre o assunto, Cf. HOLLANDA, Heloísa Buarque. Impressões de viagem – vanguarda e desbunde: 1960/1970. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981; ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985; MOSTAÇO, Edelço. O espetáculo autoritário – pontos, riscos, fragmentos críticos. São Paulo: Proposta Editorial, 1983; CHAUÍ, Marilena. O nacional e o popular na cultura brasileira (seminários). São Paulo: Brasiliense, 1983.
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
103 determinam nem pelos interesses públicos do Estado e nem pela singularidade dos indivíduos –, esfera chamada de “sociedade civil”. Nela, as ideologias políticas, sociais e culturais de seus “intelectuais orgânicos” (que se ligam à sua classe de origem ou de adoção) são múltiplas e disputam entre si, condição necessária para as transformações no campo social.199 Discutindo as questões de Gramsci, Marilena Chauí aponta que:
Na perspectiva gramsciana, o popular na cultura significa [...] a transfiguração expressiva de realidades vividas, conhecidas, reconhecíveis e identificáveis, cuja interpretação pelo artista e pelo povo coincidem. Essa transfiguração pode ser realizada tanto pelos intelectuais “que se identificam com o povo” quanto por aqueles que saem do próprio povo, na realidade de seus intelectuais orgânicos.200
Há que se levar em consideração que, para Gramsci, construir uma cultura popular não significa impor uma determinada identificação política. Como explicitado, ele compreende a diversidade de ideologias cuja existência faz-se necessário para as transformações sociais. Pensar desta maneira, segundo o autor, é procurar sempre combater a uma “hegemonia cultural”, ou seja, uma dominação no pensamento cultural – sobretudo na influência das idéias do capitalismo e sua concepção de universalidade e imutabilidade; ou seja, a sustentação de seu caráter como legítimo.
Ao analisar a tese gramsciana, Chauí reconhece sua validade dentro do seu espaço e tempo históricos. Os intelectuais, os quais seriam os artistas na perspectiva cultural, são orgânicos na medida em que sua ligação com as ideologias das chamadas “classes subalternas” é feita de tal maneira espontânea que condiz com a expressão desse “povo”. No entanto, ele pondera a existência das contradições sociais e avalia esse determinante como positivo para se considerar a sociedade sempre de forma mutável. Essa é a definição dos objetivos da “sociedade civil” para Gramsci, que Chauí parece não levar como ponto de análise significativo. Por esse aspecto, ao refletir sobre a produção cultural brasileira, ela retoma o ponto de vista da total identificação do artista com o povo e acaba por taxar a tentativa dos intelectuais como populista, uma vez que, para ela, não condiz com a coincidência de interesses entre as partes.
199 Sobre as idéias de Gramsci, Cf. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura.
Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979; e COUTINHO, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil – ensaios sobre idéias e formas. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990.
200 CHAUÍ, Marilena. O nacional e o popular na cultura brasileira (seminários). São Paulo:
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
Renato Ortiz, debatendo sobre o assunto, vai ainda afirmar que esta relação para Gramsci se faz “de baixo para cima”, uma vez que “emerge junto às classes subalternas”201 e que isso se daria de forma diferenciada para os intelectuais brasileiros, que a exemplo do próprio CPC (Centro Popular de Cultura), tantas vezes criticado por uma postura paternalista na procura pelo popular,202 vai se dar “de forma invertida”, ou seja, de cima para baixo. Ainda segundo Chauí:
[...] sua contribuição teórica mais decisiva [de Gramsci] foi, sem dúvida, a elaboração do conceito de nacional-popular, infelizmente usado pelas esquerdas brasileiras como uma espécie de vade-mecum, um catecismo do tipo dos “aparelhos ideológicos do Estado”, perdendo todo o vigor conceitual, isto é, a capacidade de sugerir perspectivas alternativas e historicamente enraizadas para a compreensão da Cultura Popular.203
As palavras de Chauí são claras da mesma forma como a maior parte da crítica e postura acadêmica em relação a produção teatral do Brasil. Tanto ela, quando Ortiz e muitos outros vão compreender a posição dos artistas brasileiros como símbolo de uma visão que vai de encontro aos planos ideológicos do governo, sobretudo o ditatorial, quando este, após o Ato Institucional número 5 de 1968, também vai utilizar do termo “nacional” e do “popular” para seus projetos já explicitados, tais quais a “segurança” e a “identidade nacionais”.
