O Andebol é uma modalidade dinâmica que requer jogadores velozes, ágeis, resistentes, coordenados e fortes (Hatzimanouil & Oxizoglou, 2004). No caso particular da força muscular, ela é responsável por assegurar o desenvolvimento das propriedades funcionais específicas da modalidade e por promover uma estrutura dinâmica perfeita das ações motoras (Fleck & Kraemer, 2004). Para além disso, a força muscular é um pressuposto fundamental para o desenvolvimento da potência, um dos principais requisitos do rendimento desportivo (Allerheiligen, 1994). Assim, o aumento do potencial motor impõe exercícios de competição, incluindo os de força, combinados com velocidades de execução elevadas (Verkhoshansky, 2006). O aumento na produção de potência é conseguido sobretudo pelo desenvolvimento da capacidade motora, que por sua vez depende do aumento da capacidade dos sistemas do corpo produzirem energia e da perfeição dos skills dos jogadores para aplicarem todo o seu potencial motor em competição (ver figura 1.9).
Figura 1.9. Os principais fatores responsáveis por determinar o resultado desportivo (Verkhoshansky, 2006).
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Vários estudos demonstram que programas periodizados de TF são determinantes no desenvolvimento de ações motoras como a impulsão vertical (Christou, Smilios, Sotiropoulos, Volaklis, Pilianidis, & Tokmakidis, 2006; Gorostiaga, Izquierdo, Ruesta, Iribarren, Gonzalez-Badillo, & Ibanez, 2004; Luebbers, Potteiger, Hulver, Thyfault, Carper, & Lockwood, 2003), agilidade e velocidade de deslocamento (Christou et al., 2006; McBride, Triplett-McBride, Davie, & Newton, 2002; Miller, Herniman, Ricard, Cheatham, & Michael, 2006). No Andebol, já foi verificado que o TF é preponderante para o aumento da velocidade de remate (Gorostiaga et al., 1999), o que em conjunto com a melhoria das ações acima referidas pressupõe que o desenvolvimento desta capacidade acrescenta a possibilidade de recurso a mais estratégias e táticas por parte dos jogadores. Deste modo, sem negar a importância de outras capacidades físicas, o planeamento do TF assume uma elevada preponderância no progresso desportivo, devendo seguir uma direção lógica para maximizar a performance desportiva (Verkhoshansky, 2006).
A importância que cada microciclo de força assume na periodização e planificação do treino varia, principalmente em função de fatores como a frequência do TF, objetivos do TF, intensidade do TF e variabilidade dos exercícios (Badillo, 2000). Com vista à obtenção do máximo rendimento, a distribuição e a carga dos exercícios devem ser parâmetros considerados aquando da prescrição de um programa de TF (Zatsiorsky & Kraemer, 2006). No entanto, outros constrangimentos se emergem, como a localização da unidade de TF no microciclo e o tempo de recuperação entre sessões.
Ao contrário do que acontece em modalidades como o halterofilismo e culturismo, no Andebol não se pode considerar a força como única componente do treino, uma vez que a necessidade de desenvolver capacidades como a resistência, velocidade e habilidades técnicas, faz com que o TF se assuma como parte do processo de treino. Assim, é preciso ter em atenção as dificuldades que o organismo pode ter em se adaptar quando as solicitações são múltiplas e em simultâneo, correndo-se o risco de obter modificações insignificantes nas diferentes capacidades motoras (Zatsiorsky & Kraemer, 2006). Neste sentido, os efeitos da fadiga devem ser interpretados e manipulados de forma cautelosa durante o planeamento de curta duração(Hansen, Kvorning, Kjaer, & Sjøgaard, 2001).
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De acordo com o modelo “ dois fatores” (Zatsiorsky & Kraemer, 2006), o efeito agudo do TF resulta da combinação de dois aspetos: ganhos na aptidão física (mudanças lentas na componente motora da performance desportiva) e fadiga (diminuição transitória e reversível da capacidade de trabalho). Após uma unidade de TF, o potencial de performance desportiva de um atleta melhora devido aos ganhos de aptidão física mas deteriora-se devido à fadiga. Assim, o resultado final é o somatório das mudanças positivas e negativas ocorridas neste processo (ver figura 1.10).
Figura 1.10. Modelo de treino “dois fatores”. O efeito imediato de uma sessão de TF é caracterizado pelo somatório de dois processos: ganhos na aptidão física e fadiga (Zatsiorsky & Kraemer, 2006).
Desta forma, os ganhos de aptidão física resultantes de uma sessão de treino de força são moderados em magnitude mas prolongam-se no tempo, enquanto o efeito da fadiga é superior em magnitude mas relativamente curto em duração. Este é mais um fator a ter em conta no estabelecimento de etapas de TF, exigindo aos técnicos conhecimentos profundos acerca da periodização e planeamento desportivo (Gamble, 2010).