Mas é preciso apontar que, para os artistas da resistência democrática, utilizou- se das teorias de Gramsci quanto às idéias do nacional e do popular partindo da consideração da multiplicidade de ideologias sociais presentes, e, sobretudo, das contradições existentes. Para os artistas brasileiros, então, apesar de se basearem nas questões de Gramsci, há uma visão voltada para o próprio período histórico vivenciado no país, quando já se posicionam de maneira crítica às produções artísticas que realizaram nos final dos anos de 1950 e durante a maior parte da década de 1960, na qual a postura didática para com os trabalhadores, operários ou do campo era sistemática e revolucionária. Ao contrário, nos anos de 1970, as respostas não estavam
201 ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 73. 202 Sobre o CPC e o desenvolvimento das críticas formais que se determinou entre os estudiosos, Cf.
LEÃO, Thaís. Vianinha no centro popular de cultura (CPC da UNE): nacionalismo e militância política em Brasil – Versão Brasileira (1962). 2005. 154 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2005.
203 CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência – aspectos da cultura popular no Brasil. 3 ed. São
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
105 “prontas” e pré-determinadas, como apontam os críticos aos intelectuais brasileiros – entre eles os artistas que produziram Gota D’água –, os caminhos se encontravam “em aberto” e as tentativas pela melhoria social se modificaram com as dificuldades apresentadas tanto politicamente pela ditadura militar, quanto economicamente pelo capitalismo.
Todavia, para esses críticos, não há uma real tentativa, por parte da esquerda, de compreensão dos problemas do Brasil nos anos de 1960 e 1970, pois os artistas procuram uma fundamentação pedagógica na busca pela “conscientização das massas”. Nas argumentações de Ortiz: “O termo [cultura popular] se reveste portanto de uma nova conotação, significa sobretudo função política dirigida em relação ao povo.”204 A esquerda no país (sobretudo os artistas) ficam, assim, como os “pensadores”, responsáveis por esclarecer e encaminhar as camadas subalternas.
Segundo Thaís Leão, houve uma construção crítica que determinou, ao final dos anos de 1970 e começo dos anos de 1980, a produção teatral do Centro Popular de Cultura dentro da historiografia, revisada apenas na década de 1990, por alguns artistas do grupo e por historiadores preocupados com a sua determinação nos caminhos do teatro nacional. Foram apontamentos que abarcaram a esquerda de forma geral e, sobretudo, as atividades do Partido Comunista Brasileiro (o PCB), relacionando-as ao CPC.
A relação entre a crítica ao PCB e o conjunto de críticas escritas ao CPC pareceu-nos questão chave [...]. À crítica ao sindicalismo pré- 1964, estendida ao PCB, por uma interpretação que o considerava detentor de uma prática cupulista, alheia à organização das massas, atrelada ao Estado, reformista, conciliatória, etc. alia-se uma crítica ao CPC regida pela idéia de que esta experiência buscava construir uma arte para o povo: portanto não era realizada pelo próprio povo e, logo, se distanciava das bases.205
Como pode ser analisado nas palavras de Leão, não apenas em obras teatrais a exemplo de Gota D’água havia uma idéia sobre a peça ser “populista”.206 Toda uma 204 ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 72. 205 LEÃO, Thaís. Vianinha no centro popular de cultura (CPC da UNE): nacionalismo e militância
política em Brasil – Versão Brasileira (1962). 2005. 154 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2005, f. 61-62.
206 Esse direcionamento crítico ocorreu também nas análises sobre as produções do Centro Popular de
Cultura e os interesses de seus artistas, como foi explicitado; além do trabalho desenvolvido por grupos como o Arena. Os pesquisadores que revisitaram esses grupos, no final dos anos de 1970 e
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
postura crítica foi se cristalizando com o passar dos tempos, de modo a identificar esses fatores em produções tais quais as do CPC, interligando essas visões ao sindicalismo pré-1964.
Seja relacionando o posicionamento político com os feitos artísticos deste grupo, e, posteriormente, de companhias teatrais, foi justamente a crítica cênica que balizou o que ficou na determinação acadêmica sobre o tema da esquerda no Brasil, principalmente em se tratando dos artistas, os quais (como os próprios autores de Gota
D’água), vão utilizar da temática popular. Isso pode ser observado nas argumentações
de Heloísa Buarque de Hollanda em seu livro: “Impressões de viagem”, escrito em 1980, sob o intuito de construir um balanço histórico acerca das produções teatrais do país. Sobre o CPC, ela vai dizer: “Ao reivindicar para o intelectual um lugar ao lado do
povo, não apenas se faz paternalista, mas termina [...] por escamotear as diferenças de
classes, homogeneizando conceitualmente uma multiplicidade de contradições e interesses”.207
Já imbuída dessa posição crítica legitimada acerca do teatro que se faz no Brasil desde o período anterior ao golpe militar, Heloísa Buarque determina uma postura semelhante aos diversos intelectuais que se propõem a analisar a atuação da esquerda ao olhar para os anos anteriores em que escreve sua obra. A visão acerca da postura “paternalista” do CPC já está estruturada e se encontra vencedora nos discursos.
Os argumentos se colocam de tal maneira identificados com essa visão, que ao refletir sobre as demais produções, a partir do ano de 1964, Heloísa vai apostar no fator da derrota da esquerda para afirmar – a exemplo do show Opinião: “Como primeira tentativa de responder ao golpe, Opinião mantém intocado o ideário nacionalista e populista dos momentos antecedentes”.208 Ou seja, as idéias “nacionais” e “populares” “paternalistas” continuam, apenas com pequenas mudanças que incluem, tanto o fato de que com a crescente opressão e censura, os artistas que antes já não conseguiam, passam começo dos anos de 1980, tiveram como ponto de partida no debate, o fato de que os projetos artísticos não se fundamentaram a partir das camadas inferiores da população, mas por intelectuais, sobretudo da classe média que se julgavam ser representantes dos problemas do “povo”. Mais sobre as críticas construídas acerca da produção dos anos de 1960, Cf. LEÃO, Thaís. Vianinha no centro popular de cultura (CPC da UNE): nacionalismo e militância política em Brasil – Versão Brasileira (1962). 2005. 154 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2005.
207 HOLLANDA, Heloísa Buarque. Impressões de viagem – vanguarda e desbunde: 1960/1970. 2 ed.
São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 19.
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
107 a argumentar consigo mesmos e não para o tão almejado “povo”, e de que a esquerda passa a ser chamada de “festiva”, já que começa a considerar o cômico, a festa e o show como estratégias de luta, diferente da postura “séria” dos sindicalistas da época do CPC.
Para analisar essa idéia vencedora contínua por parte dos estudiosos do teatro nacional, Carlos Vesentini se torna um passo importante de análise. Como um historiador a se pautar no estudo da história considerando os fatos como construções de idéias, essas interpretações historicamente construídas e enraizadas no decorrer dos períodos são observadas de modo a compreender a memória histórica do teatro brasileiro e a determinação de seus marcos, responsáveis por conduzir o olhar de todo e qualquer estudioso que venha a analisar essas questões.209
Vários estudiosos se conjugam de comum acordo à essas visões que determinaram a tradição da crítica às produções artísticas do país voltadas para o “popular”. Entre eles, Edelcio Mostaço, que debate acerca deste termo, já imbuído da interpretação:
A ambigüidade do conceito, aliás, é o seu álibi mais leal: esta abertura desmesurada de significação esconde e acoberta etimologicamente o agente histórico, o sujeito, e presta-se ao seu uso e usufruto permanentemente reciclado. Não é por outra razão que populismo designa uma forma de governo feita em nome do povo, ou que se estriba na comoção popular – mas onde, de fato, o povo está ausente do poder.210
Certamente, ter o poder nas mãos, sobretudo do discurso de conceitos tão abstratos como “povo” e “popular”, produz inquietações. Segundo Paulo Pontes, um verdadeiro teatro popular é aquele que for “ideologicamente popular”.211 Quanto a isso, Fernando Peixoto já havia defendido que Gota D’água recebeu injustamente o valor de uma peça “populista”, uma vez que não se tratava de um “povo idealizado ou 209 Cf. VESENTINI, Carlos. A teia do fato. São Paulo: Hucitec, 1997.