A periodização tradicional, caracterizada pela divisão do programa desportivo anual em pequenos períodos e unidades de treino, tem sido limitada por uma série de fatores. De entre eles destacam-se o conflito das respostas fisiológicas produzido pelo treino dirigido a várias capacidades motoras em simultâneo, a fadiga excessiva provocada por longos períodos com múltiplos objetivos de treino, o fraco estímulo induzido por cargas leves/médias e a incapacidade de proporcionar picos de forma ao longo da época (Issurin, 2008). Como consequência, um planeamento baseado no método tradicional
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pode resultar em perdas acentuadas na massa magra (Allerheiligen, 1994), força máxima (Astorino, Tam, Rietschel, Johnson, & Freedman, 2004), potência máxima anaeróbia (Lorenz, Reiman, & Walker, 2010) e até velocidade máxima (Fleck & Kraemer, 2004). Desde logo, a aplicação de um método unidirecional não dá resposta às múltiplas manifestações físicas e técnicas que a performance desportiva na maior parte das modalidades requer (Zatsiorsky & Kraemer, 2006). Num período preparatório, por exemplo, a necessidade de desenvolver a capacidade aeróbia e força muscular oferece limitações à partida, já que são requeridas adaptações específicas a nível fisiológico e morfológico que podem não ser compatíveis se trabalhadas em simultâneo (Issurin, 2008). Já no período competitivo, a periodização tradicional caracteriza-se pelo estabelecimento de dois ou três macrociclos (Platonov, 1997). Mais uma vez, este tipo de organização não satisfaz as exigências dos calendários congestionados que caracterizam o grosso dos desportos coletivos de alto rendimento (Lago-Penas, Rey, Lago-Ballesteros, Casais, & Dominguez, 2011).
Durante o período competitivo, os objetivos estão mais relacionados com os aspetos técnico-táticos do que com o TF (Baker, 2007). Por esse motivo, o principal desafio dos técnicos passa por manter os elevados níveis de potência muscular adquiridos durante período preparatório (Porta, Viñaspre, & Morera, 1996). No entanto, a tarefa de constituir programas de treino que mantenham ou elevem os níveis de força durante a etapa competitiva é complexa (Wathen, Baechle, & Earle, 2000). Com o objetivo de ultrapassar estas limitações, o modelo de periodização por blocos propõe quatro princípios fundamentais de organização: concentração elevada de cargas de trabalho, um número mínimo de capacidades alvo num só bloco, desenvolvimento consecutivo de várias habilidades e estabelecimento de mesociclos especializados (Issurin, 2008). Ao contrário do modelo tradicional no qual várias habilidades são desenvolvidas em simultâneo, a organização por blocos pressupõe um desenvolvimento consecutivo de habilidades especificamente selecionadas, compilando um plano anual que deve ser entendido como uma sequência de estádios autónomos, onde os objetivos são obtidos através de programas de treino parcialmente renovados(Issurin, 2008).
Tal como já foi referido, a tentativa de obter o máximo proveito do TF obriga a uma periodização cuidada que exige a consideração de aspetos como a relação entre volume e intensidade, ordem e sequência dos exercícios (Fleck & Kraemer, 2004). Por exemplo, se um atleta realizar um exercício para membros inferiores (e.g. agachamento) e um
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exercício para membros superiores (e.g. supino), o número total de repetições será superior se a sequência for vertical e inferior quando for horizontal (Zatsiorsky & Kraemer, 2006), uma vez que solicitar de forma alternada os segmentos permite uma recuperação mais eficaz (Bompa, 1993).
Apesar destas orientações, a literatura focada na periodização do TF nem sempre tem em consideração as especificidades dos vários grupos musculares, como as diferenças em número e tamanho das fibras, conteúdo de glicogénio e ATP, braços de alavanca e força de contração. Para além de aspetos neurais como a coordenação intramuscular e intermuscular, os fatores que mais influenciam a capacidade de um músculo gerar força são o número de fibras musculares e respetiva área de secção transversal (Zatsiorsky & Kraemer, 2006). Neste sentido, as diferenças de força podem ser justificadas pelo facto de músculos com maior área de secção transversal terem um maior número de pontes cruzadas (Orellana & Prada, 2000). De facto, já foi observado que para a mesma intensidade de carga, jogadores profissionais de futebol foram capazes de executar o exercício squat com cargas superiores às verificadas no exercício supino (Wisloff, Helgerud, & Hoff, 1998). Numa outra investigação, verificou-se que após a aplicação de um programa de TF de 12 semanas, os membros superiores obtiveram ganhos de 15% relativamente aos obtidos nos membros inferiores (Sousa, Mendes, Abrantes, & Sampaio, 2011). Apesar de este estudo ter sido realizado com sujeitos idosos, os resultados sugerem que a menor funcionalidade quotidiana dos membros superiores permite adaptações mais significativas quando sujeitos a um programa de TF (Enoka, 1988).