210 MOSTAÇO, Edelço. O espetáculo autoritário – pontos, riscos, fragmentos críticos. São Paulo:
Proposta Editorial, 1983, p. 54. Compartilhando das idéias de Edelcio Mostaço, Angela de Castro Gomes fundamenta sua pesquisa na formação, desenvolvimento e participação política da classe trabalhadora brasileira, desde o mandato de Getúlio Vargas aos anos de 1940. Sistematiza as relações entre a classe e o governo, explicitando que, além da construção das leis trabalhistas, os significados e conceitos definidores do trabalhador do país foram sendo criados ao longo do tempo pelo Estado, e por isso, externos à classe. Destas considerações legitimou-se a defesa do que se denominou como “trabalhismo” dentro do discurso político, fator determinante para a compreensão da intelectual de que conceitos como “popular” foram utilizados como estratégia governamental – e por isso constitui-se como “populista” – de forma a atingir convencimento carismático. Sobre o assunto Cf. GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
paternalizado”: “É um povo real, vivo, dilacerado, contraditório, buscando no difícil cotidiano os possíveis códigos de ética, dominado por paixões violentas que o cegam ou definem suas esperanças”.212
Doravante, o maior equívoco dos críticos de maneira geral foi pensar nas idéias da peça Gota D’água da mesma forma como defendia o governo: um povo sem conflitos e unificado. Um “nacional-popular” homogêneo. A exemplo disso, temos o próprio Mostaço, o qual atribui à Gota D’água “[...] o mais legítimo esforço de figurar com uma cena e uma personagem o vazio cultural pós-69”.213 Nestes termos, o enredo se reduz à personagem Joana, sem se dar conta da multiplicidade de formas de vida retratadas, bem como suas mais variadas dificuldades. Além disso, ao utilizar o termo “vazio cultural”, Mostaço perde as dimensões dos espetáculos da década de 1970, que, embora tenham sido constantemente violados pela censura, trataram de discutir a temática da realidade dos brasileiros.
No debate entre a produção teatral e os críticos, estes geralmente possuem uma visão idealizada das teorias de Gramsci e não compreendem a busca dos artistas pela representação das questões de seu período histórico. Analisando a questão, Rodrigo Costa aponta que as leituras feitas das idéias gramscianas e até mesmo das teorias de Brecht por parte de alguns intelectuais no Brasil – entre eles, Oduvaldo Vianna Filho e Fernando Peixoto, que participaram das atividades do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e aquele que com eles dialogava: Paulo Pontes – revelaram lucidez acerca da realidade nacional no que tange as problemáticas sociais.214
Se em anos anteriores às decadas de 1960 e 1970, muitos possuíam uma visão “marxista-leninista”, as teses de Gramsci passam a ser o ponto de partida para discussões após a descoberta dos crimes de Stálin, propiciando, no país, a determinação de uma variedade de correntes ideológicas como forma de lutar pelas mudanças sócio- políticas no embate com o autoritarismo ditatorial e, aos poucos, com as discussões 212 PEIXOTO, Fernando. Uma tragédia nacional-popular. Chico Buarque – site oficial. Disponível em:
<http://www.chicobuarque.com.br/critica/crit_gota_tragedia_nacional.htm> Acesso em 24 jun. 2007, p. 1.
213 MOSTAÇO, Edelço. O espetáculo autoritário – pontos, riscos, fragmentos críticos. São Paulo:
Proposta Editorial, 1983, p. 23.
214 Sobre o tema do “nacional-popular” em Gramsci e para os intelectuais brasileiros (em especial o
diretor teatral Fernando Peixoto), Cf. COSTA, Rodrigo de Freitas. Tempos de resistência democrática: os tambores de Bertolt Brecht ecoando na cena teatral brasileira sob o olhar de Fernando Peixoto. 2006. 226f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006.
CAPÍTULOIII – OS MÚLTIPLOS OLHARES DE UM PERÍODO HISTÓRICO: ENTRE A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DE
GOTAD’ÁGUA
109 sobre a dinâmica capitalista no país. Um debate que se centrava sim, antes de mais nada, em questões históricas do Brasil daquela época, mesmo obtendo influências dos pensamentos de intelectuais tais quais Gramsci e Brecht.
Aliado às re-significações das teorias políticas para sua realidade social, os intelectuais do país também possuíram, no campo teatral, influência das idéias estéticas de artistas estrangeiros, tais quais o diretor italiano Ruggero Jacobbi – um dos responsáveis por trazer da Europa as formulações brechtianas. Isso refletiu sobretudo na arte produzida no período da resistência democrática brasileira. Já no final dos anos de 1940 e na década de 1950, com a vinda de Jacobbi, entre outros italianos, houve um desenvolvimento profissional do diretor do teatro e da valorização de seu trabalho na