As conclusões observadas nestes estudos sugerem que quando sujeitos a intensidades idênticas, os músculos dos membros inferiores são capazes de suportar cargas mais elevadas do que os membros superiores. No entanto, a literatura ainda não fundamenta de forma esclarecedora as diferenças que possam existir na adaptação aguda ao esforço entre diferentes tipos de TF, dirigidos a membros superiores, inferiores ou a ambos. Para além disso, não se conhece o modo como estas adaptações se podem refletir na performance dos jogadores, traduzida pela eficácia das várias ações motoras, técnicas e táticas. Mais, partindo do pressuposto já fundamentado que os JR devem fazer parte do processo de treino, também se desconhecem os efeitos da relação e coabitação entre diferentes tipos de TF e diferentes formatos de JR.
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A intensidade do esforço em JR pode ser analisada através dos movimentos dos jogadores e/ou respostas fisiológicas/percetuais (Hill-Haas et al., 2011), cabendo ao treinador selecionar e manipular os constrangimentos que podem influenciar essa intensidade. De todas as variáveis já investigadas, interessa perceber de que forma é que a redução do número de jogadores se pode refletir nas ATT, solicitação muscular e energética. Tal como já foi referido, a utilização de JR permite a replicação de intensidades de esforço e requisitos técnico-táticos próximos dos perfis de competição (Little, 2009). A literatura também já mostrou que a redução do número de jogadores aumenta os valores da FC (ver figura 1.11), lactato sanguíneo e resposta percetual (Owen et al., 2004).
Figura 1.11. Intensidade do exercício (% FCmax) em vários formatos de jogos reduzidos de futebol (Hill-Haas, Dawson, Coutts, & Rowsell, 2009).
Apesar de vários estudos se terem centrado na análise das ATT em JR (Capranica et al., 2001; Duarte et al., 2009; Fanchini et al., 2011b; Jones & Drust, 2007; Kelly & Drust, 2009; Owen et al., 2004), os resultados não têm sido coerentes. Esta incerteza dificulta o esclarecimento dos técnicos no que diz respeito à relação entre a intensidade do exercício e o seu reflexo na performance técnico-tática. No entanto, sabe-se que a prática dos JR induz intensidades de esforço elevadas, requerendo aos jogadores tomadas de decisão rápidas e sobre o efeito da fadiga (Gabbett & Mulvey, 2008).
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Dado que fadiga atua nos sistemas nervosos central e periférico, a quebra no controlo das ações por parte dos jogadores pode estar relacionada com uma má condição física, em particular com a diminuição da força muscular (Lyons et al., 2006). Partindo do princípio de que a maioria das atividades motoras que envolvem manifestações de força e velocidade exigem um elevado estado de excitação para um ótimo desempenho (Oxendine, 1984), a influência da fadiga sobre estas capacidades pode comprometer a obtenção do rendimento pretendido (Knicker, Renshaw, Oldham, & Cairns, 2011). Assim, é indispensável que os treinadores incluam programas específicos de TF no processo de treino. Na verdade, o TF de alta intensidade contribui para melhoria da performance desportiva, melhora a eficiência mecânica, diminui os gastos energéticos (Heggelund, Fimland, Helgerud, & Hoff, 2013), aumenta o limiar anaeróbio (Marcinik, Potts, Schlabach, Will, Dawson, & Hurley, 1991), reduz a FC de repouso (Antoniazzi, Portela, & Dias, 1994) e reduz o risco de lesão (Fleck & Falkel, 1986).
A otimização dos processos de treino no Andebol deve considerar a complexidade e a imprevisibilidade dos seus acontecimentos. A utilização de JR permite a replicação do perfil fisiológico e padrões técnicos e táticos, preservando a variabilidade das ações em contexto de jogo. No entanto, estas tarefas ficam aquém das solicitações musculares requeridas em certos momentos da época desportiva, obrigando os treinadores a recorrer a sessões específicas de TF. Em suma, a inclusão do TF e JR nos programas de treino parece ser decisiva para a melhoria da performance dos jogadores, no entanto não se conhecem os efeitos que a sua coabitação poderá ter no planeamento a curto prazo. A resposta a esta questão irá esclarecer de forma mais sustentada a influência de sessões específicas de TF na resposta fisiológica, técnica e tática dos jogadores em JR. Desta forma, será aportado conhecimento aos treinadores que lhes permitirá otimizar o processo de treino.
1.1.5.2. Variabilidade nos perfis de resposta de jovens futebolistas às cargas de